[O Cedro]

 

Ó cedro, ó jovem príncipe dos bosques,
eis-te já no teu novo domicílio,
eis-te vaidoso em pé do sol à espera!
Gente do presbitério, afervorai-vos,
entrançai danças, coroai-vos todos,
cantai-lhe bênçãos, tumultuai-lhe em roda.

Glória a Deus! Como o dia vem formoso!
Anjos que protegeis a natureza
vossa amável irmã, filha do Eterno,
que entre vós repartistes as montanhas,
o arvoredo das Dríades palreiras,
e a urna fresca das ocultas Náiades,
vinde, adoptai no seu primeiro dia
do filho de David a árvore antiga.
Dentre os ramosos tufos elevado
seu cume se remonte à pátria vossa,
e aponte os céus ao pensamento humilde.
Praza o carvalho a Jove; o loiro a Febo;
a vós o cedro; o cedro inda saudoso
e altivo do seu Líbano, inda cheio
das lembranças da Bíblia, inda soberbo
de hospedar em jardins, palácios, templos,
Adonai, o Rei Sábio, o Povo Eleito.
Assim glorioso e místico, o bom cedro,
o cedro rei, viu súplice prostrar-se
Israel ora a Deus, ora à fortuna,
aos céus e ao mundo, à eternidade e ao tempo.

Oh! venerando! oh! cresce em nossa terra!
coa verdenegra copa não desdenhes
acoitar o singelo presbitério.
Premeia o generoso desint’resse,
do plantador que desce todo à campa.
Sagradas são as dívidas do afecto;
os cuidados que assíduos te protegem,
invoca o tempo de os pagar coas sombras.
Dias virão nos teus crescentes dias,
em que nobre ante a porta da virtude
com ternura e respeito hão de saudar-te
os montanheses descobrindo a fronte.
Lembrarás os antigos patriarcas
que ao pé da móvel tenda no deserto
pertenciam aos ecos pela esperança,
e ao pátrio mundo pelo amor dos homens.
– Ali – dirão – na sesta reclinado
o pobre ancião, pastor destas aldeias,
ao círculo inquieto dos meninos
ensina a amar a Deus, a si, aos outros,
ás letras, ao saber, à pátria, à gloria;
e, abraçando-os risonho à despedida,
distribui coa mão trémula aos melhores
em prémio doce disputados frutos. –
– Ali – dirão também – sentou-se um dia,
e gabou a frescura das ramadas,
um bispo antigo e santo; ali tomava
o seu café, rezando o breviário;
meu avô, bem que rústico e indigente,
falou-lhe ali, beijou-lhe o anel e ouviu-o.
Que apóstolo! que amor! que urbanidade!
essa árvore o cobriu, ficou sagrada. –

Hóspede e amigo do adoptado albergue,
firma-te ao solo com raízes prontas;
exalça a fronte aérea, alto, gigante,
abre os cem braços cos tufões em luta.
Piedoso Briareu, não temas raio;
o raio atroe as serras, cegue, abrase
o altivo topo ás arvores soberbas;
tu, não tremas; eu quero no futuro
que um novo talismã te adorne e ampare,
possante contra fúrias de elementos,
contra o machado algoz, contra demónios:

Se dos teus anos na madura força
a mão que ora te planta inda for viva,
essa mesma, já
tremula e inda amiga,
inda meiga ao seu cedro, e já caduca,
Do tronco te abrirá com tardo esforço
graciosa capelinha, onde sorria
um S. João, o santo alegre do ermo
trajo de peles, juvenil frescura,
olhos nos céus, aos pés cordeiro branco.

Nessa noite poética e devota,
em que o prazer, centuplicando aspectos,
povoa, anima, encanta o mundo inteiro
água e terra, ar e céu, tudo é macio;
em que a velhice, a mocidade, a infância,
simpatizam no vago da alegria ;
em que n'alma insaciável de delícias
se juntam com mistura inexplicável
o saudoso passado, os bens presentes
ao contente futuro ébrio d'esp'ranças;
em que num laço místico se agregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gozos, superstições, fraquezas, cultos,
como um ramo de rosas e ciprestes
na caprichosa mão das feiticeiras;
nessa noite das noites invejada,
té dos casais lá do último horizonte
a ti concorrerão por toda a parte
dançantes bandos que a viola impera.
Verás girar seus bailes rebatidos
em redor das estrídulas fogueiras
ouvirás os seus cânticos em coro
devoto e namorado ; a bomba foge,
zune fugindo, e solapada estoira
o buscapé no ar caracolando
morde num, morde noutro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
aqui, circula em vórtice perene
a roda leve espadanando incêndios,
chovendo oiro luzente e estrelas alvas;
ali, floreia o fúlgido valverde,
vulcão sonoro que arremete ás nuvens;
voa, remonta impaciente aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso;
e a música entretanto! e as doces falas!
e os segredos d'amor! e a prece oculta!
e essa mão dada a furto, e a furto aceita
e esse olhar falador! e essas virtudes
da meia noite em ponto! e a flor crestada!
e as sortes, que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malícia!
e a fonte, que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver c'roada
de festões verdes e enlaçadas flores!...
Que noite! que prazeres! que triunfos
te aguardam no porvir, me estão na mente!

Mas se ao neto do Líbano silvestre,
se à árvore do templo, ao cedro antigo,
mais contenta sublime austeridade,
religioso é o chão que te sustenta,
santa e severa a muda vizinhança:

Desse lado, essa relva aveludada
foi chão d'igreja outrora, e esconde os mortos
onde a oliveira está, surgia a torre;
bradava aos ecos dos remotos cumes
o sino da oração, lá onde agora
está cantando o melro: e pasce a ovelha,
balando o seu amor ao filho ausente,
onde a moça aldeana ajoelhada
em noite do natal, ante o presépio
acalentava em coro o Deus menino.
Nem portas, nem degraus, nem muros restam!
Um sáxeo altar! por tecto, uma parreira!
e um S. Jorge musgoso entre silvados!
Daqui, filho do antigo, o novo templo
te alveja em face. Em fundo de sepulcros
por ossos vãos enredarás raízes.

Que vezes para o céu voarão juntos
o perfume do incenso e o teu perfume,
o teu sussurro e os cânticos da Bíblia!
Escutarás por baixo do teu cume
os mistérios, a súplica chorosa,
as lições da moral, do Eterno as glórias,
o voto humilde, a gratidão serena,
o tom pesado dos funéreos salmos,
a infância dentre as águas renascida,
os protestos do amor que aceita e cora
e o mais que o mal previne e o mal espia,
gera, vigora o bem e o bem premeia,
suaviza as dores, o prazer modera,
adoça a vida, aperfeiçoa os homens,
e por c'roa da paz a paz promete.

Assim, quase debaixo de teus ramos,
juntarás o que a mil faria ilustres:
a raça que milita; e a que triunfa;
os cultos da saudade, e os cultos vivos.

Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.
Alto, em frente do humilde presbitério,
torna-te a sentinela das montanhas.

Se o peregrino, atónito, espantado,
errar nos cumes alongando os olhos;
se vires muito ao longe os passos frouxos,
o curvo dorso, o pálido semblante,
e as cãs sem honra do ancião mendigo,
indica-lhes a senda hospitaleira,
mostra-lhes em teu lar os seus penates;
e dize ao peregrino: – Eis a pousada
e ao mendigo: – Bom velho, andas perdido;
reconhece o teu fumo, a tua porta,
teu leito, os teus irmãos, teu pão, teus filhos. –

Oh! que viver, que almo viver te aguarda!
beneficência, paz, respeito, gozos,
quantos bens! e esses bens quão longas eras
Mas nós... ah! nossos dias fugitivos
séculos são se à rosa se comparam,
mas passam como a rosa a par dos cedros.
Para ti, de ano em ano à
primavera
virá com pompa nova e novas galas;
para nós, menos flores de ano em ano
lhe virão no regaço; menos fogo
nos olhos, no sorrir menos ternura.
Eu, que outrora a cantei, que ardi por ela,
para quem toda a alegre natureza
era animada, meiga, inspiradora;
que doce delirava entre as violetas,
entendia o favónio e a voz das fontes,
entrava coa andorinha em seus prazeres,
co rouxinol em seus segredos ternos
que do meu estro nas visões formosas
arvoredos, oiteiros, grutas, rios,
povoava das priscas divindades
e num mundo só meu, vivia todo...
hoje, quão frouxa pela mente nua
sinto raiar a inspiração que imploro!
Do génio a seiba, a primavera da alma,
langue; raro floresce a longe a longe.

Como! tão novo ainda, é já forçoso
que a grinalda poética se esfolhe!
Lira que apenas entoou prelúdios,
já desafina, e jazerá sem honra!
Serão estes os cânticos do cisne!

Ó meus delírios, núncios meus de glória,
mentíeis vós? ir-se-iam para sempre
lágrimas, ilusões, ternura, cantos?!
Ah! sentir-se morrer, que acerba morte!

E tu também, tu morrerás um dia.
As raízes cansadas de nutrir-te
não pedirão mais suco à larga terra.
Adeus ninhos d’outrora! adeus frescura,
sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!
A copa verde que hospedava as nuvens,
ludíbrio d'auras, árida esvoaça.
Mas ao menos feliz impresciência,
dom melhor que mil dons, te coube em sorte.
Dominas vastamente o ar e a terra,
sobes vaidoso aos céus, à Estige afundas,
e baqueias sonhando, eternidades.

Ó árvore, alevanta-te! desata
em nossos dias tua umbrosa pompa!
Enquanto a raça efémera dos homens
vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,
tu fixa, tu do sábio exemplo inútil,
medra pelo descanso; igual hospeda,
sorrindo sempre, as estações opostas
presta-te aos sóis e ás luas, que sem conto
volverão sobre ti; sê caro asilo
ao favónio que em braços te adormeça,
e ás aves que em teu seio se aninharem,
e sofre ou goza o teu destino imenso.

Ai, nunca de teus ares dominando
pela terra de Luso oiças ou vejas
da civil guerra as armas fratricidas!
Inda agora nos ecos destes montes
os seus trovões sacrílegos retroam.
Inda em nossos ouvidos estremecem
quadrupedante estrépito, relinchos,
retinir d'armas, rufos de tambores,
rolar de carros, vozear de chefes,
o os gritos do clarim, pregões da morte.
Que esposas inda agora estão carpindo!
que mais, filhas, e irmãs, inda hoje em luto!
Do sangue a cor maldita inda denigre
esses campos de horror; e as sepulturas
dos sem número extintos nos combates,
não florirão inda esta primavera.
Do raio o fumo a Lusitânia assombra.

Ó paz, filha do céu, mãe da abundância,
da inocência e do amor irmã e amiga,
alma paz, volve a nós, que assaz é tempo.
De opulentos avós mesquinhos netos,
já não pedimos bens: aos descendentes
do povo infesto a Roma e Rei do mundo,
basta um pouco de pão em paz comido.
Sobre os antigos loiros desfolhados
caiba-lhe ao menos respirar dormindo.
Que ideia tão inóspita e gelada! ...

Águas! águas! reguemos o bom cedro!
lá se vai pôr o sol! cá nasce a lua!
ó lua, vem propícia à jovem planta;
e tu, doirado sol, propício volta.

Quem bate?... parabéns! dançai, folguemos;
eis o pobre! ei-lo! é Deus que a nós o envia!
sim! da parte de Deus vem sempre o pobre!
Entrou à rega; é fausto o agoiro! é fausto!
enchei-lhe a taça, beberemos todos.

Conduziram-no ao lar; da farta ceia
levá-lo-ão consolado à fofa cama.
Agora, que estou só, que apenas oiço
o mui longe cantar das fiandeiras
na aldeia dalém rio, oh! vem... sentemo-nos
ao pé do que algum dia há de abrigar-nos,
cândida imagem de Maria ausente!
segredarás àquela de que és sombra
que para ela está guardada a glória
de casar algum dia uma roseira
ao já seguro tronco. Ai, doce emblema
da queda e flórea vida, enlevo de ambos!

Índice