[129]

QUADRO V

O mesmo camarim de Fausto

CENA I

FAUSTO, depois MEFISTÓFELES, trajado como ele
mesmo indica no diálogo. Batem.

FAUSTO

Bateram. Entre! Quem virá moer-me?

MEFISTÓFELES (de fora)

Sou eu.
FAUSTO

Entre!

[130]

MEFISTÓFELES

Repita-mo três vezes!

FAUSTO

Pois pela vez terceira, entre!

MEFISTÓFELES (entrando)

Ora graças!
Voltei ou não voltei?
Manos a l’obra!
Toca a deitar cá fora. Eu já no intuito
de lhe furtar a mente a hipocondrias,
aqui venho, entrajado à fidalguinha:
– corpete carmesim bordado de oiro,
– capa de gorgorão, gorra enfeitada
com sua pena de galo,– e o coruscante
chanfalho à cinta. Não percamos tempo.
Vestir como eu, e andar! Livre dos cepos,
verá o que é viver.

[131]

FAUSTO

Mudar de pele
não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
[132]

E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!

MEFISTÓFELES (ironicamente)

Devagar, devagar! Hóspeda é essa
que dispensa convite e zanga a todos.

FAUSTO

– Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
– Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
– E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!
[133]

MEFISTÓFELES (ironicamente)

Assim será; mas certo sujeitinho,
certa noite que eu sei, não teve a força
de tragar certo líquido.

FAUSTO

Já vejo
que também gostas de espiar.

MEFISTÓFELES

Não digo
que tudo sei, mas sei que farte.

FAUSTO

E ignoras
o porque eu não bebi? Foi porque a ponto
uns conhecidos sons, ecos da infância,
me arrancaram do horrendo labirinto
por onde eu tumultuava, e me puseram
nos meus primeiros, meus saudosos dias!...
e era tudo fantástico!
Mal haja

[134]

quanto humano artifício enleia as almas,
e com suaves forças lisonjeiras
na mundanal caverna as traz cativas.
– Maldita a presunção, que ilude ao homem.
– Malditas as miragens, que nos cegam.
– Maldita a glória vã.– Maldito o sonho
dos póstumos laureis. – Maldito o gozo
do possuir: de ter esposa, filhos,
servos, campos ubérrimos. – Maldito
o Mamon, que envidando-nos seu oiro,
ora nos lança às íngremes façanhas,
ora (e só para uns frívolos recreios)
por cima dos deveres nos afofa
preguiceiros coxins. – Maldita a vinha
co’o seu néctar balsâmico – Maldita
essa das graças graça, amor chamada.
– Maldito o esperar sempre. – A fé maldita.
– Maldita sobre tudo a paciência!

CORO DE ESPÍRITOS (invisíveis)

Ai ai! desta feita deixaste arrasado
c’oa força do murro tão lindo universo;
já tudo em ruínas desaba disperso.
Já é! Ver um homem com Deus comparado!
[125]

Andar, companheiros, levar por ’í fora,
para os sumidoiros do vácuo sem fundo,
os cacos e entulhos da fábrica mundo.
Pasmava-se dela; choremo-la agora.

Sus, filho do barro, sus, sus, potentado!
Em troca do mundo, que já destruiste,
extrai de ti outro, melhor, menos triste!
Profere o teu Fiat, e logo é criado!

Vida nova, clara vida,
corra limpa de mistérios!
Encha os âmbitos etéreos
o cantar do teu Edén!

Ao factor do novo mundo
fama em cânticos florida
alce em coro adorando
glória, glória, glória, Amen!

MEFISTÓFELES

Aí tem no que os meus pajens lhe cantaram
regras do bom viver; de mais acerto

[136]

nem conselheiros velhos as dariam.
Aproveite a lição! Torne-se ao mundo!
Fuja do viver só, que estagna a mente,
os sentidos embota, e mole-mole
chucha os sucos vitais. Mau passatempo
é esse de cevar melancolia,
feros abutres d’alma. Em sociedade,
por mui ruim que seja, ao menos sente-se
com homens homem. Não direi que desça
a conviver co’a sórdida gentalha.
Figurão não sou eu; mas se lhe serve
comigo acompanhar na aventureira
jornada deste mundo, pronto e às ordens!
Aqui tem um criado, um companheiro,
um pau mandado, o mais pontual dos servos.

FAUSTO

E eu que te hei-de pagar?

MEFISTÓFELES

Depois veremos;
não é coisa de pressa.
[137]

FAUSTO

Ai, nada, nada,
que eu sei de cor as manhas dos diabos:
não dão ponto sem nó. Venha o primeiro
que pelo amor de Deus a alguém servisse.
Vamos às condições: propõe-nas franco.
No tomar um tal servo há seus perigos.

MEFISTÓFELES

Obrigo-me a servi-lo em tudo e à risca
enquanto vivo for, e obedecer-lhe
aos acenos até, sem cansar nunca.
Depois, quando lá em baixo nos toparmos
trocamos os papeis.

FAUSTO

Pouco me afreimo
do teu depois, e mais do teu em baixo!
Escavaca este mundo, e engendra um novo,
que se me dá, se é deste que deriva
tudo que me contenta, e o sol que doira
os meus males é este? Em se acabando
mundo e sol para mim, saia o que saia;

[138]

e não há mais dizer. Que me interessa
que lá se odeie ou se ame? haja ou não haja
um abaixo e um acima?

MEFISTÓFELES

Então já pode
no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
é que estes dias que passarmos juntos
lhe hão-de por minhas artes dar tais gostos
quais os não teve alguém.

FAUSTO

Pobre diabo,
que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
como eu sou, foi jamais compreensível
aos da tua relé? Tens iguarias
que não matam a fome; oiro que fulge,
mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
jogo em que é certa a perda; uma beldade
que até nos braços meus soltando arrulhos,
já está piscando o olho ao meu vizinho;
pompas de glória, um fumo!
O que eu preciso,
se o tens, são frutos a pender de copa
[139]

sempre frondosa, e que antes de apanhados
não tenham já por dentro o podre e os vermes.

MEFISTÓFELES

Bem; tudo isso há-de ter; conte comigo
Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
Tudo quanto bem sabe, é permitido.

FAUSTO

Se eu me acosto jamais em fofa cama,
contente e em paz, que nesse instante eu morra!
Se uma só vez com falsas louvaminhas
chegares por tal arte a alucinar-me
que eu me agrade a mim próprio; se valeres
a cativar-me com deleites frívolos,
súbito a luz da vida se me apague.
Vá! queres apostar?

MEFISTÓFELES

Se quero! Aposto.
[140]
FAUSTO

Aperto mais: Se me chegar momento
a que eu diga: «Demora-te! És formoso»
então aos teus grilhões entrego os pulsos;
então a morte aceito; os sinos dobrem;
já livre estás de mim. Dessa hora avante,
quede o relógio! Caiam-lhe os ponteiros!
Acabou-se-me o tempo.

MEFISTÓFELES

Olhe o que afirma,
que entre nós outros nada esquece.

FAUSTO

Embora!
Não me obriguei de leve. O que eu padeço
não é escravidão? Ser logo servo
de outro ou de ti, que monta?

MEFISTÓFELES

Às suas ordens,
desde já. Tem a nata dos serventes
[141]

para este bródio de barrete fora,
meu querido Doutor!
Mais uma nica.
Há morrer e viver. É bom primeiro
pôr o preto no branco: um tudo-nada;
duas regritas só.

FAUSTO

Que é! Papeladas
até no inferno, rábula! Bem mostras
entender pouco do que seja um homem.
Não vai librado o meu destino inteiro
na palavra que dou? Sendo o universo
um turbilhão perene, achas que possam
quatro letras de borra agrilhoar-me?
(E é geral todavia o preconceito)
Feliz o que tem fé: não se aventura
a coisas em que é tarde o arrepender-se.
De pôr num pergaminho uns papa-ratos,
e assiná-lo, é que todos estremecem,
por entenderem... que a palavra humana
que na pena é já morta, assume vida
se a uma pele defunta a incorporaram.
Vá! Que exiges, espírito danado?

[142]

pergaminho? papel? mármore? bronze?
letra de pena, de buril, de escopro?
Escolhe!

MEFISTÓFELES

Ih! que facúndia, e que fogachos
sem quê nem para quê! Basta um farrapo
de papel fino ou grosso, e uma gotinha
do sangue próprio, com que assigne em baixo.

FAUSTO

Se nessas pataratas fazes luxo,
vá lá!

(Arregaça o braço esquerdo; Mefistófeles pica-lhe a veia; Fausto molha no sangue a pena, e assina com ela o pergaminho que Mefistófeles lhe apresenta.)

MEFISTÓFELES

Isto do sangue é burundanga
que tem seu quê.
[143]

FAUSTO

Não te violo a avença;
não tenhas medo. As minhas posses todas,
já daqui tas obrigo. Inchei de modo
que só posso caber na tua esfera.
O Factor Sumo pôs-me em bando. Encontro
cancelos a vedar-me a natureza.
O fio do pensar quebrou-se. Há muito
que de todo o saber vivo enjoado.
Deixar-me ora engolfar em vosso abismo,
deleites sensuais, paixões fogosas!
Rompam já ’í portentos e portentos,
qual a qual mais possante a enfeitiçar-me!
Mergulhemos no vórtice dos tempos,
no encapelado mar das aventuras.
Sigam-se embora, como queiram, dores
a deleites, ou júbilos a mágoas.
Tudo, menos a inércia, o mal dos males,
o que mais vexa a dignidade humana.

MEFISTÓFELES

Não ponho restrições; peça por boca!
Se as primícias quiser libar de tudo,

[144]

de qualquer coisa (por fugaz que seja)
se quiser na voadura apoderar-se,
não faça cerimónia; e que lhe preste!

FAUSTO

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero, é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro est’alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro em mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tacteie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

MEFISTÓFELES

Pode crer (há muitos mil janeiros
que eu ando a roer nisto), inda não houve
[145]

homem nenhum que desde o berço à cova
lograsse digerir esse fermento.
O complexo do mundo (e pode crê-lo,
pois lho afirma um diabo) é incompreensível
a todos salvo a Deus. Só ele brilha
na luz perpétua; a nós enclausurou-nos
nas trevas sem limite; e a vós, aos homens,
alterna dia e noite.

FAUSTO

E eu quero.

MEFISTÓFELES

Entendo.
O mau é que a arte é longa, e a vida breve.
Dou que não leva a mal uma lembrança.
Tome por sócio um vate, e dê-lhe largas.
Deixe-o campear nos páramos dos sonhos,
até ao ponto de ajuntar às prendas
do meu caro Doutor os dons mais nobres:
valor leonino, rapidez de cervo,
estro d'Itália, madurez do Norte.

[146]

Deixe-o ver se, por artes de berliques,
o faz a par magnânimo e velhaco;
se lhe improvisa uns férvidos amores
como os tinha em rapaz, e juntamente
segundo o plano dele arrazoados!
Figurão tal, quem dera vê-lo! Eu curvo
chamava-o logo – «Senhor Dom Mundinho!»

FAUSTO

Mas então eu que sou, se me é defeso
ao ápice aspirar da humanidade,
alvo constante de meus crus anseios?

MEFISTÓFELES

É...? o que é... e acabou-se. Erga o toitiço
emperrucado com milhões de crespos,
ponha salto em tacões maior de vara,
que não cresce uma aresta.

FAUSTO

Em mal, que é certo.
Quanta ciência em mente de homem cabe
toda em balde juntei; por mais que explore,
[147]

força nenhuma se criou cá dentro;
não cresci a grossura de um cabelo,
e em nada do infinito estou mais perto.

MEFISTÓFELES

Senhor meu! Ver as coisas desse modo
é vê-las como o vulgo. A nós compete
pensar com mais juízo, enquanto há vida
para se desfrutar. Eu t’arrenego!
Se tem por coisa sua os pés, os braços,
cabeça, et cœt’ra... ao mais de que se apossa
porque o não tem por seu? Merco seis urcos,
de seis urcos a força ajunto à minha.
Levo-me pelo ar, porque possuo
mais vinte e quatro pés. Fora tontices!
Vamos por esse mundo. O que lhe eu digo
é que um palerma que esperdiça o tempo
em perpétuo hesitar, é como besta
levada pela beiça à roda, à roda,
por mão de um trasgo em árida charneca
insulada entre flóridos pastios.

FAUSTO

E onde nos vamos?

[148]

MEFISTÓFELES

Vamo-nos primeiro
pôr já já daqui fora, que em tal sítio
só mártires. E chama-se isto vida!
uma eterna moedeira dos rapazes
e de si próprio! Deixe-me esse inferno
ao seu vizinho Pança! Há quantos anos
anda aí como o boi no calcadoiro!
e inda assim o mais fino do que sabe
não lhe é dado ensiná-lo aos estudantes.
................................................................
Passos no corredor... Algum que chega.

FAUSTO

Não me é possível recebê-lo agora.

MEFISTÓFELES

Coitado! Estar à espera há tanto tempo,
e ao cabo... Não consinto. Eu lho recebo.
Faça favor, empreste-me a batina,
mais o barrete.
[149]

(Fausto despe o trajo de Doutor, e Mefistófeles
atavia-se com ele)

Cáspite! Que estampa!
que vera efígies de Doutor chapado!
Deixe por minha conta o mais da festa.
Dê-me este quarto de hora; e vá no entanto
para a nossa viajata aperceber-se.

(Fausto vai-se pela porta da esquerda
para o corredor.)

CENA II

MEFISTÓFELES (só)

(Voltado para a porta por onde saiu Fausto)

Descarta-te do siso e da ciência,
máximas forças do homem! Crê somente
nas ficções dos espíritos falazes,
e és meu sem redenção! Deu-te o destino
alma que, desdenhando os bens do mundo,

[150]

só aspira vaidosa a bens sem termo.
Com este posso eu bem. Voto arrastá-lo
por quanto há ’í de frioleiras chilras
ao mais bruto viver. Já o estou vendo
escabujar de raiva, inteiriçar-se
aferrado à matéria. À boca, aos olhos,
(quando o vir mais sedento e mais faminto)
hei-de-me regalar de negacear-lhe
fartos manjares, rescendentes vinhos.
Dar-se ao diabo este asneirão foi luxo,
que ele ia ao fundo pelo próprio peso.

CENA III


O MESMO, e UM RAPAZOLA, simplório
e acanhadíssimo.


RAPAZOLA

Eu vim há pouco tempo. Desejava
falar, podendo ser, a um grande sábio
que diz que mora aqui.
[151]

MEFISTÓFELES

Muito obrigado
por tanta cortesia. Encontra um homem
como todos os mais. Já viu a terra?

RAPAZOLA

O meu empenho todo é que me tome,
Senhor Doutor, à sua conta. Eu venho
co’as melhores tenções; dinheiro, trago
quanto me baste; e sou rapaz sadio,
bem vê. Lá a mãezinha, essa, coitada,
é que lhe custou muito eu vir-me embora.
Mas eu, sim, eu... percebe-me? trazia
na ideia outra tineta: era uma ânsia
de vir para a cidade, e aprender tudo...
como o outro que diz...

MEFISTÓFELES

Pois, meu menino,
sou por dizer-lhe que acertou co’a a porta.

[152]

RAPAZOLA (depois de ter estado a considerar mudamente no aspecto da casa; e mudando para
o tom de aborrido)

Falo a verdade. Quem me dera ver
já bem longe daqui! Estas paredes,
estes tectos arcados, aborrecem-me.
Faltam-me o espaço e o ar; nem folha verde,
nem árvore descubro. Em me sentando
no banco duro de uma sala destas,
já não vejo, não oiço, e nada entendo.

MEFISTÓFELES

Tudo vai do costume. Um pequenito
recém-nascido esquiva-se da mama,
depois já busca o bico, e chuchurreia.
Aplico el cuento: as tetas da ciência
vão sabendo melhor dia a dia.

RAPAZOLA

Quem já me dera pendurado nelas!
Mas se eu não sei trepar!
[153]

MEFISTÓFELES (sentando-se doutoralmente na cadeira de Fausto, e deixando o rapaz em pé)

Vamos por partes.
Que faculdade elege?

RAPAZOLA

Eu sei! queria
tornar-me sabichão de maço e mona.
Queria compreender a natureza
e abarcar a ciência; o que se avista
na terra, e o que há no céu.

MEFISTÓFELES (que em todo o diálogo vai, de vez em quando, tabaqueando o caso, de uma grande caixa, que tirou do bolso, e pôs em cima da mesa)

E deu co’a estrada.
O tudo está em conservar o acúmen
da aplicação científica, evitando
pestes scientiæ as distracções.

[154]

RAPAZOLA

Percebo.
E essa gana trago eu. Só lembro o gosto
que eu teria, aos domingos de bom tempo,
em saltar por ’í fora.

MEFISTÓFELES

Foge a vida
more fluentis aquæ. Necessário
se faz logo com regra aproveitá-la.
Siga, amiguinho, siga o meu conselho,
que não se há-de dar mal.

(Levanta-se)

E antes de tudo
muito colegium logicum; por ele
é que um novato aprende a enfiar justinho
os pés da mente em botas à espanhola,
que assim é que é seguir, sereno e cauto,
pé ante pé, a via das ciências,
em vez de andar pulando a um lado e a outro,
qual fogo fátuo em chão de cemitério.
Depois, levam-se meses a ensinar-lhe
[155]

o que antes de ensinado é já sabido,
como o comer, como o beber, et cœtera;
Naturæ donam,
sapiência infusa,
mas vulgar, mas sem brilho e sem relevo.
Acode um sábio; espostejou-se a coisa:
«Um, dois, três.» Sim senhor, é o que lhe digo.
A alma, que de ideias nos faz teias,
é como o tecelão, quando se esmera
em obra de examina: a cada piso
que ele na apianha dá, mil fios move;
voa, indo e vindo a lisa lançadeira;
no ordume a trama às cegas se entretece;
um golpe só fez tudo.
Ora o filósofo
bate a pata do espírito, e provou-nos
que o que é, devia ser; sendo o primeiro
isto, e aquilo o segundo, é consequência
ser o terceiro assim, e o quarto assado.
É corolário pois, que suprimidos
o primeiro e o segundo, era impossível
que existissem jamais terceiro e quarto
«Bela demonstração!» proclama à uma
a escola toda... mas nem meio ouvinte
nos saiu tecelão.
Pretende um sábio
conhecer e pintar qualquer vivente:

[156]

lança-lhe a garra e avia-o. Tem sem dúvida
todas as partes dele. O que lhe falta?
Unicamente o seu vivaz liame:
Encheiresin naturæ o chama a química.
Zomba de si, sem perceber que zomba.

RAPAZOLA

A modo que não pesco.

MEFISTÓFELES

Em pouco tempo
há-de entender melhor, quando já saiba
reduzir e classar.

RAPAZOLA

Faz-me tudo isto
confusão tal, que sinto, me parece,
galgas de azenha a andar-me no miolo.

MEFISTÓFELES

Logo depois, tratar da metafísica.
Com ela buscará sondar a fundo
[157]

o que no humano cérebro não cabe;
mas ou lá caiba ou não, nunca nos falta
para uma pressa um termo altissonante.
Agora, estes seis meses mais chegados,
há-de ir empregando em costumar-se
a ser em tudo tudo arranjinho.
Cada dia cinco horas para a aula,
entrando sempre ao toque da sineta;
a lição bem de cor, trinchada em párrafos.
Disto saca um proveito: é ficar certo
de que o seu mestre não falseia o livro,
nem lhe acrescenta um jota. Não obstante,
desunhe-se a escrever na caderneta
quanto ele proferir como ditado
pelo Espírito Santo.

RAPAZOLA

Entendo à légua;
e é muito bom conselho. Uma pessoa,
levando para casa a coisa escrita,
vai até mais segura e mais contente.

MEFISTÓFELES (tornando a sentar-se)

Mas torno a perguntar; que ciência elege?

[158]

RAPAZOLA (depois de ter estado a cuidar
entre si)

Lá da jurisprudência Deus me livre.

MEFISTÓFELES

E acho que tem razão. Não sei que exista
faculdade mais chocha. Herdam-se e testam-se
leis e direitos, tais e quais se coam
de bisavós a avós, de pais a filhos
o sangue eivado, a tísica, as alporcas.
Não há mudar, não há progresso: aviso
chama-se parvulez; o benefício
degenera em trabalho. És descendente
de Fuão? mal por ti: do teu direito
real e inato, é que o Pretor não cura.

RAPAZOLA

O teiró que eu já tinha a tal ciência
tresdobrou desta feita.

(À parte)

Isto é que é mestre.
Que achadão! que fortuna!
[159]

(Alto)

E a teologia?
Talvez que...


MEFISTÓFELES

De enganá-lo é que eu não gosto.
Na teologia há mil caminhos falsos
difíceis de evitar; há mil peçonhas
tão ruins, que estremá-las de remédios
é quantas vezes foro de impossíveis.
Também nesta ciência, o mais seguro
é não pensar por si, mas jurar sempre
na palavra do mestre. Em suma, os textos
boias são que, em se a elas aferrando,
nunca um bom nadador se vai ao fundo.

RAPAZOLA

Mas as palavras devem ter sentido.

MEFISTÓFELES

Deverão, deverão; mas não é caso
para tanto ralar, porque onde falta

[160]

ideia que se intenda, acode um texto
que vem de molde, e calafeta o rombo.
O palavrório é tudo. Com palavras
se esgrime, contra ou pró, nas magnas teses.
Com palavras arranja-se um sistema.
As palavras tem fé. De uma palavra
não se cerceia um til.

RAPAZOLA

Eu bem conheço
que tanto perguntar é de importuno;
mas gostava de ouvir-lhe um poucochinho
sobre a ciência médica.

MEFISTÓFELES

Esse estudo
leva três anos só; que são três anos
para um campo tão vasto? em se apontando
a boca de um caminho, é como um gamo:
correr e mais correr.

(À parte)

Leva de embófias!
Vou falar chão, como a diabo cumpre.
[161]

(Alto)

O essencial da medicina é fácil.
Lê por dentro e por fora o mundo e o homem,
e afinal vê sair-lhe cada coisa
conforme aprouve a Deus. Esbaforis-vos
num corropio à roda da ciência,
e cada qual por fim... pilha o que pilha.
Saber aproveitar as circunstâncias
é que cifra o saber. Pois bem! Figura
não lhe falta, e suponho-lhe ousadia.
Que mais quer? fie em si; verá se os outros
se não fiam também.
Co’o mulherio
é que mais se precisa habilidade.
Os seus ai-ais e ui-uis, perene tema
de eternas variações, curam-se todos
co’a mesmíssima droga. Ao que bem sabe
ser magano à socapa, inda a primeira
há-de vir que resista; é que um sujeito
com Carta de Doutor merece crédito,
e a arte que ele pratica excede a todas.
Anos empata um suplicante avulso
em vencer nicas; um Doutor fez tudo
no primeiro rompante: pede o pulso,
dão-lho logo; tacteia-o brandamente,

[162]

regala-se a estudá-lo, e vai no entanto
co’o meigo olhar incendiando a linda;
depois, sem má tenção, sem falsos pejos
apalpa-lhe a cintura, a ver não traga
demasiado aperto no espartilho.

RAPAZOLA (pulando de contente, e esfregando
as mãos)

Por aí! por aí! Dessa maneira
vê-se o que há e não há.

MEFISTÓFELES

Meu caro amigo,
toda a teoria é névoas; auriverde
só a árvore da vida.

RAPAZOLA

À fé que ouvi-lo
é para mim como um sonhar delícias.
Se me desse licença, ateimaria
em causticá-lo, até roçar no fundo
poço tal de saber.
[163]

MEFISTÓFELES

Vá, não se acanhe;
até onde eu chegar...

RAPAZOLA

Eu desejava,
antes de me ir embora, merecer-lhe
a honra de escrever neste meu álbum.

(Entrega o álbum a Mefistófeles, o qual depois de escrever nele, o restitui ao dono. Este recebe-o mui respeitosamente, e lê estas palavras.)

«Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum.»

(O rapaz fecha o livro com grande reverência, e retira-se às cortesias, até sair pela porta do fundo.)

[164]

CENA IV

MEFISTÓFELES (só)

Adopta o parecer da minha tia cobra!
Um dia no pavor com que o ânimo soçobra
lá reconhecerás, passando a ser dos meus,
se há ou se houve jamais um ente igual a Deus.

CENA V

O MESMO, e FAUSTO, que volta do corredor, já entrajado
à fidalga, como Mefistófeles, mas ainda
de barbas compridas

FAUSTO

Onde iremos?

MEFISTÓFELES

Escolha! Acho que poderemos
correr da sociedade os dois confins extremos,
[165]

começando na plebe, e indo do baixo ao sumo.
Que instrução! que recreio há-de encontrar, presumo,
nesta desfrutação!

FAUSTO

Com barbas tão compridas,
índole assim montês, maneiras encolhidas,
que vou eu lá tentar? Sou feito deste modo.
Detesto o conviver. Não sei, não me acomodo,
co’o bulício mundano. Onde se encontra gente,
fico como um pigmeu tolhido inteiramente.

MEFISTÓFELES

Isso, amigo, mau é; mas não há mal sem cura.
Anime-se e verá...
Mas que olha? que procura?

FAUSTO

Como havemos nós de ir? Cavalos, trens, criados...
onde estão?

[166]

MEFISTÓFELES

Nunca eu tivesse outros cuidados!
Estende-se este manto, embarca-se a seu bordo,
e despede-se o voo.

FAUSTO

Isso é melhor, concordo.

MEFISTÓFELES

De certo. Saiba mais que para tal viagem
bom será não levar grande matalotagem.
Enquanto fecho um olho, apronto o gás que deve
levantar-nos da terra. Assim, quanto mais leve
for a carga, melhor. Que rapidez! Aceite
já os meus parabéns, à conta do deleite
que tem de lhe excitar na mente comovida
o ver entrado-a nova e prodigiosa vida,

(Durante esta fala, tem Mefistófeles ido estendendo no chão a capa; e quando se está colocando sobre ela, cai o pano.)

Index, Quadro VI