[167]


QUADRO VI

–––––––

Taberna do Retiro d’Auerbach, em Leipsick. Porta, ao fundo, para a rua, entre duas janelas de peitos. Ao meio da casa, mesa grande, com pratos, talheres, garrafas e copos de estanho e vidro, tudo em confusão, e sem toalha. À roda da mesa, bancos. À esquerda o balcão, e mais uma armação de taberna. Por trás do balcão, uma cesta de ferramenta. Pendente do tecto, um grande lampião aceso.

CENA I

Festança de rapaziada. RÃS, O BOTAFOGO, O PENEIRA,
O QUINTEIRÃO, e outros

O RÃS

Bom! Ninguém bebe, ninguém ri. Que lesmas!
Pois é livrar de mim, que eu com mazombos
não me sei entender. Façam-se agora

[168]

palhiço podre, uns melcatrefes destes,
que os não há de mais fogo!

O BOTAFOGO

A culpa é tua
meu Rãs, que não nos botas a espertar-nos
alguma brejeirice, alguma asneira.

O RÃS (despejando-lhe um copo de vinho
na cabeça)

Vão as duas por junto.

O BOTAFOGO (levantando-se para arredar-se, e sacudindo da cabeça o vinho)

Arreda, porco!

O RÃS

Serei, se à fina força assim o querem.
[169]
O PENEIRA

Quem desconfia, rua! Andem, rapazes.
Beber como animais; dançar à doida;
e esvaziar o bofe em cantarolas,
Leva acima!

O QUINTEIRÃO

Ui! que berro! Quem me acode
com algodão, que arrolhe estes ouvidos?
Goelas do diabo!

O PENEIRA

A voz de um baixo
deve estrugir a abóbada.

O RÃS

Está visto.
Paliou bem. Quem não gosta de chalaças
pode-se pôr a andar. Larilarára (cantando).

[170]

O QUINTEIRÃO (cantando)

Larilarára.

O RÃS

Bravo! Afinadinho!

(Canta em tom de chasco)

Meu santo Império romano,
inda te vejo de pé!...

O BOTAFOGO (interrompendo)

Barro cantar políticas. T’arr’nego!
Forte sensaborão! Dêem vocês graças
cada manhã, que, ao levantar da cama,
lhes não dê que pensar o santo Império.
Ser Rei e Imperador, não chega a isto
de ser um jan-ninguém; mas como é de uso
haver um maioral que nos governe,
toca a eleger um Papa. Todos sabem
[171]

que para onde acode o maior peso
é que verga a balança; e em consequência,
o homem que tem mais peso é que mais vale.

O RÃS (cantando)

Voa, voa, Filomela!
Vai levar dez mil bons dias
ao meu anjo, à minha bela;
e, poisada ante a janela,
acordá-la entre harmonias!

O PENEIRA

Que tolice! enviar a raparigas
comprimentinhos! Fora! eu cá não uso.

O RÃS

Pois não uses; e eu sim. À minha amada
comprimentos e beijos. Estou vendo
que lho quer proibir este papalvo!

[172]

(Canta)

Abre! é noite erma e calada.
Abre a porta, ó minha amada!
Vem, se estás inda acordada.
Vem, se em mim cuidando estás.
Abre; em vindo a madrugada,
a fechá-la tornarás.

O PENEIRA

Aporfia em cantar-lhe. É gabarolas
mais gabarolas. Deixa estar que um dia
inda espero rir muito. Há-de lograr-te
como a mim me logrou. Namore um bruxo,
com quem na encruzilhada, à meia noite,
dance a dança macabra; ou mais à própria
um bode velho, que, ao voltar da serra
de Block, onde celebram seus pagodes,
lhe passe pela porta, e galopando
lhe berre: Boa noite! Agora um moço,
que é gente de osso e carne, pentear-se
para um diabo assim! Os comprimentos
que lhe eu faria co’a melhor vontade
era quebrar-lhe os vidros da janela.
[173]

O BOTAFOGO (dá um grande murro na mesa. Ficam
todos sentados à escuta. Levanta-se com
gravidade)

Atenção! Vou falar! Calem-se todos!
Ninguém me negará que eu sei as regras
do bom viver. Aqui nesta assembleia
há gente femeeira, à qual eu devo,
em atenção à sua dignidade,
oferecer, neste serão de amigos,
algum pratinho bom. Aí vai; sentido!
Uma canção do trinque; e vocês, súcia,
berrem-me no estribilho até que estoirem

(Erguem-se todos, e vão rodeá-lo com os copos
na mão. Canta.)

Era uma vez um ratinho,
que tinha feito o seu ninho
numa dispensa Real.
A dispensa era tamanha,
que em mar de manteiga e banha
nadava o nosso animal.

[174]

Roe, roe, roe. Não tem parança.
Engorda; cresce-lhe a pança
de um modo descomunal.
Nem o pai do nosso clero,
o grande doutor Lutero
se gabou de pança tal.

Cozinheira, que anda à espreita,
descobre-o, e treda lhe ajeita
bom pitéu arsenical.
Apesar de andar sem fome,
o bichinho prova... come...
comeu tudo; achou-se mal.

São pinchos; são guinchos
co’a dor interior,
que todos diriam
que dentro lhe ardiam
garrochas de amor.

CORO

Sim: dentro lhe ardiam
garrochas de amor.
[175]


O BOTAFOGO (continuando a cantar)

Corria de cabo a cabo;
dava dentadas no rabo;
fugia para o quintal;
mordia; arranhava; a frágua
era tal, que à míngua d’água
bebia num lodaçal.

Contemplar tanta agonia,
em lágrimas desfaria
corações de pedernal.
Ver passar este inocente,
de uma vida tão contente
para um suplício infernal.

Nem chia! Arqueja deitado!
Sente que o termo é chegado
da sua vida mortal.
Moléstias destas e amores,
não as entendem doutores,
nem se curam no hospital.

[176]

São pinchos; são guinchos
co’a dor interior,
que todos diriam
que dentro lhe ardiam
garrochas de amor.

CORO


Sim: dentro lhe ardiam
garrochas de amor.

O BOTAFOGO (continuando a cantar)

Sem lhe importar com ser dia,
no exaspero da agonia
corre à cozinha fatal;
e espumando a atroz peçonha,
na amada manteiga sonha,
e bufa o sopro final.

Foi seu fúnebre elogio
rir-lhe sobre o corpo frio
[177]

a cozinheira brutal:
– «Adeus, rei dos roedores!
Também quem morre de amores
padece martírio igual.»

Que sorte! que morte!
Senhor, por favor,
livrai-nos de asneiras
de más cozinheiras,
bem como de amor!

CORO

Livrai-nos, Senhor,
livrai-nos de amor!

O PENEIRA

Como os sensaborões gostam daquilo!
Que feito! envenenar um pobre rato!

O BOTAFOGO

Dou que este ratazana é da família.
[178]
O QUINTEIRÃO

E tu, pançudo da careca à mostra,
como viste no bicho o teu retrato,
ficaste consternado; entendo e louvo.

(Tornam todos a sentar-se, conversando baixinho
uns com os outros)

CENA II

OS MESMOS, FAUSTO e MEFISTÓFELES, que entram
pela porta do fundo.

MEFISTÓFELES

Houve por bem mostrar-lhe, antes de tudo,
o que são bons vivants. Toda esta malta
faz do folgar seu pão quotidiano.
Pensar pouco e rir muito, eis o que explica
toda essa funçanata. Aqui se gira
à laia dos peões, ou de um bichano
que anda ao redor a ver se apanha a cauda;
[179]
pois enquanto a cabeça lhes regula,
e o locandeiro fia, adeus, cuidados!
e estão divertidíssimos.

O BOTAFOGO (aos companheiros,
maliciosamente)

Aqueles
vem de jornadear. Logo demonstram,
pelos seus modos, que não são da terra.
Uma hora há só talvez que chegariam.

O RÃS

Certo; e viva Leipsick! Isto é que é terra.
Abaixo de Paris, Leipsick! Um homem
para ser gente, há-de vir cá.

O PENEIRA (baixo, aos companheiros)

Mas estes
que diabo serão?

[180]

O RÃS (para o Peneira)

Deixa-os comigo!
Faz-se de um bom copázio saca-trapos,
e hão-de desembuchar. Dão-me ares ambos
de ser alguém. Tem caras de enjoados,
modos de soberbões.

O BOTAFOGO

Tunos de feira
aposto.

O QUINTEIRÃO

Pode ser.

O RÃS (enfeitando-se para falar aos dois
recém-chegados)

Toma sentido
como eu tos enrodilho.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

Estes patetas
nem faro tem para aventar o demo,
que está já, vai não vai, para filá-los.
[181]

FAUSTO

Vivam, senhores!

O PENEIRA

Viva!

(Baixo, olhando de soslaio para Mefistófeles.)

Aquele, a modo
que claudica de um pé.

MEFISTÓFELES

Dão-nos licença
de tomarmos assento entre os senhores?
Como não há na casa boa pinga,
folgaremos co’a bela sociedade.

O QUINTEIRÃO

Quer-me a mim parecer que o meu amigo
é biqueiro, de mal acostumado.
[182]
O RÃS (a rir)

Digam-me cá: saíram muito tarde
de Ripach? E ceou co’o Mané-Coco?

MEFISTÓFELES

Não senhor. Temos vindo tanto à pressa,
que o não pudemos. Na última jornada
sim, por sinal que nos contou mil coisas
dos primos da cidade, encarregando-nos
de dar a cada um muitas saudades.

(Cortejando de cabeça.)

O QUINTEIRÃO (baixo, a Rãs)

Apanha! Capiscou-te. É fino o meco.

O PENEIRA

É pássaro-bisnau.

O RÃS (aos companheiros)

Eu já to arranjo.
[183]
MEFISTÓFELES

Se nos não enganamos, figurou-se-nos
lá ao longe escutar para esta parte
um coro magistral; aqui as vozes
debaixo desta abóbada, por força
que hão-de fazer efeito peregrino.

RÃS

Dar-se-á que seja acaso o nosso amigo
cantor de profissão?

MEFISTÓFELES

Quem dera um disso!
Vontade não me falta; agora as forças...

O QUINTEIRÃO

Petas da vida; uma cantiga!

MEFISTÓFELES

Um cento.

[184]

O PENEIRA

Coisinha nova.

MEFISTÓFELES

Pronto. Agora mesmo
vimos de Espanha; em vinho e cantorias,
não quero que haja terra igual àquela.

(Canta.)

Catava-se um rei, quando acha
nas suas meias reaes
uma grande pulga macha,
pai-avô e Adão das mais,

O RÃS

Vocês não ouvem? Que hóspede! uma pulga!...

MEFISTÓFELES (continuando a cantar)

Causou no rei tal encanto
a lindeza do animal,
que desde logo o amou tanto
como ao príncipe real.
[85]

Chama o alfaiate régio,
e diz-lhe: – «Fará favor
de arranjar um fato egrégio
aqui a este senhor.

Não se esqueça que é preciso
trazer-lhe calções também.
Faça a obra de improviso;
talhe-a justo, e cosa-a bem.»

O BOTAFOGO

Olhe lá! O tal rei, que diga ao mestre
que, se a farpela não sair bem feita,
com ele se há-de haver; e se as calçotas
fizerem pregas, cortam-lhe o gasnete.

MEFISTÓFELES (continuando a cantar)

No clero, nobreza, e vulgo,
foi imensa a admiração,
a primeira vez que o pulgo
se mostrou de fardalhão.

[186]

Eram bordados, veludo,
rendas, laçarrões, cetim,
rebrilhando sobre tudo
as veneras e o espadim.

Deu-lhe el-rei grã-cruz e pasta,
um viscondado, e o poder
de elevar e enriquecer
aos bichos da sua casta.

Teve inda outro privilégio
muito invejável, que foi:
pastar, comer como um boi
nas damas do paço régio,

e até na própria rainha;
sem nenhuma ter acção
de coçar tal comichão
nem recusar-lhe a maminha,

quanto toda a outra gente,
se a morde a pulga, o que faz?
Vai co’os dedos de repente,
pilha-a, estortega-a, e trás!
[187]

TODOS (levantando-se em coro alegríssimo)

Vai co’os dedos de repente,
pilha-a, estortega-a, e trás!

O RÃS

Bonita peta! bravo!

O PENEIRA

Abaixo as pulgas!...

O BOTAFOGO

Esticar dedos, zumba, estão pilhadas.

O QUINTEIRÃO

Viva e reviva a liberdade e o vinho!

MEFISTÓFELES

Eu, em honra e louvor da liberdade,
também vazava um copo, se não fora
tão soez a mistela cá da casa.

[188]

O PENEIRA

Cale a boca praguenta!

MEFISTÓFELES

Se eu soubesse
que se não agastava o taberneiro,
oferecia à bela sociedade
um quod ore do nosso. Estou que haviam
lamber-lhe os beiços.

O PENEIRA

Venha sempre, venha.
Com ele eu me haverei.

O RÃS

Sendo a pinguinha
do que a gente mastiga, e farta a dose,
cá louvor ao que é bom não se recusa.

O QUINTEIRÃO (baixinho)

São do Reno, já vejo.
[189]

MEFISTÓFELES

Uma verruma,
se a há!

O BOTAFOGO

Mas para quê? Deixou na rua,
fora da porta, a pipa?

O QUINTEIRÃO

O taberneiro
há-de ter disso ali naquele canto,
na cesta em que arrecada a ferramenta.

MEFISTÓFELES (tira da cesta um trado.
A Rãs.)

Para o seu paladar, que vinho escolhe?
Peça por boca!

O RÃS

Diz então na sua
que tem de toda a casta?

[190]

MEFISTÓFELES

O que repito
é que peçam por boca!

O QUINTEIRÃO (a Rãs)

Este já cuida
que está chuchurreando.

O RÃS

Eu, já que é livre
a cada um pedir, peço do Reno;
sempre é vinho patrício.

MEFISTÓFELES (furando na borda da mesa, diante
do lugar de Rãs)

Arranjem cera,
que há-de servir para fazer batoques.

O QUINTEIRÃO

Prestigiações, aposto.

[191]

MEFISTÓFELES (apontando para o Botafogo)

E o seu vizinho?

O BOTAFOGO

Eu cá, champanha; e que esfuzeie escumas.

(Mefistófeles vai furando. Um vai no entanto
tapando os buracos com as rolhas de cera)

Nem tudo que é da estranja há-de enjeitar-se.
Muita coisa há bem boa em longes terras.
Sou alemão de lei: detesto a França
pessoalmente falando; agora os vinhos...

O PENEIRA (ao aproximar-se-lhe Mefistófeles)

Sempre embirrei com pinga avinagrada.
Para mim, quero vinho de senhoras,
docinho.

MEFISTÓFELES (furando)

Aí tem Tokay.
[192]

O QUINTEIRÃO

Leva de brinco.
Dar-se-á que estes senhores se apostassem
a vir zombar de nós?

MEFISTÓFELES

Zombar! que ideia!
Zombarmos com tão nobre sociedade,
era audácia de mais.

(Para o Quinteirão)

Sem cerimónia,
de qual toma?

O QUINTEIRÃO

Qualquer, mas desempate!

MEFISTÓFELES (que, diante de todos, vai fazendo
buracos que se tapam com rolhas, canta.)

De si cachos a parreira,
de si pontas deita o bode.
[193]
Logo, a exemplo da videira,
deitar vinho a mesa pode,
apesar de ser madeira.

Grande abismo, ó natureza!
Quem rastreia os teus caminhos!
Ora sus, mortais mesquinhos!
Rolhas fora! Aí vão da mesa
borbotar caudais de vinhos.

(Todos tiram as rolhas, e a cada um corre no copo
o vinho que desejou.)

TODOS

Que belo chafariz!

MEFISTÓFELES

Mas sumo tento
em não verter por fora alguma gota.

(Bebem repetidas vezes.)


[194]

TODOS (cantando)

Beber, beber! sinto barruntos
de desbancar qualquer selvagem!
Beber, beber, quais na lavagem
bebem quinhentos porcos juntos.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

Aí tem o povo livre, e os seus regalos!

FAUSTO

Tomara-me já longe destes brutos.

MEFISTÓFELES

Inda isto não é nada. Aguarde um pouco,
e verá onde chega a brutidade.

O PENEIRA (bebe sem cuidado, e entorna parte do
vinho, que, em tocando no chão, se converte em
labareda)

Acudam! fogo! fogo! Isto é, má hora,
lume do inferno.
[195]

MEFISTÓFELES (esconjurando a chama)

Meu valido lume,
pára aí já! (Aos convivas.) Foi só uma pinguinha
do que há no purgatório.

O PENEIRA

Estes figuros
não sabem com que gente estão metidos.
Pode sair cara a brincadeira.

O RÃS

Não caia você noutra; eu já o aviso.

O QUINTEIRÃO (aos companheiros)

Será melhor pedir-lhe em cortesia
que se nos ponha ao fresco.

O PENEIRA (levantando-se, de punho fechado, para
Mefistófeles)

Ah, sô marmanjo,
pois então, lá supôs que isto eram asnos,
bons para embasbacar com peloticas?
[196]

MEFISTÓFELES (ao Peneira)

Cal’-te aí, pipa velha!

O PENEIRA

Então já viram
atrevimento assim? vir insultar-nos
este pau de vassoira, cavalinho
dalguma bruxa ao sábado!

O BOTAFOGO

Sem tosa
já ele se não vai.

O QUINTEIRÃO (tira uma das rolhas de cera, e golfa
do buraco sobre ele uma língua de fogo)

Ui! que me queimo!

O PENEIRA

Mata, mata o marau! facada nele!
Olhem não voe! Segurá-lo e fogo!

(Puxam pelas facas e correm sobre
Mefistófeles.)
[197]

MEFISTÓFELES (declamando)

Falsas vistas, sons fingidos,
transtornai-lhes os sentidos!
Sem sair, vaguem perdidos!

(Param atónitos, olhando uns para os outros.)

O QUINTEIRÃO (como fascinado)

Onde estou? Linda terra!

O RÃS

É certo... vejo-os...
são parreirais!

O PENEIRA

Que suspensão de cachos!
e tão à mão!

O BOTAFOGO

Oh! que alentada cepa!
oh! que formosos cachos, que se abrigam
aqui sob esta parra verdejante!

(Agarra o Peneira pelo nariz, e cada um vai
[198]

fazendo outro tanto ao seu vizinho, e levantando
a faca.)

MEFISTÓFELES (como acima)

Varrei-vos, ilusões!
De lhes mostrar acabo
se podem co’o diabo
medir-se uns beberrões.

(Saem Mefistófeles e Fausto)


CENA III

O PENEIRA, O QUINTEIRÃO, O BOTAFOGO, O RÃS,
e outros

(Todos estes patuscos largam os narizes do próximo,
e as facas com que os iam decepar)

O PENEIRA

Hein!
[199]
O QUINTEIRÃO

Que é?

O RÃS

O teu nariz!

O BOTAFOGO (a Peneira)

A tua penca!

O QUINTEIRÃO

Ai que estou derreado. Uma cadeira,
que me sinto ir abaixo.

O RÃS

O que foi isto?
Vocês não me dirão?

O PENEIRA

Qu’é dele, o biltre?
Se o pilho às mãos, matei-o.

[200]

O QUINTEIRÃO

Onde irá ele!
Vi-o eu, com estes, abalar da venda
Montado numa pipa. Estou co’as pernas
que as não posso mexer.

(Voltando-se para a mesa)

Examinemos
sempre à cautela, se haverá na banca
inda algum escorralho.

O PENEIRA

A boas horas!
Tudo aquilo era um sonho, uma trapaça.

O RÃS

Lá que eu bebi, bebi.

O BOTAFOGO

Pois a das uvas!
Essa foi outra.

O QUINTEIRÃO

E riam de milagres!

Index, Quadro VII