[227]

QUADRO VIII

Vista de rua.

CENA I

FAUSTO, já remoçado, MARGARIDA, que vai passando

FAUSTO

Minha linda fidalga, dá licença
de oferecer-lhe o braço e acompanhá-la?

MARGARIDA

Senhor, nem sou fidalga, nem sou linda.
Vou para casa só, perfeitamente.

(Dá-lhe costas, e sai)

[228]

CENA II

FAUSTO (só)

Vive Deus! que formosa criatura!
Nunca vi coisa assim. É tão sisuda,
tão bela! Tem de mau só a esquivança.
Nunca me hão-de esquecer em toda a vida.
o carmim da boquinha, a cor das faces!
Aquele abaixar de olhos, que profundo
que se gravou cá dentro! E as respostinhas
tão concisas! Encanto como aquele
não quero eu que haja outro.

CENA III

O MESMO e MEFISTÓFELES

FAUSTO

Uma palavra:
Arranjas-me a cachopa?
[229]

MEFISTÓFELES

Eu! qual?

FAUSTO

Aquela
que por aqui passou não há minutos.

MEFISTÓFELES

Ah, sim, sim: essa vinha do confesso,
por sinal que o padreca lhe lançara
o te absolvo dos pecados todos,
o que eu sei de raiz, porque à sorrelfa
pelo confessionário ia passando.
Se há inocência é aquilo; escrupuliza
de uma aresta que seja, e não sossega
sem ir desabafar aos pés do padre.
Naquela nada posso.

FAUSTO

O quê! pois ela
não tem já seus quatorze?

[230]

MEFISTÓFELES

Ui! Já lá vamos,
meu Dom João de obra grossa? Pelos modos,
onde houver flor é sua; o privilégio
de colher honras e estrear carícias
é só deste senhor. Contas são essas,
que ao enfiar às vezes se escangalham.

FAUSTO

Mestre paparrotão! Deixemos regras.
Digo-lhe isto, e mais nada. Se esta noite
não abraço a moçoila, ao dar das doze
acabou-se o contrato.

MEFISTÓFELES

Ao que me pede
não chega a minha alçada. Quinze dias
gastarei eu no esquadrinhar os azos.

FAUSTO

Com sete horas, não mais, se as eu tivesse,
era capaz de haver a franganota,
sem precisar ajudas de diabos.
[231]

MEFISTÓFELES

Galra, que nem francês. Mas piano, piano!
Gozar logo à primeira, é parvoíce.
O verdadeiro, o fino, é quando um homem
amassa de princípio, amolda, ajeita
com mil quindins a sua bonequinha;
do que dão fé novelas estrangeiras.

FAUSTO

Bom apetite escusa especiarias.

MEFISTÓFELES

Mas sério, sério, a moça, inda o repito,
não é dessas, que amor leva d’assalto;
precisa-se estratégia.

FAUSTO

Vê se ao menos
me trazes desse angélico tesoiro
uma prenda qualquer. Leva-me ao quarto
em que pernoita. Brinda-me co’um lenço
que lhe velasse o peito, co’uma liga
que lhe cingisse a curva torneada...

[232]

MEFISTÓFELES

Bem! Para lhe provar quanto desejo
dar algum lenitivo a tais ardores,
levo-o sem mais tardança ao quarto dela.

FAUSTO

A vê-la? a possuí-la?

MEFISTÓFELES

É cedo, é cedo.
Saiu a visitar certa vizinha;
portanto pode, a sós inteiramente,
chamar a casa sua; e antegozando
já no ânimo outros bens, inebriar-se
a fartar na atmosfera do seu anjo.

FAUSTO

Vamos já?

MEFISTÓFELES

Dentro em pouco.
[233]

FAUSTO

Hás-de arranjar-me
algum dom que lhe eu leve.

(Sai.)

CENA IV

MEFISTÓFELES (só)

Já presentes?!
Macacão! sabe-a toda! Agora digo
que a tem na palma, e breve. O meu canhenho
reza de mil tesoiros enterrados.
Vou-me à busca de algum que lhe encha o olho.

[235]

QUADRO IX


Quarto pequeno e limpinho. Uma porta ao fundo, outra ao lado, e janela do oposto. Uma mesa composta, com o seu pano. Um engenho de fiar. Um armário com chave. Um leito com cortinado. Uma poltrona. Um espelho. É ao cair da tarde.

CENA I

MARGARIDA, acabando de arranjar as tranças

Tomara inda saber quem era o cavalheiro!
Presença mais gentil! E o rosto? verdadeiro
retrato de um fidalgo. Até no atrevimento
bem demonstrou que o era.

(Vai-se pela porta do lado, fechando-a por fora
à chave)

[236]

CENA II

FAUSTO e MEFISTÓFELES, os quais, passado pouco tempo da saída de Margarida, entram pela porta do fundo.

MEFISTÓFELES

Está-lhe no aposento,
Doutor! Entre animoso e sem ruído.

FAUSTO (após algum silêncio)

Peço
que me deixes sozinho.

MEFISTÓFELES (pesquisando por todos
os cantos)

Inda não vi, confesso,
casa de rapariga em tão completo arranjo!

(Sai)
[237]

CENA III

FAUSTO (só)

(Lançando os olhos à roda de si)

Clarão crepuscular, bem-vindo ao céu deste anjo!
Descei-me ao coração, mágoas de amor mimosas,
que a esp’rança alimentais como o rocio às rosas.
Ave do paraíso, em teu cerrado ninho
não vejo senão paz, contentamento, alinho.
Oh! que rica pobreza, oh! que prisão risonha!

(Dá consigo para cima da poltrona de coiro, que
está ao pé da cama. Fala com a poltrona.)

Permite que um estranho o peso em ti deponha
da ventura que o enche e o assoberba. Amigo,
que em teus braços fieis, desde o bom tempo antigo,
constante hás acolhido os gostos e os pesares
de cada possessor destes quietos lares;
hereditário trono, enquanto aqui repousas,
que de ranchos pueris, volúveis mariposas
te haverão rodeado a rir de idade a idade!
Aqui, a que hoje admiro esplêndida beldade,

[238]

viria em pequenina, afável, jubilosa,
em noite de Natal beijar a mão rugosa
do avô, e agradecer-lhe os bolos de regalo
com que ele a alvoroçava ao descantar do galo.
Ai, virgem graciosa, aqui neste recinto
como que andar-me em torno a ciciar pressinto
essa alma arranjadeira, amena, dadivosa,
que te inspira qual mãe, te ensina cuidadosa
a pôr na limpa mesa o seu pano asseado,
e a realçar com a areia o solho escasqueado.
Cara mão divinal,
fazes de uma choupana um Éden terreal.

(Levanta-se, e corre a cortina do leito)

E aqui! aqui! Não sei de que ávida tremura
padeço e gozo o assalto. Ai, sonhos de ventura,
durai-me, se podeis, por horas esquecidas.
Foi aqui, puro amor, que uniste duas vidas
num êxtase dos teus, e à terra a glória deste
de obter, fruto de um beijo, um serafim celeste.
Aqui jazeu criança, arfando o terno seio
de vivaz sangue ardente e de porvir tão cheio,
e aqui foi pouco a pouco enfim, toda pureza,
unindo em si os dons da perenal beleza,
[239]

(Fala indignado consigo mesmo)

A que vieste aqui? Todo eu sou comoção.
Que intentas? Que pesar te oprime o coração?
Já não és, pobre Fausto, o mesmo que eras dantes.
.................................................................................
Terá magia este ar? Eu, que inda há dois instantes
aos deleites carnais voava audaz, faminto,
como é que num relance enternecer-me sinto?
Somos acaso nós e os nossos sentimentos
um vil joguete do ar, qual chama exposta aos ventos?
................................................................................
Mas se ela agora entrasse! Ideia qual seria
a justa punição de tanta aleivosia!
Cair-lhe-ias aos pés, convulso, fulminado,
bravo Dom João Tenório em Jan Ninguém tornado!

CENA IV

FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que entra correndo
da porta do fundo

MEFISTÓFELES (açodado)

Fuja, que já vem perto.

[240]

FAUSTO

E é de repente. Juro
nunca mais arriscar-me a semelhante apuro.

MEFISTÓFELES

Aqui lhe trago um cofre, e não é nada leve.
Pilhei-o onde eu cá sei. Meta-o no armário, e breve!
Afirmo-lhe que a moça em vendo o conteúdo,
fica fora de si. Não faço rol miúdo
por não no demorar. São certas prendasitas
que vencem geralmente a feias e a bonitas,
Sei que esta é doutra massa... Adeus! toda a criança
é criança, e um bonito é sempre uma festança.

(Abre-o e mostra-o de relance a Fausto, sem que
os espectadores vejam o conteúdo)

FAUSTO

Não sei se devo ousar...

MEFISTÓFELES

E inda o pergunta?... salvo
se prefere deixar a rapariga em alvo,
[241]

e fugir co’o presente; e acho que assim faria
muito melhor negócio: o tempo que perdia,
gasta-o a passear; e eu cá lucro igualmente
em não aturar mais um amo impertinente.
Dou que isso no Doutor não vem de ser avaro.
À fé de diabo amigo, eu já não sei, meu caro,
o que lhe hei-de fazer, por mais que esfregue a testa.

(Põe o cofre no armário e dá volta à chave)

Abalar! abalar! Agora o que nos resta
é deixar livre o campo, e tempo à jovem fada
para se lhe mudar de esquiva em namorada.

(Fausto tem-se ido fazendo sorumbático)

Que é isso, meu Doutor? Porque se pôs mazombo?
que chega a atarantar-me? É tal e qual, não zombo,
a carranca de um lente, indo tomar assento
no claustro pleno, e ao dar co’os olhos no espavento
do corpo catedral, que é ter diante a Física
toda como um fantasma, e toda a Metafísica.
Ponhamo-nos ao fresco. Aí vem a nossa bela
já perto desta porta.


[242]

(Apontando para a porta do fundo)

Aquela! por aquela!

(Vão-se precipitadamente, enquanto Margarida
abre da parte de fora, a porta do lado, e entra.)

CENA V

MARGARIDA, trazendo na mão uma lanterna,
que põe em cima da mesa

Ai que ar abafadiço o deste quarto agora!

(Abre a janela)

Mas corre bem fresquinha a noite lá por fora.
Sinto-me não sei como; estou co’uns arrepios!...
Tomara eu já que a mãe... (Credo! olha o mocho aos pios)
tornasse para casa. É celebre! Esta noite
chego a não me entender; preciso quem me afoite.
[243]

(Começa a despir-se cantando)

Reinava em Tule algum dia
um bom Rei tão fino amante,
que até morrer foi constante
à dama com quem vivia.

À hora do passamento
deixou-lhe ela um vaso d’oiro,
que foi do Real tesoiro
o mais falado ornamento.

Punham-lho sempre na mesa;
só por aquele bebia;
e o choro que então vertia
causava a todo tristeza.

Vendo o seu termo chegado,
repartiu pelos herdeiros
os bens, té aos derradeiros,
excepto o vaso adorado.

Foi isto em jantar de mágoas
que El-Rei deu à fidalguia,
em torre herdada que havia
ao rés das marinhas águas.

[244]

Como El-Rei houve bebido
o seu último conforto,
co’o braço já quase morto
levanta o vaso querido,

e por não deixá-lo ao mundo,
da janela ao mar o atira.
Ondeia o vaso, revira,
enche-se, e desce ao profundo.

No mesmo triste momento
em que o vaso se abismava,
o Rei seus olhos cerrava,
soltando o último alento.

(Abre o armário para arrumar os vestidos,
e dá com os olhos no cofre)

Quem poria isto aqui! Meu Deus, eu sei de certo
que não deixei ficar o guarda-fato aberto.
Parece até milagre. É lindo o cofrezinho.
Que haverá dentro nele?... Ah!... cuido que adivinho;
é coisa de penhor que algum necessitado
traria a minha mãe. Tem um fitilho atado,
e presa uma chavinha... Abro ou não abro?... Adeus!
O ver não é furtar. Que escrúpulos os meus!
[245]

(Traz o cofre para cima da mesa e abre-o)

Que é isto, Pai do céu! Nunca em dias de vida
vi jamais coisa assim, tão linda, tão luzida.
E adereço completo! A mais rica senhora
com isto num domingo, em festa grande, fora
levar atrás de si o olhar de toda a gente.
Que bem que este colar aqui

(indicando a garganta)

tão refulgente
me havia de ficar! A quem pertenceria
tão vistoso tesoiro!

(Enfeita-se com as jóias, e mira-se ao espelho)

Eu nada mais queria
que estes brincos. A gente, assim paramentada,
té nem parece a mesma. A moça e linda agrada,
é bem certo; contudo os próprios que a elogiam
não se matam por ela: apenas principiam
a lembrar-se que é pobre, os gabos da lindeza
já vão juntos co’o dó. Coitada da pobreza!!

[247]

QUADRO X

Um arvoredo de passeio.

CENA I

FAUSTO vai e vem meditabundo. MEFISTÓFELES

MEFISTÓFELES (acercando-se furioso a Fausto)

Voto ao falsear no amor! Voto às essências
do meu reino infernal!... e votaria
praga maior, se me lembrasse. Voto...

FAUSTO

Que tens? quem te fez mal? Nunca vi cara
de tanto desespero.

[248]

MEFISTÓFELES

Hoje ao diabo,
se o eu não fosse, me daria eu próprio.

FAUSTO

Que pancada na mola! Acho pilhéria
nesse teu bravejar.

MEFISTÓFELES

Faça de conta
que o ladrão de um sotaina...

FAUSTO

Um padre?

MEFISTÓFELES

Um padre:
atabafou à pobre Margarida
quanto o Doutor lhe dera. Aí vai a história:
Entra-lhe a mãe no quarto; avista as jóias,
e enche-se de terror. É que a velhusca
[249]

tem um faro! Como anda de contínuo
afocinhada no seu livro de Horas,
só por esse fortum distingue à légua
se o cheiro que lhe vem de cada coisa
é santo, ou cá dos meus. Por conseguinte
pronta aventou nas jóias do adereço
cheirarem pouco a céu:
– «Digo-te, filha
– resmoneou – que os bens mal adquiridos
peste são d’alma e corpo. O mais seguro
é darmo-los de oferta à Mãe Santíssima,
e a benção do Senhor será connosco!»
A Margarida, um tanto amuadinha,
pensou consigo, a sós:
«Cavalo dado,
et cœt’ra. E quem nos manda um tal presente,
de um modo tão cortês, não dá motivo
para o crermos perverso.»
A mestra abelha
sempre à cautela foi chamando o bonzo.
Este, apenas ouvida a brincadeira,
quis ver; alvoroçaram-se-lhe os olhos,
e exclamou:
– «Sim senhora, isso é que é honra!
Quem se vence é que vence. A madre igreja
esmoe bem, Deus louvado; engole reinos

[250]

sem ter indigestão. Só ela pode,
minhas caras irmãs, tragar sem risco
riquezas mal ganhadas.»

FAUSTO

Quanto a isso
tem companheiros. Um judeu, podendo,
e um Rei lêem pelo mesmo breviário.

MEFISTÓFELES (continuando)

E acto continuo, foi chamando ao bolso
afogador, aneis, pulseiras, tudo
como coisas de nada, um cabazinho
de avelãs chochas. Deu-lhes por seguros
mil prémios na outra vida, e pôs ao fresco,
deixando-as grandemente edificadas.

FAUSTO

E a Margarida? a Margarida?

MEFISTÓFELES

Ai! essa
lá está sentada a malucar sozinha,
[251]

sem saber o que deva, ou que resolva.
Não lhe saem da ideia as louçainhas,
e menos quem lhas deu.

FAUSTO

Portanto pena;
e eu por ela também. Corre a buscar-lhe
novo adereço, e vê se melhorado,
que o outro realmente era bem pífio!

MEFISTÓFELES

Com que então, pareceram-lhe as tais jóias
uns bonitos de feira! Agradecido,
magnânimo Doutor!

FAUSTO

Silêncio! Parte,
e arranja as coisas a meu gosto. Ouviste?
Faze-te bem de casa co’a vizinha!
Não sejas papa-assorda, e presto presto
já nova joalharia.

[252]

MEFISTÓFELES (com humildade afectada)

Inteiramente
ao seu dispor meu amo.

(Sai Fausto.)

CENA II

MEFISTÓFELES (só)

Um doido amante
daquela força, iria, se pudesse,
às estrelas, à lua, ao sol pôr lume,
só para regalar a sua amada
de ver nos céus um fogo d’artifício,
em que tudo estoirando esfuzilasse.

Index, Quadros XI, XII