[254]

QUADRO XI

Casa da vizinha Marta. Quarto pobre. Porta ao fundo, entre duas janelas cortinadas. Cadeiras. Mesa com espelho.

CENA I

MARTA (só)

Valha-te Deus, marido! Ires-te assim à tuna
pelo mundo de Cristo à cata da fortuna,
e deixares-me aqui em frio celibato,
tristinha, muda, e só, nas palhas de um grabato!
E então porquê? porquê? Dei-lhe eu razão de queixa?
Não lhe quis sempre tanto?

(Desata a chorar)

E ele não só me deixa,
senão que nem me escreve, a dar-me algum conforto,

[254]

por modo que nem sei se é vivo ou se está morto.
Se me tivera vindo ao menos certidão
de estar já com o Senhor...!

CENA II

MARTA, e MARGARIDA, que entra azafamada
com um cofre escondido

MARGARIDA

Pode-se entrar?

MARTA

Pois não!

MARGARIDA

Venho fora de mim, Senhora Marta!

MARTA

O que é,
menina? que tens tu?
[255]

MARGARIDA

Mal posso ter-me em pé.

MARTA

Pois senta-te!

(MARGARIDA senta-se)

Que tens? que foi?

MARGARIDA

No guarda-fato
outro cofre. Este agora é de ébano. O aparato
das jóias que ele encerra é tal, que em brilho e preço
deixa a perder de vista o primeiro adereço.

MARTA

Agora desta vez cautela e mais cautela!
Tua mãe que o não sonhe! A beatice dela
já tu viste onde chega. O confessor matreiro
fazia deste achado o que fez do primeiro.

[256]

MARGARIDA (abrindo no regaço o cofre, e tirando
de dentro um afogador de brilhantes)

Veja só isto, veja, e diga-me...

MARTA (que à proporção que fala, vai enfeitando Margarida com as jóias, enquanto esta se está narcisando ao espelho)

O que eu digo,
Margaridinha, é só que à fé que anda contigo
fada de bom condão.

MARGARIDA

Pois sim, mas que me presta
possuir estes dons? Numa ocasião de festa
eu não os posso pôr, nem ir com isto à rua.

MARTA

Que importa? Nesta casa estás como na tua.
Podes vir para cá as vezes que te agrade;
fechamo-nos por dentro; estás em liberdade;
pões em cima de ti as tuas jóias ricas;
e o espelho te dirá que linda que não ficas,
[257]

passeando a espanejar-te uma hora, se quiseres,
vendo-te nele a flor e a inveja das mulheres.
Muito hemos de folgar; verás. Depois, lá vem
certas ocasiões em que parece bem
pôr mais um dixezinho, agora uma corrente,
depois uns brincos bons, sem que se espante a gente.
A pouco e pouco assim, todos os teus asseios
irão saindo à praça. E rir de vãos receios!
Lá enquanto à mãezinha, adeus; tão enlevada
vive nas orações, que não repara em nada.
E também que repare, embutes-lhe uma peta.

MARGARIDA

Mas quem poria lá no armário esta boceta,
e já também a outra? Aqui anda bruxedo,
por força, e não dos bons. Eu fino-me de medo.

(Batem à porta. Margarida estremece.)

Jesus! Se é minha mãe:

MARTA (levantando a cortina da janela, e olhando
para fora)

É um desconhecido.

(Vai à porta e abre)
Pode entrar.


[258]

CENA III

MEFISTÓFELES, e as ditas

MEFISTÓFELES

Co’o respeito a damas tais devido
peço humilde perdão desta importunidade.

(Inclina-se respeitosamente diante de Margarida.)

Saber-me-iam dizer onde é, nesta cidade
que assiste, e daqui perto, uma senhora Marta,
mulher de um Espadinha?

MARTA

A própria. Se traz carta
do meu homem, sou eu.

MEFISTÓFELES (baixo a Marta)

Bem. Visto achar-se agora
aqui esta fidalga, à tarde a qualquer hora
eu voltarei.
[259]

MARTA (em voz alta)

Não vês, Menina, as honrarias,
que deves ao Senhor? «Fidalga!» Não sabias.

MARGARIDA

Não passo, meu senhor, de uma pobre de Cristo.
Isso é bondade sua! Eu fidalga? Por isto?

(Apontando para os adereços)

Mas nada disto é meu.

MEFISTÓFELES

Que importa? que valia
tem junto a graças tais o oiro e a pedraria?
Pois esse olhar tão nobre! e a senhoril presença!
o tudo que a distingue... Encanta-me a licença
de poder demorar-me.

MARTA

Então que novidade
me traz? mate depressa esta curiosidade!

[260]

MEFISTÓFELES

Quisera-lhe trazer melhores novidades.
O seu homem morreu, e manda-lhe saudades.

MARTA

Morreu! Bem mo dizia o coração. Morreu
o meu homem! Jesus, que desamparo o meu!
Vou ter um faniquito.

MARGARIDA (a Marta)

Anime-se, vizinha!
Conforme-se!

MEFISTÓFELES

Já agora, a senhora Espadinha
há-de ouvir toda a história.

MARGARIDA

Aí tem porque eu nem quero
ouvir falar de amor; um golpe assim tão fero
dava-me logo a morte.
[261]

MEFISTÓFELES

É mundo: às alegrias
juntam-se as aflições, e o gosto às agonias.

MARTA

E o seu fim como foi?

MEFISTÓFELES

Jaz em Pádua enterrado
ao pé de Santo António; um sítio abençoado;
cama fresquinha e eterna.

MARTA

E vamos: além disso
que mais me traz?

MEFISTÓFELES

Mais nada... Ah, sim; pede um serviço
custoso, mas enfim muitíssimo preciso;
que lhe mande dizer pela alma, e de improviso,

[262]

trezentas missas. Nada e nada mais. Tão pobre
morreu, que não deixou nem meio chavo em cobre.

MARTA

O quê! pois nada nada! inteiramente nada!
Pois nem uma prendinha! Até um jornaleiro
tem sempre no bornal coisa que val dinheiro,
e não se desfaz dela, inda que peça esmola
para matar a fome.

MEFISTÓFELES

É certo; desconsola
ouvir tamanha míngua; o que eu porém lhe atesto
é que, se consumiu até o último resto,
não foi por perdulário; e fique persuadida
que se arrependeu muito, ao despedir da vida.
Fazia uns escarcéus sobre a sua desgraça,
que abria os corações.

MARTA

Que desditosa raça
não deixou a mãe Eva! O que eu prometo, amiga,
é rezar-lhe por alma.
[263]

MEFISTÓFELES (a Margarida)

Eu, deixe que lho diga,
acho que uma gentil de tanta formosura
devia já pôr casa.

MARGARIDA

Inda não há marido.

MEFISTÓFELES

Mas pode haver amante. O moço mais garrido,
mais amável, mais bom, dar-se-ia por ditoso
se chegasse a abraçar corpinho tão mimoso.

MARGARIDA

Isso cá não é uso.

MEFISTÓFELES

Uso ou não uso, queira
e arranja-se.

[264]

MARTA (a Mefistófeles)

Que mais? Porque me não inteira
de tudo, já que o sabe?

MEFISTÓFELES

Ai, sei; pois se eu me achava
em pé, junto da cama onde ele agonizava!
(No chamar cama àquilo, amoldo-me ao costume;
era um retraço podre, até pior que estrume.)
Porém lá que morreu morte cristã, morreu;
pensando mesmo assim que o grande rol que encheu
de pecados por cá talvez no grande dia
à entrada para o céu muito o atrapalharia.
«– Hoje me quero mal – dizia – pela asneira
de ter desamparado a minha companheira
e o meu riquinho ofício. É esta uma lembrança,
que dá cabo de mim. Vá; veja-me se a amansa,
para que me perdoe.»

MARTA (interrompe-o, chorando)

Há muito, coitadinho,
que eu, já lhe perdoei.
[265]

MEFISTÓFELES (continuando a frase)

«Mas se eu lhe fui daninho,
Nosso Senhor bem sabe o que ela também era.»

MARTA

Mente, mente. Olha aquilo! A Morte ali à espera
e ele ainda a mentir!

MEFISTÓFELES

Oiço que na agonia
muita gente de tino às vezes tresvaria
(que eu disso entendo pouco). E prosseguiu choroso:
– «Toda a vida a lidar sem hora de repouso,
e vir a parar nisto! Eu a engendrar-lhe filhos
por lhe dar gosto a ela! Entre esses empecilhos,
eu a arranjar-lhe o pão... o pão, à própria o digo,
pão negro sem conduto; eu, cruzes, inimigo!
rilhando o meu motreco, às vezes sem sossego...»

MARTA (interrompendo)

E nada de falar do meu desassossego,
da honra da mulher, do amor que ela lhe tinha!
[266]

MEFISTÓFELES

Ai! falava; pois não? Da senhora Espadinha
nunca se deslembrou. – «Quando saí de Malta
– tartameleava-me ele – há-de crer que me assalta
uma saudade tal dela e dos pequerruchos,
que não só desatei dos olhos dois repuxos,
senão que até rezei com entranhada gana
por toda aquela súcia! O céu, que não se engana,
pagou-me a devoção. Permitiu Deus aos nossos
prear uma galé de mercadores grossos,
todos relé turquesca, a qual galé levava
de mimo ao Grão Senhor, além de muita escrava
de rara formosura, uma carga, um tesoiro
de armas, de gorgorões, de pérolas, e de oiro.
Lançada ao mar primeiro a moirisma vencida,
o nosso capitão, da carga ali colhida
talhou logo quinhões, que deu proporcionados
aos que na sarrafusca andaram mais ousados,
proclamando: – O Espadinha é que foi o primeiro!
(era um pirata honrado, e amigo verdadeiro).» –

MARTA (interrompendo)

Espere! mas então... esse lote de vulto
havia de ficar nalguma parte oculto.
[267]

MEFISTÓFELES

Pois não? procure bem; nem rasto. Se avarentos
enterram, este cá foi por ares e ventos.
Em Nápoles, um dia, andando seu marido,
como estrangeiro que era, a correr divertido
as ruas da cidade, adergou que uma bela
o pescasse ao anzol de cima da janela;
e tanto gostou dele (era um ricaço ainda),
tais provas lhe embutiu a pescadora linda
do seu íntimo ardor, que as teve, até o instante
do trânsito feliz, a recordar-lhe a amante.

MARTA

Ladrão dos filhos! traste! A gente cá ralada,
e ele às soltas por lá naquela vida airada!

MEFISTÓFELES

Aí tem; por isso jaz debaixo dos torrões.
Eu, se fosse a senhora, atirava paixões
p’ra trás das costas; punha um lutozinho d’ano,
por decência, e entretanto ia-me piano piano
buscando outra fortuna.

[268]

MARTA

Outro como o primeiro!
Nem correndo co’um prego aceso o mundo inteiro
não o torno eu achar. Gaiato mais amável!
O que ele tinha só de menos convinhável
era o nunca parar; fazer seu pé d’alferes
à solteira, à casada, a todas as mulheres;
gostar dos vinhos bons das terras lá de fora,
e do maldito jogo...

MEFISTÓFELES

E mesmo assim deplora
não no ter; vamos lá. Falando sem disfarce:
ou ambos ou nenhum tem causa de queixar-se.
Ele fez-lhe o que pôde; a senhora igualmente
fez-lhe o que pôde a ele; a conta está corrente.
Com semelhante ajuste, eu próprio aceitaria
matrimoniar-me já.

MARTA

Quem? O senhor! Não ria.
[269]

MEFISTÓFELES (lá de si para si)

Ai! fujo. Esta é capaz de obrigar o demónio
a restaurar com ela o santo matrimonio.

(A Margarida)

E a menina! Que diz esse coraçãozinho?

MARGARIDA

Sobre quê? não percebo.

MEFISTÓFELES (à parte)

Imaculado arminho!

(Despedindo-se)

Minhas senhoras!

MARTA

Sai?

MARGARIDA (cumprimentando)

Meu senhor!

[270]

MARTA

Um momento,
nada mais. Poderia obter-me um documento
do quando, como, e onde, o meu consorte amado
faleceu, e onde jaz? Fui sempre, Deus louvado,
muito amiga do arranjo. Até cá no Diário
muito estimava eu ler entre o noticiário
a morte do meu tudo.

MEFISTÓFELES

Esteja descansada;
isso há-de-se arranjar, e sem lhe custar nada.
Em qualquer terra, havendo um par de testemunhas
fidedignas (e embora a gente lhe unte a unhas)
prova-se logo tudo. Em minha companhia
veio outro figurão que muito o conhecia.
Vai comigo ao juiz, depõe... Se determina
que o traga também cá...

MARTA

Pois não!
[271]

MEFISTÓFELES

E esta menina
também cá se há-de achar; não há-de? É um moço belo,
tem visto muito mundo, e não no há mais modelo
em pontos da galã.

MARGARIDA

Jesus! Um tal senhor
ver-me a mim... que vergonha!

MEFISTÓFELES

Um Rei, e Imperador
do mundo que ele fosse, afoita deveria
olhá-lo sem corar.

MARTA

Ao despedir do dia,
no quintal junto à casa, há-de ela estar comigo
à espera do senhor e do seu nobre amigo.

[273]

QUADRO XII

Rua.

CENA ÚNICA

FAUSTO e MEFISTÓFELES

FAUSTO

Que tens feito? Adianta-se o negócio?

MEFISTÓFELES

Cáspite, que fervença! A rapariga
dá-se a partido em breves audiências.
Na própria desta noite hão-de avistar-se
em casa da viúva, a mais de molde
que nunca vi para um papel promíscuo
de terceira e cigana.


[274]

FAUSTO

Aprovo.

MEFISTÓFELES

Em câmbio
põe-nos um berbicacho.

FAUSTO

É muito justo:
uma mão lava a outra.

MEFISTÓFELES

Havemos ambos
de jurar ao juiz, em como a ossada
do homem dela repoisa em terra benta,
em Pádua.

FAUSTO

É previdente a mulherzinha;
mas então claro está que antes da coisa,
temos de ir ver em Pádua a sepultura.
[275]

MEFISTÓFELES

Santa simplicidade! O que é preciso,
é jurar que se viu,

FAUSTO

Se não me alvitras
coisa melhor, gorado está o ajuste.

MEFISTÓFELES

Beatíssimo varão! Gosto do escrúpulo.
Pois nunca nunca, em toda a sua vida,
deu testemunho falso?
Que de vezes
não haverá, com magistral entono,
coração firme e intrépido semblante,
declarado o que é Deus! aberto o arcano
do mundo e das míriades dos entes
que o povoam! do homem, co’o sem conto
de afectos, de paixões, de pensamentos,
que n’alma e coração lhe tumultuam!
Meta, bem dentro, a mão na consciência,

[276]

e diga-me se tinha dessas coisas.
mais noção que da morte do Espadinha?

FAUSTO

És, foste, e hás-de ser sempre um mentiroso,
e um sofista de marca.

MEFISTÓFELES

É isso: ápodos,
porque antevejo o que o Doutor não pesca:
que amanhã, por exemplo, o escrupuloso
há-de enganar, jurando-lhe mil honras,
e amores mil, a pobre Margarida.

FAUSTO

E a-la-fé que não minto em protestar-lhos.

MEFISTÓFELES

Bravíssimo! Portanto essas constâncias
sem limite, esse afecto incontrastável,
tudo isso que a tristinha há-de engolir-lhe...
tudo lhe há-de brotar da consciência?
[277]

FAUSTO

Há-de sim; não mo impugnes. O que eu sinto!
este meu alvoroço! nem rastreio
como lhe chame. Busco-lhe nas línguas
de todo o mundo um nome, e não lho encontro.
Excogito as hipérboles mais anchas,
infindo, imenso, eterno, mais que eterno,
e tudo é curto, e nada iguala ao fogo
que arde aqui dentro... De infernal engano
darás título a isto?

MEFISTÓFELES

E pur si muove!

FAUSTO

Basta de me esfalfares. Quem por força
quer vencer, e tem língua que não cansa,
fica sempre de cima. Estou já farto
do teu bacharelar.
Não disputemos:
tens razão, tens.
Não fora a dependência...!

Index, Quadro XIII