[299]

QUADRO XIV


Floresta no meio de fraguedo, escancarado em cavernas.
De uma rocha alta, precipita-se uma cascata natural.

CENA I

FAUSTO, só, meditabundo, encostado a uma árvore, com os
olhos no céu. Luar encoberto. Relampeja. Zune o vento.

Tudo obtive de ti, sumo, inefável Ente.
Entrevi-te no mundo a face refulgente.
Sou rei da criação; sinto-a e desfruto-a. Dás-me
não só que a observe à flor e em seus prodígios pasme;
sondo-a, leio-a por dentro, assim, como leria
no peito de um amigo. Intendo, da harmonia
que une tantos milhões de seres passageiros,
ser tudo uma família, e irmãos meus verdadeiros
o mudo arbusto, o ar, as águas.

[300]

(Cresce o temporal e ouve-se ao longe o desabar
de um pinheiro)

Quando a mata
ruge co’o temporal, e o pinheiro-magnata
rui fracassando em torno as arvores, e atroa
co’a trovejante queda o monte que reboa,

(Encaminhando-se para uma caverna)

forças-me co’o terror a entrar na alta caverna,
onde me descortino eu próprio à luz interna,
e no fundo do peito, aberto, omnipotente
mil prodígios descubro incógnitos à mente.

(Após um espaço de contemplação muda, amansa e cessa a tormenta. A lua rompe brilhante dentre as nuvens, e alumia a cena.)

Desfez-se o temporal: ergue-se clara a lua!
O mato gotejante, a penedia nua
vem-me representar, num alvor prateado,
miragens da saudade, as cenas do passado.


(Descendo da caverna, passeia na mata)
[301]

Ai! que não caiba um gozo, estreme, verdadeiro,
nesta vida falaz! Deste um companheiro,
que onde sinto endeusar-me, acorre sempre frio,
impassível, cruel, a recalcar-me o brio,
a provar-me o meu nada; um monstro, que eu forcejo
para afastar do lado e sempre ao lado vejo.

Se me choves teus dons, ele, co’um leve acento
da sua voz maldita anula-os num momento;
ele mal que vislumbra aos olhos meus o belo,
dentro no coração me ateia um Mongibelo.

Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

CENA II

FAUSTO e MEFISTÓFELES, que desceu rapidamente
no meio de um relâmpago desde o alto das rochas.

MEFISTÓFELES (chegando-se a Fausto)

Com que então, já cansou? Depois da faina
da boa vida que levámos juntos,

[302]

tornou-se a divertir? De tempo a tempo,
bom é que se descanse um poucochinho.
Isso é que abre o apetite e aumenta as forças.
Vamo-nos procurar mais novidades.

FAUSTO

Não tens mais que fazer, que vir tentar-me
nas horas boas?

MEFISTÓFELES

Co’a melhor vontade
o entrego a si, se quer; declare-o franco:
vai-se-me um sem-sabor, grazina e doido;
forte perda! levar o dia inteiro
sempre a servi-lo, sem lhe ler nas trombas
nunca jamais se está ou não contente!

FAUSTO

Bravo! O diabo sempre a atanazar-me,
e quer que inda por cima eu lho agradeça!

MEFISTÓFELES

Que seria de ti, filho do barro,
se não fosse eu, que te ando há tanto tempo
[303]

a curar de esquentadas fantasias?
Tinhas-te já safado deste mundo,
há que folhas!
Não sei que te aproveita
o andar poisando, à laia de coruja,
neste lapedo bronco; e o pró que tiras
de alimentar-te como o sapo inerte
do bafio de musgo e covas húmidas.
Que belo, que aprazível passatempo!
Sabes o que te eu digo? é que inda alojas
nesse corpo o Doutor.

FAUSTO

Não, que nem sonhas
que de força vivaz neste ermo alpestre
já tenho haurido em mim; se a bem souberas,
tão demo és tu, que por furtar-ma davas
trinta voltas no ar.

MEFISTÓFELES (ironicamente)

Se há gosto, é isso!:
Velar a noite à chuva pelos brejos,
abraçar com volúpia o céu e a terra,
empantufar-se a crer-se divindade,

[304]

fossar o mundo à cata do secreto,
volver no caco a obra dos seis dias,
sonhando-se Factor Arqui-potente...
não sei de quê, finando-se de amores
por quanto objecto avista, e desvestido
o invólucro terrestre, achar-se ao cabo
de tantas intuições maravilhosas,
a fazer... a fazer...
Cala-te, boca!

FAUSTO (indignado)

Passa fora!

MEFISTÓFELES

Isso mesmo: um passa fora
é a única resposta a quem profana
ouvidos castos, mencionando... coisas...

(Sorrindo)

Mas vá lá: se o divertem mentirinhas
pregadas a si próprio, outorgo vénia
como seja com regra. Acho contudo
que o meu Doutor, nesse papel sublime
depressa há-de cansar.
[305]

(Notando que Fausto lhe trejeita
de agastado)

Ei-lo assomado
já outra vez! Se vai por essa via,
cedo recai na insânia e nos terrores.

(Mudando de tom)

Falemos de outro assunto. O seu benzinho,
sabe o que está fazendo? Está sentada,
no seu quarto, sozinha, o peito em ânsias,
o pensamento a monte; a sua teima
é toda o sujeitinho; e quer-lhe! quer-lhe
que não há mais dizer. Valha a verdade,
a paixão do Doutor teve rompantes
de furiosa lava; incendiou-a,
mas coalhou pouco a pouco, e está já fria.
Quer-me a mim parecer, que o potentado
deste reino silvestre acertaria
em no abdicar, e recolher-se amante
ao seio da gentil desconsolada.
Como ela vai fiando as horas longas!
Encostada à janela, agora mesmo
já está olhando o caminhar das nuvens

[306]

para a muralha antiga da cidade.
Daqui lhe escuto a usada cantilena:

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena...
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

MEFISTÓFELES (à parte sorrindo)

Cáspite! enrodilhei-te.
[307]

FAUSTO

Amaldiçoado!
Sume-te! e nunca mais boquejes nela.
Não tornes a acender-me nos sentidos
inda revoltos o desejo infrene
de ter nos braços tão suave prenda!

MEFISTÓFELES

Mas enfim que resolve? A rapariga
julga-o fugido... e não se engana.

FAUSTO
Como,
se eu lhe vivo tão perto, e não na esqueço,
nem querendo esquecê-la o poderia,
por maior que entre nós fosse a distância
Ouve! É tanto que até, quando a imagino
ajoelhada e contrita à mesa santa
ao corpo consagrado tenho inveja

MEFISTÓFELES

Como eu, quando imagino o meu amigo
pascendo rosas... no amorável horto
de dois gémeos que eu sei.

(Apontando para o selo.)

[308]

FAUSTO

Fora, alcoveto!

MEFISTÓFELES

Bom; insulta-me, e eu rio. O fabricante,
quando inventou rapaz e rapariga,
tomou a si o deparar-lhe ensejos.

(Ironicamente a Fausto)

Coitado! Faz-me dó, que em realidade
ir para o quarto dela ou para a forca
vem quase a dar na mesma!

FAUSTO

É céu na vida
sentir-me entre seus braços, repassado
no calor de tal seio... e todavia
mal sabes como até nesses momentos
co’o pensar que a desgraço estou penando!...
Eu sou um foragido, um pária, um monstro,
que, sem ver norte, sem gozar descanso,
se despenha caudal, de fraga em fraga,
via do abismo; e ela! uma criança
[309]

tão simplesinha, que trocara o mundo
por se ver, num recôncavo dos Alpes,
ditosa dona de um feliz tugúrio,
onde sempre a lidar, fosse rainha.

(Falando consigo mesmo)

Não te bastou, vil réprobo, a jactância
de arrasar o universo, inda por cima
quiseste destruir a paz deste anjo.
Os caídos no inferno inda eram poucos?
Sus, sus, diabo! O teu auxílio imploro!
Ajuda-me a encurtar este suplício!
O que há-de ser que seja! A sorte dela
despenhe-se na minha, e pereçamos!

MEFISTÓFELES

Ih, como torna a arder! Vá daí, tonto,
vá consolá-la! Um néscio destes cuida,
se não vê logo furo, estar perdido.
Com gente denodada é que me eu quero.
Pontos há em que o julgo outro diabo;
mas diabo que logo desanima
é coisa que eu não levo à paciência.

[310]

QUADRO XV

O quarto da Margarida

CENA ÚNICA

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde...? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

[315]

QUADRO XVI

–––––––

Quintal de Marta, como no quadro XIII.

CENA I

MARGARIDA e FAUSTO

MARGARIDA

Sim? prometes-mo, Henrique?

FAUSTO

Inda o duvidas?
Tudo quanto eu puder.

[316]

MARGARIDA

Pois bem: que ideia
tens da religião? Sei que és bondoso;
agora crente... desconfio um tanto.

FAUSTO

Melhor é que tratemos de outra coisa,
filha. Sabes se eu te amo, e se eu daria
por ti a própria vida; agora as crenças.
deixo-as a cada um.

MARGARIDA

Pois não to louvo.
Crença é dever.

FAUSTO

Dever!
[317]

MARGARIDA

Eu não queria
senão poder guiar-te. E os Sacramentos,
respeitá-los?

FAUSTO

Respeito.

MARGARIDA

Oh sim, mas frio.
Não vais à confissão, não vais à missa...
Crês em Deus?

FAUSTO

Quem se atreve, amada prenda,
a dizer: Creio em Deus? Se o perguntares
a qualquer padre, a qualquer sábio, afirmo-te
que há-de a resposta parecer-te escárnio.

MARGARIDA

Então não crês?

[318]

FAUSTO

Encanto meu querido,
não tomes o que digo em mau sentido.

Defini-lo, que língua o tentara?
Quem se atreve a dizer: Em Deus creio?
Ou quem pode, sentindo-o no seio,
Não há Deus, temerário afirmar?
Pois aquele que abrange, que ampara
todo um mundo em seu grémio patente,
a nós ambos não pode igualmente
e a si próprio abranger, amparar?
Não nos cobre uma abóbada imensa?
Não pisamos um chão tão seguro?
Não nos banha em clarões pelo escuro
de astros meigos perene caudal?
Quando embebo este olhar, que em ti pensa,
nesse teu, que à minha alma responde,
¿de um poder que entreluz e se esconde
não sentimos o influxo fatal?
Toda a vez que o teu peito sedento
se afundir neste mar de doçura,
põe-lhe o nome a teu gosto: ventura,
céu de amor,
ou potência de um Deus.
Eu nenhum. De o gozar me contento.
[319]

Nome é fumo em que a luz se reveste;
e eu não quero um tal fogo celeste
encobrir aos teus olhos e aos meus

MARGARIDA

Lindo! O meu director diz-me isso mesmo,
por outras expressões.

FAUSTO

Em toda a parte
rompe idêntica voz das consciências;
cada um na linguagem que lhe é própria
a traduz, e eu na minha.

MARGARIDA

Em realidade
o que aí me tens dito não destoa
de todo em todo... mas não sei se envolve
sua moedinha falsa... Enfim, vá tudo:
tu não tens fé cristã.

[320]

FAUSTO

Meu caro anjinho!

MARGARIDA

Uma coisa que há muito me faz peso
é ver acompanhar com tal figura.

FAUSTO

Como assim?

MARGARIDA

É verdade: desadoro
do teu colchete; não vi coisa nunca
jamais que tanto horror me produzisse
como aquela carranca.

FAUSTO

Ele, criança,
que mal te fez?
[321]

MARGARIDA

Não sei; ferve-me o sangue
sempre que o vejo; é a única pessoa
a que não quero bem. Tanto me alegro
quando tu chegas, como ao vê-lo esfrio.
Tem-me ar, Deus me perdoe, de um sacripante.

FAUSTO

Como há gente sisuda, há valdevinos;
que se lhe há-de fazer?

MARGARIDA

Deus me livrara
de conviver com semelhante escória!
Quando entra, encara sempre nas pessoas
como quem zombeteia ou vem zangado;
não toma nada a sério; está-se lendo
naquela testa que ninguém lhe agrada.
Sinto-me tão contente a sós contigo!
tão senhora de mim! tanto à vontade
no calor que a tua alma infunde à minha!
vem ele... e eis-me tolhida inteiramente.

[322]

FAUSTO

Superstições de um anjo.

MARGARIDA

É tal o enguiço
que onde me ele aparece, até já cuido
que não gosto de ti. Diante dele,
fosse eu querer rezar! Faz-me cá dentro
tudo isto uma aflição! Não te sucede
o mesmo, Henrique?

FAUSTO

Antipatias.

MARGARIDA

Vou-me.
É forçoso.

FAUSTO

O que eu dera, Margarida,
por poder, uma hora, uma só hora,
[323]

passar contigo descansado! unidos
peito a peito! alma a alma!

MARGARIDA

Tu bem sabes
que não durmo sozinha. Eu, por meu gosto,
deixava-te ficar já hoje a porta
fechada em falso, e então... Mas a mãezinha
tem o sono tão leve! E se ela fosse
dar connosco, eu morria de repente.

FAUSTO

Para isso, meu anjo, há bom remédio.
Toma este vidro! basta que lhe lances
três gotas na bebida, e adormeceu-ta
a bom levar: nenhum rumor ta esperta.

MARGARIDA

Desejas, cumpro. Esta água, já se sabe,
não pode fazer mal...

FAUSTO

Pois, se o pudesse,
eu dava-ta, querida?

[324]

MARGARIDA

Homem como este,
onde há outro? Sim, sim, querido amante;
lê-se no teu aspecto a probidade
às cegas te obedeço. Tenho feito
por ti já tanto que o restante é nada.

(Sai.)

CENA II

MEFISTÓFELES e FAUSTO

MEFISTÓFELES (entrando)

A espertalhona foi-se?

FAUSTO

E não me perdes
a manha de espiar.
[325]

MEFISTÓFELES

Ouvi-lhe tudo;
desta feita o Doutor, em catecismo
pode fazer exame; que lhe preste!
O amigo é pouco visto em raparigas:
não dão ponto sem nó. Talvez não saiba
porque as encanta o converter marmanjos;
é porque dizem: – Quem me cede nisto,
há-de ceder-me em tudo.

FAUSTO

Ó monstro bruto!
Pois não concebes que uma crente ingénua,
convicta de que ao céu não vão descrentes,
curta um martírio em só cuidar que o homem
que ela a todos prefere é já do inferno?

MEFISTÓFELES

Charco de vício e flor de namorados!
Com que assim dás o beiço a uma criança!

FAUSTO

Fogo do inferno, e espírito de borra!

[326]

MEFISTÓFELES

E é mestra em decifrar fisionomias:
– Tenho ar, Deus lhe perdoe, de um sacripante!
– Ver, é ficar tolhida! – Acha-me uns ares
de traidor mascarado, algum duende,
talvez até diabo...
Então o amigo...
sempre, esta noite...?

FAUSTO

Que te importa?

MEFISTÓFELES

Ai! muito.
Vou-lhe bailar na boda as tripecinhas.

[327]

QUADRO XVII

–––––––

Um chafariz

CENA I

MARGARIDA e LUISINHA, com os seus cântaros

LUISINHA

E a Bárbara? que tal! sabes?

MARGARIDA

Eu não: a gente
vive tão retirada!

LUISINHA

A Beatriz não mente;
foi ela que mo disse. A sonsa, a delambida,
tão cheia de fidúcia, aí ’stá também caída!

[328]

MARGARIDA

A Bárbara! ó mulher, explica-te! A pequena
que é que fez?

LUISINHA

Mete nojo. Era tão açucena,
e agora...

MARGARIDA

Agora o quê, Luisinha?

LUISINHA

Agora come
e bebe para dois, senão morria à fome.

MARGARIDA

Credo!

LUISINHA

Foi um castigo. Aquilo tinha jeito?
Sempre como carraça agarrada ao sujeito
[329]

em passeios ao campo, em dançarás, tratada
com bom doce e bom vinho, e toda empantufada
nem que fora fidalga. E então de boniteza
presunção até ali! Pois, com ser tão princesa,
chegou c’oa desvergonha até a aceitar mimos!
Tais princípios, tais fins; nós sempre o presumimos.
Do obséquio ao galanteio, um passo; do namoro,
outro ao atrevimento; e meio ao desaforo.
Assim é que a florinha, em breves audiências,
fez víspere; entendeste? Aí tens as consequências.

MARGARIDA

Coitadinha!

LUISINHA

Ah! tens dó? e eu não. A gente à roca
empregada a engordar a sua maçaroca
num quartinho fechado, e a mãe por sentinela;
e ela... imagina bem como era o serão dela!
No corredor escuro, ali ao pé da entrada,
co’o chichisbéu no banco em paz repetenada
horas e horas; que admira? o relógio aos amantes
faz de um dia uma hora, e de uma hora instantes.

[330]

Agora há-de pagar (e tenha paciência);
há-de à porta da Igreja ir fazer penitência,
beijar aquele chão, de vaso e dó trajada,
e servir de desprezo à gente recatada.

MARGARIDA

Ele há-de-a receber de certo por mulher.

LUISINHA

Espera lá por isso! ele é parvo? ele quer
levar fruta do chão, um rapaz como um maço?
Para se divertir acha-as a cada passo.
De mais a mais, que é dele? onde estará já agora,
se bem andar?

MARGARIDA

Fugiu?!

LUISINHA

Logrou-a, e foi-se embora.
[331]

MARGARIDA

Jesus, que acção tão feia!

LUISINHA

Inda que ele tornasse
e a recebesse a ela, os gostos desse enlace,
Deus me livre de os ter: vinha a rapaziada
arrancar da cabeça a c’roa à desposada,
e nós à porta dela havíamos de ir todas
lançar palha picada. Olha que lindas bodas!

(Põe o cântaro à cabeça e parte.)

CENA II

MARGARIDA, (só)

(Tomando também da fonte o seu cântaro, e partindo-se
com ele para casa, em direcção diversa da de Luisinha)

Também eu no meu tempo, em vendo moça errada,
logo a punha por monstro: a língua era uma espada,

[332]

e feita eu própria ré de atroz descaridade
benzia-me, e ficava impando de vaidade!...
E hoje... incursa no mesmo!!

(Após alguns momentos)

Oh! Deus! mas quem podia
livrar-se de um prazer, que as pedras fundiria?

[333]

QUADRO XVIII

–––––––

Muro da cidade, visto da parte de fora e nele um nicho, com a imagem em vulto da Senhora das Dores; uma lampadazinha, e duas jarras de flores murchas diante dela.

CENA ÚNICA

MARGARIDA (só)

(Pondo flores novas nos vasos)


Ó Virgem dolorosa
inclina à desditosa
o teu benigno olhar!
Só tu, com sete espadas
no coração cravadas,
sabes o que é penar;

tu sim, que viste aflita
pender, ó mãe bendita,

[334]

o filho teu na cruz,
alçaste, com dois rios,
aos céus teus olhos pios,
chamando em vão Jesus.

Da dor que me lacera
mortal nenhum pudera
sondar a profundez.
O que este peito chora,
treme, receia, implora,
só tu, Senhora, o vês.

Que dor! Nos sonhos cevo-a;
corro a fugir-lhe, levo-a;
que dor, oh mãe, que dor!
Sozinha a ti me abraço,
e em pranto me desfaço.
Mercê! perdão! favor!

Antes que a aurora assome,
já o mal que me consome
o sono me quebrou;
sentada já no leito
regando aflita o peito
co’as lágrimas estou.
[335]

Quando hoje abro a janela,
para dos vasos dela
trazer-te um ramo aqui,
e a vejo apedrejada...
co’o choro sufocada
sem luz no chão caí.

Ó Virgem dolorosa,
inclina à desditosa
o teu benigno olhar.
Só tu, com sete espadas
no coração cravadas,
sabes o que é penar.

Index, Quadros XIX, XX