[337]

QUADRO XIX
–––––––
Rua, com casas de ambos os lados, entre as quais, mais perto da boca do teatro, – da direita a casa de Marta, – da esquerda a de Margarida, com duas sacadas para uma varanda, onde há vasos de flores e trepadeiras, que se arqueiam por sobre as portadas. Lá ao diante, uma frontaria de Igreja. Dá meia-noite na torre do templo.

CENA I

VALENTIM (só)

Dantes era regalo ir a uma súcia,
daquelas onde a gente bravateia
sem ninguém lho estranhar. Cada confrade
chamava à sua a flor das raparigas,
empinava um copázio em honra dela,
 [338]
e, fincando na mesa os cotovelos,
quedava-se todo ancho. Eu, do meu canto,
ia-os mui pachorrento ouvindo, ouvindo,
a sorrir-me, e a anediar este bigode;
depois, erguendo ao alto o copo cheio,
proclamava: «Não digo menos disso;
porém que iguale à minha Margarida,
nem lhe deite água às mãos, quitam buscá-la;
sou seu irmão, e ufano-me de sê-lo.»
«Toque! Faço a razão!» vozeavam todos,
todos à uma, ao terlintim dos copos.
– «Não diz nada de mais: a Margarida
é realmente a jóia das mulheres!»
Não se ouvia outra coisa; os roncadores
nem chus nem bus...
E agora! Dão-me ganas
de arrancar estas barbas de vergonha,
e esmagar numa esquina esta cabeça!
Agora, pode já qualquer patife
mirar-me de revés, e até deitar-me
sua picuinha; e eu moita, sem ousio
para me erguer sequer, suando em bagas,
que nem ruim-paguilha, atanazado
diante do credor. Fazer em postas
um bruto desses não custava muito;
mas desmenti-lo...
[339]
(Vem do fundo do teatro acercando-se Mefistófeles e Fausto, e conversando entre si sem ser ouvidos. Valentim começa a coser-se com a casa de Marta.)

Enxergo além dois vultos.
Para cá se encaminham... Vem pisando
com passo de patrulha. Alto! observemos!
Dá-me no coração que estes figuros
hão-de ser os meus dois. Se apanho o melro,
já o não largo, senão feito em postas.
 

CENA II

MEFISTÓFELES, de guitarra às costas, e FAUSTO, descendo para a boca do teatro, observados por VALENTIM, recolhido ao portal de Marta.


FAUSTO

Arde a perene alâmpada do templo.
Repara na alta fresta!

(Apontando para uma das janelas cimeiras
da Igreja)
[340]
O lume santo
circunfunde-se em luz, que a pouco e pouco
vai de círculo em círculo caindo
até penumbra, e da penumbra em trevas:
imagem deste amor na escuridade.

MEFISTÓFELES

Entendo, e até já estou com farnicoques
como os do meu Doutor. Não nos comparo
co’a lâmpada da Igreja. Só me lembra
um bichano em janeiro, quando sobe,
a arrulhar e a esfregar-se, ao paraíso
do telhado, onde a bela o está chamando.
A gente como nós ama a virtude;
mas, uma vez por outra, lá se alembra
de cobiçar o alheio, e andar à tuna.
Eu só de pôr na ideia o regabofe,
que em Valburga vou ter co’o femeaço
já depois de amanhã, não tenho fibra
que não me ande a bailar dentro no corpo.
Quem perde assim a noite é quem na ganha.

FAUSTO

Vamos nós: o tesoiro soterrado
[341]
que me fizeste ver, e que inda aos olhos
me está brilhando, entregas-mo, ou que fazes?

MEFISTÓFELES

Pode desenterrar, se o leva em gosto,
por suas próprias mãos. Que panelada
de boas peças de oiro! Eu, que lho digo,
é que já noutro dia as vi com estes,
e estive-as namorando.

FAUSTO

Não me arranjas,
ademais disso, algum condigno adorno
com que eu possa arraiar a minha amante?

MEFISTÓFELES

Ah! lembrou bem! A modo que entre as loiras
enxerguei... não sei quê... de aneis, de brincos...
Nada; um colar de pérolas.

FAUSTO

Aprovo.
Quando a vou procurar co’as mãos vazias,
vexo-me.
[342]
MEFISTÓFELES
O desfrutar gratuito às vezes
também tem seu lugar.
Noite de estrelas
como esta, meu Doutor, pede um descante.
Vamos-lho dar por baixo da janela.

FAUSTO

A do seu quarto é essa, onde estão vasos,

MEFISTÓFELES

Se ainda não dorme, escutará gostosa.
São trovas de mão cheia, e sobretudo
muito morais. Assim é que as eu logro.

(Canta, acompanhando-se com a guitarra)

Que fazes, por vida minha,
à porta do namorado,
quando inda não é sol-nado,
Catarininha?
[343]
Ai, levianita, cautela,
cautela com essa entrada!
Vais donzela; mas, coitada,
sairás donzela?
Florinha, esquiva-te à aragem,
por mais que amor te prometa
que, em fugindo a borboleta,
boa viagem!
Com ave que não tem medo
bem vai ao passarinheiro.
Catarininha! primeiro,
o anel no dedo!

VALENTIM (adiantando-se furioso)

A quem vai o descante, alma danada?
Leva-te a breca a banza, e a ti com ela.

(Arranca-lhe o instrumento e quebra-o.)

MEFISTÓFELES

Escangalhou-ma, que não tem concerto.
[344]
VALENTIM (desembainhando a espada e arremetendo com Fausto)

E agora essa caveira!

MEFISTÓFELES (à parte para Fausto,
e dirigindo-lhe o braço)

Alma! Não ceda,
Senhor Doutor! Cosa-se bem comigo,
que eu lhe tenteio o jogo. Ande com ele
Esgrima-me o chanfalho! Afronte os botes,
que eu lhos aparo.

VALENTIM

Apara-me este.

MEFISTÓFELES

E aparo.

VALENTIM

Mais este.
[345]
MEFISTÓFELES

Pronto.

VALENTIM

Brigo co’o diabo.
Deu-me estupor no pulso.

MEFISTÓFELES

Ande-me, acabe-o!

VALENTIM (que, varado de uma estocada de Fausto, vai estrebuchando até cair sentado no degrau da porta de Margarida, e encostado à ombreira.)

Ai!

MEFISTÓFELES

Já está manso o bruto. Agora ao fresco!

(Ouve-se vozear e abrir janelas, em várias casas da rua; depois principiam a sair das portas os moradores com luzes)
[346]
Já anda alvoratada a vizinhança.
Fugir, que vem gentio. Eu da polícia
sei muito bem safar-me; agora em coisa
de foro crime, até o demo esbarra.

(Vão-se.)

CENA III

VALENTIM, MARTA e MARGARIDA, primeiro, nas suas janelas e depois na rua, HOMENS e MULHERES

MARTA (com luz à janela)

Acudam!

MARGARIDA (com luz à janela)

Tragam luz!

MARTA (mais alto)

É gente aos gritos:
brigam na rua; ouvi tinir espadas.
[347]
(Os populares vem das casas a correr com luzes.)

HOMEM DO POVO

Homem morto!

MARTA (correndo)

Onde estão os matadores?

MARGARIDA (ainda na janela)

Quem jaz aí?

HOMEM DO POVO

Jaz teu irmão.

MARGARIDA (da janela)

Socorro!
Grande Deus!

(Margarida desce à cena. Todas as mulheres estão chorando, e lamentando o caso umas com as outras.)
[348]

VALENTIM

Morro. Curto é o dito; e o feito
muito mais curto. Porque está chorando
todo esse mulherio? Aqui!... Mais perto...
Escutem-me!

(Acercam-se-lhe as mulheres)

Tu, mana Margarida,
inda estás verde em anos e em juízo;
não sabes arranjar-te. Um bom conselho,
aqui muito entre nós. De prostituta
já tu tens praça; então, marchar em frente!
a valer! a valer!

MARGARIDA

Que estás dizendo,
irmão? Meu Deus!

VALENTIM

A que vem Deus chamado
para estas coisas? Por desgraça, o feito
já ninguém to desfaz; e a ruins entranças
mais ruins saídas.
  [349]
Principiaste, a ocultas,
com um; provado o bolo, acodem outros;
em se chegando à dúzia, é porta aberta.
Vem fraquinha, a princípio, a desvergonha.
Teme ser vista, embuça-se co’as trevas.
Não custava a matá-la. Como a deixam,
medra, até sair nua; e como cuida
que a desnudez a alinda, embora a afeie,
despida, ao sol, na praça, se apavona.
Dentro em bem pouco toda a gente honrada
há-de fugir de ti, rameira indigna,
como se foge de um cadáver podre.
Se alguém te encarar fito, há-de transir-te.
Não pões mais oiros. Já não vais na Igreja
para a capela mor: nem com romeiras
de rendas finas florear nas danças.
Hás-de-te encafuar numa possilga,
refúgio de pedintes e aleijados.
Talvez que Deus ao cabo te perdoe,
mas o mundo é que nunca.

MARTA

Recomende
sua alma a Deus; não ’steja a encarregá-la
com mais ódios e injúrias!
[350]

VALENTIM (para Marta)

Quem me dera
poder-te lançar mão desse arcaboiço,
alcaiota maldita! Ai! que indulgência
que indulgência plenária a que eu ganhava!

MARGARIDA

Valentim! meu irmão! ai! que suplício!

VALENTIM

Sabes que mais? Deixemos choradeiras.
Quando tu deste mate ao teu decoro,
correste-me no peito uma estocada
que me acabou.
Já a morte me adormenta.
Vou-me acordar em Deus. Fui bom soldado
e homem de bem; feneço descansado.

[351]

QUADRO XX
–––––––
Interior de um templo, com eça armada, entre tocheiros acesos. Altar mor do lado direito, e guarda-vento da entrada, à esquerda. Ofício de defuntos, cantado a órgão.

CENA ÚNICA

MARGARIDA, de luto, ajoelhada, com o seu livro na mão. Por trás dela, em pé, o ANJO MAU. MULHERES e BURGUESES, de joelhos.


ANJO MAU

Inda te lembra, Margarida,
quando tão outra, e fronte erguida,
vinhas aos pés daquele altar
as santas rezas soletrar
do teu livrinho, já tão gasto,
[352]
dando à tua alma o doce pasto
do amor de Deus e do folgar?
Hoje só negros pensamentos.
Hoje só dor no coração.
Mataste a mãe, que arde em tormentos
vens sufragar-lhe absolvição?
Quem derramou à tua porta
um mar de sangue? o teu irmão.
De sua voz, já quase morta,
que herança houveste? a maldição.
Não sentes já nessas entranhas
ânsias insólitas, estranhas,
presságio atroz de um novo ser?
visão que em sonhos te aparece,
e que, inda a luz não lhe amanhece,
já principia a padecer?

MARGARIDA

Deus meu, Deus meu, que já não posso
com esta guerra interior.
Pelo infinito afecto vosso
valei-me, ó Deus, em tanta dor!
[353]

CORO

Dies iræ, dies illa,
Solvet sæculum in favilla,

(Toca o órgão.)

ANJO MAU

Tremem-te os membros gélidos.
Fatal momento!
Troa a trombeta lúgubre
do chamamento.
De cada aluído túmulo
surde um fantasma.
Julgavas leito a lápida.
Agora pasma,
que a vês alçapão lôbrego
do fogo ardente,
que ressuscita os réprobos
eternamente.

MARGARIDA

Quem já me dera daqui fora
Que órgão, meu Deus! Falta-me o ar.
 [354]
Como é feliz a dor que chora!
Não poder eu sequer chorar!...

CORO

Judex ergo cum sedebit,
quidquid latet apparebit,
nil inultum remanebit.

MARGARIDA

Ai que opressão! que negra abóbada!
Quem me prendeu neste lugar?
Quero-me erguer, não posso. Acudam-me!
Ar! ar! ar! ar!

ANJO MAU

Fugir! Sumires-te! Não, mísera!
O teu opróbrio, o teu pecado
já não se esconde. A lei do Altíssimo
o há decretado.

CORO

Quid sum miser tunc dicturus?
Quem patronum rogaturus,
Cum vix justus sit securus?
[355]
ANJO MAU

Santo nenhum já te olha, ó réproba.
Cada fiel, em tu saindo,
para evitar o torpe escândalo
te irá fugindo.

CORO

Quid sum miser tunc dicturus?

ANJO MAU

Vai teu caminho!

MARGARIDA (voltando-se para uma mulher ao pé)

Ai! por piedade! o seu vidrinho...!

(Cai desmaiada)

Index, Quadro XXI