[357]

QUADRO XXI

–––––––

Noite de Santa Valburga. Montanhas de Harz.
Região de Schirke e Elend.

CENA I

FAUSTO e MEFISTÓFELES

MEFISTÓFELES (a Fausto)

Em vez de palmilhar, Doutor, não gostaria
de ir num pau de vassoira? Eu por mim preferia
montar um bom cabrão. Antes que lá cheguemos
não nos falta que andar.

FAUSTO

Sou rijo; caminhemos.
Este bordão de nós por ora me é bastante.
E apressar, para quê? Se há gosto que me encante

[358]

na jornada que faço, é isto: ir à vontade
vendo este labirinto e a sua variedade;
tanto vale espantoso! e aqui sobre esta penha
a cascata sem fim que troa e se despenha!
Já primavera nova anima os vidoeiros;
engalana-se o mato; alegram-se os pinheiros.
Poderá resistir a natureza humana
a tais influições?

MEFISTÓFELES

Se o mato se engalana
e o Doutor se alvoroça, eu cá não sinto nada.
O que eu tomara sempre era grande invernada,
frio de tiritar, e por quaisquer caminhos
ver só neve, sentir só neve nos focinhos.
Como hoje vem a lua avermelhada, cava,
e a alar-se sem poder! por pouco mais, deixava
às escuras o mundo; é quebrar os narizes
de contínuo em calhaus, em troncos, em raízes.

... Um fogo-fátuo! Bravo! Há-de dar licença
de o chamar. Fraca luz val mais que sombra densa.
Uh! uh! ó da luzerna! Há-de ter a bondade
de vir mais para aqui. Não gaste a claridade

[359]

assim sem mais nem mais. Obséquio nos faria,
se nos fosse diante a destrinçar-nos via
por esta serra acima!

CENA II

Um FOGO-FÁTUO e os ditos

FOGO-FÁTUO

Inda que a nossa essência
é saltitar à toa, eu farei diligência,
já que manda quem pode.

MEFISTÓFELES

Esta é que não é feia.
Até já este pífio os homens macaqueia!
Salte-nos para a frente, em nome do diabo;
e ir direito; senão, verás como te acabo
co’a flamante farófia; um sopro basta.

FOGO-FÁTUO

Sei
que está em sua casa; o que mandar fá-lo-ei;

[360]

mas veja que esta noite é a festa das diabruras
cá no monte; e eu também sou uma das figuras,
mas vá lá; faltarei, contanto que releve
a um pobre fogo-fátuo o modo como o leve.

FAUSTO

Cuido que já ’stamos no país fantástico
de encantos e sonhos.
Avante, bom guia! Transpõe estes páramos
vazios, tristonhos.
Como umas trás outras nos fogem as árvores,
recurvas, ligeiras!
E os serros baixando-se! E os roncos e os síbilos
das rotas pedreiras, que vão a arquejar!

Que palram as águas? que diz toda a harmónica
loquaz natureza?
Serão ternas mágoas, queixumes, ou cânticos?
é gozo? é tristeza?
de dias celestes celestes memórias?
amor? esperança?
recordos confusos de gostos pretéritos?
vão eco? ou lembrança de lenda a passar?
[361]

MEFISTÓFELES

Ui! que algaravia!
Bufídos e pios,
silvos e assobios
cada vez mais perto!
Já antes do dia,
cá neste deserto,
andam levantados
gaios, papafigos!
Que sócios e amigos
tão desafinados
as c’rujas não tem!

FAUSTO

E aqueles pernudos,
ascosos, pançudos,
nas moitas além...
serão salamandras?
E aquelas malandras,
que rompem das gandras,
fazendo ameaços,
lançando mil braços
qual polvo traidor!

[362]

MEFISTÓFELES

Meras raizadas,
todas emproadas
a aterrar as gentes,
fingindo serpentes.

FAUSTO

Toupeiras e ratos,
relé variegada,
no musgo dos matos,
na lama encharcada
sem conto esfervilham.
Para a festa voam, brilham,
vaga-lumes aos milhares,
azoinado redemoinho.

MEFISTÓFELES

Mas seguimos nós caminho,
ou quedamo-nos pasmados?

FAUSTO

Tenho os olhos já cansados
de ver tudo a rodopiar,
[363]

de ver tanto horrendo esgar
nuns penedos desalmados,
na rudez de uns troncos broncos
tão medonhas carantonhas.
Fogos-fátuos nunca vi
como aqui tão abundantes,
alentados e arrogantes.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

Mas não me largue a cauda. Estamos na eminência,
que descobre em redor toda a magnificência
do espantoso Mamon.

FAUSTO

Que baça aurora estranha
se espraia lá por baixo ao sopé da montanha
té ao mais fundo abismo! Aqui surge um vapor,
exalações de além; mais longe um misto horror
de treva e fogo, a andar como um fio delgado,
que afinal como fonte em jorro desatado
serpeia pelo vale em cem veias; confluem
todas ao mesmo ponto, e dali distribuem
no vizinho arredor chispante areia d’oiro.
Quem a escarpa do monte iluminou de estoiro,
toda de cima a baixo?

[364]

MEFISTÓFELES

In verbo luminárias,
as do senhor Mamon são extraordinárias;
pois não são? Despicou-se a abrilhantar a festa.
À fé que o meu Doutor nunca esperou por esta;
hein?
Mas tate... que avento a cáfila bravia
vir já lá de rondão ao cheiro da folia.

FAUSTO

Safa, que furacão! Mete-me as costas dentro.

MEFISTÓFELES

Se não quer ir parar do negro abismo ao centro,
Doutor, não há remédio; é com unhas e dentes
ferrar-se por aí às costelas patentes
do serro descarnado. Ui! que nevoeiro cego
cega inda mais a noite, escura como um prego!
Ouviu nunca fragor como anda no arvoredo?
As corujas pelo ar esvoaçam-se de medo;
as colunas do paço eterno-verde racham
as pernadas gemendo estorcem-se e se escacham;
[365]

estalam troncos; rota a raizada crepita;
tudo em medonho caos rui e se precipita,
trovejando e silvando até o fundo abismo
das voragens que atulha o horrendo cataclismo.
Não sente vozear lá no alto, e ao longe, e ao perto?
Ora aí vem já de certo
chegando o reboliço
que vem povoar este montês deserto
nas horas do feitiço.

CENA III E SEGUINTES

OS MESMOS, e sucessivamente as figuras que a seus
tempos se irão indicando

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

De Brocken ao rochedo,
correr, correr, bruxedo!
Onde a cana já loireja,
mas a espiga inda verdeja,
todo o bando unido seja.
Posto de alto e todo mano,
é o senhor Dom Fulano
quem preside ao nosso arcano.

[366]

Por cima da folha, mais do pedregulho,
festança rasgada com todo o barulho.
O bode tresanda fartum que enfeitiça,
e a bruxa castiça, castiça e castiça.

UMA BRUXA

Lá vem, e vem só,
a velha Bóbó,
nossa rica avó.
Que flamante vem
para a patuscada,
toda escarranchada
numa porca-mãe!

CORO

Quem de todas é primeira,
toca-lhe ir na dianteira.
Tudo atrás da vo-vozinha,
que parece uma rainha
sobre a porca parideira.

UMA BRUXA (para outra)

Donde vens?
[367]

A OUTRA

Da roca
d’Ilsen, onde está,
dentro numa toca
funda negra e suja,
ninho de coruja.
Deitou-me de lá,
com ar macambúzio,
por ver a espreitá-la,
um lúzio... que lúzio!

BRUXA

Cal’-te aí! Quem te ora fala
de coruja? Subvertida
sejas tu!

OUTRA

Mas que pressa! Onde é a ida?

A OUTRA

Já do chouto vou ferida.
Podes vê-lo: olha este...

[368]

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

Leva, leva, cavalgada,
que tão cedo não se apanha
ver o fim de tal jornada
por tais fragas de montanha.
A vassoira arranha.
O forcado fura.
E todas põe manha
na cavalgadura.
E o chouto nas panças
abafa as crianças.
E as mães coitadinhas,
a cada pinote
vão para as vizinhas
tocando fagote.

O CORIFEU DOS FEITICEIROS

Deixar lá ir as seresmas
de escantilhão nos seus potros.
Fica melhor a nós-outros
esta andadura de lesmas.
Se tudo vai para o paço
do Grão-Perro, não se queira
estranhar ao femeaço
que nos leve dianteira.

[369]

A CORIFEIA DAS FEITICEIRAS

Falem, falem, linguarudos!
É que na estrada dos demos,
onde nós mil passos demos,
chegam num pulo os barbudos.

VOZ DO ALTO DO MONTE

Olá da lagoa,
vinde para a altura!

VOZ NA BAIXA

A vontade é boa,
mas o banho apura
do corpo a brancura.
Por isso, cá ’stamos,
se bem, coitadinhas,
que, mais que façamos,
por mais que lavamos,
por mais que esfregamos,
ficamos maninhas,

[370]

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

Cala o vento; não há vê-la
meia estrela.
A baça lua
de todo amua.
Passa alvorotado
o bando encantado
como um turbilhão,
deixando crivado
de chispas o chão.

VOZ EM BAIXO

Parem, parem!

VOZ NO ALTO

Quem nos brada
dos algares do rochedo?

VOZ EM BAIXO

Levai-me deste degredo,
que a trepar pelo fraguedo
[371]

levo há já trezentos anos,
sem chegar à cumeada!
Deixai-me ir convosco hermanos!

FEITICEIRAS E FEITICEIROS

Ala, ala, vassouras, forcados,
bodes, trancas! arriba, às alturas!
Ai de quem as não vinga; maus fados
para sempre lhe estão destinados
nas funduras.

SEMI-BRUXA (na baixa)

Vou-lhes na peugada
correndo estafada.
Tamanho é o avanço,
que não as alcanço.
Já lá na casinha
Não tinha descanso.
Mesquinha, mesquinha,
debalde me canso.

FEITICEIRAS

Feiticeira bem untada
feiticeira bem dotada.

[372]

De uma gamela
faz caravela;
de uma rodilha
faz uma vela
com que a amantilha.
Navega por ’í fora;
bom vento, e vive Alah!
Quem não viaja agora,
quando viajará?

TUTTI

Sus, apear, desembarcar!
Chegou-se enfim aos grandes cimos.
Poisar agora e descansar
quantos e quantas ora vimos
esta charneca povoar!

(Vão-se assentando).

MEFISTÓFELES

Que apertão, que empurrões, que barafunda,
tropeções, castanholas, assobios,
empuxões, voltas, pálreas, luzes-luzes,
fagulharia, fétidos ardores...
[373]

em suma feira franca de feitiços.
Cosa-se bem comigo, que a esgarrar-se
não sei onde irá ter... Onde está ele?...
Doutor! Doutor!

FAUSTO (Muito longe)

Aqui...

MEFISTÓFELES

Já lá tão longe!
Não há remédio. Cá nos meus morgados
sou eu só quem governa. Afasta! arreda!
Dom Barzabu que chega! Abri-lhe praça,
raia miúda!
Aqui, Doutor! segure-se!
Belo; e agora é safarmo-nos num pulo,
dentre esta turbamulta, que atordoa
até aos do meu pano.
Espere... aquilo
que será que além brilha? Estou curioso,
Meto-me à sarça. Venha, venha! Entremos,
sem fazer bulha.

[374]

FAUSTO

Mais variável génio
do que tu és, não quero que haja. Embora!
Vamos lá; mas só doidos tal fariam:
Cansar a gente a marinhar ao Brocken
na noite de Valburga, e por desfecho
ter o que? embrenhar-se como os bichos.

MEFISTÓFELES

Não trove de repente! Afirme a vista!
Perceberá candeios de mil cores.
Há lá festa; há-de achar-se acompanhado,
mas sem balbúrdia.

FAUSTO

Ao píncaro do monte
mais folgara que fôssemos; avisto
já por lá turbilhões de fogo e fumo.
Que de devotos que ao maligno acodem!
E que de enigmas que hão-de ali solver-se!

MEFISTÓFELES

E que de outros urdir-se! Os mais que folguem
a seu sabor; nós-outros desfrutemos
[375]

à chucha-caladinha a nossa conta.
Isto de conventículos formados
na grande sociedade é moda antiga.
Lá vejo eu bem gentis feiticeirinhas
nuas em pelo; e velhas à cautela
todas bioco. Não me faça d’urso!
Mas que seja tão só por me dar gosto,
quero-o ver todo França. O custo é pouco,
e o gáudio de enche-mão. Oiço instrumentos,
ou coisa que o parece; irra, que bulha!
Paciência! a princípio é que se estranha.
Venha comigo, mexa-se! já agora
não há remédio. Eu sou quem o apresenta,
por isso vou diante. Em realidade,
sempre o nosso Doutor me deve muito!
Que tal acha este campo? é formidável,
pois não é? custa a ver o limite.
Arde ao redor um cento de fogueiras;
baila-se; palra-se; enche-se a barriga;
pinga a rodo; mocedo à tripa forra.
Onde é que pode haver melhor cantate?

FAUSTO

Tu, como é que na súcia te apresentas?
como diabo, ou disfarçado em bruxo?

[376]

MEFISTÓFELES

Costumo andar incógnito; mas hoje
dia de gala, assoalham-se as veneras;
não ponho jarreteira; o pé de cabra
mete mais vista. Já lá vem a rastos
um caramujo, de focinho em terra;
já me aventou aposto. Está sabido:
encobrir-me eu aqui, era impossível.
Toca, toca a rodar essas fogueiras.
O alcaiote sou eu; por sua conta,
só fica o desfrutar.

(Dirige-se a uma roda de velhos, que cercam
um brasido de fogueira)

Vocês, velhotes,
que fazem por aqui? Se os visse andarem-se
de réstia co’os pimpões da brincadeira,
entendia; mas isto, acantoados
como ermitães, que val ou que lhes presta?
Era muito melhor não vir à festa.

UM DOS VELHOS, GENERAL

No fim lhe há-de achar a errata
um parvo que serve ao povo,
[377]

e por lhe agradar se mata.
Mulher quer sempre ao mais novo;
plebe ao da última data.

OUTRO VELHO, MINISTRO

Tempinho santo o passado.
Hoje, que há ’í de sisudo,
de bom, de bem ordenado?
Século, em que éramos tudo,
foste o século doirado.

TERCEIRO VELHO, PARVENU

Espertos, também nós fomos,
que engordámos e subimos,
sem nos prendermos nos cornos.
Entraram novos mordomos,
fugiu-nos tudo, e caímos.

QUARTO VELHO, UM AUTOR

Quem sofre hoje as obras ler
de chorume e de saber?
A exclusiva faculdade
do julgar e do escrever
toca à fátua mocidade.

[378]

MEFISTÓFELES (parecendo de repente velhíssimo)

O dia de juízo é já propínquo.
Nesta minha subida derradeira
ao monte dos feitiços, reconheço
que está chegada ao termo a humanidade;
por isso o meu barril já deita as borras.

UMA BRUXA BELFURINHEIRA

Não passem, fregueses, sem ver a fazenda
de trinta mil castas, que trago hoje à venda.
Não são galanduchas, que nunca alguém visse.
Não vem coisa alguma, que já não servisse
uma vez ao menos de perder a alguém.
quem vem? quem enfeira? fregueses, quem vem?
Nenhum punhal trago que não se embainhasse
nalgum coração;
nem copa brilhante, que não propinasse
veneno terrível aos lábios de um são;
nem jóia que à honra de bela donzela
não fosse fatal;
nem folha de espada que nunca em cilada
se visse cravada por mão desleal.
Mil outras como estas a arqueta contém,
que em algo funestas já foram a alguém.
Quem vem? quem enfeira? fregueses, quem vem?
[379]

MEFISTÓFELES (tornando-se outra vez moço)

A adela anda no mundo trasnoitada,
por força; pois não sabes que hoje em dia
só se quer dito e feito, e sempre novo?

FAUSTO

Já começo a temer, com tal barulho,
de mim próprio afinal vir a esquecer-me.
E chama-se isto feira!

MEFISTÓFELES

Antes se chame
fervença de ambiciosos apostados
a qual primeiro se verá no cume.
Cuidas ir empurrando, e és empurrado.

FAUSTO

Aquela quem será?

MEFISTÓFELES

Pois não conhece!
Repare; é a Lilita.

[380]

FAUSTO

Hein! que Lilita?

MEFISTÓFELES

A Lilita da Costa; não te lembras?
a primeira mulher de Adão de Barros.
Cuidado em ti co’os seus gentis cabelos,
que os não há mais encanto. Ai do mancebo
que neles se enredar; nunca mais foge.

FAUSTO

E essas duas a par tão bem sentadas,
a velha, mais a moça? Esbaforiu-as
sem dúvida o bailar.

MEFISTÓFELES

Isto hoje, amigo,
não dá trégua nem folga. Aí principia
já outro bailarico. Ande depressa!
agarre um par e salte! A coisa é essa.

(Fausto dança com a moça, e Mefistófeles
com a velha.)
[381]

FAUSTO (dançando e cantando)

Em macieira de estima
sonhei ver duas maçãs;
tão d’enche-mão, tão louçãs
que lhes saltei logo em cima.

BELA (idem)

Se de maçãs tanto gostas,
não vás com o Éden sonhar.
Também eu no meu pomar
cá tenho maçãs bem-postas.

MEFISTÓFELES (idem)

E eu sonhei co’uma cepeira
............................................
............................................
............................................

A VELHA (dançando)

Lá tocas não têm concerto,
senhor Dom Pé cavalar,
...........................................
...........................................
[382]

PROCTOFANTASMISTA

Gente maldita, que ousadia a vossa!
Não se vos provou já que nunca espírito
pode aguentar-se em pé? Sais-me agora
até dançantes!

BELA (continuando a dançar)

Que lhe importa a ele
o que se faz no baile?

FAUSTO (dançando)

É manha velha:
em tudo se intromete. Em não podendo
impugnar cada passo, abnega o todo.
E o que o mais rala, é ver que se progride.
Resolvessem-se os mais a andar como ele
sempre à roda em zunzum de dobadoira,
tinham certo o seu A, principalmente
se o mazorral sistema encomiassem.

PROCTOFANTASMISTA

Ateimam! não se vão! Quem viu tal birra?
Víspere, coisas más! Não nos ouviste
[383]

O Fiat lux? Canalha de diabos,
as regras só lhes servem de debique.
Até nós, nós, protótipo do siso,
sentimos dar-nos volta a mioleira,
pensando no que aí vai. Ter eu varrido
todas essas insulsas nigromâncias,
e ver como inda o mundo me enxovalham
Ateimam! Não se vão! Quem viu tal birra?

BELA

Homem, não mace mais!

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

[384]

MEFISTÓFELES

Daqui a nada, assenta-se num charco,
que nisso é que acha alívio. As sanguessugas
as nalgas lhe dessangram, té que o deixem
de espíritos e espírito curado.

(A Fausto, que deixou a dama)

Deu de mão à formosa parceirinha,
tão sereia no canto?

FAUSTO

Irra, que nojo!
Ao cantar, cuspiu fora um morganhinho,
por sinal encarnado.

MEFISTÓFELES

Ora que espantos!
Inda se fosse pardo... E por tão pouco
se esperdiça a maré do carvoeiro?

FAUSTO

Mas é que inda vi mais.
[385]

MEFISTÓFELES

Mais quê?

FAUSTO

Repara!
Não vês além ...ao longe...em pé...sozinha
uma linda menina, aspecto pálido,
passos de quem arrasta ferropeias?
Quer-se-me figurar que as parecenças
são tais quais as da boa Margarida.

MEFISTÓFELES

Deixe lá isso: o engar em certas coisas
às vezes não é bom. São vãs sombrinhas;
que lhe quer? imposturas do bruxedo.
Querer vê-las ao perto é perigoso.
Pessoa em que as visões encarem fito
ficou, a bem dizer, petrificada.
Sabe o que era a Medusa?

FAUSTO

Em realidade,
os olhos são como olhos de defunto

[386]

não cerrados à luz por mão piedosa.
Aquele é o próprio seio, o ninho amante
da minha Margarida; aquele o corpo
que já foi meu tesoiro.

MEFISTÓFELES

Usuais efeitos
da arte ruim, meu crendeirão palerma.
Cada um vê naquilo a própria amada.

FAUSTO

Oh que céu! oh que inferno! Olhar é esse,
que o não posso fugir. E a gargantilha
que lhe cinge o pescoço! um fio apenas,
estreito como as costas de uma faca,
e vermelho.

MEFISTÓFELES

Bem vejo. Até podia
trazer já a cabeça sobraçada,
que lha cortou Perseu; não há quimeras
que lhe fartem a sede.
Ora subamos
[387]

àquele oiteiro; é vista deleitosa
como a do Prater.
Bravo! Se não trago
eu próprio a vista co’os feitiços doida,
vejo um teatro. Que irá lá?

SERVIBILIS

Senhores,
há hoje peça nova, a derradeira
das sete do costume; é de um curioso,
e por curiosos só representada.
Sem mais, vou-me com pressa erguer o pano.

MEFISTÓFELES

Sim senhor; se no Block a representam,
em sítio próprio o seu teatro assentam.

ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITANIA

Quadro XXII, Index