ÁUREAS NÚPCIAS

DE

OBERON E TITÂNIA

(INTERMESSO)

[391]

ADVERTÊNCIA
ACERCA DAS ÁUREAS NÚPCIAS
DE

OBERON E TITÂNIA

Havia o tradutor omitido a princípio esta pequena parte do poema; movera-o a isso o receio de quebrar importunamente o fio dramático; e, mais que tudo, o horror à escuridade que afronta e regela o trecho todo, no conceito dos próprios alemães.

Ficaram-no todavia remordendo escrúpulos por uma parte, por outra receios do que diriam praguentos, pelo decote cérceo de tal enxerto; e (custasse o que custasse, e desse por onde desse) resolveu à última hora que se atulhasse o fosso, para que o poema saísse, se não mais aprazível a quem houvesse de o correr, pelo menos sem a pecha de incompleto.

Cabe porém advertir que o próprio autor, já talvez por descargo de consciência, intitulara intermesso [392] esta ensancha alinhavada no seu manto poético, e da qual os seus patrícios, e seus primeiros admiradores, nenhuma conta fazem nas representações do Fausto.

Outro tanto poderão fazer os nossos leitores quando aqui chegarem.

Pelo que toca ao mérito literário e poético do fragmento, muito de indústria se abstém o tradutor de emitir aqui a sua opinião. Declara só que nenhuma outra parte de todo o livro lhe queimou tanto o sangue como esta; e que ainda agora lhe desvela horas da noite o cuidar, se às vezes não andaria perdido por tão intrincado labirinto.

As Áureas Núpcias são, em boa e leal verdade, uma enfiada de adivinhações, mais temperadas, ao que se pode crer, de pimenta que de sal, e com cujo sentido alusivo, ou satírico, dou que nem já atinarão hoje em dia os mais dos leitores
dessas Alemanhas.

Vai pois a coisa o melhor, ou o menos mal que por cá se pôde entender e interpretar.

ÁUREAS NÚPCIAS
DE
OBERON E TITÂNIA
OU
OS CINQUENTA ANOS DE CASADOS

(INTERMESSO)

(N. B. – A vista poderá ser ainda a precedente)

O DIRECTOR DO TEATRO

Sus, boa gente de Miedingue!
folguedo franco hoje nos vingue
da eterna lida teatral.
Para o bailete alegre e vário
aí ’stá nosso único cenário:
um monte seco, e um fresco val.

[394]

ARAUTO

De oiro se chama o casamento
que atingiu de anos meio cento
mas eu mais de oiro o chamarei,
quando, após guerras desabridas,
a paz reenlaça as duas vidas.
Esse é que é de oiro, e oiro de lei.

OBERON

Olá, meus génios! se a alegria,
que me alvoroça neste dia,
é para vós também prazer,
deveis mostrá-lo. Hoje a Rainha,
graças a Amor, volve a ser minha,
como eu já dela torno a ser.

PUCK

Cá vem Róbim desengonçado,
como pião num pé firmado,
e à roda dele o outro a girar.
Doutros que tais profuso bando
o vem à farta acompanhando,
que a todos toca este folgar.
[395]

ARIEL

Cá está o Ariel dos sons divinos,
que enleva a muitos malandrinos,
e a belas mil também atrai.

OBERON

Pares de esposos desgraçados,
se desejais ser bem casados,
lição e exemplo em nós tomai.
Quem me hoje alegra o casamento
não foi senão o apartamento;
o apartamento esperta amor.

TITÂNIA

Quem vir mulher que já não zomba,
e homem que sempre anda de tromba
cure-os de mal tão sem-sabor:
mande o marido para o norte,
e para o sul mande a consorte;
reacendeu-se o extinto ardor.

[396]

ORQUESTRA TUTTI (fortíssimo)

Besoiros e moscas, e mais parentela
que zumbe e gaiteia por vários estilos,
as rãs nos caniços, nas tocas os grilos,
serão nossa orquestra; quem na ouviu mais bela?

SOLO

Lá vem por cornamusa
a bolha de sabão,
com salsada abstrusa
das cantilenas que usa
juntar ao seu roncão.

ESPIRITINHO (que se está formando)

Pés de aranha, barriga de sapo,
e asasitas de um nada vivente,
se de ser animálculo escapo,
em poemeto darei certamente.

PARZINHO

Passinhos, pulinhos por névoas melífluas
consomem-te, matam-te em ânsia ilusória.
Patinha, patinha, já nunca do ínfimo
te irás às esferas; gorou-se-te a glória.
[397]

VIANDANTE CURIOSO

Que será o que vejo? mascarada
sem tom nem som,
ou delírio da vista alucinada?
será esta realmente a venerada
figura de Oberon?

ORTODOXO

Não tem unhas nem tem rabo;
mas com lhe faltar tal sécia,
é, como Os Deuses da Grécia,
um verdadeiro diabo.

ARTISTA DO NORTE

Só faço por enquanto esboços d’arte;
mas cedo, Itália, espero visitar-te.

PURISTA

Onde eu me vim meter! que bruxas depravadas!
só duas, duas só, só duas empoadas!

[398]

BRUXA MOCINHA

Quem é carcassa usa polvilho,
e cobre o corpo o mais que pode;
eu monto nua no meu bode;
quem é gentil não quer mais brilho.

BRUXA MATRONA

Não somos nós tão grosseironas,
que te queiramos replicar;
mas se co’as graças te apavonas,
olha que a rosa há-de murchar.

MESTRE DE CAPELA

Besoiro trompa,
mosquito gaita,
co’a nua pompa
da serigaita
que tendes vós?
grilos e relas
a tempo a voz;
solfas tão belas
sem o compasso
com que vos maço
são bulha atroz.
[399]

O CATA-VENTO (para um lado)

Quem viu nunca melhor sociedade?
tudo moças, perfeitas donzelas!
tudo moços digníssimos delas!
que promessas à posteridade!

(Para o outro lado)

Eu se a terra, enquanto encho um só giro,
se não abre e os soverte por junto,
juro, à fé de quem sou, que barrunto
abismar-me no inferno; e prefiro.

XÉNIOS

Vespões de acérrimos ferrões
cá vimos nós; arredem lá;
morder é a chança dos vespões,
mais de Satã seu bom papá.

HENNINGS

Tem muita graça o denso enxame;
que ingenuidade de vespões!
ninguém lhe chame
maus corações.

[400]

MUSAGETE

Sim senhor; aqui sim, neste bando
de bruxas machuchas
é que eu ando no meu elemento.
As musas confusas
nunca eu trouxe a mandamento.

O EX-GÉNIO DO SÉCULO

«Chega-te aos bons» – diz o rifão;
portanto, agarra-te ao meu rabo;
esta montanha do diabo
é como o Parnaso alemão,
que ninguém pode ver o cabo.

O VIANDANTE CURIOSO

Aquele figurão empertigado,
ventas no ar, olho alerta, orelhas fitas,
quem será? que fareja azafamado?
anda à caça; de quê? de jesuítas.
[401]

O GROU

Nas águas turvas pesco assim como nas claras;
de quaisquer sítios gosto, em sendo à pesca idóneos.
Se o tiveras sabido, à fé que não pasmaras
de ver tão mão por mão um santo com demónios.

UM MUNDANO

Há, sempre houve, e há-de haver, beatos dessa casta
que o int’resse conduz, como a boi, pela soga
qualquer demo os atrai à sua sinagoga,
co’o engodo do lucro; é acenar-lho, e basta.

O DANÇARINO

Outro coro lá vem; não ouvis
tamboris?
Sossegai; não é som de pelejas;
são narcejas
lá ao longe a gralhar nos caniços
movediços.

O MESTRE DE DANÇA

Aquele perneia, que é só o que importa;
dá saltos cá este, que os olhos entorta;
[402]

est’outro, o baselga, pirueta; e nem meio
pergunta se dança bonito nem feio.

O RABEQUISTA

Em toda esta súcia nenhum dos mais gosta;
tomaram trincar-se! irias vê-los à aposta
de mútuos cortejos! à gaita de fole
se deve o milagre; domou alimárias
como Orfeu, à lira casando as suas árias.

O DOGMÁTICO

Nem objecções nem críticas
me hão-de tirar da minha
e escusam de gritar;
o diabo algo é sem dúvida;
se não fosse algo, eu tinha
modo de o acreditar?

O IDEALISTA

Domina-me a fantasia.
Se quanto existe sou eu,
havendo gente sandia,
ergo sou também sandeu.
[403]

O REALISTA

Ser é para mim tormento;
devo aborrecer o ser;
são-me as pernas fundamento
que sinto hoje estremecer.

O SUPER-NATURALISTA

Dou a tudo isto mil gabos;
folgo com estes marmanjos;
pois de existirem diabos
concluo existirem anjos.

O CÉPTICO

Anda após luzes-luzes toda a gente
um tesoiro a buscar sempre escondido;
a dúvida é aos diabos inerente;
fico-me entre eles, que eu também duvido.

O MESTRE DE CAPELA

Rãs nos ervançais, grilos nos relvados,
músicos danados!
moscas e mosquitos!

[404]

que inferneira é esta!
que orquestra!
músicos malditos!

OS HABILIDOSOS

Somos uns padres sem cuidados;
nosso viver é desfrutar.
Quando nos tolhem caminhar
co’os pés no chão, pronto virados,
nas mãos e cabeça firmados,
corremos de pés para o ar.

OS LORPAS

Que bons bocados que outrora
apanhávamos! agora,
a poder de rapapés
foram-se as solas; e os pés
andam co’os dedos de fora.

FOGOS FÁTUOS

Recém-nados dos lameiros
cá viemos mui lampeiros
figurar de cavalheiros
assoalhando estes luzeiros.
[405]

ESTRELA CADENTE

Já fui astro dos céus; caí num mato agreste;
poder nenhum me acode.
Quem reascender-me pode
Do pó em que ora jazo, à cúpula celeste?

OS SÓLIDOS

Arreda! afasta! abram caminho!
guardar de baixo ervas e arbustos!
somos espíritos robustos;
pesamos pois um poucochinho.

PUCK (para o sólidos)

Nada de peso de elefantes
no dia de hoje hoje é mister
que todos vençam em farsantes
ao próprio Puck; e ele o requer.

ARIEL

Se asas tendes vigorosas,
por condão da natureza,
e do génio criador,

[406]

é seguir-me com presteza
ao montículo onde as rosas
dão fragrância e sombra a amor.

ORQUESTRA (pianíssimo)

O sol reaparece; desfaz-se a neblina;
nas canas, nas ervas, por toda a colina
sussurram as auras; desfez-se o prestígio;
de tanta diabrura não resta vestígio...


FINIS LAUS DEO

Index, Quadro XXII