ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO

 

MIL E UM

MISTÉRIOS

ROMANCE DOS ROMANCES

 

Apresentação, revisão ortográfica a actualização do texto por

Silas Granjo

 

AOS LEITORES DO ANO 1900

A

QUATRO ESCRITORES PORTUGUESES

CONTEMPORÂNEOS,

o sr. ...

o sr. ...

o sr. ...

o sr. ...

A

todas as boas mulheres

Oferece

O Autor

 

ÍNDICE

Cap. I – O moinho
Cap. II – Espantoso duelo na escuridão
Cap. III – Esboço de um retrato
Cap. IV – Eloquência de sangue
Cap. V – Como se entrega uma carta a quem não a quer receber
Cap. VI – Delicioso acordar
Cap. VII – Esboço de mais dois retratos

CAPÍTULO I

 

O moinho

Meia-noite no relógio de Aguim. Toda a povoação dorme. A derradeira luz, que palpitava através de cortinas brancas em vidraça meio levantada numa casinha alva e decente, agora apagou-se. É a pousada do mestre-escola; mas as cortinas, o prolixo velar, denunciam antes o quarto da sobrinha, que o seu. Ele, mestre Ambrósio, conta cinquenta anos; ela, a sr.ª Angélica, segundo uns, segundo outros a sr.ª D. Angélica, só conta dezasseis. Ele mói o seu dia entre rapazes rudes e travessos; ela distrai o seu a costurar diante de lindos romances modernos, emprestados às escondidas pela criada grave de sua madrinha e sempre abertos em cima da almofada de costura; e não os interrompe senão para invejar as flamantes galas dos jornais das modas.

*

Meia-noite!

É a hora em que uma fantasia desta idade, inebriada com as exalações do sangue juvenil a ferver em torrentes, magnetizada pelos fantasmas dos heróis e heroínas das novelas, se acolhe ao leito como a um asilo para gozar presente o seu futuro, longe dos olhos e ouvidos que lho profanem, longe da luz que lho descore, longe de realidades terrestres que lho agoirem.

Hora das feiticeiras! Das feiticeiras de ambas as espécies: das terríveis e barbudas, que espipam pelas chaminés a  cavalo no pau da vassoura, para se irem por cima de toda a folha para as encruzilhadas com as suas asas de morcego; das alvas e melindrosas, que voam com as suas asas de anjo sem que nem as estrelas as percebam, para se irem reclinar, entre flores, em paraísos de que só elas têm a chave.

Deixemos pois a donzela no mistério da sua câmara. As trevas, em que de súbito se mergulhou, segredam-nos que nos apartemos reverentes.

*

Só uma semelhança de vida se enxerga em todo o painel campestre e apagado, em que se engasta a povoação sonolenta. É um moinho esguio no alto de um outeiro desabitado: braceja as suas grandes velas brancaças; solta, a quebradas, a sua cantoria melancólica, e espreita, com seus olhos cheios de luz, para o planeta Vénus, que lá de cima lhe sorri não sei que amorosas confidências.

A porta do moinho abriu-se de manso. Um vulto sai; torna a fechá-la devagar, sem ruído; pára, escuta; ninguém o sentiu. Respira... como quem o não faz há uma hora; sacode o ombro para melhor ajeitar nele um fardo com que vem avergado; limpa com a mão esquerda o rosto alagado em suor, sem se deter nem descerrar do punho uma enxada que lhe serve de bordão. Desce, trémulo, a olhar sempre para trás, oitenta ou cem passos da ladeira; pára junto à primeira moita que topa bem emaranhada; larga o fardo, apresta-se para cavar, mas... torna a encarar o moinho e arrepia-se; os dois olhos luzentes estão abertos sobre a moita e sobre ele.

Retoma a carga; rodeia um bom tracto da colina por entre o mato orvalhado até que o odioso espião gigante de pedra e cal lhe haja virado de todo a espalda e se entretenha a observar as estrelas em vez de espreitar os mistérios nocturnos cá de baixo. Cava com rapidez frenética de um febricitante; lança o volume na cova, enche-a, recalca-a; percorre o arredor a afirmar-se nos troncos e pedras que lhe possam servir de demarcação e inquirindo às trevas e ao silêncio se algum ente vivo o não aventaria.

Volta a plantar na sepultura alguns pés de silvas e espinheiros cortados ao longe; e inteirado, enfim, de que nenhum olho, ao passar amanhã, poderá advertir no solo a mínima novidade, toma ligeiro o caminho do povoado.

Conhece-se que algum peso descomunal se lhe vai tirando, a arroba e arroba, da alma, à medida que se alonga daquele moinho onde alguma coisa inaudita se acaba de perpetrar.

 

CAPÍTULO II

Espantoso duelo na escuridão

Entrado no lugar, ou couto, de Aguim, o enterrador misterioso afrouxa insensivelmente o passo não como quem vai sem destino, mas como quem, preocupado de ideias maléficas, se arreceia de que no som do próprio andar lhas adivinhem.

Chegou à porta de uma casa térrea; sonda-a com o ouvido ao buraco da fechadura. Nenhum rumor. Corre a uma e uma todas as suas janelas; toca levemente na última. Ninguém responde.

Imprime um longo beijo na vidraça. Parece desejar que este invisível filho do coração, confundido cone o primeiro raio matutino, chegue direito aos olhos e à alma... de quem quer que ali dorme. Introduz subtilmente pelas fendas uma carta e corta pela primeira travessa, direito à casa onde vimos desaparecer a última luz.

*

Mal parou por baixo da janela do cortinado branco, dá com os dedos um leve sinal, tão leve que só os ouvidos namorados o sentiriam.

Uma figura, em roupas alvas e soltas, assoma ao reclamo, debruçando ao longo da parede caiada uma fita escura com um cestinho na ponta. O desconhecido mete, alvoroçado, a mão na algibeira, procurando alguma coisa, enquanto o aéreo mensageiro vem descendo para a tomar em retorno do que lhe traz. Não a acha; sustém a custo um grito de consternação. Torna a procurar, antes de pôr a mão no cestinho que diante dos olhos se lhe balança como um duende encantador.

O vulto de cima repete gestos de insofrido susto, para que se apresse. O de baixo fica imóvel como estátua. A fita vai subir num ímpeto de despeito. Retém-na com força; e, tirando com mão desfalecida a carta que lhe é destinada, pede, com voz ainda mais desfalecida, a graça de meia hora de dilação para apresentar a sua.

Se é realmente resposta afirmativa o silêncio... responderam-lhe que sim.

O cesto voou como uma divindade de ópera, sumiu-se entre as nuvens de cassa de onde havia baixado e a figura cândida desapareceu sem deixar de si mais leve vestígio que uma ligeira ondulação no cortinado, que para logo aquietou. Debalde se repetiu cada vez mais alto o crepitar dos dedos; debalde alguns psius sumidos o acompanharam; a estância perseverou muda e insensível como um túmulo perante os conjuros da saudade.

*

O amante (e que outrem poderia ser senão um amante o que a tais desoras praticava coisas tais?), desenganado da inutilidade do esperar, passados alguns minutos ia já ausentar-se por onde viera quando viu que no quarto se tornava a acender luz. Com ela se lhe reanimam as esperanças. Aguarda em silêncio, mas nem sombra vê passar que lhas confirme. Só percebe um rugir de papéis, como quem esfolheia pausadamente num livro à busca de uma leitura interrompida.

Embora! Esta claridade lhe infundiu no espírito uma ideia.

Costeia o cômoro silvoso do quintal por trás da casa; onde o acha menos inacessível, transpõe-no à cata de algum recanto escuso onde possa a toda a pressa fazer lume, ler a carta e, com um lápis que traz consigo, responder-lhe.

Introduz-se pela primeira porta aberta nos baixos do edifício; respira com voluptuosidade: está debaixo das mesmas telhas. Procura no bolso uma caixa de fósforos; ouve ao pé de si um estrondo repentino; com a ousadia do terror, estende a mão; soa um grito agudo. É um galo, que tem o costume de acordar, espanejar-se e cantar entre a uma e as duas horas.

– Estou no galinheiro! – diz consigo.

Acende um palito. Não se enganou: a ave soberba, como que para alardear ao invasor que se tem por inexpugnável nos seus domínios, redobra a cantiga. Tanto estrondo, em tão apertada conjuntura, desespera o visitante. Estende-lhe a mão contra o pescoço para lho torcer; o plumoso sultão foge-lhe, mas combatendo; todo o harém se lhe alvorota em derredor; a luz apaga-se-lhe; mas ao último lampejo logrou colher ao inimigo por uma das asas e já não o largará. É uma luta medonha nas trevas, de corpo a corpo, entre dois apaixonados, ambos ofensores e ambos ofendidos. O animal, meio cativo, peleja denodado, com o bico rompente, com a asa que ainda lhe resta livre, com os esporões que esgrime como dardos.

Um herói das Gálias combateu com um herói de Roma e não foi vencido senão por um corvo. O nosso, a quem o terror da sua situação paralisa mais de metade das forças e que a todo o momento imagina ouvir por cima da cabeça passos e vozes de adversários ainda mais terríveis, arranca de um ferro que traz do seio e dá mate ao duelo pela degolação do mais façanhudo galo pedrês que jamais desenterrou minhocas nas planícies da Bairrada.

Reacende a luz; despeja a água do bebedoiro; recebe nele parte do sangue da vítima; arranca-lhe das guias a mais grossa pena; apara-a com o mesmo ferro ainda quente; ateia uma fogueira com a palha do cesto em que uma galinha chocava maternalmente os seus ovos; senta-se sobre o cadáver do vencido; lê de corrida a carta; separa dela a última meia folha em branco e, com a tinta animal que preparou, escreve a sua resposta.

Enquanto escreve, contemplemos ao clarão ondado e fumoso da fogueira este homem singular que o enigmático de todas as suas acções nos está recomendando à curiosidade.

 

CAPÍTULO III

 

Esboço de um retrato

Nunca a mais própria luz poderia ser observado o herói da nossa mui verdadeira história, que a esta, de fogueira túrbida e intermitente. O facho do sol fora nímio alegre; a lâmpada da lua cheia, nímio suave; os resplendores dos lustres e serpentinas, nímio festivais; destoariam de toda a expressão da sua figura. Com as feições dos espíritos atormentados quando o génio da pintura nos descobre as regiões do pranto, nenhuma luz condiz, nenhum reflexo beta com as suas cores senão um luzir indeciso, delirado, misto de escuridão e de fantasmas.

Inculca dezanove anos; a sua pele macilenta pouco mais cobre do que ossos longos e rijos; o espírito é o que no seu composto predomina.

No súbito dos movimentos, no improviso e penetrante do olhar, nas variações contínuas que os movimentos de dentro E lhe imprimem pelo semblante se reconhece que a natureza só lhe deu de matéria quanto bastasse para instrumento a uma ali ma enérgica e impetuosa. A sua estatura, delgada mas esbelta, transcende as marcas ordinárias, posto que um tanto curvada, como de quem na posição do ler ou do meditar contraiu aquele jeito. Cabelos negros, corredios, mais lustrosos que espessos, moldam um rosto comprido, de testa grande e pululante, faces escorridas, olhos pretos, pequenos, radiosos, sob arcaria de sobrancelhas pesadas, recurvas, às quais um nariz longo, fino, recto, serve como de cariátide que as sustenta, entrelaçando-as; sobrancelhas más, dizem as damas lavaterianas, sobrancelhas de ciúmes. Sobre barba redonda, levemente cavada ao meio, boca de moderado rasgue sombreada de bigode e pêra; dentes alvos e bem postos, beiços finos, vermelhos, ardentes, cuidosos, revelando sempre nos seus imperceptíveis movimentos alguma ideia, algum sentimento, alguma recordação ou alguma esperança até no meio do silêncio mais profundo.

O seu trajar, sem fugir da simplicidade campestre, diferença-se contudo entre o dos aldeãos, a cuja classe parece, e não parece, pertencer: calça e jaqueta branca, cinto vermelho não de algodão mas de seda, não apertado em derredor da cintura, senão lançado, com estudada e graciosa negligência, do ombro direito ao lado esquerdo, aí tomado em nó, e deixando flutuar soltas as extremidades, desiguais e franjadas de verde claro; o pescoço, torneado e alto, todo desafrontado e patente, como de indústria; a cabeça, menos coberta que adornada com uma carapuça de fantasia: é um grande lenço de seda escarlate circunrevoluto à feição de turbante oriental.

Algumas nódoas de sangue se lhe enxergam nas mangas junto aos buchos dos braços e uma sombra da mesma cor odiosa se lhe mescla na fronte pálida com as ideias, que por ali se estão vendo atravessar sob a forma de vibrações eléctricas. Proviria este sangue do pequeno duelo a que assistimos, ou terá mais funesta origem? Entraria já com ele? Quem o sabe!...

Tudo é mistério neste homem. Um observador perspicaz, ao primeiro relancear de olhos descobriria... que não descobria nada; que era um desses indivíduos de excepção a quem (à falta de mais próprio nome) chamamos homens, e monstros às vezes, por os não sabermos classificar nas pautas comuns da nossa espécie; uma dessas almas abortivas e mancas segundo uns, segundo outros eleitas e revestidas de asas, que erram a vida social nas mais simples relações e se remontam de hora a hora aonde o vulgo as não alcança, às regiões infinitas do ideal; para quem a vida, como as convenções e os usos a têm feito, dói por todos os lados; que refogem dela para o seio de uma aparente inércia, onde a própria imaginação lhes devora as entranhas como abutre;loucos ou sublimes, sempre abismos, porém abismos a rodear como um sino grande, solitário no alto de uma catedral, que ora desemboca o seu brado para os céus transparentes e sem limite, ora o vaza para a terra e o atufa nos recôncavos dos jazigos.

São matéria-prima de que a fortuna caprichosa faz, segundo lhes dá uma ou outra mão, os grandes génios, os grandes loucos, os grandes mártires, ou os grandes criminosos. O vaso mais ou menos transparente em que se vê andar contido um espírito destes, inspira, como as redomas de um laboratório de alquimista, medo que nos repele e curiosidade que nos atrai.

O autor desta narração experimentou, junto ao indivíduo que retrata, um e outro efeito; subjugou o primeiro; entregou-se ao segundo; perscrutou, a poder de perseverança, até onde lhe foi dado e tem para si que alguma coisa chegou a decifrar no confuso objecto dos seus estudos, como no progresso da sua narração espera de comprovar. Por enquanto não é tempo; não convém ao interesse do livro o antecipar. O íntimo do personagem por suas mesmas acções se retratará.

Para concluir este leve bosquejo, só diremos agora que no seu todo se entrevia confusamente uma certa dissonância entre a natureza e as circunstâncias, uma espécie de escárnio da fortuna contra as disposições nativas e imperiosas, e uma rebeldia permanente do génio e carácter contra as tiranias do acaso. Disséreis um leão em jaula; disséreis um rei cativo a puxar um carro de triunfo e a protestar tacitamente contra o seu opróbrio.

 

CAPÍTULO IV

Eloquência de sangue

Terminada a carta sobre o joelho, conchega, atiça e reforça pela terceira vez a fogueira; inclina-se para ela e lê o seu improviso a si mesmo como a um juiz indulgente que de linha a linha aprova quanto escuta:

«Mulher sem entranhas!

O meu peito de homem não basta a tantas emoções. A carta que lês é escrita com sangue... meu. Meu? Teu; devo antes dizer teu.

Esta noite, em que eu não balancei em cometer os primeiros crimes da minha vida para me habilitar a obter-te, esta noite vai ser uma noite sinistra. O punhal está apertado na minha mão. Ou o voto solene do amor, de um amor imenso, infinito, único... ou a minha morte. Escolhe.

Eu não saberia resistir à tua indiferença.

Tu dizes-me que me viste, no templo, lançar por vezes um olhar significativo a alguém que tem a honra de pertencer ao teu sexo. Chamas-me monstro de infidelidade e de perfídia, e acrescentas que amores de meias te revoltam.

Mulher, mulher, compreendo o teu artifício. Tu não procuras senão um pretexto para te desligares da tua palavra, condenares-me à tua desesperação e ao suicídio, e ires depois insultar com o teu desprezo ou com a tua compaixão o meu túmulo. Quem sabe se uma nova chama... Ah! A minha cabeça perturba-se num dédalo de conjecturas mais desesperantes umas que as outras e as minhas vistas já se voltaram involuntariamente duas vezes para o poço do teu quintal. Se não fosse o receio de lhe estruir a água e condenar assim a pagar por ti quem não tem culpa, eu me teria já precipitado no seu abismo apesar da frialdade da água e de eu estar suando de amor, de raiva e da mais maligna de todas as febres, da febre do ciúme... Mas não; não.

Se eu me deitasse àquele poço, cuja fascinação me ia ganhando, a causa da minha morte ficaria desconhecida, quando eu quisera que ela fosse notória a todo o mundo. A minha memória se veria, ainda por cima, caluniada: os meus inimigos espalhariam porventura que eu ali caíra sem querer, andando (que horror!) no parreiral que o tolda a procurar, como um vil, os cachos das uvas ferrais. E pescado com uma fateixa, estendido para aí para cima das urtigas como um cação a escorrer água, o meu trágico fim não teria aos teus olhos o pavoroso, o sublime, o sanguinolento que eu desejo de lhe imprimir.

Pensa bem nisto: a minha razão vacila como este fogo de palha a que eu te escrevo; e se ela se apagar de todo!?

Mulher, eu te emprazo como assassina para o tribunal do Todo Poderoso.

Sabes tu bem o que é morrer de ferro? Não; tu não o sabes; tu nunca morreste de ferro, nem eu; mas eu sei-o, eu vi-o: é uma coisa medonha. Como golpe de ensaio, eu degolei, eu mesmo degolei, com esta mão, furiosa por tu a repelires, degolei... (e amanhã poderás contemplar o seu cadáver) degolei o teu galo pedrês. Vi correr o seu sangue com embriagamento; vi-o arquejar, estorcendo-se em convulsões, estirar a perna e acabar. Por Deus, que é um espectáculo horrendo! E eu estou resolvido a passar por onde ele passou. Sim, sim, mas depois de te assassinar também a ti, ainda que não seja senão com o caco das galinhas pela testa, porque não será dito que tu ficarás com todas as vantagens de viva para dares a tua mão a quem te aprouver, enquanto eu... eu... nem já serei eu, serei... Oh! As minhas lágrimas sufocam-me e eu escrevo-te de joelhos... Perdão! Perdão!... Perdão!... Perdão!... Sou um insensato, um miserável; que ousei eu pensar? Tu!... Eu! Oh! Ah! Jamais... Jamais...

Ainda é tempo. Refloresçamos para a esperança, para a felicidade.

Promete-me conservares-me o teu coração de mulher e eu parto a conquistar uma posição, um nome e uma fortuna que me permitam voltar um dia a Aguim com a fronte alta, pedir-te afoitamente a teu tio e conduzir-te por entre as invejas de todo o povo à face dos altares. Ama-me durante a minha ausência e confia à minha coragem o cuidado dos nossos destinos. As minhas ambições são mais altas do que tu podes imaginar; as minhas forças, iguais às minhas ambições; o porvir que nos aguarda é sem limites como a imensidade; sem termo, como o infinito; sem fundo, como... como as coisas que não têm fundo.

Esta carta, traçada aqui à pressa na tua capoeira para substituir a que perdi (não sei como) no caminho, por vir correndo, esta carta que eu invejo por se achar dentro em pouco na tua presença e que te leva aqui, mesmo em cima deste borrão, um beijo de fogo, vai ser atirada pela tua janela dentro se o teu bárbaro cestinho desdenhar vir recebê-la, e eu... volto para o mesmo esconderijo.

Não me respondas por escrito, adorável Angélica; vem tu mesma pela manhã, enquanto o teu respeitável tio estiver entretido com os inocentes, dizer-me de viva voz o que eu devo temer ou esperar. Não receies que eu te comprometa; demorar-me-ei até à noite para sair. Faz só com que não seja o teu doméstico quem venha deitar de comer às galinhas; vem tu mesma; e para provar de que te não sou de todo indiferente, traz-me, se quiseres, alguma coisa para almoçar. Adeus. Outro borrão para outro beijo; e cem, e mil, vida do meu coração, coração da minha vida.

Recordo-te que vou ficar solitário entre estas aves, chocando as minhas ideias melancólicas, à espera da minha sentença de vida ou morte.

Na morte e na vida sempre teu

Rui, o SEM VENTURA.»

*

Fecha a carta. Volta para baixo da janela; reitera o chamamento. Vê anda a mesma luz, mas a vidraça já descida. Não o ouvem, não o podem ouvir.

 

CAPÍTULO V

 

Como se entrega uma carta a quem não a quer receber

Já deram as três horas na capela de Nossa Senhora do Ó. Não há tempo que perder; a carta é indispensável que se receba, daí pende a sorte de duas vidas. Mas como?

Depois das façanhas temerárias que nesta noite consumou, não se dirá que um frágil vidro lhe serviu de estorvo. A resolução é desesperada, mas é única para tão angustiado aperto.

Embrulha no papel um seixo de arrátel; afasta-se quanto a largura da rua lho consente; alça o braço e, com risco de fazer o dito verdadeiro e meter a abrasada epístola pela testa de Angélica dentro até à nuca, dispara o tiro.

Um baque no sobrado e um grito feminil misturaram-se a súbitas com o retintim dos vidros fracassados. Rui, impossibilitado, com o pavor, de conceber projecto algum novo, seguiu maquinalmente o último com que viera. Como se no mundo não conhecera outro caminho, retomou o do quintal; galgou de um pulo o valado por cima de umas piteiras que ninguém em dia claro arrostaria e em dois saltos achou-se outra vez dentro no seu esconderijo.

*

Se a fogueira se não tivesse já extinto, as galinhas haveriam podido contemplar à sua vontade a imagem do terror no grau supremo. Bagas de suor frio o inundam em cascata; todos os membros lhe abanam desencontrados; desordenam-se-lhe as feições; os olhos em alvo parecem petrificados; o queixo gira convulso em todas as direcções; os beiços brancos ora se apertam, ora se arqueiam em abertura desmedida; pela grenha dir-se-ia estarem passando com ondas tempestuosas uma corrente galvânica. Todos os sentidos se fundiram no do ouvido: só por ele pode o infeliz ser avisado do que se passa lá por cima.

Assassinou a Angélica? Pôs público o segredo dos seus amores? Expô-la e expôs-se aos rigores de um ancião para quem a honra e o bom nome da sua família são o maior tesoiro? A durar minutos a incerteza, não haveria existência tão ferrenha que lhe resistisse; felizmente não durou senão segundos.

*

Cai de joelhos, apertando as mãos sobre o peito, rindo e chorando. Percebe distintamente, por cima da cabeça, no quarto mesmo de Angélica, um andar pausado, manso, de todo incompatível com cena trágica; logo após... outro mais rápido e pesado, como de tamancos, e chegando de mais longe.

Era o mestre-escola que, despertando ao repentino estrondo, não se dilatara mais que o necessário para enfiar calças e camisa e acender uma palmatória, e vinha saber ao quarto da sobrinha que novidade acontecera e se porventura fora sonho dele um grito que se lhe afigurara ouvir.

Angélica, pondo na voz serenidade e fechando por dentro a janela, conta-lhe como, estando ainda a seroar, veio da rua um seixo que espedaçou dois vidros e por um triz não lhe bateu.

Rui acaba de respirar.

Depois de algumas conjecturas do velho (muito escusadas para a donzela, pois que tinha a explicação do enigma muito bem dobrada e guardadinha no seio); posto e assentado de pedra e cal por mestre Ambrósio que havia de ter sido aquilo travessura de algum dos meninos a quem na véspera ministrara uma roda de bolos por lhe andarem às uvas e feita por ele uma pregação, autorizada com várias sentenças e exemplos, sobre os perigos de ter de noite abertas as janelas, cada um se retirou para repousar o restante da noite: o tio para o seu quarto; Angélica para a sua cama, com luz que ressumbrava pelos resquícios do sobrado; Rui para dentro de um balseiro em que havia ainda um resto de folhelho do ano passado, que (à falta de melhor) lhe podia muito bem servir de enxerga, de cabeceira e de coberta.

*

A Providência devia-lhe alguns instantes de conforto depois de tantas horas de amargura; com mão generosa lho liberalizou.

Antes de adormecer percebeu, indubitavelmente quanto a ele, que a sua carta estava sendo lida, depois relida, depois era dobrada, depois metida debaixo do travesseiro; logo as fendas do seu tecto cessaram de luzir.

Ainda se conservou a escutar, encostado ao cotovelo e colo alto; mas nada mais notou bem distinto. Quis persuadir-se de que a ouvia suspirar; porém, com o tropel que dentro lhe fazia o coração aos baques, ficou sempre em dúvida se eram suspiros da beleza se o ressonar de alguma galinha velha.

Só muito tarde veio o anjo do sono pairar sobre Rui, «o sem ventura», no seu palácio de Diógenes. Forcejou ainda para repeli-lo; receava perder ou alguma palavra confusa de amor que abortasse de entre um sonho virginal ou, quando menos, os sons com que um leito, contemplado em espírito, poderia revelar-lhe um repousar agitado, curto, incompleto, como ele, talvez no seu egoísmo de amante, o desejava à única moradora do seu presente mundo.

Mas o anjo propício, que orvalha o esquecimento e mudo alívio de penas sobre todos os entes sensitivos, depois de ter inteiramente triunfado no aposento superior, baixava e apertava cada vez mais os seus giros em espiral descendente sobre a cabeça de Rui. Já com as virações das suas asas lhe fazia vacilar as imagens em derredor; já com a ponta delas lheroçava, subtil, pela superfície das ideias amortecidas, lhas fazia voltear em turbilhão por entre as actuais, que, perdendo assim o nexo e a lucidez, iam desaparecendo a uma e uma. Enfim, como a serpente que enleia e sufoca depois de fascinar, abraçou-o por inteiro e submergiu-o na mais profunda insensibilidade.

Dorme, dorme em paz, pobre Rui. Instantes são esses que subtrais a cuidados e remorsos.

 

CAPÍTULO VI

 

Delicioso acordar

Rui dormiu horas. A médica universal compraz-se de prolongar a muito coração chagado o uso daquele seu bálsamo supremo que, se os não cura, os conforta e os impede de gangrenar.

Era já alto dia quando acordou.

*

Ergueu-se em pé na sua cama extraordinária, procurando reconhecer o seu incógnito aposento, quando já, intrometidas pelas suas juntas devassas da porta carunchosa, borboleteavam pelo chão e paredes as sombras movediças das parras e os raios do sol lá do mundo, do sol, segundo bálsamo vivificador depois do sono. O instinto da vida, que as trevas da noite às vezes desvairam ou obtundem, ressurge sempre, ao primeiro acordar, com uma energia nova e com toda a voluptuosidade de uma convalescença inesperada.

O mancebo, à vista das cinzas e do sangue, testemunhas dos seus martírios, torna logo a atar o quebrado fio das suas mágoas e admira-se de as achar mais revestidas agora de esperanças do que as deixara.

Angélica não pode eximir-se ao convite escrito com o seu sangue; Angélica virá; talvez está chegando. Daqui a um momento se verão transparecer por aquelas frestas, que só despedem agora luzes e verdura, um vestido branco, mão trigueira e formosa, alguma nesga de um sorriso e um refulgir instantâneo de olho preto namorado. Sim, aquela porta vai-se abrir; ele se arrojará aos seus pés, ela o erguerá com bondade, dissimulando mal a sua turbação e debalde ensaiando meneios de enfadada e de suspensa; ele se confessará monstro; ela irá para se ausentar; ele ameaçará trespassar-se; ela o tomará nos braços; as lágrimas de ambos se confundirão e... almoçarão juntos. A sua felicidade será completa.

Era um belo romance com todos os seus acessórios, como os desejos na solidão os sabem e costumam improvisar e colorir.

*

Para enganar o tempo, sempre difuso e tedioso a quem espera, saltou fora do balseiro, retocou todos os pormenores do seu trajo fazendo espelho da sombra; varreu as cinzas, tapou com terra os vestígios do sangue; sumiu o cadáver da vítima.

Soavam passos pelo piso superior; mas nem eram como uns levezinhos que ele sabia nem por cima da sua dorna, no quarto dos seus feitiços; por lá a noite parecia durar ainda. Nos ténues fragmentos de falas que para baixo se peneiravam, nenhum vinha também que se lhe apegasse ao coração. O problemático almoço representava-se já ao juvenil apetite de Rui numa distância!! Como prelúdio, foi bebendo a um e um, à saúde da bela dormente, quantos ovos as suas galinhas lhe puseram.

Refocilado com este alimento ao mesmo tempo do estômago e do coração, tornou por prudência a recolher-se ao entrincheiramento da noite, donde (segundo o que à porta assomasse) facilmente podia aparecer ou retrair-se. Era um arbítrio em todo o caso mui prudente aquela emboscada assim de caçador, para logo o experimentou.

Abre-se a porta a súbitas e quem entra a soltar as galinhas não é outrem senão André, o criado velho da casa, excelente modelo para um retrato de Herodes; homem de canelos velhos, pulso teso e gados ressequidos, a quem mestre Ambrósio, nas execuções solenes, que não vinham raras, costumava delegar a férula, certo e certíssimo no desempenho, que transcendia sempre o programa dado. Uma dúzia de palmatoadas puxadas por André com o pé atrás, beiço mordido e testa crespa, valia aos olhos fechados dúzia e meia em quantidade e em qualidade uma grosa.

Rui, que muitas vezes lhe passara pela jurisdição enquanto andava no ensino, Rui, posto que tantas mudanças houvesse feito de então para cá, ainda não podia encarar de longe naquela figura sem um tremor involuntário. Tão superior a todos os homens da freguesia noutros particulares, nisto era covarde e supersticioso como qualquer criança.

O sr. André, rosnando e ralhando sempre só para satisfazer a consciência, pois não supunha que alguém o ouvisse, enxotou as aves para fora, procurou os ovos, que não achou, perguntou a si mesmo pelo galo e ia já visitar o cesto da deitadura quando de cima foi chamado à pressa para abrir a porta da rua, que batiam a ela havia meia hora. Sem este fortuito acidente, quem sabe o que a achada de uma deitadura estruída haveria dado de si? Desgraças e venturas não pendem sempre remotamente em causas mínimas?

*

Quando André saiu e fechou (sem saber porquê) a porta após si, Rui, o filho da fatalidade, levantou-se do folhelho como de um sepulcro, embaçado, amarelo, perseguido por uma turba-multa de espectros, entre os quais predominavam o do galo tiranicamente supliciado, os dos seus inocentes filhos mortos ao limiar da vida e o do carrasco André, truculento, armado ora de palmatória de pau santo, ora de um cajado de marmeleiro capaz de derreter uma das estátuas chinesas vistas por Fernão Mendes, de quarenta côvados e de ferro coado.

Foi seu primeiro impulso fechar os olhos a todas as considerações e arrancar um voo da dorna à porta, da porta ao valado, do valado ao fim do mundo. Houvera-o feito e dado provavelmente com isso rumo diverso a todo o seu futuro, se um encantamento o não viesse enraizar onde se achava.

Sentiu abrir-se a janela do quarto de Angélica; viu resplandecer por cima da cabeça, como um celeste auspício, uma lista de sol doirado; sentiu repercutir nas fibras íntimas do peito um pisar macio de pés de sílfide. Enfim, como cem léguas ao mar se goza das delícias de Ceilão antes de a descobrir pelo aroma que se aspira das caneleiras, conheceu a existência e vizinhança da divindade por frémito de roupas, pelo arrastar deste ou daquele móvel, pelo rugir de papéis, cair e levantar de livros, soído aveludado de pente ao longo de cabelos espessos e compridos, por umas revelações perfumadas de toucador, enfim, por vozes articuladas, perceptíveis, doces, como tudo que pertence à mulher.

Bastou a Rui ouvir-lhe as primeiras palavras, as quais não foram mais que uma resposta ao cordial, ao avito «salve-te Deus» de mestre Ambrósio, para conhecer que, se Angélica não baixara ainda ao seu limbo era porque um pingue sono (como o dele), resultado talvez (como o dele) dos violentos abalos da véspera, a havia até então senhoreado. Cada uma das suas frases, bem que todas vibrassem no ouvido como extremada música, e do ouvido se coassem para a alma como poesia, cada uma das suas frases trazia ainda consigo uma espécie de invólucro de sono que, entibiando-lhe o resplendor, lhe refinava a graça. Eram como arrebóis da manhã com os seus vaporzinhos a desfazer-se; eram como aqueles frutos a cujas cores incendidas forma véu transparente uma penugem mui macia e delicada.

Outro descobrimento conjectural fez ainda Rui nestas vocais primícias com que a sua amada estreava o dia novo: os sons, os graus de força e de velocidade, as pausas e desinências do seu falar, nada traía agastamento, enfado ou mau humor; pelo contrário, juraria que o prazer lhe gorjeava, saltitando no coração como o seu canário na gaiola, desde que lhe fora patente o astro esplêndido deste belo dia e, a não tomar aquilo pela quinta essência da ironia, por um acinte da mais artificiosa crueldade (o que em dezasseis anos, e em Aguim, se não devia supor), provava irrefragavelmente haver a epístola produzido o suspirado efeito.

– A Mariquinhas da Eufrásia, que lhe quer falar – diz à porta do quarto uma voz da qual os diminutivos e os nomes feminis parecem fugir por mútua, por invencível repulsão (pelo menos, assim se figura ao ouvinte subterrâneo); é a voz do preboste, ou saião, André.

– A Mariquinhas da Eufrásia? Que me quer? – perguntou Angélica.

– Ela o dirá – tornou o velho. – Naturalmente, alguma esmola; parece que a mãe está cada vez mais doente.

– Diz-lhe que entre para aqui. Meu tio já abriu a escola?

– Vai a isso; acabou agora de almoçar. Esteve à espera de Vossemecê mais de duas horas; não quis que ninguém a chamasse; diz que andou por cá esta noite o diabo, que a não deixou dormir.

– É verdade...

– É verdade, é; eu lá via pedrinha. O sr. seu tio vai agora entrar com ela pela escola dentro, a ver se conhece pela cara o autor da brincadeira. Se foi algum deles, deixe-o por minha conta: hei-de-me fartar uma vez de dar palmatoadas. Se chego a descobrir o herói, seja ele quem for, nem que seja à missa do dia...

– Que lhe fazes?

– Que lhe faço?... Nada. Seu tio bota para os pequenos, eu cá...

– Tu lá...

– Eu cá tenho outros barruntos.

– Sim? Então de quê?

– De quê, não sei. Deixe caçar a furoa, veremos o que sai.

Rui tinha-se ido insensivelmente acachapando e, já no fim desta frase, estava sumido no folhelho.

André saiu para mandar entrar a rapariga e Rui tornou a erguer-se com cem orelhas, como a Fama de Virgílio, para escutar uma conversação que logo conhecereis quanto lhe devia interessar.

Mas saiamos um momento do pé dele para conhecermos as duas figuras desta cena; ambas têm que se apresentar muito na nossa história.

 

CAPÍTULO VII

 

Esboço de mais dois retratos

Angélica nascera na cidade do Porto, onde seu pai, amigo de infância e cunhado de mestre Ambrósio, vivia de um pequeno emprego; a mãe expirara poucos dias depois de a dar à luz, deixando-a recomendada numa carta de ternas despedidas ao amor do seu querido irmão Ambrósio.

Duas razões, ambas maternais e ambas aprovadas por seu marido, a induziram àquele passo. Uma aldeia no centro da Bairrada convinha mais, por todos os modos, que a segunda capital do reino, à criação física de uma menina e sobretudo à educação moral de uma donzela. Um tio celibatário, caseiro, mestre de profissão e afamado pelo bom concerto de seus costumes, havia de suprir menos imperfeitamente a falta que nada supre, a falta de uma pobre mãe, do que um pai viúvo, a quem as suas outras obrigações tolheriam o desempenho destas.

O pai, ainda supondo-lhe em grau heróico o amor paterno, por isso mesmo se tornaria porventura o mais perigoso instituidor.

Ainda talvez havia terceira razão, mas dessa não rezava a carta: era a esperança de segurar assim o testamento do mestre em favor da inocente, órfã, concentrando desde já nela todas as suas afeições. Assim se prevenia à infeliz um tal qual dote que, junto à formosura e às peregrinas qualidades morais que a moribunda se aprazia de lhe antever, lhe atrairia pretendentes e lhe proporcionaria entre eles o escolher.

O professor, que era bom homem, aceitara gostoso um encargo por entre cujos espinhos, bem previstos, deviam nascer flores para a coroa das suas cãs. Sua irmã, a quem sempre amara, renascia deste modo para lhe cerrar os olhos a ele, sobreviver-lhe e continuar na aldeia o nome honrado da sua família, que aliás grande perigo corria de se extinguir. Resolvera ao saudoso cunhado a prometer-lhe que lhe entregaria a menina apenas saísse da ama e, para aumentar em si direitos com que o pudesse obrigar um dia a cumprir a palavra, tinha-lhe mandado, com um belo enxoval, uma procuração assinada e reconhecida para ser ele padrinho do baptismo.

Cheio de minuciosa previdência, como quem se sentia investido do sagrado carácter materno, procurara ele mesmo para a inocente o nome de boa estreia que lhe puseram, e a madrinha, segundo os seus cálculos, mais excelente dos arredores, a Sr.ª D. Matilde, fidalga exemplar de todas as virtudes, riquíssima em bens de raiz, prometendo por seus achaques pouca duração e desde que enviuvara (muitos anos havia) refugida da capital para a formosa quinta dos Álamos, solar da sua casa e distante de Aguim apenas uma légua, para as bandas do Buçaco.

Desmamada Angélica, ajustou-se entre a madrinha e o padrinho escreverem ao pai exigindo a realização do ajustado; e, para lhe não deixarem aso a procrastinações com que tudo afinal se viria a malograr se o pai contraísse, por hábito, a necessidade da presença da filha, sedução de mês a mês, de dia a dia mais urgente, D. Matilde mandara-lhe, logo após a carta, a sua criada grave, pessoa de toda a confiança, encarregada de trazer e velar o depósito precioso.

O pai havia-se tristemente rendido àquelas afectuosas violências e desde então Angélica não conhecera mais que a modesta pousada de seu tio ou o sumptuoso palácio de sua madrinha, adorada numa e noutra parte e reivindicada com ciúmes assim que se passavam quinze dias sem ter feito, na ajaezada mulinha da fidalga, acompanhada da sua aia e do seu escudeiro, aquela aprazível romaria de um amor a outro amor.

Algumas vezes se tinham levantado tempestades (posto que de pouca dura) entre D. Matilde e Ambrósio, sobre a retenção e futura posse da sua jóia comum. Cada um alegava em seu favor razões de preferência que lhe pareciam sem réplica: Ambrósio era tio, D. Matilde era senhora; Ambrósio vivia atormentado de filhos alheios, D. Matilde nem alheios os tinha para lhe alegrarem a solidão, para lhe remoçarem com os seus folguedos os olhos cansados de chorar. Enfim, a casa do professor carecia de animação e de arranjo, quando nela se achava só; mas a casa da quinta dos Álamos fora das duas a primeira em que a menina entrara; nela se detivera sem interrupção os primeiros seis meses e só nela é que podia aperfeiçoar-se nas prendas com que se realçam os méritos de uma donzela bem nascida e cujos rudimentos já ali mesmo tinha achado, tais como bordados, flores, música e mil graças sem nome que só em trato de senhoras, e por imitação, se adquirem.

Destas porfias de amorosos extremos, escusado será dizer que resultou o que sempre em tais casos acontece: uma educação incompleta, incoerente e viciada em pontos capitais.

Angélica era senhora da sua vontade, frívola, um tanto vaidosa. Costumada a ver-se obedecida nos mínimos desejos, não conhecia as resistências contínuas que os homens e as coisas opõem à realização de cada uma das nossas ideias e imaginava que em qualquer parte, em todo o tempo e por mais diversas que fossem as circunstâncias, tudo se devia submeter às suas fantasias.

Este erro comuníssimo, inevitável em anos inexpertos, era nela aumentado pela radiosa perspectiva da tríplice herança que lhe impendia: a paterna, que pouco era, a do tio, que sobrava da sustentação, e a da madrinha, que deveria representar as galas e os prazeres.

A lição das novelas e romances a-la-moda tinham rematado a exaltação do seu espírito. Nenhum objecto se lhe representava com a sua forma natural; aumentava nuns, diminuía em outros, destruía em todos as relações conhecidas, substituindo-as pelas que melhor conformavam com os seus gostos cambiantes, com a sua infatigável volubilidade.

Ria interiormente das desigualdades sociais, ainda que na maior parte das hipóteses, quando estas desigualdades eram em seu favor, já lhe não pareciam tão absurdas. No amor, sobretudo, era uma perfeita republicana. Um cortador, ou um mendigo, dotado do que pode aprazer aos sentidos e capaz dos delírios tempestuosos da paixão, era para ela preferível a um morgado, a um príncipe, a quem tais qualidades falecessem, e não duvidaria recebê-lo por adorador, alçá-lo ao seu carro triunfante e ir sumir-se com ele, se preciso fosse, nas entranhas do deserto mais silvestre.

A cada novo livro que devorava concebia um novo protótipo de amabilidade para um e para outro sexo, o que a levava a metamorfosear-se quotidianamente e, por consequência, a dar quotidianamente aos seus afectos diverso emprego.

A não ser um bom lastro de altivez que a Providência lhe calcara no fundo do coração, quem sabe que de naufrágios haveria já padecido, porque as indulgências da madrinha e do padrinho mui pouco suficientes pilotos eram para tão difícil mareação!

Graças a este orgulho e a este sentimento que, sem ser virtude, serve a muita virtude de guarda e defensor, Angélica estava ainda nos seus primeiros amores se não quisermos contar os dos romances, porque então, desde Telémaco até Rui, mediavam já dúzias e centenares.

O seu físico (devemos confessá-lo) não era tão admirável, tão superior ao comum como o seu génio e as suas faculdades. Estatura regular e bem conformada, olhos pretos e grandes que muitas vezes se alavam para as alturas até ficarem em alvo, como se entre os resplendores das estrelas e os seus existisse alguma correspondência magnética, ou como se o prosaico do mundo circunstante os enfadasse. Um sorriso irónico apontava de vez em quando aos seus lábios de carmim retinto e descobria uns reflexos de pérolas no meio de quaisquer conversações em que de ordinário só era ouvinte; o que tudo dava à sua fisionomia uma expressão que repelia a confiança das mulheres e nos mancebos acovardava a simpatia. Só uma grande humildade, ou uma altivez indómita, se afoitaria a tentar com ela o romance histórico de uma campanha amorosa. No demais, o espelho de vestir, dádiva de sua madrinha, colocado no fundo do quarto, aos pés da cama de armação e em que ela vinte vezes por dia se visitava para ver alguém da sua espécie, o espelho nada encontrava nela que valesse muito a pena de se trasladar tantas vezes e com tão nítida exacção. Nariz de génio arrebatado; cor trigueira como a dá o sol dos campos ainda àquelas a quem a penúria não força à aspereza dos trabalhos rústicos, e de mistura com esta cor, uma ténue demão de palidez, reflexo porventura da estudiosa lâmpada de todas as noites, porque é bom dizer às nossas leitoras, e a todas, que as lâmpadas, quer no gabinete solitário, sombrio, silencioso e cheio de visões, quer nas salas ruidosas, cintilantes e tumultuárias, são amigas pérfidas que, manso e manso, sorrindo e lisonjeando, lhes vão comendo as cores, esse delicioso florejar da saúde. Rosas encarnadas, frescas, naturais, só desabrocham nas faces pelos reflexos da alvorada; essa hora, bênção do amor divino e primavera do dia, até as derrama pródiga à cútis exangue de tantos frutos que para serem buscados e colhidos não necessitavam da lindeza.

A aurora não tinha a fortuna de conhecer a nossa heroína nem a honra de ser dela conhecida, salvo pelas descrições fantasiadas e escritas pelos seus autores queridos verosivelmente à luz também do candeeiro.

Em que o espelho tinha mais e muito que fazer era no trapo.

Posto que D. Angélica (é impossível recusar-lhe o Dom quando se tem na lembrança o seu guarda-roupa) não costumasse aparecer em público senão aos domingos na capela do lugar, aonde entrava pelo braço de mestre Ambrósio e por entre as alas dos filhos dos lavradores, todos de chapéu na mão, e as únicas visitas que fazia fossem à quinta dos

Álamos, onde era recebida e tratada como filha, conseguira todavia, com as incessantes liberalidades de D. Matilde, reunir a mais completa colecção de vestidos de todas as cores, feitios e fazenda, de xailes e lenços de todos os tecidos e padrões, de chapéus, de luvas, de meias, de flores, de toucados de todos os elementos, enfim, de que se compõe o que os Antigos chamavam o mundo mulheril.

Todos estes objectos eram estudados, combinados de mil maneiras novas à chegada de cada figurino, desfeitos, I figurino, recompostos, experimentados e trazidos por algumas horas ou meios dias em cada uma das suas sucessivas transformações.

O tio, cujo gordo bom senso não falhava senão a respeito da menina; que tudo quanto havia de áspero (que aliás era pouco) o exalava na escola em girândolas de palmatoadas e que, em se dirigindo para o gineceu da sua casa, ia sempre manso como a cobra velha que larga a peçonha antes de chegar à fonte; o bom do tio era o primeiro a aplaudi-la a cada nova mutação, a encarecer-lhe o bom gosto e a gentileza.

– Bom, bom – dizia ele em si e repetia-o com um tom bestialmente filosófico aos seus amigos. – Enquanto ela assim se entretiver, não se há mister de Argos para a guardar. É o símbolo da inocência: brinca ainda como quando tinha sete anos; a única diferença é que a sua boneca para vestir e despir, de anos a esta parte, é ela mesma.

O quarto condizia com a dona. As paredes mandara-lhas a sua madrinha forrar de papéis franceses, representando a história sentimental de Paulo e Virgínia.

Ricos vasos de louça da Vista Alegre sempre carregados de flores, segundo cada estação as oferecia, ornavam o mármore do toucador, povoado de cristais elegantes contendo as essências mais custosas. O leito, grande berço que a um sopro se embalaria entre as suas colunas de mogno com doirados, sob um pavilhão artisticamente panejado de cassa e rendas, tinha por cúpula um Amor a alumiar e olhar para baixo com um sorrir malicioso, mas como que a proteger ao mesmo tempo com as suas amplas asas argênteas estendidas. Mestre Ambrósio gabava muito aquela figura, que representava (quanto a ele) o anjo da guarda a rir por ter furtado o tição ao diabo.

Toda esta aparatosa máquina assentava os seus pés rolantes sobre um largo tapete de preço em que a mão primorosa do artífice havia timbrado em resumir a Primavera e no qual se podiam admirar todas as flores e outras muitas mais.

Agregai a isto um rico sofá de molas, um indispensável de costura para vinte páginas de inventário, uma pequena biblioteca envidraçada, o espelho de vestir que já sabeis, e tendes por alto o templo da divindade do nosso Rui, o paraíso cujo antípoda é o galinheiro, com a sua cuba e cama de bagaço.

Para poder figurar sem vergonha entre quartos de casquilhas da corte só lhe faltava que a janela, mesquinha e de forma aldeã, que o sobrado, de pinho já gasto e descosido, se tivessem feito desaparecer, a janela convertida num balcão espaçoso, o pavimento num mosaico de madeiras preciosas e reluzentes; mas tudo isso, que era parte integrante do prédio, nunca o mestre se resolvera a mandá-lo fazer respondendo às instâncias da sobrinha, que ninguém se ocuparia nunca em olhar para o chão em que ela estivesse e que a janela bem suficiente luz lhe dava para ele se enlevar em contemplá-la.

Com estas inspirações de espírito salvara a bolsa, que não era tão corredia como a de D. Matilde, e o aposento da nossa leoa ficara como as mais belas coisas do mundo: incoerente e contraditório.

A rapariga, que parou à porta onde o velho André a largou mostrando-lhe com o dedo sua ama que nesse momento lia, Mariquitas, era a quase todos os respeitos o contraposto de Angélica. Ela, só, ignorava que tinha de seu um rostinho que logo ao primeiro encontro cativava, que valia bem um dote e com que todos os rapazes da freguesia folgavam de sonhar, o sonhavam muitas vezes. Não tinha espelho que lho dissesse e quando se ia à fonte ou ao rio não era para se mirar, como as pastoras dos idílios, senão para encher o cântaro ou bater e esfregar a roupa.

Dado só tivesse uma primavera menos que a senhoril consanguínea do professor, parecia ter menos dez invernos; isto é: parecia ter apenas os seus quinze. Enquanto à outra, quem não soubesse o que uma alma ardente envelhece o corpo, calcularia vinte e tantos.

Mariquitas era toda viço. O chapéu de feltro preto e abas grandes, a saia de serguilha safada mas limpa, as roupinhas de chita escura e o lenço branco, muito branco, repregado ao pescoço, constituíam o seu vestuário da semana e dos domingos, do Estio e do Inverno. Não davam para mais as posses nem a mais subiam também as ambições.

E para quê? Detém-se alguém a cobiçar as folhas em que vem mal envolto um fruto raro e encantador? Por baixo daquele pobre lenço arfavam tesoiros; dentro daquelas roupinhas adivinhava-se um coração paciente, amoroso, isento de desejos ruins e cuja serenidade, quase folgazã, transverberava no aspecto, nos movimentos e nas falas.

Angélica, fazendo-lhe sinal para que entrasse, reclinou-se desdenhosamente sobre os coxins elásticos do seu grande sofá cor-de-rosa; fechou, depois de acabar de ler ainda algumas linhas, um volume da Pulquéria de George Sand; pô-lo junto de si; lançou a furto um olhar ao espelho em que as duas figuras se estampavam, com o que esqueceu por um momento o seu habitual sorriso e, fazendo ondear em silêncio o bico do pé calçado de seda pelo pavimento, interrogou com os olhos a Mariquitas sobre o motivo da sua visita.

A aldeã, acanhada com tudo que via em derredor e com aquele mesmo acanhamento corando ainda mais, tirou do seio, com todo o vagar e a tremer, um papel escrito.

Angélica, apenas o enxergou, estendeu irreflexivamente a mão para o tomar, mudou de cor, mas conteve-se e aguardou com mal dissimulada impaciência.

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