Cap. VIII – Os desabafos
Cap. IX – Mais tratos a um martirizado
Cap. X – Exumação judiciária
Cap. XI – Um magistrado
Cap. XII – O fantasma
Cap. XIII – A regedora da paróquia
Cap. XIV – A venda do Peneireiro

CAPÍTULO VIII

 

Os desabafos

Angélica estava à espera; Mariquitas não principiava. Era um enleio que de segundo para segundo se tornava mais difícil de romper.

A senhora mostrou com a mão à aldeã um lugar na marquesa, ao pé de si; a aldeã assentou-se no chão, sobre a orla do tapete; encruzou-se numa espessura de violetas e cravos, pôs a carga no regaço, cobriu-a com o chapéu e, sentindo que era inevitável principiar, principiou.

– Eu vinha pedir à menina... Vinha-lhe contar... que esta noite...

– ...Que esta noite... Mas conclui – exclamou Angélica pondo-se em pé, tão corada como a narradora que em vão se esforçava para narrar.

– Esta noite, um destemido, um doido – continuou, alteando a voz – atreveu-se...

– É uma infâmia. Todo o lugar deve ser hoje uma murmuração... conjecturas... suspeitas... A reputação de uma donzela talvez comprometida...

– Oh, meu Deus! Pois já sabia?!... – interrompeu a camponesa, tomando de súbito a palidez da sua interlocutora como ela um momento antes lhe havia tomado o seu rubor. Estou perdida. Minha mãe... há-de morrer de vergonha...

E tapou o rosto com ambas as mãos, derramando lágrimas.

Conheceu Angélica ter já feito uma parvoíce pela sua pressa de falar; tornou a assentar-se e, obrigando afavelmente Mariquitas a vir-lhe para o lado, tomou-lhe uma das mãos:

– Vamos – diz-lhe. – Bem sabes que sou tua amiga; ambas temos a mesma idade; fala baixo; ninguém nos ouve, podes desabafar. «Esta noite», dizias tu...

– Antes de tudo, menina Angélica – suspirou a pobre rapariga, beijando-lhe a mão com agradecimento pelo interesse que parecia tomar nas suas penas ainda antes de as saber – primeiro que tudo, devo-lhe contar que João Simões, o filho do moleiro Pedro...

Angélica estremeceu e redobrou a atenção. Mariquitas, absorvida nas suas memórias, não o notou e prosseguiu:

– Desde a vindima passada, há-de fazer esta um ano, que me anda perseguindo. Diz que – ficou morrendo por mim desde uma tarde que eu cheguei, e outra companheira, com os nossos cestos de uvas à cabeça, ao lagar da Murteira, onde ele andava pisando e cantando ao desafio. A pobre mulher, que era já velha (era a tia Josefa, de Valcide, que a menina bem conhece), tropeçou na soleira da porta e caiu com o peso todo do carrego; quebrou a cabeça numa pedra e ficou por morta num charco de sangue. Logo que eu a vi cair, atirei a terra o meu cesto; vendo-lhe a ferida, arranquei o meu lenço do pescoço para lha cingir, sem me importar se ficava composta ou descomposta à vista deles; e enfim, percebendo que não dava sinal de vida, caí sobre ela desmaiada. Ambas fomos levadas em braços para nossas casas. Aquelas mostras do meu bom coração (são as próprias palavras dele), o que ali viu em mim, que nunca tinha esperado ver, e o acaso de ter ele sido ura dos que me levaram esmorecida até à cama de minha mãe, fizeram-lhe uma tal impressão que às vezes chega a ter medo de endoidecer (diz ele) à força de pensar em mim. Acho-o na fonte, por mais que lhe troque as horas; sai-me ao encontro em cada caminho como coisa má; no serão que se faz diante da minha porta, canta à viola sem cansar e aos domingos, na missa, olha tanto para mim que chego a envergonhar-me e é impossível que o povo não perceba.

– Mas enfim – atalhou Angélica, engolfando-lhe até ao fundo do coração um olhar perscrutador – toda essa obstinação da sua parte mostra bem que não lhe faltam motivos para esperar. O teu coração...

– O meu coração, menina Angélica, não é de pedra.

A confessora fez um movimento sacudido; o volume da Pulquéria caiu no chão e ninguém se lembrou de o levantar. Seguiu-se um silêncio empachado de dois ou três minutos; quebrou-o Angélica. Na sua fala não se podia notar cobiça e receio de ouvir o progresso de um drama de que supunha não conhecer ainda senão o prólogo e a que já estava prevendo um desfecho, o desfecho natural.

– Valor, minha filha, valor! Perseguiu-te, o teu coração estava da parte dele, cedeste...

Mariquitas levantou-se com dignidade.

– Perseguiu-me – disse ela; – o meu coração estava da parte dele e não cedi.

– Muito bem, muito bem – exclamou Angélica, abraçando-a. – Vou mandar vir o almoço, tomá-lo-emos juntas e continuar-me-ás a tua história.

André, que vinha já entrando com uma bandejinha de charão em que havia um bule de lata envernizada, um prato de biscoitos caseiros, uma leiteira e uma só chávena de pó-de-pedra, foi mandado buscar outra. Apenas a trouxe tornou a sair, fechando a porta a um aceno de sua ama.

– Como lhe dizia, minha rica senhora, o João Simões, vendo que não alcançava nada... – Mais açúcar, sim? – Muito agradecida. Falou-me em casamento. – Ele!

– Ele. Olhe que se entorna a sua xícara.

– Não tem dúvida. E tu, então?

– Fui contar tudo a minha mãe, para saber a sua vontade. Respondeu-me que a mataria de desgosto se na primeira aberta não desse o desengano a João Simões; que meu pai tinha sido um lavrador honrado e o rendeiro de dízimos mais graúdo destas quatro léguas em redondo; que por sua morte nos deixara tão pobres que, se não fosse o seu tear, a minha roca e a nossa paciência, já teríamos estalado de fome; mas que, à hora de se despedir para o outro mundo, lhe havia feito jurar, pela última vez, que viveríamos sempre com as nossas caras descobertas. «Até os ossos de teu pai – me disse ela para remate – saltariam dentro da sepultura, na igreja de Tamengos, se lá entrasses a embrulhar na estola a tua mão com a do filho de um moleiro.» Fez-me restituir-lhe uns anéis de tartaruga e umas arrecadas de azeviche, da feira de S. Bartolomeu, e proibiu-me demorar-me entre as raparigas na fogueira do serão assim que o visse aparecer.

– Excelente mulher! E Mariquinhas obedeceu-lhe, não é assim?

– Nunca desobedeci a minha mãe. Entreguei as arrecadas e os anéis a primeira vez que o tornei a ver, que foi ontem, declarei-lhe que nunca seria sua e pedi-lhe pela minha madrinha, que é a Senhora do Ó da nossa capela, que não tornasse nunca mais ao serão da minha porta.

– Muito bem, muito bem. Outra xícara, Mariquinhas, não? Ao menos outro biscoito.

– Agradecida; nada mais. João Simões...

– Levá-los-ás para tua mãe quando te fores.

– O pobre João Simões ficou tão pasmado que me fez pena. Não me deu resposta; esfregou os olhos com a mão talvez por sentir que estava para lhe correr alguma lágrima; os homens têm vergonha de chorar. Eu chorava sem querer; fazia-me pena vê-lo e depois... lembrava-me que todo aquele mal que minha mãe lhe fazia era só por ele me querer bem. Essa noite não dormi. Na manhã seguinte fui muito cedo à fonte, encontrei-o lá sentado, triste, triste como um eremitão.

– Pois atreveu-se?!...

– A fonte é de todos, ninguém lha podia proibir. Não me falou. Fui eu que lhe disse: «Bons dias, sr. João». Enquanto se enchia o cântaro, estava eu envergonhada; sentia a cara como lume, não sabia o que fizesse de mim. Para disfarçar, pus-me a apanhar avenca por entre as pedras, não sei para quê; espreitava-o e não vi que reparasse em mim uma só vez; estava todo embebido a olhar... julgo que para coisa nenhuma. Depois de bem cheio o meu cântaro, não se ergueu para me ajudar a pô-lo á cabeça como era seu costume; peguei-lhe eu só e ia já saindo sem me despedir quando ele se pôs de pé; começou a chamar-me muitos nomes de arrenegado que me não lembram; esmigalhou com os dentes as arrecadas, pisou os anéis, disse que se havia de deitar da torre abaixo, beber rosalgar ou embarcar-se para as Américas, onde se come gente, e que eu, quando soubesse do seu fim, havia de morrer com pena. Entrou-se-lhe a fazer a fala de choro, atira consigo ao chão tão cego para me abraçar os joelhos que me esmagou com um dos seus um pé; eu dei um grito, sentindo que me ia cair em cima dele o pote, que é de almude.

– E muito bom seria. Se o não livrasse de poder ser comido pelos tapuias da América, ao menos talvez lhe esfriasse as suas fervenças amorosas.

– O meu grito não podia deixar de se ouvir longe. Senti passos que vinham correndo; amparei o pote com ambas as mãos e arranquei-me do seu abraço a manquejar. Veio atrás de mim, dizendo baixinho e todo atarantado que tinha muito que me contar; que minha mãe já estava tonta; que à meia-noite lhe tivesse aberta a porta ou alguma das janelas; que não me queria fazer mal nenhum, mas só explicar-se comigo sobre uma coisa que me interessava muito; e que me esconjurava pela alma de meu pai e, pela coroa dourada de Nossa Senhora, que não faltasse se não queria que ele desse em que falar. Logo que cheguei a casa, contei tudo a minha mãe com tenção de lhe pedir o seu consentimento...

– Para...?

– Para o recebermos ambas à meia-noite, ouvirmo-lo ambas e responder-lhe ela só como quisesse.

– Esperavas talvez...

– Esperava e enganei-me. Opôs-se abertamente à minha ideia. Trancámos melhor que de costume as janelas e a porta, e deitámo-nos. Minha mãe não dormiu até à madrugada. Quando bateu a meia-noite, senti-a tomar tabaco' e assoar-se. Eu... (digo a verdade, menina) estava numas grelhas; apalpava o pé, que ainda me doía, e pensava comigo que um rapaz que se atirava assim acima dos pés de uma rapariga de quem pretendia, muito melhor baldearia consigo da torre da capela para a calçada. Ninguém passava; um gato que lá por fora corresse, sentia-o eu. Era uma hora; minha mãe ainda não acabava de tomar tabaco, porém os meus sustos principiavam já a diminuir. Sentem-se passadas, deu-me logo um trupe no coração. Vêm para a banda da nossa porta, param a ela, empurram-na ao de leve duas vezes; saltava-me a alma pela boca fora; minha mãe tomava outra pitada mais de manso. Era ele. Da porta passou à primeira janela, da primeira à segunda, da segunda à última, tenteando-as a todas e decerto dizendo consigo que eu desejava a sua morte. Na janela última, que é a do nosso quarto, parou mais tempo; senti, eu só, que lhe dava um beijo, depois que metia para dentro um papel e depois que se abalava confio um andarilho, tique tique, passivo picado, nem um perdigoto. Salto em camisa ao meio da casa e corro, apesar do meu pé inchado e do tabaco, até à janela, abri-a por dentro sem rumor; pus-me à escuta se tomava para a banda da capela. Se assim fosse, obrigava minha mãe a largar a caixa e o lenço e a sair mesmo em camisa; mas conheci claramente que tomava para esta banda. Apanhei o papel, escondi-o muito bem e tornei para a cama com febre, que me parece que ainda tenho. Entende de pulso, menina?

– Eu não. Mas, enfim, o papel?

– O papel... Logo que esclareceu, saí para a quinta, abri-o sozinha a ver se o soletrava e, por mais que fiz, não pude. Meu pai ensinou-me a ler um poucochinho nas Horas Marranas que temos lá em casa; mas letra de sentença' nunca me calhou. Dizia ele que eu era boa rapariga para o trabalho, mas muito ruda; e, de mais a mais, são umas palavras... um dizer tão enviesado... Eu, por mim... (Deus me perdoe), percebo-o tanto como à missa b do padre capelão. Ora aqui está, menina Angélica, por que eu lhe vinha pedir o favor de me ler a carta aqui só entre nós ambinhas, sem dizer nada nem ao sr. mestre Ambrósio nem a minha mãe. Em estando lida, havemos de queimá-la: são coisas que se não devem guardar, que é uma grande vergonha ir com elas aos pés do confessor.

Dizendo isto, sacava do regaço, de baixo do chapéu quebrado e ruço, um quarto de papel da Lousã sem aparo, dobrado mais em forma de cartucho que serviu de pós que de epístola namorada.

Angélica tomou aquilo com metade (ou pouco menos) do sorriso que lhe sabeis, abriu e leu primeiro só para si, depois para si e para a hóspede:

«Os países dos selvagens são longe; a porta da torre fecha-se à hora do crepúsculo; os venenos enérgicos já se não dão sem receita; arrebenta bois dos valados não os há nesta quadra; a natureza e a sociedade são igualmente bárbaras para um amante desesperado.

Prevejo que hei-de achar a tua porta como o teu coração, as tuas janelas como os teus ouvidos: tudo fechado, tudo de bronze, tudo inexorável. Se assim for, este pape( te ficará por meu testamento. Oh, Werther, Werther! E eu também tenho uma pistola... a que só falta, para igualar a sua, o ter-me sido dada por mão... Apanhei-a na feira da Moita; mas crê-me: ela é como os teus olhos: não erra fogo.

Toda esta manhã não tenho feito senão experimentá-la num cortiço; não falhou uma só vez. Bem depressa o cortiço será substituído por esta cabeça em que tu acendeste todos os fogos do inferno.

Ente sem piedade, personificação do meu terrível fado, dragão de saias e roupinhas, se eu morro, morro por ti; se morro por ti, não serás tu que te gabes de dormir mais uma hora. Só lá, lá na sepultura, em Tamengos. Noutra parte, não; nunca. O meu fantasma ensanguentado... etc.

Vou ao essencial, que nem o papel nem o tempo dão para mais. Se amanhã, à meia-noite, eu não tiver passado para dentro, ou tu para fora, do soalho da tua porta, eu aí mesmo, diante dela, para que todos aprendam quem tu és, dou irremissivelmente ao gatilho, ou desamparo para sempre a terra da minha infância, estes belos países vinhateiros. Decide-te. Eu lavo as minhas mãos. Teu...

P.S. – Tornei a experimentar a fatal arma e a reflectir. Se queres que fujamos ambos, será melhor: de que serve um defunto mais? Amanhã, à hora dita, serei à tua porta com a minha coragem, o meu amor e a minha trouxa. Entrega-te confiadamente a estes três objectos; eu te levarei para onde ninguém nos descubra, para onde, longe de tiranias de velhas e de provedores, possamos ser felizes um e outro, um pelo outro, um com o outro, e jamais um sem o outro. Ah, Maria, Maria! Que céu aberto! Ia para to descrever, mas falta-me a eloquência e o papel. Adeus.»

– Que quer isto dizer? – perguntou a inocente Maria, com medo de ter entendido o que não podia deixar de se entender.

– Quer dizer, quer dizer... – respondeu Angélica levantando-se com a carta fechada na mão e correndo como uma ventoinha, arrebatadamente, pela diagonal do aposento. Quer dizer que este homem é um infame, um Lovelace, um Faublas, um Leicester, um Francheville, um Richelieu...

(Desta explicação é que Mariquitas não entendeu nada.)

– Diz a senhora?... – balbuciou ela encolhidinha.

– Um Han d'Islândia – continuou a outra, como falando consigo mesma. – Um Adão Calabrês, um Conde Horace, um mondongo indigno de que uma pessoa de bem...

E calou-se de repente, como quem desperta em sobressalto. Recompôs o semblante; após alguns momentos de reflexão, embrulha os bolos numa folha de papel e entrega-os a Maria:

– Aqui tens – diz-lhe. – É para tua mãe. Diz-lhe que o seu tabaco fica daqui em diante por minha conta e tu não penses mais no malvado ou serás perdida. Treme, treine do fantasma de teu pai.

Mariquitas, que não estava acostumada a ouvir chamar a seu pai fantasma, levantou-se, pôs o chapéu, fez uma breve amostra de mesura e saiu sem levar nem deixar saudades.

Logo que a furiosa citadora ficou só, fechou a porta por dentro, correu à escrivaninha, que era um elegante pato de loiça de Sèvres com a goela aberta, ensopou a pena até à rama e escreveu à pressa estas palavras:

«Eu não vos hei conhecido senão de mais. Ide. Os vossos sentimentos não desmentem a baixeza de vossa nascença. Procurai as vossas vítimas entre as vossas iguais se todavia há alguém que vos possa ser igual na abjecção. Livrai-me para sempre da vossa odiosa presença, ou eu vos mandarei escavacar pelo velho André.»

Releu, tornou a dar duas ou três voltas no quarto, rasgou o escrito e escreveu noutra folha de papel esta única palavra:

MONSTRO

Era, indubitavelmente, sublime de concisão.

Procurou a fenda mais larga do sobrado e, soberba de poder também obrigar a receber uma carta quem decerto não estaria disposto a aceitar-lha, introduziu-a por entre as tábuas, dando em cima delas uma palmada ou para chamar a atenção do Han d'Islândia ou para significar por aquele gesto que tudo estava consumado.

O papel veio, revoluteando pelo ar, cair em cima de uma teia de aranha, donde João Simões (ou Rui, o sem ventura) o não pôde retirar senão à custa de três ou quatro pulos.

Que fulminação! Ter esperado toda aquela noite por um triunfo e ser constrangido a aguentar inteiro um diálogo daquele calibre, acompanhado, para mais ajuda, do tilintar de xícaras e colherinhas! Ter contado com um almoço servido pelos amores e não receber, para se desjejuar, senão um monstro nu e cru!...

CAPÍTULO IX

Mais tratos a um martirizado

Tinha Angélica apenas sentido que a sua carta fora recebida quando se arrependeu de a ter deixado sair da mão. O seu instinto de mulher fora ofuscado pela cólera; manifestá-la tão claramente era confessar, ela mesma, o seu amor numas circunstâncias em que não convinha alardear senão altivez e desprezo.

Monstro! Mas todos sabem que nuns lábios de dezasseis anos, que ainda há pouco exprimiam ternura, tal frase caracteriza a paixão em grau supremo. Sob a forma e título de monstro foi o Amor bem afagado por Psique.

A fábula de Psique renasce na história de todos os namorados. Angélica bem o sabia e não lhe faltavam razões para acreditar que Rui o sabia tão bem como ela.

Sentou-se no sofá, soltando do peito uma daquelas aspirações largas e sonoras que, ao revés dos suspiros, exprimem satisfação, comodidade, gosto de existir. Puxou com estrondo para diante de si o indispensável de costura, revolveu nele dedais e tesouras, cantando com a sua bela voz uma ária em patois italiano que aprendera com a madrinha. Eram outros tantos modos de provar que lhe não ficara nem átomo de despeito donde jamais pudesse germinar uma reconciliação.

E Rui?

Rui continuava a revolver entre as mãos o monstro. Uma vertigem diabólica fazia outro tanto ao seu espírito, tão depressa afogado na humilhação como remontado ao entusiasmo da vingança. Ora se abalava para fugir para onde mais ninguém o visse, ora feria com a mão a testa e a terra com o seu tamanco. Figurava-se-lhe então que se resolvia a deitar fogo à casa: queria submergir-se com a bárbara sob as ruínas esbraseadas, ou sair com ela incólume por entre as labaredas; subir ao cume do telhado; esperar que as chamas houvessem feito um lago por baixo de seus pés; ao clarão delas, perguntar-lhe com voz cavernosa: «Conheces-me?» e despenhá-la de cabeça para baixo na voragem fulgurante.

– Ah! Tu cuidavas – dizia ele por entre os dentes – cuidavas que não havia mais que cevares-me de amarguras e ficares triunfando?! Sim, sim, a tua posição é superior à minha: tu ocupas o primeiro andar. Sim, sim; superior à minha é também a tua sorte neste momento. Eu preso e tu livre; eu foragido e tu senhora; eu filho de moleiro, tu afilhada da quinta dos Álamos; eu miserável e tu herdeira; eu, eu como um mendigo a quem falta até a água; tu regalando-te com o chá da Índia e tendo biscoitos até para dar. Oh! Oh! Mas sabes tu que eu posso fazer-te mais desgraçada do que eu sou? Transformar-te num objecto de compaixão universal? Que, para isso, me basta o querê-lo e que eu o quero?

E os seus olhos chamejavam como de lobo, fitos através das teias de aranha nas tábuas do tecto que num quarto de hora podiam desabar todas consumidas.

– Tu, tu não conheces ainda senão o João Simões; tu esqueces que dentro do João Simões está Rui, Rui o sem ventura, Rui o sem misericórdia. Canta, canta, diabo; também o melro canta no momento em que a espingarda lhe está apontando o raio contra o peito. Canta, canta, que bem depressa cantarão em roda de ti os clérigos. Canta, canta, que alguém te chorará perdida sem retorno. Não poderes tu debruçar-te neste momento para dentro do abismo do meu coração! Não poderes ver as coisas estranhas que por ele passam como uma procissão de finados à meia-noite! Oh, que havias de bramir! Oh, que havias de clamar piedade, piedade!

Aqui Rui tornou-se de súbito João Simões, precipitando-se para dentro do balseiro, enterrando-se outra vez no bagaço até às orelhas. Acabara de pressentir segundo temporal, mais perigoso e mais próximo do que o precedente.

Ambrósio, assim que André chegou de fora, deu a escola dessa manhã por terminada e desceu com ele para o quintal.

Ao comprido da casa corria uma parreira em alpendre, com assentos rústicos entre porta e porta das abegoarias, para se tomar o fresco. Para ali é que ambos vieram conversar, mesmo aos umbrais do galinheiro. Tinham para isso duas razões: no quarto da morgada não havia janela para essa parte, e dois velhos podem tanto ter segredos para uma rapariga como duas raparigas para um velho.

– Pois saberás – disse o dono da casa – que vou mandar hoje mesmo a menina para a quinta dos Álamos. A pedra não foi atirada por nenhum dos meus rapazes.

– Não, não – atalhou André como em à parte.

– Aquilo foi vingança de algum namorado – prosseguiu Ambrósio – a quem a minha sobrinha não quis dar atenção. Mas... quem poderá ele ser? Aqui está o que a mim me faz cismar; não sinto por aqui ninguém que se atrevesse a levantar os olhos para ela. Em Aguim decerto que não; só se é algum sobrinho do padre ou algum fidalgote dessas terras por aí à roda.

– E porque não há-de ser algum maltês daqui mesmo? Quer que lhe diga? O vizinho Cruz disse-me a mim que já duas noites, levantando-se a deitar de comer aos bois, percebeu um vulto por baixo da janela da menina; e jura ele, Deus lhe perdoe, que era, como quem o pintou, aquele manata grandalhão do rapaz do moinho.

– Que dizes, homem? Estás doido? Não pode ser.

– Não pode ser, não. Eu já cá botei as minhas contas: pelo sim pelo não, onde quer que encontre o valdevinos, desando-lhe uma roda de pau à mão tente; ponho-o em lençóis de vinho e obrigo-o a confessar-se comigo.

– Não pode ser, não pode ser. João Simões... não há dúvida que é azougado, mas atrever-se a rondar-me a porta, não se atrevia. Requestar minha sobrinha! Minha sobrinha que o podia comprar a ele com moinho e tudo! Minha sobrinha, que é três herdeiras, que lê francês, que dá sota e ás ao diabo, que às vezes até a mim me atrapalha com os seus argumentos, que escreve novelas e que anda por casa com sapatos de seda!!! Estás pateta, meu André. Se estivesses já tão fraco de braços como de miolo, não prestavas nem para meia dúzia de palmatoadas. Não vai por aí. Diz-me tu cá: tu dás fé, por estes contornos, de alguém chamado Rui?

– Nunca tal nome ouvi em dias de vida.

– Nem eu; mas o certo é que algum Rui deve haver, grande figurão, de boa cabeça, cativado, perdidinho de amores pela minha Angélica.

– Sim?!!...

– Sim. Aqui tens tu uma carta assinada Rui que hoje achou um dos pequenos quando vinha para a escola e que me trouxe para se desembaraçar na letra de mão; é datada de ontem. Não tem sobrescrito; isto por fora é lama. Verdade é que por dentro não fala no nome de Angélica, mas por todos os sinais se conhece que era para ela, sobretudo por tocar duas vezes no «tio mestre». Mestre, aqui, bem sabes que não há outro senão o mestre Borges, tanoeiro, e o mestre Afonso, ferrador, nenhum dos quais tem sobrinha como eu tenho. Seja quem for, André, o que eu digo é que o maganão que isto escreveu teve bons mestres e não aprendeu para besta. Já me lembrou se será algum estudante de Coimbra, filho de algum ministro de Estado, ou algum marquês, ou algum brigadeiro, que visse a rapariga na quinta dos Álamos e que ande, coitado, a ver se a conquista. Se for assim... não digo que não; eu não a tenho para freira nem para empadas.

– Mas enfim, que é o que diz a carta? Hoje é o dia das achadas esquisitas. Também lá em cima, na encosta do sul do moinho...

– Ouve, quero ler-te primeiro a carta; logo contarás isso. Vamos a ver se me ajudas a adivinhar e se me aconselhas o que devo fazer.

Cavalgou os óculos no nariz, estendeu o papel a uma réstia de sol, olhou para André com certa ufania e leu:

«O meu destino chama-me à capital, mulher encantadora, virgem dos meus pensamentos entusiastas, estrela boieira do meu coração peregrino no ermo deste mundo. Sim, o meu destino chama-me à Corte, onde as honras me esperam. Queres tu partilhá-las, abandonar o mestre teu tio para me seguir?...»

– Vês, André? « O mestre teu tio para me seguir». Três pontinhos e uma garatuja. Por isso eu digo: o maganão é fino. Quando fores a Coimbra hás-de-me comprar o Almanaque dos Estudantes, e dos Deputados e Conselheiros, se o houver. Quero ver se lá vem algum Rui. Continua:

«Eu te farei uma sorte digna dos teus méritos, das tuas virtudes e da tua elevada condição.»

– Hein? Fala à política, André, ou não fala?

– Fala, fala. Leia para baixo – disse o ouvinte já meio aborrecido.

Ambrósio continuou:

«O teu coração foi fundido no mesmo molde que o meu e a natureza quebrou o molde.»

– Percebes, André? Está-lhe falando por figura.

«Quem poderia opor-se à nossa união? Se alguém o ousasse, oh!, ele seria vítima do meu justo furor. Eu lhe queimaria o cérebro.»

– Eu, cá por mim, por ora não me oponho.

«Se um amor imenso te serve, diz-mo e eu te arrancarei desta solidão como por encanto e tu irás, bela árvore do meu paraíso, florescer na margem do Tejo para admiração do Universo.»

– É com a minha sobrinha, André, não tem dúvida nenhuma; e está bem falado, olé, se está!

«Que teu tio se não lembre de resistir à minha felicidade ou eu o forçarei...»

Que é lá? – perguntou o criado.

Tem mão, homem – acudiu o fleumático velho, continuando:

...«ou eu o forçarei com a eloquência da minha paixão indomável, com as minhas lágrimas de chumbo derretido, com a pintura da tua ventura futura, com as ameaças, se preciso for; e se me levar à última extremidade, ponho-lhe um joelho sobre o ventre que o arrebento.»

– Não te rias, pateta. Isto é retórica. Isto são coisas como hoje se usam nos livros, só por dizer. Pois, homem, por que diabo me havia ele de querer arrebentar?

– Eu sei cá! – exclamou André. – O que lhe eu digo é que o alarve que escreveu essa carta podia ser o mesmo que ia matando a menina com o penedo. Se assim como aí vem Rui viesse João, já eu pegava no cajado e cortava para o moinho. Mas avie com isso que tenho mais que fazer na cozinha.

Ambrósio continuou:

...«um joelho sobre o ventre que o arrebento.»

– Não há-de arrebentar, não.

«Daqui a vinte e quatro horas a tua resposta. Sim, não. Não, sim. Não é o inferno, sim é o Céu. Não é a morte, sim a vida. Não é Aguim, a obscuridade; sim é Lisboa, os prazeres e a glória. Enfim, reflecte nestas palavras solenes: Sim é sim; e não... é não. Quem me avisa, meu amigo é. Eu ponho à tua disposição ou toda a minha inteligência ou todo o meu delírio. Por ela posso chegar a semideus; por tile posso também chegar a fazer-me um facínora espantoso, péssimo e até bastante mau. Não respondo pela vida do mestre teu tio nem pela tua, nem pela do teu

Rui.»

*

– Não fala de André?

– Não

– Acabou?

– Acabou. Que te parece?

– Que me há-de parecer? Que é um doido de meter no hospital ou um patife de encaixar nas galés. Mas eu cá atiro antes para doido.

– E eu não. Aqui há muita sabedoria moderna, tu é que és um asno que a não entendes. Mas então, que foi lá isso que me querias contar?

Saiu esta manhã a filha da Perpétua com o rebanho e foi para a lomba do outeiro do moinho. Os seus dois cães, que são bons, largaram as cabras e puseram-se a rapar na terra por entre umas moitas a farejar, a farejar e aos uivos que punham medo. A moça chamou-os, tornou-os a chamar, acenou-lhes com broa, atirou-lhes com pedras... Coisa nenhuma. Parecia que estavam ali pregados. Lembrou-lhe que poderia ser... eu sei o quê? Enfim, desconfiou fosse lá do que fosse. Aboca, Leão! Aboca, Bonito! Aboca, Leão! Chegou ao pé deles para ver a obra. Logo a primeira coisa que a admirou foi conhecer que a terra tinha sido cavada de fresco e muito bem calcada, ainda o rasto e o olho da enxada se percebiam. Depois afirmou-se e conheceu que lhe tinham espetado pés de mato, que ela é prática do sítio, costuma muito levar as cabras para aquela banda. Puxou pelo primeiro pé, saiu; puxou pelo segundo, saiu. Saíram todos. Por encurtar razões: até a enxada descobriu, que tinha servido para a manivérsia e que também tinha sido enterrada; não aparecia dela senão... tanto como isto. Botou o seu juízo, que o tem como as que o têm, e lá entendeu que o desatino dos cães alguma coisa queria dizer. Não sei se me percebe: carne morta, defunto. Assustou-se, coitada, e quem perdeu foram as cabras, que veio logo correndo com elas para o curral, à bordoada aos cães que nem à mão de Deus Padre queriam largar o poiso. Logo que se rompeu a notícia no lugar, foi para

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lá a Justiça, o regedor, o escrivão e muita gente do povo; e também eu ia se não tivesse deixado ao lume os feijões, que para se esturrarem são da raça de todos os diabos.

– Visto isso, não sabes...

– Não sei mais nada. O que eu sei é que nas casas de Aguim dizem que se não achou ninguém de menos esta noite. Portanto, o morto foi de alguma outra terra...

– Rezemo-lhe por alma – disse mestre Ambrósio, tirando o chapéu e deixando reluzir ao sol coado por entre as parras a sua calva respeitável.

– Pois rezemos – respondeu André, sobraçando a carapuça de couro e pondo as mãos.

*

Iam já no livrai-nos de todo o mal, abre-se com estampido medonho a porta da capoeira, sai por ela um corisco em figura humana com a cabeça e a cara embrulhadas numa cinta vermelha; atira Ambrósio de costas para cima de um repolhal e André para cima de Ambrósio, galga o valado e voa.

André tornou logo em si; deu um pulo, arrancou um repolho alentado para lhe servir de arma e arremessou-se, valado em fora, na pista do fugitivo.

Rui levava-lhe já uma boa dianteira e não cessava de correr nem André de gritar após ele:

– Agarra, agarra, agarra esse ladrão, agarra esse raposo, agarra o diabo, agarra, agarra!

Ninguém aparecia.

Não admirava: o caminho que levavam era por fora da aldeia e toda a gente àquela hora, exceptuando algumas crianças e mulheres, estava lá para a lomba do outeiro a ver se reconheceria o assassinado logo que a sepultura silvestre o demitisse do seu bojo.

Duas ou três velhas que se topam na passagem, em vez de o agarrarem, fogem gritando:

– Aqui delirei!

Mariquitas, que por acaso vem atravessando o caminho com uma teia à cabeça e a sua roca de lã na cinta, fica imóvel. O homem da máscara vermelha pára diante dela, aponta para o céu, aponta para a terra, aponta para o sul, depois para o coração, depois para ela e diz... e diz alguma palavra que se não percebe, mas que deve ser sinistra. Esta curta dilação fez com que André diminuísse consideravelmente a distância que os separava e pudesse disparar-lhe o repolho contra a cabeça. O mancebo, aturdido com o baque, vacila, vai para cair, estende os braços para se ater ao pescoço da aldeã, a aldeã refoge para os do velho e o velho a repulsa oito passos para fora do caminho.

Com este incidente torna o desertor a ganhar uma sofrível dianteira; vão-se contra o rio de Viadores, que uma trovoada da véspera leva em caudal tumultuoso. Ali é que André espera tomar às mãos o malvado. Enganou-se: Rui, sem titubear, despenha-se nas águas e some-se como visão de pesadelo ao acordar.

Imaginai o desespero do providencial executor de justiça, burlado no momento mesmo da execução. Não sabe nadar! Não tem barco para continuar navalmente a sua perseguição! E por mais que espraie os olhos pela superfície líquida, não descortina por ela coisa alguma. Águas! Depois águas! Sempre águas! Quando muito... algum focinho de enguia que vem luzir ao olho do sol. Despedaça com os dentes a carapuça de couro, esbofeteia-se, daria uma roda de pontapés no seu próprio espinhaço.

– Acabou-se – disse ele enfim, desandando para a aldeia com as lágrimas nos olhos. – Acabou-se, está afogado. Mas não o ter eu ao menos conhecido para saber a quem havia de rogar pragas todos os dias ao meio-dia em ponto!!!...

 

CAPÍTULO X

Exumação judiciária

Não tinha ainda o desconsolado André chegado às primeiras casas do lugar quando lhe lembrou o enterrado. Torceu o caminho para a lomba e chegou no instante, precisamente, em que se dava começo à escavação.

Um escrivão de aldeia não é um taquígrafo e o cabeçalho do auto da achada, por onde se julgara indispensável principiar, levara mais de duas horas. Os espectadores já se iam impacientando.

Às primeiras enxadadas, perceberam todos claramente um fartum de cadáver; cresce a diligência nos cavadores; multiplicam-se nos curiosos as conjecturas. Prossegue a obra; já se enxerga um cobertor de lã parda envolto em forma de saca, cheio com um vulto que andará por comprimento de mulher ou de homem de meã estatura. O fardo está liado com uma corda de estopa pelos pés, pela cinta e pela cabeça. Desamarra-se em presença das testemunhas; desenrolam-no. O cadáver... são três queijos da serra, metade de um presunto, um salpicão em palaio de bácoro, alguma roupa branca de homem, lençóis e uma coberta, livros, um tinteiro de chifre e um saquitel de pele de cabra retesado de cruzados novos.

O cheiro do salpicão e dos queijos, que já não eram da primeira mocidade, fora provavelmente o que atraíra os cães e o que aos aldeões preocupados se representava exalação cadaverosa.

O enigma estava pois resolvido, mas resolvido noutro enigma. Devia de ser aquilo um roubo: mas quem roubou jamais para enterrar, sobretudo comestíveis...

Neste comenos voltava Pedro para o moinho, levando por cima do ombro a arreata da sua jumenta ruça, gorda e mansa como ele, carregada de sacos de milho em grão.

Tinha saído antes de luzir o buraco; ignorava tudo que ali se passara enquanto andou por fora e muito confuso ficou mal que de longe enxergou tamanho ajuntamento. Não podia atinar com a razão daquele reboliço quase à sombra das suas velas tão solitárias e tão pacíficas. Achegou-se para o saber.

As primeiras palavras que lhe tornaram fizeram-lhe atirar por ares e ventos a arreata, o que a burra não desagradeceu por se ir deitar a comer ao pé de uns cardos em que já de longe trazia o olho. Em dois pulos se pôs ao pé do estendal que servia de corpo de delito e à roda do qual estavam as Justiças a inventariar com toda a gravidade.

– Jesus! Jesus! Jesus, que estou roubado! – clamou fora de si e despediu com os dedos na boca dois assobios retinidos para o moinho, com que logo lá da janelinha apareceu, como um novelo de linhas brancas, a cabeça da moleira. Acenou-lhe e bradou rijo que viesse depressa, que estava o seu haver entre as unhas... não disse de quem por não ofender as autoridades constituídas, árbitras então da sua sorte.

A tia Teresa de Jesus (era o nome da moleira) de nada tinha dado fé. O rum-rum das mós, a lida do moinho e da cozinha e o muito que a velhice lhe consumiu o lume dos olhos, daqueles olhos que enfeitiçaram havia quarenta anos os de Pedro Simões, foram parte para que lhe escapasse o espectáculo e rumor que na lomba iam havia horas. Saiu manquejando, por causa dos calos, e não ficou menos maravilhada que o seu Pedro logo que este lhe disse e ela reconheceu, chegando-se mais perto e engrilando os olhos, que o seu remédio, mourejado com tanto suor e em tantos anos, se achava ali ao deus-dará e à mercê de escrivães, que nem por isso (segundo a fama) são lá dos mais apertados maquieiros.

Os gritos e protestações do enfarinhado par, gente de notória probidade, fizeram mossa nos ouvintes, no regedor e até no escrivão.

Entretanto carecia-se de provas.

O moleiro disse que na bolsa, se contassem, haviam de achar dezasseis moedas em pintos e dez peças de 7$500 reis.

Contou-se, era exacto.

Teresa de Jesus acrescentou que a roupa devia ter na marca uma cruz com suas crescenças nos braços em forma de velas de moinho.

Assim era.

Quanto aos chouriços e aos queijos, pedia ao sr. regedor que fosse com ela até à cozinha a fim de se certificar, pelos seus olhos, se a cana do fumeiro estava ou não aliviada e se no pote do azeite havia ou não havia outros queijos irmãos daqueles. O magistrado, depois de algumas perplexidades, averiguando ser exacto quanto lhe afirmara a velha, veneranda figura, a cujo pescoço, no meio das suas gesticulações, traquinava sobre um cacho de figas e verónicas um rosário grosso da Terra Santa, o prudente magistrado mandou se lhes restituísse tudo perante as testemunhas presentes, fazendo-se disso mesmo declaração no auto da achada para o caso possível de recrescerem no futuro algumas imprevistas reivindicações.

Dispersada a turba, Teresa de Jesus e Pedro Simões recolhem toda a sua fazenda e carregam com ela, como podem, para o moinho, mui pensativos e cuidosos no como e por quem, e para quê lhes poderia ter sido feito aquele roubo; sendo que, ou ele ou ela, e as mais das vezes ambos os dois, residiam na pousada, e o interior desta com um relance de olhos se abrangia todo. O dinheiro, que estivera sempre no fundo de um arcão sem chave, foi enterrado a um canto da lareira.

Enquanto a mulher punha o jantar, Pedro serrou para a porta uma tranca nova e mais segura, carregou e escorvou a sua espingarda caçadeira, aguçou dois forcados para, em caso de assalto, defenderem o seu castelo, e arrumou este arsenal à cabeceira do seu tálamo de palha.

O jantar foi triste.

O seu João saiu do moinho antes de eles acordarem. Não sabem para onde e ainda não torna. Verdade é que muito mais largas ausências lhes tem ele já feito e muitas noites de luar de Estio, e até muitas fechadas de água, no coração do Inverno, as costuma passar pelos pinhais e gândaras, principalmente depois que a aia da quinta dos Álamos lhe ataca de livros as algibeiras todas as vezes que ele lá vai.

Sim... Mas dias há que o sentem mais carregado que de costume, mais carrancudo, mais cismático, mais atravessado nas respostas, mais inimigo do trabalho e mais pronto em zurzir o jumento quando o mandam levar nele a moenda a algum freguês.

Não há ainda quarenta e oito horas que, tendo por acaso adormecido à ceia em consequência de uma espertina que o tomara havia tempos, deixou escapar por entre os dentes algumas palavras com que os pobres velhos olharam um para o outro e um ao outro se viram pálidos como defuntos: parece que dizia que se matava com rosalgar.

Já se vê que os receios não eram de todo sem fundamento e cada hora que batia lá ao longe, na torre de Aguim, lhos tornava mais irrequietos e pungentes.

Teresa debruçava-se a cada um dos postigos de cinco em cinco minutos e Pedro de quarto em quarto rodeava por fora a desconsolada vivenda com passo vagaroso e olhos longos até onde a vista se podia ir.

Eram estas as únicas revelações que um ao outro faziam das suas penas íntimas, mas ambos as adivinhavam todas. Não se vivem quarenta anos em comunidade de mesa, de cama e de trabalhos sem que as almas se mutuem.

Pedro bem calculava, pela pressa ou pelo vagar com que descia cada conta no rosário da mulher, quantos rogos com lágrimas ocultas iam apegados a cada ave-maria; e Teresa, no mesmo cantar mais alto do marido lhe estava percebendo os disfarçados gritos do coração.

Como não podia deixar de ser triste e mudo o seu jantar se entre os seus mochos rasos estava desocupada a cadeira branca de pinho da feira de Março em que Pedro, o seu Pedro, a esperança da sua velhice, costumava estar sentado, enchendo-lhes o copo e contando-lhes histórias apaixonadas ou sanguinolentas dos livros em que andava lendo!...

De mais a mais, com as imaginações preocupadas daquele recente caso do roubo e com o mistério insondável que o envolvia, todas as desgraças se lhe representavam agora mui possíveis.

Era evidente que tinham inimigos; que estes (fossem quem. fossem) tinham entrado no moinho enquanto se dormia. Logo, assim como lhes tinham roubado os haveres para os enterrarem, podiam-lhes também ter morto, levado e enterrado o filho.

Cada hora da tarde se lhes ia fazendo mais longa que a precedente.

Sentados ambos diante da porta, interrogavam com os olhos os caminhos a serpear esbranquiçados através das planícies dos vinhais ainda verdes, mas já começados a descorar ao bafo macio do Outono, daqueles vinhais por onde todos os rapazes e raparigas da aldeia dentro em poucos dias se veriam andar rindo e saltando com as folganças da vindima.

Se o seu Pedro tornaria jamais a distinguir-se pelas suas tão festejadas cantigas entre os ranchos afortunados!!!...

Pôs-se o sol; anoiteceu-lhes ainda mais o coração. Foi-se carregando a escuridade; ficaram interrogando, com o silêncio, o silêncio dos arredores. Ah, se eles soubessem o que esta manhã engoliram as águas de Viadores!!...

Era já noite cerrada sem nenhum se lembrar da pobre enxerga. Como parariam lá, eles que ignoravam onde o seu João poisava àquelas horas?

Sentem passos muito ao longe; levantam-se como atirados para o ar por uma só mola de aço, apertando um a mão do outro e apupam. Ninguém respondeu, mas os passos parecem vir subindo a lomba contra o moinho...

De novo chamam; responde-lhes uma voz. Oh!, não é a de João. Recaem, soltando as mãos um do outro, e choram, Pedro em silêncio, Teresa como quem já não pode conter-se por mais tempo. Que lhes importa a eles quem lá vem se quem lá vem não é seu?

Chegou.

– Boa noite, sr. Pedro, mais a companhia. Entremos para o moinho, e fecharão a porta que temos que falar.

Era o regedor da paróquia, o mesmo que de manhã presidira à exumação.

 

CAPÍTULO XI

Um magistrado

A casa estava ainda às escuras. Procuraram às apalpadelas a cadeira de Pedro, fizeram assentar nela o sr. regedor no meio da cozinha, acenderam no lar uma fogueirinha de pinhas bravas que ardiam e alumiavam que nem candeias e ficaram-se de pé, aguardando desassossegados o que diria.

O honrado funcionário, com os olhos vagando pelo tecto, acariciava com uma das mãos calosas o bojudo ventre; com o indicador e o polegar da outra apertava, torcendo e retorcendo levemente, o beiço de baixo, que se via bulir como quem mentalmente está concertando frases de que espera maravilhas. Puxou, enfim, do bolso da jaqueta de pano de varas um baú' de simonte, que era a sua livraria para os casos espinhosos, sorveu uma pitada depois de oferecer com sorriso benévolo, escorvou a garganta e disse, repotreando-se na cadeira, com o braço esquerdo pendido para trás dela, a cabeça meio à banda e a mão direita assente com os cinco dedos bem abertos sobre o calção, que fora de veludo preto nos dias áureos de seu avô, lavrador como ele de trinta pipas (para mais) de vinho óptimo, o que a ele lhe dava uma furiosa preponderância em todos os negócios e eleições da freguesia.

– Pois sr. Pedro, e mais aqui a senhora, confesso que não sei bem por onde principiar. Sou magistrado novo (tinha sessenta anos mas era regedor havia poucos meses) e o caso é extraordinário. Chouriços e queijos não se desenterram todos os dias. Bem viram Vossemecês como eu lhes mandei entregar todo o achado prontamente. Não tem que me agradecer; não fui a Coimbra mas sei fazer justiça.

– Isso lá é verdade – disseram à uma ambos os cônjuges.

– Fui para casa – prosseguiu ele, parecendo não haver reparado na interrupção – e contei o caso a minha mulher. Ela, que se lhe enfiassem umas calças e uma véstia, podia parecer um homem, e à falta deles e de mim serviria muito bem de regedor, disse-me que não devia dar tão depressa a diligência por concluída. Isto de mulheres, são finas!!... Pois que digo eu? São ou não são, sr. Pedro?

O moleiro inclinou a cabeça em sinal de assenso; a velha apercebeu-se que teria sorrido se não lhe faltasse o seu benjamim.

– Disse-me – continuou o magistrado – que não bastava ter-se achado e restituído o furto; que era mister, para crédito e glória da minha regedoria, descobrir e castigar o ladrão ou ladrões que tal fizeram; e que talvez, falando eu com Vossemecês, pudéssemos, com a minha esperteza natural e mais com a dela, atinar com o fio da meada. Digam-me cá, portanto: sobre quem é que recaem as vossas suspeitas?

– Sobre ninguém – responderam os dois, também uníssonos. (Foi outro efeito dos quarenta anos de comunidade.)

– Olá! Sobre ninguém? – exclamou o representante da polícia. Emudeceu por um breve prazo e prosseguiu:

– Ora vamos a ver se os meto a caminho para futurarem alguma coisa. Quem são as pessoas que moram com Vossemecês neste moinho?

– O nosso filho Pedro e ninguém mais.

– Ninguém mais. Muito bem. E a sua porta, de noite, como fica?

– Trancada por dentro, está bem de ver. Moramos num descampado... e a gente não sabe quem lhe quer bem e quem lhe quer mal.

– Isso é, isso é. Mas vamos. É claro que o roubo não se cometeu senão enquanto Vossemecês estavam a dormir.

– Assim parece.

– Ergo, logo, portanto, o ladrão, por consequência, não podia ser outro senão o seu rapaz.

A moleira fez-se escarlate; o moleiro, amarelo; o representante do Estado conservou a sua cor, que era morena.

Aquela consequência parecia realmente bem tirada; mas a lógica do entendimento nem sempre é a do coração. O de Teresa de Jesus e o de Pedro Simões davam pulos, a protestarem contra a possibilidade de tal suposto. Sua Senhoria teve dó deles, mas tinha ainda em muito maior grau medo da Sr.ª regedora e levou por diante a martirização:

– Esta suspeita da Justiça, de que eu sou, por que assim o digamos, o órgão, há várias circunstâncias que a corroboram. Onde está o seu filho?

– O meu Pedro – acudiu a boa Teresa de Jesus com uma presteza realmente feminina. – O meu Pedro é, com perdão de Sua Senhoria, poeta. Muito bom rapaz, sim, que sempre o foi; mas cá disto... de bola... não trabalha certo. É como um moinho: para onde lhe dá o vento. Tem noites que as passa todas como um tolo a ler à candeia e tem outras que as leva a romper tamancos sozinho por esse mundo de Cristo. Às vezes diz-me o meu Pedro: « O diabo do rapaz será lobisomem?»

– Tudo isso confirma ainda mais as presunções da Justiça, de que sou órgão. Pois que demónio tem ele que fazer de noite lá por fora? De noite não andam senão os ladrões e os bichos; ora bicho não é ele: ergo, logo, portanto, segue-se por consequência...

– Que é ladrão, sr. regedor? Que é ladrão?!... – disse o moleiro, relampagueando com os olhos para a cabeceira da cama, onde tinha posto os dois forcados. – Então Sua Senhoria lá lhe parece que não é mais que dizer, por ergo de consequência, que um homem que é ladrão?!...

A moleira tremia e acudiu outra vez:

– Não tarda, não tarda, sr. regedor. Não é ladrão nem é bicho: é rapaz, gosta de se advertir; traz lá aquelas coisas dos livros encasquetadas nos miolos. Acha graça a andar por montes e vales a berrar ao Sete-Estrelo por onde ninguém o ouve. Pior fazem os outros que andam de noite à tuna, a desinquietar rapariguinhas honradas, a meter-se pelas frestas da casa alheia como gatos e a dar paulada em quanto pilham.

– Mas... Se lhe eu disser, mais aqui ao seu companheiro que Deus guarde, se lhe eu disser que, depois que daqui fui, recebi duas denúncias contra o seu rapaz pelas quais se prova (segundo a opinião de minha mulher, a minha e a de vários outros autores) que ele não é dos que dizem ás fêmeas «passa-fora»!...

– Isso lá (vamos nós e venhamos, sr. regedor), nem Vossa Senhoria...– rosnou o moleiro; e diria mais se a moleira lhe não desse com o cotovelo no vazio que lhe fez ver as estrelas.

– Se lhe eu disser que ele costuma, sem ser regedor nem escrivão, andar de noite a rondar as ruas! Que o... enfim, que um cidadão, levantando-se algumas noites para deitar de comer aos bois, o viu estacado como um estafermo debaixo das janelas do... enfim, de outro cidadão que tem uma sobrinha (que não é ela nenhuma asneira)!

– Ele!?...

– Ele!?...

– Sim senhor, ele, ele. E se lhe eu disser que à janela da tal dita menina se atirou esta noite um calhau que a ia matando, o que por consequência se prova que era de homem apaixonado?

– Apaixonado! Ele?!...

– Ele apaixonado?!

– Sim senhor, apaixonado. E se lhe eu disser que talvez fosse ele o que passou esta noite no galinheiro da tal dita casa, que lhe estruiu uma deitadura de ovos, que lhe matou um galo que valia seis tostões, que ia matando o cidadão no asilo do seu parreiral e, juntamente, um criado velho do mesmo cidadão, o qual criado foi ele o próprio denunciante?!

– Não pode ser.

– E se lhe eu disser... – Aqui o regedor levantou-se, pondo o chapéu e abotoando a véstia. – Sim, se lhe eu disser que hoje foi visto por uma lavandeira atirar consigo ao rio de Viadores e afogar-se um homem a quem outro perseguia dando vozes de ladrão, indo ambos cá da parte de Aguim; e que o tal dito afogado, a quem se não pôde ver a cara, era

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alto, escanzelado, vestido de branco e logo, portanto, não podia, por consequência, deixar de ser João Simões!! ... É dar graças ao Altíssimo, que o livrou assim das mãos da Justiça e de lhe envergonhar as suas barbas honradas. Enquanto a ele, estão arrumadas as contas agora o que eu pretendo saber de Vossemecês é quem são os amigos com quem ele mais lidava, a ver se descobrimos, como diz minha mulher, o fio desta meada e se tiramos em limpo a razão por onde o roubo foi enterrado. Esta circunstância é muito fora do usual e merece à nossa Justiça o maior cuidado.

*

Teresa de Jesus tinha-se ido ao chão sem dizer nada e estava com a cara fincadinha entre os joelhos, sem bulir. Pedro Simões arrumava-se à parede, hirto, enfiado, sem ver nem pestanejar e com a garganta tomada de um nó.

O regedor conheceu que não era ocasião para mais exames e, pesaroso lá por dentro, como bom homem, do mal que deixava feito como boa autoridade, saiu levando uma das pinhas acesas por causa do escuro da noite, que estava de meter os dedos pelos olhos.

Ao transpor o limiar, disse ainda para dentro:

– Fiquem-se com Deus.

Mas ninguém lhe tornou resposta, nem o ouviram.

*

Que trovoada magnífica não ameaçava a terra!

Todas as estrelas se tinham apagado; nenhuma bafagem movia as plantas e as nuvens corriam a amontoar-se no sul, como Caramulos, Buçacos e Marões arrepiados de castelos bem artilhados para um combate próximo. A mudez do ar tépido condizia com a expectação medrosa das campinas, só ressoavam de parte incerta os ais compassados de um mocho.

O sino de Aguim bateu a última hora da meia-noite.

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Pareceu aquela badalada sinal esperado pelos espíritos ocultos da natureza. O regedor, voltando-se para o moinho, de que ainda não distava mais de quinze ou vinte passos, a fim de se orientar no rumo, viu, no abrir súbito de um relâmpago como sol, um fantasma branco, alto como dois homens, quedo como uma torre, à esquerda da porta pintada de vermelho. Saltou-lhe fora a lumieira da mão e benzeu-se com ela toda aberta por três vezes, tartameleando com voz sumida:

– Jesus! Santo nome de Jesus! Se és coisa má, eu te esconjuro...

Sua mulher acreditava firmemente nas almas do outro mundo; sua sogra até as tinha visto.

Segundo relâmpago mostra-lhe o braço do avejão estendido, imoto, a intimar-lhe que se parta.

Ao fulgurar do terceiro, vê-o desaparecer para dentro do moinho. As velas estão na mais completa imobilidade.

Uma bombarda de trovão estoira por cima do sítio com estampido que retumba pelos arredores. O mesmo terror o torna em si. Sem mais olhar para trás, redescende à carreira a fatal encosta, onde nunca oxalá tivera vindo!

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CAPÍTULO XII

O fantasma

Continuava a trovejar; saltitavam já pelo campo algumas poucas e pesadas gotas de água. O regedor picava o passo, ansioso de se ver entre os lençóis da sua cama, com a porta bem fechada, para tomar parecer com sua discreta companheira sobre as estranhas coisas daquele dia e daquela noite endiabrada.

Mas a chuva ia a mais e tanto recresceu com a ventania que assoprava do sul, que lhe foi forçado acoitar-se debaixo de uma sovereira grande que, pouco desviada do caminho, oferecia tenda suficiente contra o temporal para cem e ainda duzentas pessoas. Parado estava já ao abrigo da sonorosa ramaria, a espreitar se pestanejava pelo céu alguma estrela e a procurar com os pés alguma raiz descarnada do seu hospedeiro para fazer dela assento, quando para o pé do tronco sentiu o que quer que fosse; e logo, virando para ali os olhos, percebeu com espanto que parte do mesmo tronco se bulia. O medo extremo dá às vezes em audácia. Bradou:

– Quem está aí? – com uma arrogância que estava bem ao cargo, mas com uma voz tão desentoada que ele próprio a não conheceria por sua.

– E Você quem é? – respondeu-lhe um homem que a escuridão lhe fizera tomar por parte movediça da árvore a que estava arrimado.

– Eu sou o regedor desta paróquia. Mas Você...

– Eu sou o André, criado do sr. mestre Ambrósio e mais de Vossa Senhoria, sr. regedor.

– Que fazia aí?

– O mesmo que Vossa Senhoria, cuido eu: abrigava-me da chuva.

– Para onde ia?

– Lá para cima, para o moinho.

– Grande força de negócio deve ser a que o leva, em noite assim e a tais desoras!

– Não é pequena, não é pequena, sr. regedor. Vossa Senhoria vem só?

– Para que preciso eu de rabo-levas? Não tenho medo de ninguém. (Não era verdade: esquecia-se da esposa.) – E Você traz mais gente consigo?

– Eu também não tenho medo de ninguém, senão de Deus, que me há-de matar, e mais das almas do Purgatório, que para isso todos os anos lhes mando dizer uma missa na sua capelinha da Areosa.

– Lá nisso tem razão. Chegue-se para aqui. Pilhei uma raiz que dá poiso para dois. Quero conversar outra vez com Você, sor André, a respeito daquilo em que hoje falámos.

– Pois sobre isso mesmo é que eu desejava também conversar com Vossa Senhoria. Visto que ninguém nos ouve e o tempinho está com cara de aturar, melhor o podemos aqui fazer que em nenhuma outra parte.

– Logo, portanto, diga Você por consequência o que é que tinha para me participar.

– Pois, sr. regedor, depois que o homem saltou ao rio e se afogou... por querer... que eu, por mim, bem sabe Vossa Senhoria que lhe não pus mão nem dedo; dentro numa hora já me tinha passado a paixão; que eu sou assim; morrendo o bicho, morre a peçonha; fogacho de palha e depois... coisa nenhuma. Pelo contrário: principiou-me a roer cá por dentro o coração e eu a arrepiar-me. Sempre era um defunto que eu tinha às costas, para me abuzinar às orelhas no dia do juízo. Às vezes lembrava-me que podia não ter morrido o sacripanta; ainda que, a dizer a verdade, não entendia bem o como, visto não ser ele boga nem lampreia, mas, enfim, neste mundo sai tanta coisa que se não espera!... Depois que vi desenterrar os balhestros do moleiro, tornei-me ainda a Viadores; olhei, procurei, botei inculcas... Nada, nada e nada. O que lucrei foi deixar sem jantar o patrão e perder a tarde. Anoiteceu, ainda foi pior. Não parava; não sabia o que fizesse. Tinha medo. Ouvia cochichar por trás da nuca, virava a cabeça, não via ninguém. Meti duas torcidas na candeia da cozinha e tudo o que enxergava era transtornado. Um derreamento nas pernas e braços! Nem sentado, nem de pé, nem deitado; não podia. Foi-me preciso descer ao quintal a apanhar uns coentros para a ceia; olho para o valado e lobrigo... (t'arrenego, diabo!) na mesma aberta por onde o nosso raposo tinha fugido... um fantasma branco! Atirei-lhe com a candeia, voei pela escada acima e bati-lhe com a porta na cara, se é que aquilo tinha cara, Deus me perdoe!... Que eu, por mim, não lha vi...

– Está célebre! Está célebre! Combina. Vá por diante.

– Às 10 horas chegaram a aia e o escudeiro da quinta dos Álamos para passarem a noite e abalarem pela manhã cedo, antes do calor, com a menina para casa da madrinha. Tinha-lhe o tio escrito que a mandasse buscar, lá por via de uma carta... Enfim, isso não vem para o caso. O escudeiro veio para a cozinha ver-me fazer a ceia (que afinal sempre ficou sem os coentros). Contei-lhe o que tinha visto no valado, à espera de que me ele dissesse que havia de ter sido engano meu e que não havia almas do outro mundo e tal... Que o escudeirinho é um homem como se quer: foi emigrado, andou nas guerras, pinta letras melhor que o nosso escrivão e então para ler versos! Tem uma prosa que é um gosto ouvi-lo.

– Mas enfim...

– Mas enfim, disse-me muito sério que bem poderia ser; que já se tinham visto coisas mais raras. E contou-me uma história de um vampiro feita por um inglês doido que esteve na Grécia, chamado (parece que me disse ele) o Lorde Beirão...

– Adiante.

– Fiquei ainda pior do que estava. Há no mundo uns tantos livros que se deviam proibir.

– Diz bem. Adiante.

– Esperei que se recolhessem todos às suas camas (menos a menina, que se não recolhe senão de dia) e fui ter com o vizinho Cruz, que é também muito entendido; a respeito de coisas más e de sabedoria para curar bois, é o que cá temos. Respondeu-me que tanto queria crer no que lhe eu dizia que não havia ainda cinco minutos que, estando à janela a Sr.ª D. Angélica, passara pela rua, com andar vagaroso, sem fazer ruído nenhum, uma figura branca, pouco mais alta que o João Simões, mas do seu feitio, que parara diante dela com as mãos postas, meneando a cabeça de cima para baixo, como quem a chamava para si; ao que ela não respondeu senão com tirar-se da janela e fechar-lha nas ventas muito de rijo. Então a figura transpôs e à esquina desapareceu. O diabo da história do vampiro tinha-me posto o juízo...

– Adiante, adiante, homem. Você a contar é como um burro velho em estrada de Inverno: atola-se a cada passo.

– Obrigado, sr. regedor, pela cortesia. Disse eu então com os meus botões que o melhor de tudo era ir à fonte limpa: chegar ao moinho a saber se o João estava lá ou lá tinha aparecido desde manhã. Se assim fosse, claro estava...

– Que se não tinha afogado e que logo, portanto, não era ele por consequência a coisa branca que Vocês tinham visto.

– Pi, à, pá, santa Justa: assim mesmo é que eu discorri e por isso para lá ia quando me apanhou esta cachorra da chuva, que leva jeitos de não acabar nunca.

– E foi bom para Você, sr. André. Se tem chegado ao moinho, a primeira coisa que lá achava dentro era o seu fantasma.

– Que me diz Vossa Senhoria? Pois o diabo já lá chegou?!... Sempre aquilo de andar descalço, à moda do outro mundo, faz a gente muito leve! Então sempre eu digo que os vampiros... Mas conte-me isso por quem é.

Ia o regedor satisfazer-lhe a curiosidade quando ao longe avistaram uma luzerna que vinha para a sua banda. Calaram-se e refugiram para trás do tronco, à espreita do que tão inopinada novidade poderia dar de si.

 

CAPÍTULO XIII

A regedora da paróquia

Seguia a luz a vereda do moinho, a cuja orla se achavam os nossos dois terrificados; bruxuleava, escondia-se, tornava a aparecer, crivava-se, anuviava-se ou resplandecia em cheio, segundo eram os meandros pelo boleado do terreno, o despido, o silvoso ou o tapado das suas margens.

Só quando se chegou mais é que perceberam que os intempestivos viandantes eram um vulto a cavalo, com um gabão escuro e guarda-chuva de holanda crua, e outro a alumiar-lhe com um archote quase metido no focinho da besta. Àquela hora, devia ser cirurgião ou sangrador chamado à pressa para alguma aflição e acompanhado de algum moço ou vizinho do enfermo. Pois não eram senão a mulher e o criado do regedor.

Conheceu-a ele primeiro pela fala e, quase no mesmo instante, pela espécie de medo involuntário que lhe causou a sua aparição. Sai da emboscada; fala-lhe de longe para a não atemorizar e, correndo a tomar-lhe a rédea para a conduzir para baixo da sovereira, pergunta-lhe admirado pelo motivo de tal saída.

Era o caso que a Sr.a D. Quitéria Maria, esposa e assessora do magistrado, era destas a que chamam mulheres de armas, e podia vagamundear sem perigo mas que fosse por terras de infiéis e desacompanhada.

Como nunca de seu marido (nem de outro algum) tivera filhos e, segundo escrevem filósofos, toda a predisposição de bons e ruins afectos, mais pela tralha mais pela malha, se há-de sempre preencher, nele empregava, como em criança pequena, toda a sua actividade maternal. Fazia-lhe as obrigações de fora depois de feitas as da casa; por sóis e chuvas lhe andava com os ranchos da cava ou com toda a gente da ceifa; ao sábado fazia-lhe a barba; no princípio de cada Março, a tosquia e, de dois em dois anos, calças novas talhadas e cosidas por suas mãos, que para tudo as tinha habilidosas; receitava-lhe e enfermava-o nas suas macacoas; dirigia-o nos seus negócios; notava-lhe as cartas se tinha de as escrever; lia-lhe e explicava-lhe os ofícios que lhe vinham; e ponto por ponto lhe ensinava o que devia fazer no desempenho do seu cargo.

Com verdade se podia afirmar que, se não merecia trazer vestido de chita com xaile de algodão, merecia bem as barbas que Deus lhe tinha posto na cara com mão larga.

Depois que mandara ao sr. Afonso Alves, seu consorte, para o moinho a fazer as inquirições a que assistimos, ocorrera no lugar coisa que a obrigou a aparelhar a égua e a ir-se em cata dele; por modo que o zelo do serviço era uma das razões que a traziam, sendo a outra, e porventura a principal, o impedir que voltasse a pé, às escuras e sem chapéu de chuva nem capote, por uma noite como aquela se tinha posto.

Saltou do albardão abaixo com um pulo e, sentando-se no rústico e nodoso banco onde estivera seu marido, o qual se ficou em pé diante dela, mandou ao moço que se retirasse para o fim da ramada com o archote e pediu a André que o seguisse, pois se tratava, disse ela, de coisas de serviço.

Tanto como se viram sós, deu começo à sua relação.

Às 10 horas e meia da noite, estando já a aldeia quieta, sentiramse nela gritos para a banda da Portela, não longe da sua casa. Chamou por dois moços e pôs-se logo na rua para ver o que era e dar as providências policiais que o sucesso requeresse.

Toda a vizinhança macha da tia Eufrásia tinha saído de suas camas, de seus currais, de suas cozinhas ou dos seus palheiros, uns vestidos, outros em mangas de camisa, outros embrulhados em mantas; estes com fueiros, aqueles com chuços, e andavam numa grande altercação sobre se arrombariam ou não arrombariam a porta da cidadã velha donde tinham saído gritos de aflição seguidos de profunda mudez, que não tornara a ser quebrada.

A Sr.ª regedora Quitéria Maria cortara com uma palavra o nó górdio, decidindo que, pois de dentro se tinha pedido socorro, se podia e se havia de fazer o arrombamento.

Meteu ombros à porta; dois valentões reuniram os seus esforços aos dela, foi dentro.

Eufrásia e Mariquitas jaziam desmaiadas no chão, cada uma ao pé da sua cama. A candeia ainda acesa mostrava-as quase nuas, razão por que a magistrada gritou aos homens que não entrassem. Fechou a porta e dirigiu-se, só, a socorrê-las. A poder de muita água fria pelos rostos, volveram em si.

Ficaram admiradas e pareceram sentir um grande alívio em ver pessoa quase do seu sexo que as confortava e era muito bem capaz de lhes valer contra meio mundo, se quisesse, e assaz lhes mostrava que o queria.

Eis aqui, em poucas palavras, o depoimento delas, logo que lhes foi possível concertar as ideias e explicarem-se.

Acabavam de se despir; estavam ainda rezando as suas devoções para apagarem a luz e deitar-se para baixo; iam já no último padre-nosso oferecido pela mãe às almas que estão ardendo nas penas do Purgatório, a que a filha acrescentou «e pela alma do afogado», quando, por cima das ripas do tecto, sentiram as telhas traquinar no direito da candeia pendurada entre as duas barras. Voaram para aí todos os quatro olhos...

Viram uma abertura por onde saía um braço vestido de branco, a chamar com a mão para cima; aceno acompanhado de uma voz do outro mundo, à qual só perceberam:

– Maria da Eufrásia, Deus manda-te dizer... que saias para a quintã.

Não ouviram mais nada porque cada uma deu um grito, reviraram-se, caíram para o chão e perderam os sentidos.

Imagine quem puder como ficaria o coitado de Afonso Alves sabendo desta nova aparição, ele que tão abarbado se via já com as anteriores e a quem nem sua mulher era capaz de mostrar, no Código Administrativo, o que um regedor possa fazer para livrar de avejões o seu distrito. Começou a contar, como desculpa do tremor que sentia, o que ele mesmo ao sair do moinho presenciara; e já o seu susto ia calando na alma da ouvinte, mas secou-se-lhe a voz e não pôde mais que pegar na mão de Quitéria e apontar-lhe com ela para a égua...

Quem o creria? Um fantasma branco, ao reflexo longínquo do archote que parecia soluçar já os seus últimos paroxismos, montava serenamente no bruto. Com a esquerda fazia-lhes sinal de não bulirem e com o índice da direita sobre os lábios intimava-lhes segredo.

Com efeito, ninguém falou e ninguém buliu. O fantasma encavalgado torceu as rédeas à égua, começou a afastar-se a passo lento, continuou a trote, depois a galope, a toda a brida, e desapareceu na escuridão.

Trovejou pela última vez e um remoinho, com que o facho acabou de expirar, atormentou desde os píncaros até às raizes a sovereira, tão espavorido na aparência como os seus mesmos protegidos.

 

CAPÍTULO XIV

A venda do Peneireiro

Eram 9 horas da manhã seguinte. As janelas do quarto dos regedores (ou do regedor hermafrodita) estavam ainda por abrir. Ambas as metades dormiam, moídas da larga vela e extraordinários abalos padecidos durante a noite.

Nem o sino da missa ao nascer do sol (pois era domingo) os acordara; nem tão-pouco a necessidade que deviam ter de se refocilarem com alimento; nem sequer a matinada, que já por três vezes lhes tinha feito, a bater com pedras na porta, um homem que dizia ter que lhes falar e vir com pressa. Obrigado a resignar-se, tinha-se ido afinal sentar num poial fronteiro, esperando que Deus, que ressuscitou a Lázaro, arrancasse daquela espécie de encantamento a autoridade protectora do distrito.

Enfim, as janelas abriram-se.

Tornou a bater. D. Quitéria gritou-lhe de dentro: quem era? Respondeu que o vendeiro Santos, do Peneireiro.

Foi instantaneamente recebido. Era o melhor e mais certo freguês da adega do regedor, da qual, um mês por outro, se pode dizer que mandava ir uma pipa para o gasto da sua taberna. Desta vez, porém, não vinha a comprar, senão só a dar parte de um acontecimento em que a Justiça devia por força intrometer-se.

Por volta das duas horas da noite fora um cavaleiro bater à porta da sua venda, pedindo vinho em todo o caso, fosse o que fosse para cear e cama ou coisa que o valesse para até à madrugada.

O vendeiro, que fracas acomodações tinha para hospedaria, pois de camas não havia em casa mais que uma, em baixo, para ele e para a mulher, e outra em cima para a moça em metade do desvão do sótão, de que a outra metade servia de celeiro, correndo por divisão entre as duas um tabiquezinho com a competente porta; o vendeiro respondera-lhe que, uma vez que lhe pagasse bem a pousada, não punha dúvida em lhe ceder por uma noite o quarto da rapariga, a qual passaria como pudesse sobre o milho; que a besta ficaria amarrada debaixo do alpendre com uma pouca de palha para se entreter, e quanto a ceia e vinho, podia estar descansado, que não seria mal servido.

A rapariga, que orçava já pelos seus quarenta, desceu rosnando por lhe quebrarem o sono; o patrão intimou-lhe as suas ordens e o mandado de despejo temporário; deu as boas noites e recolheu-se para o seu cubículo, onde em breve tornou a pegar no sono.

O que dali avante se passou, não o sabia ele senão pelo depoimento da moça. O passageiro, que dizia seguir jornada do Porto para Lisboa, depois de comer uma açorda de broa e alhos e beber quase meia canada de vinho branco do sr. regedor e o último copo à saúde dele, que dizia, ser um seu grande amigo, foi para a cama, que teve a fortuna de achar quente à custa alheia. A Evarista, que não tem medo de homens, subiu também; disse-lhe:

– Fique-se com Deus; olhe, não se esqueça de apagar a lanterna antes de adormecer.

Passou para o celeiro às escuras e cerrou a porta.

Aqui D. Quitéria convidou o vendeiro para que se sentasse, prevendo que a história podia ser de miudezas. Afonso Alves já tinha tido vontade de lhe dizer o mesmo, mas não se atrevera por deferência para com sua mulher.

Sentaram-se todos os três e prosseguiu o vendeiro:

– Pois sr., o amiguinho, em vez de apagar a lanterna, pergunta à Evarista se lhe não podia arranjar ali mesmo para a cama papel e tinta, que precisava de escrever. Ela veio abaixo, cortou quatro folhas em branco de um livro de mão travessa que eu mandei fazer em Coimbra para assentar os calotes que me pregam (por sinal que já está ele quase cheio), levou-lhas e mais a tinta, e tornou-se para o seu espojadoiro, onde... (di-lo ela, valha a verdade) adormeceu como pedra em poço e dormiu até quase pela manhã. Quando acordou, estava ele a acabar a sua escrituração. Dobrou o papel e ia descer; naturalmente era para se pôr ao fresco e deixar-me ainda por cima acrescentados os assentos do meu livro. Ela, que tem muitos termos para saber viver com todos, saiu-lhe naquele comenos e deu-lhe os bons dias como que nada fosse... Aqui a Sr.ª parece-me que se está a rir. Eu já disse a Vossemecês que o que falo, falo da boca dela; lá o que eu creio ou não creio... Eu não me estou confessando, sabe Deus o que a mim me custa a fazê-lo na quaresma.

– Adiante, adiante – disse o regedor, e lançou o canto do olho para a mulher, a ver se aprovava o dito.

– Isso é – seguiu o minucioso historiador; – Vossemecês ainda não almoçaram e eu estou aqui posto de parlenga. Pois não é porque me falte que fazer em casa, que, bendito Deus, levo uma vida que nem um cão. Mas vamos cá ao caso. O sujeito deu-lhe os bons dias com bonito termo e disse que ia ver a besta se comia. Ela, pelo sim pelo não, desceu atrás dele. Logo que abriram a porta para o alpendre, viram na rua um rancho de dez ou doze galegos, destes que se tornam todos os dias de Lisboa para a terra com as algibeiras quentes, a rir e galhofar pela estrada fora. Também digo que para os do meu oficio são dos melhores passageiros que pisam terras de Cristo. Comem pouco e bebem menos, mas isso que comem e bebem pagam-no até aos últimos cinco reis. Lá como lhes ficarão os corações por dentro, não sei eu, mas que pagam, pagam.

– Adiante, adiante, adiante.

– Já ali o sr. seu marido está agoniado. É defeito meu; que lhe hei-de fazer? Sou assim; foi minha mulher que mo apegou; essa é que tem o diabo para fazer render uma história. Já uma vez, para contar a uma vizinha nossa que lhe tinha saltado um espirro de carvão num olho, gastou um serão de Inverno e não acabou porque a pobre criatura, só de a ouvir, entrou a cobrir-se de suores frios e por fim desatou nuns vómitos pretos que a tivemos por morta.

– Adiante – disse também D. Quitéria; – os tais dez ou doze galegos?

– É verdade, que aí mesmo é que íamos. Lá cabecinha como a da Sr.ª é que não há outra nas Bairradas, nem talvez em Lisboa. Foi uma asneira não nascer homem.

O vendeiro tinha a bossa de cortesão e de orador; sabia captar a benevolência e atenção dos seus ouvintes.

– Mas tornemos à vaca fria – prosseguiu ele. – Isto são duas palavras. Os galegos estavam parados no meio da rua a olhar para a besta e a botarem contas uns com os outros. Saiu um do rancho e veio ter com o meu hóspede, que logo viu ser o dono do animal pelo modo como lhe corria a mão pelo lombo. Perguntou-lhe se o queria alugar até ao Sardão. O meu hóspede respondeu: «Não se aluga, mas vende-se; quem esburgar doze mil reis, levou-o.» Asneira no homem: o bicho valia mais de cinco moedas. Os galegos tornaram lá a fazer o seu conventículo. Para encurtar razões: compraram-lho. Beberam e seguiram caminho. Nesse comenos cheguei eu; fiz a conta ao homem; era meia moeda e 35 reis; pagou logo e admirou-me, porque eu tinha sonhado que me não havia de pagar, e olhe que eu às vezes tenho sonhos, sr. regedor!, parece que só por arte má. Uma vez sonhei eu, era no tempo dos porcos...

– Adiante, adiante, com dez demónios! – disse D. Quitéria, e repetiu-o, como um eco do rochedo de Lorelei, Afonso Alves.

O vendeiro Santos concluiu, já de pé:

– Contou-me a rapariga a venda da égua. «Tate disse eu comigo. – Pois uma égua daquele feitio dá-se por 12$000?! Aqui anda coisa: o homem é ladrão.» Viro-me para ele e digo-lhe muito sério, assim em ar de remoque, para tirar nabos da púcara sem me escaldar: «Diga-me cá, sô passageiro, donde é que lhe veio aquela égua?»

– Pois era uma égua?! – exclamou D. Quitéria. – Que sinais tinha?

– Grande, castanha, calçada de branco nas mãos, focinho branco, rabo atado, albardão verde com pele de lobo por cima que podia valer sete tostões e umas andilhas de mulher com sua tabuinha para fincar os pés.

– Era a nossa... Era a nossa... Já, já, Afonso, ainda antes de almoçar, monta-te na primeira coisa que pilhares de quatro pés e vai-te pela estrada do Porto como um raio.

– E Você está bem certo – ousou perguntar ao vendeiro o regedor – está bem certo de que o passageiro... não seria alma?

– De chibo – volveu o narrador. – Eu lhe conto. Logo que ouviu aquilo que lhe eu disse, ficou mamado. Uma cara! Uma cara! Eu, que sou, com sua licença de Vossemecês, cabo de vigia à falta de homens, percebi logo. Boto-lhe a mão ao gargalo e grito: «Preso». Mete a mão às algibeiras para me dar dinheiro; mais me certifiquei da história. «Preso, com seis milhões de diabos. E não me refile. Marcha lá para cima. Isto há-de-se deslindar.» Obedeceu-me que nem eu o tivesse parido; branco, o diabo, branco... como a cal da parede. Embarrilei-o outra vez no quarto da moça, chamei dois vizinhos para fazerem sentinela da banda de fora da porta e vim dar parte a Vossemecê e mais ao sr.

Quitéria reiterou, gritando e batendo com o pé na casa, a ordem que já tinha dado ao marido, que sem mais réplica desapareceu. Pôs a sua touca de folhos, os seus sapatos de bezerro e a sua capoteira verde; chamou o escrivão, que morava à ilharga, e com ele e com o vendeiro dirigiu-se a marche-marche para o Peneireiro, pequena povoação de cinco ou seis vizinhos, sobre a estrada real e não muito distante de Aguim, que obra de quarto de hora ou vinte minutos, quando muito.

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