Cap. XV – (Confidencialíssimo) Álbum de um homem de génio
Cap. XVI – A quinta dos Álamos
Cap. XVII – Almoço. Meia declaração
Cap. XVIII – Progressos amorosos

CAPÍTULO XV

(CONFIDENCIALÍSSIMO)

Álbum de um homem de génio

Com cedo chegaram à venda, à porta da qual viram, bem a postos e armados de varapaus, os dois guardas.

Perguntou D. Quitéria ao vendeiro se não teria a casa outra porta ou alguma janela no sótão para a banda de trás a que importasse pôr vigias antes de entrar a tomar o preso.

– Nenhuma – respondeu o vendeiro – senão só lá em cima duas frestas pequenas, uma ao norte, outra ao sul, para arejar o milho e por onde só gatos poderiam caber. Assim não temos senão deitar-lhe a unha, amarrá-lo bem amarrado e mandá-lo acompanhado daqueles dois homens para onde Sua Mercê determinar.

Uma cavalgada de estudantes, que nesta conjuntura passava para Coimbra, parou à porta da venda para acenderem os cigarros e darem de beber aos arrieiros.

– Esperarão Vossas Senhorias um tudo-nada, srs. doutores – disse-lhes Santos com o chapéu na mão. – Temos primeiro que fazer aqui uma diligência: é prender um ladrão que eu meti lá para cima, para o quarto desta rapariga, que é minha criada e mais de Vossas Senhorias se for do vosso gosto.

Muito satisfeitos ficaram os estudantes com um episódio que inesperadamente se lhes deparava para desenfadarem a monotonia da jornada e ofereceram-se para ajudarem com a sua cavalaria e com a infantaria dos arrieiros o cerco da casa. A regedora aceitou o oferecimento e, depois de saber deles que haviam encontrado um galego assentado em andilhas numa égua castanha de focinho e mãos brancas, e também, pouco havia, um homem (que pelos sinais não podia deixar de ser o regedor) a cavalo num burro que se levava como um furacão na mesma direitura, que era a do Porto, distribuiu a gente pelos postos que melhor lhe pareceu e, ajudada só do escrivão e do dono da casa, trepou a carunchosa escada de mão que levava do fundo da taberna para o sobrado.

Que atónitos não ficariam quando, chegado acima o escrivão, que foi o primeiro a subir, exclamou que no quarto não havia vivalma!

Quitéria não podia acreditar, Santos ainda menos.

Procuraram debaixo da cama, por dentro do milho, numa arqueta do fato de Evarista onde não podia caber uma criança de cinco anos... e nada!!!....

Correram com os olhos o tecto de telha vã e, para o canto dele, notaram uma ponta de lençol amarrada a uma ripa. Tudo estava explicado: o facinoroso apartara as telhas, saíra por entre elas, prendera ali os lençóis da cama atados pela extremidade um ao outro, tornara a pôr as telhas, bem ou mal, no seu lugar, e pela traseira das casas se pusera a andar enquanto os seus carcereiros passeavam majestosamente pela testada do edifício.

*

Mas um papel jaz no sobrado por baixo do arrombamento. Deve ter caído ao réu na atrapalhação do fugir; será talvez preciso para corpo de delito e pode ser que dará luz e rasto para o seguirem. Descem para a loja; a curiosidade ajunta nela todos os do assédio para ouvirem a leitura. O vendeiro, que foi quem fez a achada, desdobrou, pediu atenção e principiou a soletrar.

Ninguém, nem ele mesmo, percebia palavra.

Sacou-lhe o escrivão o papel, investiu com ele e não logrou melhor venida.

Da mão do escrivão o tomou D. Quitéria; estudou-o por um breve espaço e, não se atrevendo a decifrá-lo, passou-o ao primeiro estudante que estava junto dela, o qual, lançando fora o charuto, se pôs a ler com declamação pausada e solene, ao passo que outro companheiro, bom taquígrafo e grande curioso de farsas, ia registando tudo num caderno que trazia. À generosa bondade deste é que o autor da presente, muito rara e verídica história deveu o obter a cópia fiel que tem a fortuna de poder apresentar, confiado na discrição e segredo de seus leitores.

Dizia pois o papel desta maneira:

APONTAMENTOS

PARA A MINHA CRÓNICA ÍNTIMA

 

I

Uma montanha de bronze acaba de cair de cima do meu coração, nesta noite solene, para o abismo do nada.

 

II

Eis-me livre. Rompi com a sociedade em que tinha vivido. Posso escolher a que me aprouver, ou nenhuma.

III

Eis-me livre, e confirmadas as vozes vagas do meu interior. Fui embalado numa canastra e num moinho mas, pela própria confissão desses dois entes cobertos de uma libré ignóbil de farinha, desses párias da sociedade moderna, sei que este sangue de vitríolo que me escalda as veias, não o recebi deles...

Um mistério profundo envolveu o meu nascimento. João Simões não existe. Rui mesmo terá talvez de se aniquilar, para ser substituído por um nome... quem sabe? Por entre as trevas da minha origem, até fantasmas de príncipes vejo voltear neste momento. A ninguém devo por lei da natureza os meus afectos. Atravessarei o mundo como um estrangeiro, podendo escolher a meu gosto o que hei-de amar ou aborrecer, ir para qualquer ponto do mundo sem que nenhuma voz me obrigue a tornar para trás, a apressar-me ou a deter-me. Só a mim respondo pelas minhas acções. Para mim só entrançarei as coroas dos meus prazeres; as minhas penas, se o destino mas reserva, ninguém terá o direito de se queixar delas.

IV

Sou livre. Morri afogado.

V

Sou livre. Na minha ambição frenética de conhecer o coração humano das mulheres, tinha querido ver se podia levar na minha fuga duas ao menos para os meus estudos. Uma, a que eu me parece que amava mais, resistiu-me por tola; a outra, a que eu mais admirava, repulsou-me por empáfias. Eu agradeço a ambas; assim vou mais ligeiro e levo duas bocas a menos. Perdi o farnel que tinha enterrado por prevenção para a jornada, mas fica uma coisa por outra.

Uma trova de um trovador popular exprimiu com assaz verdade este estado delicioso da alma em que me acho. Nunca mais me esqueceu desde que a ouvi cantar no Senhor da Serra:

Francisquinha, não me atentes;
diz se queres ou não queres.
O mundo de Cristo é grande,
não faltam nele mulheres.

VI

Sou livre. Pelo nobre direito da vingança adquiri uma égua, pertencente a um pateta e a uma toleirona que haviam jurado a minha perda. A sua égua vai ser as minhas asas enquanto eu precisar delas. Depois, desfeita em dinheiro, converter-se-me-á em fortuna, em deleites, em livros, em espectáculos, em todos os meios de felicidade. Lisboa sorri-me lá ao longe como uma estrela povoada de serafins.

VII

Sou livre. Logo que estiver na capital, vou-me fazer pedreiro-livre.

VIII

Não há triunfo literário, nem grandeza social que o meu talento desconhecido, que o meu génio até agora agrilhoado me não anuncie nesta hora suprema.

IX

O meu túmulo será bem diferente da minha canastra.

X

Adeus, belas vinhas, onde tantas uvas furtei nos dias doirados da minha inocência; onde furtei tantos beijos nas vindimas destes últimos anos. Beijos e uvas, nunca mais vos colherei nestes lugares. O meu coração deixa-vos as suas saudosas despedidas.

XI

Serões harmoniosos à fogueira, no meio dos bailes da Corte e dos espectáculos, eu vos não esquecerei jamais.

XII

Pobre coração humano! Impotente para a dor, tu és não menos impotente para a ventura. Vou ser feliz e estás triste. Oh! É que tu és de uma elasticidade que me pareces de borracha. Além de duas imagens de mulheres que já levavas para as tuas reminiscências poéticas, esta noite singular veio depositar em ti mais uma...

Não, interessante Evarista, nunca me esquecerei...

Ah! Não seres tu filha de pais incógnitos como eu! Nós teríamos associado os nossos destinos para toda a vida. Com que embriagamento te estou vendo dormir na tua cama, enquanto eu sobre o teu travesseiro escrevo estes tocantes apontamentos da minha vida, desta misteriosa vida por onde tu atravessaste por um momento como uma destas estrelas que caem, atravessando o céu numa noite escura...

Essas mãos condenadas a medir vinho e a fazer açorda! Oh! E porquê?, pergunto eu à Providência. Que têm de mais, em que valem mais as princesas do que tu?...

Torna a adormecer; lindo anjo mascarrado. Ah!, não seres tu!... Sim, não seres tu filha de pais incógnitos!...

XIII

Não importa. Daqui a quatro dias, o Tejo!

*

Nisto findava o papel, cuja leitura não fora perturbada nem pela cólera que se acendeu na alma de Quitéria no ponto em que se falava da égua, nem pelas suspeitas que o parágrafo relativo à moça suscitara no vendeiro, em sua mulher e, muito piores, em dois ou três dos arrieiros circunstantes.

O breve silêncio que se seguiu, rompeu-o a regedora perguntando onde estava a Evarista.

A crónica íntima tinha-lha mostrado, como através de um sedeiro, pelo menos consentidora na fuga do poeta livre. Os arrieiros e o Santos ainda viam pelo mesmo sedeiro muito mais. Chamou-se, tornou-se a chamar por ela; não respondeu.

Um dos dois vigias da porta acudiu então, que a rapariga a tinha ele visto sair, havia mais de hora e meia, com o cântaro vazio enfiado no braço.

– E a fonte fica longe? – perguntou o estudante que fizera a leitura e que tinha o seu grau de bacharel em Direito.

– Qual longe! São meia dúzia de passos.

– Pois então dêem. os senhores por certo que foram cabulados pelo trocista e que a estas horas toda a sua pena é faltarem-lhe os seus apontamentos para acrescentar a eles:

XIV

Vai comigo uma boca de mais. Não importa. Durante a jornada continuarei os meus estudos práticos sobre o coração humano das mulheres na pessoa deste meu anjo, a quem mandei lavar a cara.

*

A conjectura do académico não deixava de ser verosímil.

Um dos três arrieiros, que estavam de má cara, apressou a saída representando que era tarde e que haviam de picar as mulas. Os estudantes montaram com grande risota e arrancaram a galope, com os olhos a uma e outra banda, com tenção feita de não deixarem escapar moça nenhuma sem lhe perguntarem se se chamava Evarista.

O vendeiro encostou-se ao mostrador a cismar; D. Quitéria pediu almoço e, enquanto a taberneira lho aprontava, ditou ao escrivão um auto de fuga de preso com arrombamento de cadeia e sedução e rapto de uma donzela e de uma égua.

Sente o autor desta instrutiva obra que o seu nunca assaz louvado amigo, o taquígrafo, se não achasse presente, por se ver assim constrangido a deixar incompleto este capítulo, que aliás tão didáctico pudera sair!

 

CAPÍTULO XVI

A quinta dos Álamos

Eram mais de 10 horas da manhã deste mesmo domingo em que passavam os acontecimentos que deixámos contados.

À boca da espaçosa e antiga alameda, que dava nome e veneração à quinta de D. Matilde, trotava o escudeiro como batedor. Com largo intervalo seguia-se-lhe D. Angélica em selim inglês, casaquinha de montar, chapéu de castor alvadio com fitas soltas de cetim azul e um pequeno véu raro para abrigo do rosto contra o sol. Da sua mão bem calçada pendia um leve chicotinho da mais elegante forma, enfeite P não instrumento, pois nem uma só vez em toda a jornada a cavaleira atentara nos vagares da mulinha para os corrigir. O seu espírito corria por outras regiões; bem sabia ela como e por onde o seu corpo era levado!

Seguia-se com pequena distância a aia e fechava a marcha a infantaria, composta de dois moços da lavoura, trazendo cada um às costas uma cordilheira de trouxas e caixas grandes de papelão, que espantavam pelo volume a quem as via e mais espantariam pelo peso a quem lho tomasse: não o tinham, talvez, de dois arráteis. Encerravam (para nos servirmos da expressão de um escritor chistoso) os diversos fragmentos de que se compunha a folha de figueira desta filha de Eva.

D. Matilde passeava, à espera, na larga varanda lajeada e coberta que por toda a frontaria do edifício se alongava, com suas colunetas de pedra branca sextavadas, divididas entre si com gradaria de ferro até à altura de encosto cómodo. Parecia preocupada, cuidosa, impaciente. Duzentas vezes tinha parado a interrogar ao longe o caminho em que ninguém aparecia. Já finalmente, de puro cansada, ia sentar-se num dos bancos de espaldar, de que era cingido, entre as envidraçadas portas de salas e quartos, todo o fundo da varanda, imenso painel de azulejos bíblicos. Eis que descobriu a cavalgada.

Desceu, pressurosa, uma das escadarias de pedra com que a varanda nos extremos se comunicava com o largo pátio e, com o rosto e braços abertos, fora dos umbrais do portão de ferro recebeu a afilhada, a qual lhe sorriu o melhor que soube. Deram o braço uma à outra e, perguntando e respondendo mil coisas a um mesmo tempo, encaminharam-se, ligeiras, para a casa de comer.

A mesa para o almoço estava já rindo com a sua fidalga baixela de porcelana do Japão e de prataria maciça lavrada de bestiães, selada toda com as venerandas armas da família.

– Esses senhores ainda não vieram? – perguntou D. Matilde a uma criada.

– Já se foram chamar; estão lá para o lago, no fundo da quinta.

– Não importa. Principiemos nós, minha afilhada. Saberás que temos hóspedes; desta vez espero que aches mais aprazível a minha solidão.

– Não pode haver para mim solidão onde esteja a minha mãe.

– Vamos, vamos... Uma velha.

– A alma de minha mãe nunca o há-de ser.

D. Matilde dispensara muito bem o elogio da sua alma; ao das suas graças físicas, ao do seu frescor ainda muito sofrível é que ela armava, arriscando aquela fatal palavra de velha que os seus cabelos, ainda todos pretos, ou já todos pretos (não sei), o carmim das faces e a abundante beleza do seu seio, só por modéstia encoberto até ao colo, desmentiam como irrefragáveis documentos.

– Pois, minha filha – continuou ela após um breve silêncio reflexivo –, temos uma sociedadezinha para dois ou três dias que espero nos faça passar as horas sem as contarmos todas, como às vezes nos sucedia nos nossos serões só de família. São uns cavalheiros do Minho, ainda moços, estudantes da Universidade. Chegaram ontem aqui, indo de jornada para Coimbra; souberam pelo padre capelão que os estudos ainda não abriram e aceitaram o meu convite. Meu primo, principalmente, é que eu desejo que tu conheças. É um moço na flor da idade, já capitão, que há-de fazer este ano a sua formatura em Matemática; boa casa, muito espírito, muita graça; e quanto a sangue... é meu parente. Ele viu o teu retrato que está na sala e perguntou-me se era o meu feito há poucos anos; não é possível ser mais cortês, porque tu naquele retrato estás realmente muito bem. Respondi-lhe que não e que para prova ele veria dentro em pouco o original. Tornou a olhá-lo com maior atenção e disse: «Não sendo de V. Ex.ª, como me tinha parecido, custa a crer que não seja uma fantasia, um sonho namorado de pintor.»

Angélica abaixava os olhos, afectava pregar melhor o alfinete do peito para ter ar de fazer alguma coisa mais que baixar os olhos. A aia, que vinha entrando, sorria para cada uma com sorriso muito diverso e muito dissimulado.

 

CAPÍTULO XVII

Almoço. Meia declaração

D. Luís, o primo de D. Matilde, acompanhado dos seus jovens contemporâneos e do padre Timóteo, ex-carmelita descalço e capelão da casa, entrou, dirigiu-se à prima cumprimentando-a com certa familiaridade grave do melhor tom, saudou a hóspede com respeito e sentou-se à mesa defronte dela, não sem inveja talvez ao padre Timóteo, amigo velho a quem ela chamou para o sei: lado. Os outros comensais tomaram assentos ao acaso.

A conversação tornou-se geral. Falou-se da lindeza do dia, que estava convidando ao passeio, da formosura da quinta, que eles acabavam de correr toda, da felicidade de viver longe da Corte, numa província pacífica e amena, num palácio magnífico, gozando da abundância e reinando pela beneficência e pelos respeitos devidos à hierarquia sobre todos os vizinhos.

Estas reflexões, em que D. Luís insistiu para a sua venerável consanguínea, foram logo por ele mesmo acompanhadas de outras, que pareceriam endereçar-se ao carmelita se ombro por ombro com o carmelita não estivera mais alguém com quem era fácil confundir-se a pontaria. Se esse alguém era realmente o seu alvo, nunca houve alvo mais vermelho.

A sobrecasaca militar, o marcial bigode, o rosto vívido, o olhar fino e estratégico do capitão e, mais que tudo, os seus vinte anos, não deixaram de destoar da simpatia que ele protestava ter sempre sentido para com os prazeres serenos e variados, posto que uniformes, do existir provinciano.

O belo ideal das condições terrestres era, em sua opinião (repetia ele), respirar os ares puros de uma natureza ainda não de todo adulterada, no meio de gente pouca em número e ainda não de todo pervertida pela refinação; estabelecer com os homens e com a terra um sistema constante de benefícios mútuos e gozar deles com uma esposa... E aqui seguia-se, olhando pela janela fronteira para o vago azul do horizonte, um retrato que ele talvez estivesse inventando mas que era, pouco mais ou menos, o de D. Angélica. Os estudantes apoiavam-no a cada pincelada, D. Matilde figurava discrepar num ou noutro ponto para o constranger a insistir. A retratada dava, corando, um novo assunto ao inventariador das suas graças e o bom padre, com os olhos muito abertos, louvava interiormente a Deus de ver tanto juízo em tão poucos anos, num fidalgo, num estudante de Coimbra. Guerreiros lavradores, tinha-os havido entre os Romanos; porém, cá, nestes tempos!, um Cincinato daquele feitio!...

E, realmente, havia contraposição mais que artística entre o que se via em D. Luís e o que se ouvia sair dos seus lábios em cascatas de frases harmoniosas e quase eloquentes.

Era necessário fechar os olhos, ou os ouvidos. A sobrinha do professor não fechava os olhos, mas abaixava-os, escutando e comentando entre si, com páginas de admirações e entusiasmo, cada uma daquelas palavras que o seu espírito ia enfiando como pérolas para não perder nem uma.

O orador, animado pelo efeito que sentia produzir, adiantava-se voluptuosamente de quadro em quadro. Já ia no da família em serão de Inverno: o marido a ler em voz alta; os filhos em roda do braseiro a fazerem saltar as chispas; a jovem mãe, com o mais pequenino no colo, a sustentá-lo de leite e beijos; as criadas a coserem e a decorarem com enlevo aquelas brilhantes e extraordinárias narrações dos livros, feiticeiros benéficos a cujo aceno tudo quanto o mundo teve, ou pode ter, de extraordinário, vem passar aformoseado por baixo dos nossos olhos, debaixo das nossas telhas, sem nos ser mister bulir com mão nem pé para o desfrutarmos.

Angélica não podia mais de felicidade; a sua turbação já começava a denunciá-la. D. Matilde julgou conveniente levantar a sessão e perguntou pela missa; o padre Timóteo respondeu que estava às ordens e ergueu-se do suculento almoço em que se representara de Tântalo, para se ir revestir.

A aia, a um sinal da ama, que tinha que permanecer com os convidados, foi com a hóspede reintegrá-la na posse do seu quarto novo.

– Feliciana das Mercês não seja eu, minha rica menina – disse a abelha-mestra fechando a porta à chave logo que ambas entraram no aposento – se o sr. D. Luís...

Angélica figurava não atender, ocupada em despir o seu trajo de caminho e procurar nas caixas de papelão outros enfeites; mas notando que a maliciosa cinquentona se havia calado para se vingar de lhe não tomarem com ambas as mãos a sua confidência logo ao nascedoiro, afoitou-se a perguntar, como por de mais, quem era D. Luís.

Feliciana, que não desejava nada tanto como palrar, disse-lhe a respeito dele tudo que sabia, tudo que supunha e tudo que lhe aprazia imaginar: que era rico e morgado, cheio de boas qualidades e prendas, que mais de quatro herdeiras na sua província lhe puxavam pela farda mas que (segundo dizia o seu criado) o seu maior defeito era ter um coração inconquistável.

– E Você, com a sua experiência do mundo, crê nisso? – disse D. Angélica, rindo.

– A dizer a verdade – replicou a outra – não parece muito natural. Se a menina visse como ele ontem olhava para o seu retrato!... Pois agora ao almoço!...

– Agora ao almoço!... O quê?

– Todas aquelas histórias... Vamos lá, vamos; escusa de se virar para a janela do jardim que não anda lá ninguém a passear.

– Que má que Você é! Pois tudo aquilo que significava? Palavras de um cavalheiro que sabe entreter senhoras, nada mais.

– Pode ser, mas creio que não é essa a nossa opinião...

– «A nossa»?!...

– Falemos sem disfarces. Aqui ninguém nos ouve; a madrinha está longe e a menina bem sabe que eu sou um poço para segredos. O sr. D. Luís ficou encantado de a ver; a menina bem o percebeu e nem por isso lhe pesa muito. Olhe que eu, ainda que me veja assim, já também tive dezasseis anos como qualquer.

– E porque havia eu de estimar isso, quando assim fosse? Porventura minha madrinha... e ele mesmo...

– Se ele a ama deveras, quem lhe pode estorvar que realize, com uma donzela de tantos merecimentos, aquelas pinturas que esteve fazendo, da bem-aventurança do viver provinciano? E quanto à Sr.ª D. Matilde, essa lá sei eu que lhe quer como se fora sua filha própria; não haveria coisa que não fizesse por a ver bem empregada. Ora diga: se lhe ela propusesse... teria boca para lhe dizer que não? Já me confessou que a sua alma estava livre.

– Oh! Livre como o pensamento.

– E dir-lhe-ia que não?

– O céu me defendesse de desobedecer à minha madrinha.

– Ah! Seria só por obediência?... Vamos, mais sinceridade com quem a viu nascer, com quem está pronta para a ajudar em tudo só pelo interesse de a ver feliz. Vamos, a menina ama o cavalheiro.

– Amo-o, sim, amo-o; porque o dissimularia eu? Que nobreza de sentimentos! Que espírito! Que figura! Que maneiras! E sobretudo... que estilo tão encantador!

– Perdão. A senhora que toca, no seu quarto, já pela segunda vez...

Deixou a velha a súbitas a nossa namorada, radiante com todos os resplendores do primeiro alvorecer de um estio do coração, e correu ao quarto da sua ama, a quem fez em poucas palavras a verídica narração de quanto havia descoberto, tanto no serão que passara em Aguim com a menina, como na pequena conversação de que saía: tivera uns namoricos platónicos, largara-os a tempo e para sempre, e achava-se cativada, muito cativada, de D. Luís.

– Bem – exclamou D. Matilde; – é necessário favorecermos esta inclinação nascente, atiçarmo-la mais e mais na alma de ambos, suprirmos com a nossa experiência a que lhes falta, desviarmo-los da voragem deliciosa em que naufraga todo o amor e prepararmos-lhes um futuro comum cuja felicidade se reflicta para os meus últimos dias. Ah! Toda a minha larga vida de penas eu a darei por compensada. Feliciana, tu conheces os meus projectos, só tu sabes as ponderosas, as imensas razões que tenho para desejar, mais que tudo e apesar de tudo, a ventura da pobre Angélica...

Tocou pela terceira vez a sineta para a missa. Toda a gente do palácio foi correndo para a capela num dos topos da varanda. D. Luís teve a fortuna de poder, no meio da turba, oferecer um braço a sua prima e outro à sedutora afilhada que, depois da sua recente mutação de vestuário, vinha ainda mais gentil.

 

CAPÍTULO XVIII

Progressos amorosos

Durante a missa não cessaram os estudantes de observar a D. Luís, nem D. Luís de contemplar a D. Angélica, ajoelhada ao pé dele e toda recolhida (ao que parecia) na mais profunda devoção. Nela, olhos, fronte, fisionomia, tudo orava como os lábios e a postura.

Tem de si o amor o que quer que seja de celeste, que se revela por aspirações místicas, por tendências religiosas. Florinha terrestre exposta a perigos e a adversários de todo o género, este pobre afecto compraz-se de exalar as suas fragrâncias para as alturas como a implorar raios de sol, influição de estrelas que o prosperem e o deixem vingar a sair fruto.

Orar é também amar.

A mulher, em respeitoso silêncio, prostrada ante as aras santas, diviniza-se aos olhos do amante que lhe está vendo desabrochar na alma, sob um horizonte infinito de pureza, todas as mais belas virtudes do seu sexo: a fé, a confiança, a resignação, a heroicidade para os sacrifícios inglórios e espontâneos. É uma figura solene em perfeita harmonia com o lugar santo, no qual tudo, como nela, contém mistério e suavidade: o incenso, a meia luz, as flores, as imagens da Virgem e as dos anjos...

Não afirmamos quais fossem ao certo os pensamentos de Angélica e, se os céus eram, ou não, o pano em que ela debuxava com êxtase uma figura idolatrada. Mas no sentir de D. Luís, o nome de Angélica era o único digno de um tal ente: condizia com todas as disposições que pelo exterior se lhe adivinhavam e que até um ateu folgara sempre de encontrar na mulher que o subjugou.

Acabada a missa, passaram para a sala.

Tão ao de leve poisava o braço de D. Angélica sobre o de D. Luís que não lhe parecia coisa terrestre; o fidalgo comparava-o mentalmente com o carrego maciço que o pendia para a outra banda. Confirmava-se mais na persuasão de que tinha encontrado um puro espírito com quem só pelo espírito se podia comunicar e (coisa inaudita!) sentia-se covarde como um caloiro chamado pela primeira vez à sabatina. Colocou, respeitoso, as duas damas diante do canapé e maquinalmente dirigiu-se, pensativo, para uma das quatro sacadas da sala, que descobriam em face a majestosa montanha do Buçaco.

O sol meridiano revolvia com a viração as suas grandes vagas de oiro pela amplidão da mata em que o antigo mosteirinho rústico se homizia como o rosto de uma viúva que chora e reza sob o seu capuz escuro, de joelhos em cima da terra dos desenganos. Aquele aspecto saudoso, o misto de formosura natural e de religiosa elevação que dali ressurtia para a alma do espectador, acrescentavam forças ao encantamento que já o desatinava.

Não sabemos todos como uns amores noviços absorvem, ávidos, e assimilam tudo quanto lhes pode convir dentre os objectos circunfusos? Ah! Quantas vezes, de um concurso fortuito de elementinhos que se diriam imponderáveis, não resultou que uma paixão formasse o seu carácter de sólida ou de inconstante, de sombria e terrível, de medrosa, de confiada ou de fácil e risonha! Se há matéria em que se possa dar algum crédito a auspícios (o que nós firmemente acreditamos pela fé implícita que nos merecem vários romances muito filosóficos), essa matéria predestinada e precita é o amor.

Ai, que ao de D. Luís não presidem por ora os melhores auspícios! O seu germe veio cair da urna do destino em presença de um carmelita descalço e em jejum; desenvolveu-se numa capela onde, sim, cabem o matrimónio e o baptismo, porém onde mora, como em estância própria, o pensamento fúnebre e contínuo das vaidades deste mundo. Agora tem em perspectiva um ermo de celibatários penitentes e, para daqui a três dias, o desterro.

D. Matilde conversava em voz baixa, mas animadamente, com D. Angélica. D. Angélica forcejava por imitar o esperançoso do semblante de sua madrinha e percebia-se que a vontade se lhe quebrava em montes de obstáculos antevistos; queria estar alegre e os seus olhos passeavam, cismando como os de D. Luís, além, pelos píncaros silvosos da serra, tão resplandecentes por fora e talvez por dentro bem espinhosos, bem frios e bem escuros.

Há um instinto de vida que não deixa permanecer por muito tempo entregue a melancolias ameaçadoras sem lhes procurar remédio na distracção. D. Luís voltou de repente as costas ao Buçaco; esfrega a testa para sacudir imagens importunas; corre a sentar-se diante de um piano antigo de Astor que não foi tocado haverá um ano. Palpa o teclado com desembaraço de mestre; não era necessário ser Liszt para ter muito que dizer da afinação. Não importa, arremessa os esquadrões das contradanças francesas que sabe de cor por cima daquele escabroso terreno músico com uma intrepidez, com uma facilidade, com uma graça que para logo conciliam as atenções; apertam círculo à roda do novo Orfeu. Matilde e Angélica mesmas vêm sentar-se ao pé do piano. O Buçaco e os agoiros estavam já entre os antípodas.

D. Luís, entusiasmado como um artista, improvisava trechos notáveis pelo mavioso, pelo arrebatado, pelo delirante, pelo melancólico, sem despregar os olhos dó semblante que lhos ditava e onde se liam sucessivamente as diferentes impressões que ele mesmo sentia em si ao executá-los.

A Música! A Música! Onde há aí terceira11 de amores mais disfarçada, eloquente e persuasiva do que a Música?! Eurídice...

Deixemos a comparação: pertence ao género clássico, justa e solenemente abjurado pelo autor logo que empreendeu escrever esta interessante crónica. E de mais: a disparidade aqui seria flagrante em todos os pontos: os dois lugares, as duas heroinas e, sobretudo, os dois instrumentos. Que desalmado compararia o piano da quinta dos Álamos com a lira afinada de novo (e de propósito) pela mão do cantor da Trácia?

Não pode ser. Não há-de ir a comparação.

Fosse como fosse, ao cabo de meia hora deste exercício filarmónico, pode-se dizer que todas as principais declarações, que tão difíceis pareceriam ainda há pouco, estavam feitas, recebidas, sancionadas, ratificadas e trocadas de parte a parte. Não era pequeno bem. Assim se forrava assaz tempo, mais que precioso para eles que o não tinham para esperdiçar e ficavam em grande parte suprimidos os primeiros enleios de uma exposição, que por tão formidável coisa se tem em drama de sentimentos e em que tão parva figura de ordinário se representa.

D. Luís, acabando de tocar, pediu a D. Angélica lhe desse o gosto de o acompanhar, pois já sabia por sua prima que tinha uma voz, um estilo... D. Angélica defendia-se mas D. Matilde interpôs a sua meia autoridade, não houve remédio senão capitular. Cantou com voz trémula, porém melodiosa e engraçada, a aprazível, a tocantíssima oração de Norma ao astro pacífico das noites no meio das selvas druídicas das Gálias.

O seu italiano nem por isso era lá dos mais primorosos; tinha-o aprendido com D. Matilde, que o não tinha aprendido com pessoa alguma. Coisas pronunciava que fariam saltar com riso as cabeleiras da Academia da Crusca; mas D. Luís era, pelo menos naquela ocasião, como o Bernardim de Saint Pierre, que achava guapos e dulcíssimos em boca feminina os solecismos; e depois... reflectia muito prudentemente que uma sacerdotisa das Gálias não era obrigada a pronunciar o italiano como uma Corila olímpica. Havia exacção e verdade quanto ao afecto? Era o essencial. Para ajudar a ilusão, ali estava uma floresta diante dos olhos. Que mais era necessário? Um guerreiro para amar? Era-o ele e com vantagem, que não havia de ser bandoleiro como o crudel romano; uns filhinhos pequenos da casta virgem? Eles viriam a seu tempo. A Poesia começava a obra de sedução começada pela Música.

No meio das palmas gerais à cantora, dos elogios sem medida com que a oprimia o seu primeiro ouvinte e dos beijos maternais com que sua madrinha a recompensava da glória que lhe acabava de dar, entra na sala mestre Ambrósio, barbeado, escovado, engraxado, pulcro e até de luvas de anta amarela que lhe não servem senão nas ocasiões maiores.

Era domingo. Não havia que fazer, montara a cavalo e vinha jantar com a sua comadre, que muitas vezes o convidava e por quem era sempre recebido com entranhada satisfação.

Perguntado pelas novidades (como é de uso no campo em aparecendo alguém de novo), contou, com grande admiração do auditório, a história do fantasma ou fantasmas aparecidos em Aguim aquela noite; da exumação dos queijos; do perdimento da égua do regedor; da fuga do ladrão que estava preso na venda do Peneireiro e que deixou um papel que ele mesmo viu na mão da regedora, do qual parecia inferir-se que não era outro senão um filho da moleira Teresa de Jesus, do outeiro, que estava doido e que ia fugido para Lisboa em companhia (segundo se podia crer) da sua mesma carcereira, a moça da taberna.

D. Matilde tinha ido desmaiando sem ninguém perceber, tanto estavam todos embebidos na cara do professor, e só em tal se advertiu quando, a um grito de D. Luís, se viu que outro tanto acontecera a D. Angélica. Corre-se, revolve-se a casa, acodem os copos de água, os frasquinhos de essências, as lãs a arder; escancaram-se as janelas, fervem e embatem-se no ar receitas contra histéricos.

Ambas as desmaiadas tornaram em si. Obrigaram-nas a agitar-se, a passearem na varanda.

D. Matilde, pensativa, afrontada e correndo-lhe em fio as lágrimas, vai entre o compadre e o capelão, que lhe dão cada um um braço como quem aguenta com brio um andor rico em procissão de cinzas.

Para D. Angélica basta um só arrimo: enjeitou e agradeceu todos os mais que se lhe ofereciam, o braço de D. Luís a sustenta. Graças ao seu estado, firma-se nele como ainda há pouco não ousava; deixa-o apertar; não corresponde mas não se esquiva; quando faltam as forças... E depois, quando talvez tudo aquilo não seja senão para melhor a amparar!...

Um desmaio! Um desmaio! Após a Música, o melhor protector de namorados é um desmaio. Perguntai-o aos dramaturgos e às autoras de novelas e a todas as vossas conhecidas, destas que têm uso de as ler.

Que realce de formosura não estão dando à nossa virgem sentimental o palor, a languidez, o cansado dos olhos, o respirar afanoso que lhe ficaram do seu desmaio! Como lhe cai natural o ir pendida com o rosto quase encostado ao ombro do seu cavaleiro, confundindo com o dele o seu hálito, respondendo-lhe em voz sumida palavras de agradecimento, de desculpa, de semi-esperanças!

Um monumento com uma estátua desmaiada à primeira inventora dos desmaios!

– Que sensibilidade! – dizia D. Luís em tom que só D. Angélica podia ouvir. – Que tesoiro! Que tesoiro! Ah! Se eu ousasse!... Se não fosse o receio de abusar de um estado de saúde...

– Ai! – interrompeu ela, tomando uma aspiração abundante. – Passou; sinto-me já mais aliviada. Foi terrível... Não posso ouvir contar desgraças...

– A moleira Teresa de Jesus, que deseja falar já já com a fidalga – disse o escudeiro chegando-se respeitosamente a D. Matilde.

– Que suba para o meu quarto – respondeu a dama, soltando-se dos seus dois Cireneus e seguindo o escudeiro quase tão leve como ele.

Notaram os espectadores que uma segunda demão de palidez lhe cobriu o rosto mal escutou o nome de Teresa de Jesus.

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