Cap. XIX – Um postre muito dispensável
Cap. XX – O monstro
Cap. XXI – O italiano

CAPÍTULO XIX

Um postre muito dispensável

Mais de uma hora se demorou D. Matilde fechada no seu quarto com a moleira. O que entre as duas se conversou, ninguém o soube senão Deus e a criada grave, que não despregou a orelha do buraco da fechadura.

Toca a sineta para o jantar. D. Matilde reaparece para tomar a cabeceira da mesa; oferece o lugar da direita ao primo e, como o primo trás (já se sabe) pelo braço a afilhada, fá-la assentar no imediato. À afilhada segue-se mestre Ambrósio, outro estudante, depois o capelão, depois o outro académico, o cirurgião que foi chamado no primeiro reboliço do histérico, um morgado velho outrora capitão-mor, o cura e um proprietário, lavrador abastado da vizinhança e sua esposa, dois figurinos fósseis do século passado. Doze convivas ao todo, número canónico e de bom agoiro em toda a parte.

Não obstante, o banquete principiou silencioso. A dona da casa não falava, comia pouco e distraída; fosse qual fosse o seu cuidado, algum a remordia lá por dentro.

O progresso das cobertas e os brindes requeridos pela cortesia e multiplicadas pelo agradecimento, foram levantando gradualmente os espíritos; a conversação, encetada a pares e em voz baixa, subiu e generalizou-se. Quando se puseram as sobremesas, era já agradável temporal de sons em que seria muito difícil pescar duas ideias conciliáveis.

Há naquelas partes um provérbio, sempre repetido pelos clérigos em dias de bodo ou jantares de irmandade e que o autor regista aqui não só por vir a propósito, mas por lhe parecer que poderá ministrar alguma luz aos futuros inventores de fisiologias de omni scibili, quando se lembrarem de tratar das secretas relações que há entre o espírito, o coração e o estômago humano. Diz o provérbio:

In principio, silentium; in medio, stridor dentium; in fine, confusio gentium.

Este último período, a confusão, é sempre o mais agradável para dois amantes, a quem nunca falta que dizer em particular.

O negócio comum de D. Luís e D. Matilde caminhava a passos de gigante.

O doutor, que não podia corresponder melhor à graciosa hospedagem da fidalga que provando-lhe o seu zelo como fiscal da saúde pública da casa, pediu a palavra e, com o copo cheio de generoso Bairrada já encanecido, propôs, para completo restabelecimento daquelas senhoras, apenas se tomasse o café, que era o primeiro antiespasmódico abaixo do vinho, irem fazer uma passeata a cavalo visto achar-se a temperatura e o estado barométrico da atmosfera numa idiossincrasia perfeitamente acorde com a susceptibilidade do sistema nervoso do belo sexo depois do jantar; que ele mesmo, se lhe permitissem essa honra, acompanharia o farrancho e esperava que nenhum dos cavalheiros presentes deixaria de seguir o seu exemplo.

D. Luís bebe à saúde do cirurgião e da proposta. Os dois académicos, o cura e a proprietária imitam-no. O padre Timóteo encolhe os ombros com a resignação passiva de um carmelita. Mestre Ambrósio fica à espera da resposta da comadre; a comadre não a dá e o orador, com a hipotética saúde em punho e ainda intacta, ia já recomeçar uma dissertação de patologia nevrológica sobre a equitação em relação à conservação ou reparação do equilíbrio das funções nos aparelhos gastroencefálicos com o que todo o auditório havia de ficar abismado.

O momento era crítico. D. Luís, a ver se desviava o iminente vendaval de sabedoria, virou-se um pouco para D. Angélica, apontando-lhe com os olhos suplicantes para a madrinha. Qual é a dama dos pensamentos de um homem que lhos não adivinha pelos ares? D. Angélica puxou pela ponta do xaile a D. Matilde, quebrou-lhe o encantamento e requereu-lhe com um sorriso que se não opusesse. O projecto de lei foi sancionado; ergueram-se e, tanto que o padre Timóteo acabou de dar graças a Deus em latim e em português à dona da casa, foi cada um fazer as necessárias disposições.

Num quarto de hora já o antiespasmódico de Cabo Verde" se tinha super-injectado no da Bairrada e ao longo da alameda corria a estrepitosa cavalgada levando na vanguarda, e a distância menos má, o nosso par, daqui por diante inseparável. D. Matilde e o padre capelão, seguidos a cinquenta passos pelo escudeiro e pela aia, cobriam a retaguarda. Os estudantes volteavam como flanqueadores, ora a um, ora a outro lado, para trás, para diante, apressando os vagarosos, contendendo com todos os do centro, particularmente com a proprietária, que se levava, pomposa, ataviada do seu rosicler de camafeus, em cima de um macho descomunal, como a rainha de Sabá sobre o espinhaço do seu camelo. Era realmente, como parecia a seu marido, a flor cimeira do ramalhete.

Mas para onde ia tudo aquilo? Ninguém em tal cogitava. O único fim era o exercício. Para qualquer parte que os jovens batedores os levassem à toa, com o belo tempo que fazia, com o perfume balsâmico de que as vinhas maduras regalavam os ares, com o deleitoso e variado das campinas que atravessaram, era sempre um passeio encantador além de higiénico.

Já a primeira fúria do galopar tinha amainado e o exercício ia dividido em pequenas turmas, segundo o acaso as compusera, todas mais ou menos apartadas umas das outras.

Costeavam a beira de um pinhal fechado quando dentro dele rebentam uns rugidos silvestres, tão ferinos e tão horrendamente encarecidos pelos ecos que não houve coração que não tremesse. Olhavam e nada descobriam. Não era regougar de raposa, nem uivar de lobo, nem mugir de toiro. Que poderia logo ser?

Os bramidos avizinhavam-se. A mestre Ambrósio, que nunca tinha ouvido vozes de fantasmas e que não via impossibilidade alguma em que fossem daquele modo, até a calva se lhe arrepiava. Toda a turba se apertava em feixe, pelo instinto que geralmente se tem do axioma que diz que a união faz a força. A fidalga bradava pela afilhada. O proprietário tomava com a mão trémula as rédeas à rainha de Sabá. A ala pedia confissão. O cura lançava absolvição geral a quem a quisesse apanhar. Os estudantes procuravam nas suas reminiscências zoológicas alguma voz de fera, laconicamente descrita por Lineu, que se parecesse com aquilo. O capitão-mor limpava o suor da testa. O padre Timóteo murmurava para si o De profundis. D. Luís arremetia para o pinhal, levando em cada uma das mãos, engatilhada, uma das pistolas que tirou dos coldres. D. Angélica tremia com mula e tudo, pensando em Han d’Islândia.

 

CAPÍTULO XX

 

O monstro

Pouco tardou que se não descobrisse a causa de tamanho terror.

Pelo pinheiral abaixo, contra o caminho, corria uma fera descomunal, perseguida, mas de longe, por alguns cães, que apenas a viam parar e revirar-lhes o focinho, arrepiavam a fuga em tropel desordenado.

Chegada ao pé donde a aguardava o fidalgo, fidalgamente cavaleiro, parou, aprumou-se nos pés de trás acostada a um pinheiro grosso, com os olhos a fuzilar, os braços nervudos a esgrimir em seco e o rugir mais agudo e temeroso.

– É um urso! – bradou D. Luís.

– É o diabo! – clamou o cura.

–Viva Lineu! – grita um estudante. – É o grande urso da Gronelândia!

– É o urso negro da América – emenda o cirurgião, que passava por um dos mais lidos e sabidos da província. – Ninguém fuja, ninguém fuja. Este bruto, dizem os autores que em uma pessoa se não movendo, não investe com ela.

– Não gritem, minhas senhoras; deixem-nos entender para concertarmos o plano do ataque – vozeava o outro académico, armando-se à cautela com meia dúzia de calhaus.

– As damas para o centro – prosseguiu o facultativo. – Estes maganões, mesmo assim lanzudos como são, adoram o belo sexo.

– Empurre, empurre para o centro a sua esposa – rosnava o capitão-mor ao proprietário – ou deite-a abaixo da mula, que o amigo tem-na de olho.

– Come gente? Come gente? – guinchava a aia.

– Tem tudo mau! – replicava a rainha de Sabá.

– Sr. D. Luís! Sr. D. Luís! Sr. D. Luís!... – vociferava D. Angélica abater com o punho fechado na forquilha do selim.

– Negregada lembrança de passeio! – exclamava a fidalga.

Ventus est vita mea – orava o religioso.

– Calem-se todos, com todos os demónios! – berrou com voz de estentor o licenciado. – Oiçam-me já, ou deixemo-nos disto. O urso, ursus ursi de Lineu, não é carnívoro; o que ele quer são frutos e plantas.

– Nada, não é carnívoro! – sussurraram algumas vozes. – Vá-lhe lá meter o dedo na boca.

O orador prosseguiu, sem fazer caso da interpelação:

– A sua maior gulodice é lamber as suas mesmas patas; manus lambit. Cada um tem o seu gosto; aquele é muito inocente.

– A ele! A ele! – proclamaram os estudantes, esporeando os seus cavalos para o pé de D. Luís.

– Tenham mão, que se deitam a perder! – acrescentou o naturalista. – Estes bichos não se levam por força mas só por manha; dolo, non viribus. Se se pudesse arranjar um pouco de mel e muita aguardente, caldeava-se, como ensina Mr. Régnard, ele bebia, embebedava-se e dávamos-lhe cabo da casta.

– Onde está aqui o mel e a aguardente?!!...

– Se não tem receitas mais prontas para os seus doentes...

– Bem sei que não há aguardente nem mel, mas se tivéssemos uma dorna de cerveja!! Conta Olearius que um urso da Livónia...

– Para o diabo Você e mais o seu Oleado.

– Uma última indicação e desço da tribuna para deixar livre a palavra aos meus ilustres adversários. Tem aí alguém uma luva que possa dispensar?

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– Aqui está a minha – disse Ambrósio – mas há-de-me fazer o favor de ma não perder.

– Muito bem, estamos salvos. Vou revirá-la do avesso e atirá-la ao urso, conforme ensina Horrebows.

– Ao urso a minha luva de anta?...

– Vai agora desafiar o urso?

– O duelo há-de ser bonito.

– Eu quero ser padrinho do doutor.

– E eu do urso.

Está claro que são os estudantes os que altercam. O cirurgião, beliscado no amor próprio, fez das tripas coração, picou o seu machinho, que não parecia ter grande confiança na receita de Horrebows e recusava sair da pinha; arremessou-o aos corcovos e aos pulos para a banda da fera, arrojou-lhe a luva do professor (o qual deu um ai) e fugiu à rédea solta para cento e cinquenta passos de distância.

Coisa admirável! O urso atira-se à luva, entra a cheirá-la, a revirá-la a dedo e dedo, de dentro para fora, de fora para dentro, tão curioso, tão atento, tão embevecido que D. Luís pôde a seu salvo chegar-lhe por detrás, apontar-lhe com segurança ambos os canos e disparar...

Com o estrondo da explosão ecoado pelo pinheiral, misturou-se um bramido estranho. O monstro arrancou um pulo de desespero contra a densa mó dos seus inimigos; mas foi um derradeiro esforço e já inútil. Recaiu, mordeu a terra e resfolegou o final arranco.

A rainha de Sabá, a quem haviam atemorizado com as simpatias do bicho, esmoreceu de todo no momento em que o viu saltar. Deu logo o rapto por consumado e pregou consigo do macho em terra sem sentidos.

O cirurgião já voltava, triunfante, para receber os aplausos e autopsiar o mamífero, que ele não sabia como classificasse, se entre os bípedes, se entre os quadrúpedes; acudiu a socorrê-la.

Toda a cavalgada se pôs de pé, uns a contemplar a desmaiada, que ainda não bulia, outros o urso, que pouco bulia

já. Davam os parabéns a D. Luís, os dois estudantes a D.   Angélica, a aia a si mesma. Ambrósio restituía à sua luva o estado normal; o proprietário, encruzado no chão, sustinha nos braços contra o peito o bem livrado corpo da sua Eva cuja cabeça lhe assentava, mortal, em cima do ombro. D. Matilde, compassiva, como quem sabia bem o que eram histéricos, alargava o espartilho da paciente, o cirurgião esfregava-lhe as pernas com a manga da sobrecasaca, aparelhando-se para sangrar. D. Angélica rasgava um lenço de assoar em ataduras.

Um reflexo de esperança! A moribunda agitou convulsivamente um braço; dez testas se debruçam, apinhadas umas por cima das outras, à roda do interessante painel conjugal. Ei-la que abre os olhos; o primeiro objecto que descobre é a cabeça e meia cara do marido; crê-se empolgada pelo urso, sacode com um pontapé o cirurgião cujas mãos lhe parecem patas de vinte arráteis cada uma; grita que lhe valham e, no seu delírio, esgrime um turbilhão de socos e com a mesma destreza com que os vira atirar em seco o atleta silvestre seu Tarquínio. O primeiro murro apanha-o pelos narizes o inofensivo mestre; este, saltando para trás, dá com o toutiço no queixo da aia; a aia, gritando aqui del-rei, cai para cima de frei Timóteo, que na sua queda atira as mãos ambas ao cós de D. Matilde e a tomba para a banda da afilhada, a qual (o primeiro ímpeto é sempre do egoísmo) recua até se ir baquear de assento em cima do urso, que ainda solta uma espécie de roncozinho, como quem protesta contra tal desumanidade. D. Luís toma-a em braços.

– Duas vezes meu salvador! – exclama ela, e beija-o na testa.

D. Luís sente-se capaz de brigar, para defesa do seu tesoiro, até com a Ursa Maior e com todas as tábuas zoológicas de Lineu.

A rainha de Sabá tinha enfim recobrado o conhecimento do mundo, j á diferençava o marido do urso, dispensava a sangria e propunha que a levassem de cadeirinha o esposo e o sr. Ambrósio, que lhe parecia para um tal carreto o mais próprio pela sua robustez e pela fama da sua capacidade. Ambrósio desculpava-se, mostrando a cascata de sangue que lhe escorria do nariz, e ninguém se oferecia para o suprir.

*

Neste comenos, pela mesma banda de onde surdira o urso, chegam correndo dois homens armados de espingardas. D. Luís carrega outra vez, arrebatadamente, as pistolas e adianta-se a recebê-los, não pesaroso de poder tornar-se terceira vez libertador. O prémio pelas duas primeiras fora já tão delicioso!...

Os homens das espingardas não queriam mal a ninguém; levaram, corteses, das suas carapuças e perguntaram-lhe se não tinham visto passar por ali algures, havia pouco, um estupor de um bicho guedelhudo, com um corpanzil de alguns seis pés de comprimento, olhinhos pequenos, focinho esguio a modo de porco, orelhas curtas, em suma, a figura do próprio diabo. D. Luís respondeu mostrando-lho, que jazia estirado num charco de sangueira.

– Pois, senhores – disseram os do pinhal achegando-se para a fera, que ainda arquejava, e medindo-a com os olhos por todas as partes – estávamos nós a guardar as nossas vinhas ao pé do Luso, quando veio, não sabemos donde, lá da casa de Satanás, este excomungado começar-nos a vindima. E que desembaraço! Cada cacho era um bocado; apanhava verdes e maduros e, quando Deus queria, cepa e tudo. Com os verdes fazia galhofa, atirava-os para o ar como foguetes; tudo mais... ia para a mochila. Açulámos-lhe os cães, nada: ladravam-lhe de longe; corremos sobre ele, apedrejou-nos; demos-lhe dois tiros, não o acertámos; fugiu, meteu por este pinhal abaixo; viemos-lhe no alcance. Que pernas que o ladrão tinha para correr! Olha para aquilo! Cada pesunho que te parto.

Outro homem sobreveio e cortou o diálogo. Vinha da mesma banda, como doido, sem chapéu nem carapuça; rompeu por entre os dois guarda-vinhas sem os ver, atirou-se acima do urso e, abraçando-o e beijando-o a soluçar, exclamou:

Orso mio carino! Figlio mio! Oimé! Sant Antonio di Padova, abbiate pietade dell'anima sua...

 

CAPÍTULO XXI

O italiano

Era o italiano fornido de membros, bem apessoado, de olho vivo, fisionomia telegráfica e talento incomparável para a mímica. O seu accionado supria um dicionário.

Contou ele, per soddisfare a queste donne e cavalieri cotanto cortesi (cortesia até ao chão), que era um piemontês nobre, vítima das suas opiniões liberais e emigrado per salvar la testa; que viajara em Espanha como filósofo, con una coppia d'orsi, un bertuccio ed una bertuccia (pelo dicionário dos gestos, um par de macacos), che guadagnavano onde mangiare potessero tutti cinque. Tinha entrado in Portogallo per fare ammirare sino agli orsi una nazione cosi cortese; havia varcato con gran piacere le provinzie di Tra-li-monti e Minio, soggiornato in Bragancia, in Bracchari, in Porto, in Villa-nuova, in Agati, nella Miagliata, ed altre contrade moltissime. Por último chegara a Luso, onde tinha determinado descansar, por vir la bertuccia un pó malata. O urso doppo pranzo, mentre egli pigliava il caffé, tinha fugido à procura de uvas, de que era gran dilettante. Questi signori, antes que ele potesse raggiungerlo, lo avevano ammazzato. Rematou a sua história tornando a inundar de lágrimas o focinho do urso, com uns gemidos que ainda o obrigaram a abrir o lúzio empanado com as névoas da morte e com umas exclamações que enterneceram a todo o auditório.

D. Angélica propôs uma contribuição geral em favor do italiano e correu ela mesma a recebê-la de mão em mão no seu indispensável.

D. Matilde, tendo primeiro conferenciado com D. Luís, com o sr. Ambrósio e com a aia, sem cuja aprovação não dava um passo, chegou ao piemontês, já meio consolado com o donativo, e propôs-lhe vir passar alguns dias na quinta dos Álamos, para as aperfeiçoar, àquela menina e mais a ela, na sua língua encantadora; que seria indemnizado do incómodo e que podia estar certo de que a sua doente se veria tratada como filha, sendo visitada todos os dias pelo doutor até completo restabelecimento. Desfez-se o estrangeiro em cortesias e prometeu que no dia seguinte, a ser-lhe possível, se apresentaria com i compagni suoi nella villa degli Alami.

*

Com esta digressão esqueceram os sustos e trabalhos já passados.

O sol ia de mergulho para o ocidente; a sombra da lavradora, de novo entronizada no macho, deitava já mais de trinta braças. Não havia tempo que perder; desandou-se para o palácio, onde chegaram noite fechada.

*

Enquanto o escudeiro acendia por cima dos tremós as refulgentes serpentinas de prata, subiu a aia ao seu quarto para arrecadar o chapéu de palhinha e o xaile sécio de lã vermelha. Ao entrar (está tudo às escuras) dá com as mãos num homem encostado à cama, o qual se levanta em sobressalto. Um ao outro se repulsam; um e outro perguntam ao mesmo tempo «quem é?»; um ao outro se reconhecem pela fala.

– João Simões! Tu aqui?!...

– É verdade, tia Feliciana, mas não faça bulha.

– Quem te deu a confiança?... Como entraste? Donde vens? Que pretendes?...

– Pilhei os senhores fora, os moços entretidos na cozinha com as moças, entrei sem ninguém me sentir.

– Mas para quê? Para quê?

– Não me trate com esse rigor. Sente-se. Falemos baixo.

– E se eu não quiser falar baixo?

– Faz mal, tia Feliciana. Pode vir alguém, apanhar-me aqui, eu dizer a verdade e ficar-se sabendo que já não é a primeira vez...

– Ingrato! Ingrato! Que paga que este sujeito me tem dado! Eu... A minha amizade; eu... Quantos livros ele queria da livraria particular da senhora, sem ela saber, eu... O meu dinheiro sempre pronto; eu... Os meus lenços de seda; eu... os covilhetinhos de marmelada, o meu coração, os meus carinhos, sabe Deus se até a minha fama! Tudo, tudo para este cão! E ele a namorar outras! Ele a fugir com...

– São calúnias, tia Feliciana; não fugi tal.

– Ele a furtar bestas!...

– Eu, tia Feliciana, que vim a pé?!...

– Ele a matar-me de cuidados, a afogar-se nos rios!...

– Não me afoguei tal, tia Feliciana; o pateta procurava-me, suponho eu, pela corrente abaixo; e eu que nado desde pequeno como um peixe, fui por baixo de água pela corrente acima.

– Roubar os seus protectores!...

– Era provimento cá para certa jornada muito precisa.

– Andar a fazer de alma de outro mundo!...

– Pudera! Se eu tivesse dito caqui está o corpo», desfaziam-mo.

– Pois confessas que eras tu?...

– Era eu, era; mas não diga nada a ninguém.

– E a altura? A altura? Como fizeste tu aquilo, inimigo?

– Ó homem, já lhe disse que não gritasse. Você cuidará que eu sou surdo? Fiz aquilo de propósito para me não conhecerem. Quando saí do rio de Viadores, fui ao pé de um estendal de roupa, apanhei um lençol grande para me embrulhar, que estava alagado, e levei-o. À noite tinha que falar com pessoas de minha amizade, lá em Aguim, para certas coisas; e para me não conhecerem embrulhei-me todo nele, com um cabaço comprido do aguadoiro das lavandeiras encaixado na cabeça, que parecia um gigante.

– Desinquietar uma rapariga para fugir com ele!...

– Mas não fugiu.

– Em suma: que é o que pretendes? Avia, que estou com pressa. Larga-me a mão ou prego-te uma bofetada. Ingrato! Ingrato! Valdevinos!

– Tia Felicidade, Vossemecê tem muito bom coração...

– Tenho, tenho; essa é que foi sempre a minha desgraça. Por isso é que eu nunca pude coalhar vintém.

– O que eu queria era que Vossemecê, que tem tanto poder sobre a minha madrinha, fizesse com que ela não acreditasse essas mentiras que me obrigam a fugir para Lisboa e, depois de eu lá estar, me mandasse dar alguma coisa de mesada certa para eu puxar por mim e chegar a ser gente. Dou-lhe a minha palavra, tia Feliciana: tão depressa eu me veja em algum posto capaz, mando-a buscar a Vossemecê a cavalo, e casamos.

– Cala-te.

– Juro-lho.

– St, st. Escuta.

– Valeu? Fala à sr.ª D. Matilde?

– Cala-te; sobem pela escada acima.

– Como há-de ser?

– E trazem luz. Esconde-te para esse vão, bem acocorado; eu ficarei diante, em pé.

*

Abre-se a porta, apresenta-se D. Angélica. Põe a luz no chão, senta-se na borda do leito, encara a aia e exclama:

– Que tem Você, mulher? Está com uma cara!...

– Umas dores de cabeça... que nem vejo. Se a menina apagasse a vela, fazia-me favor.

D. Angélica assoprou-a; só ficou luzindo no quarto uma réstia da lua nova:

– Pois sabe que mais, minha amiga? D. Luís adora-me, e eu a ele. Já o declarámos um ao outro mais de cem vezes.

– Sim?

– Sim. Que moço! Que juízo! Que instrução! Que livros que tem lido! Já ajustámos tudo para o serão de hoje: ele há-de tocar, eu hei-de cantar acompanhada por ele, hão-de-se jogar jogos de prendas e, se a madrinha consentir, havemos de ir passear todos para o jardim. Está-me lembrando a Júlia de Rousseau, que eu lhe contei a Você ontem à noite.

– Tomara-lhe eu os seus cuidados!

– E como Você diz isso!! Creio que julga que isto de amar é como beber um copo de água. Se Você bem soubesse o que é dar um beijo e levar dois!?... Um é fogo... Uma zunida nos ouvidos... Os olhos a encadear-se... O autor de Júlia é que era mestre. Como ele lhe acertou com o nome: «beijos acres!» Que está Você a ranger com os dentes?

– Ranger com os dentes! Eu?... Isso é também coisa dos seus ouvidos.

– Figurou-se-me tal e qual...

– Haviam de ser estes sapatos novos, que rangem que é um aborrecimento.

– Que rapaz! Que rapaz! E que valentia! Você não viu como ele se chegou ao urso quando todos estavam a tremer? Digo realmente: sou a mulher mais feliz!... O seu sapato está de quesília; é mesmo como uma dentuça a remoer; atire-o fora, que me está fazendo lembrar o urso. Porque não há-de Você vir para aqui sentar-se um pouco?

– Pois a menina há-de demorar-se aí?

– Muito, não, Deus me livre. Ele foi agora para o seu quarto dar ordens ao seu criado; dentro em vinte minutos há-de voltar para a sala; enquanto ele lá não está, parece-me um deserto.

– O que lhe eu digo, minha rica menina, é que ambos têm muitíssimo bom gosto; tomara já vê-los unidos, e eu que lhe faça a cama de casados e que lhe atire os confeitos. Nesse dia, até eu danço.

– Ai! Ai!...

Foram duas dentadas de João Simões na gorda anca da matrona que lhe fizeram ver as estrelas.

– Que é? Que é?

– Uma dor repentina.

– Você, quando lhe dão coisas dessas, não costuma fazer nada?

– Costumo, costumo, mas por ora não posso. Parece-me que senti a fala do sr. D. Luís.

– Há-de ser ele, há-de...

– Desça depressa. Eu vou fazer aqui uma esfregação e já lá vou para a brincadeira dos jogos de prendas.

– Adeus, adeus. Primeiro havemos de cantar. Se eu fosse pôr umas flores na cabeça?

– Para quê? Vá mesmo assim; está muito bem. Corra, corra, e feche-me a porta.

*

Alguns instantes de silêncio profundo.

Apenas deixaram de se ouvir os passos de D. Angélica, Feliciana, sem dizer palavra, agarra com a mão esquerda na trunfa de João Simões, sem o deixar erguer, saca do pé o sapato novo, puxa a cara do réu para o raio da Lua e com a sola principia a esbofetear pela direita e pela esquerda, com a pressa e regularidade de uma máquina de vapor. João Simões bufava como uma jibóia.

– Bofetadas! – murmurava ele em segredo. – Bofetadas em mim, tia Feliciana!? Bofetadas com um sapato!!?... Deixa estar, diabo negro, que esta hás-de-ma pagar. Sabe, sabe que estas sapatadas são na cara de Rui, são numas faces de homem que se estão assanhando aqui às escuras. Tu não sabes que estás em meu poder, que esta afronta é sanguinolenta e que o último folheto que eu li foi o Antony!?...

Não há cá Antony nem Antonão. Eu não tenho medo de Você. Não te desfaço eu esses narizes porque não quero.

– Protesto solenemente, na presença de Deus...

– Vá protestar ao diabo que o carregue, dentes de cão. Ponha-se já a andar.

Feliciana!

– Tenho dito.

– Feliciana! Feliciana!

– Torna lá o sapato?

– Não, eu parto. Perdoa alguma palavra mal dada e lembra-te... de falar à madrinha nas mesadas.

– Para as ires gastar com a taberneira?

– Queres... Exiges um juramento de que não as hei-de gastar senão comigo?

– Eu o que não quero são mais parlengas. É rua, e no mesmo instante.

– Se me virem, treme.

– Se o virem, viram um mariola. Mas eu irei pelo corredor até ao cimo da escada.

– Eu te sigo... Ah, mulheres, mulheres! Vós sois a fatalidade. Se vós não existísseis!...

– Também vocês não existiam, pedaço de asno. Corte. Aqui está a porta aberta, pode passar; não tenha medo. Vê no fundo do corredor aquela lanterna? Em chegando a ela...

– Tiro-a e levo-a.

– Se lhe parece... Vire para a direita e encontra a escada.

*

Disse, expulsou-o do quarto, deu volta à chave e atirou-se para cima da cama com uma explosão de choro que bem mostrava quanto era o amor que a pobre mulher tinha malbaratado com aquele pérfido.

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