Cap. XXII – O torreão
Cap. XXIII – Os animais prendados
Cap. XXIV – A carta anónima

CAPÍTULO XXII

O torreão

Paralelamente com este pequeno drama de carácter violento e paixões incisivas, representado sem espectadores nem iluminação no quarto da aia e de que foi consequência ficar o teatro ensanguentado com duas feridas abertas por dentes de zeloso, corria noutra parte do palácio um diálogo cujo assunto merece ser conhecido.

*

Entrara D. Luís no seu aposento para se barbear, pentear e aromatizar de novo.

Constava este aposento, assim como outros quatro igualmente reservados para hóspedes, todos sitos nos baixos do edifício, de quatro casas pintadas de estuque, esteiradas e mobiladas agradavelmente: uma sala, dois quartos de cama, um para o amo e outro para o criado, e um toucador de homem com todos os seus pertences. Das janelas de D. Luís uma só, a da câmara de dormir, é que deitava para o pátio; as demais, e a porta, diziam para o jardim.

A esta janela topou D. Luís, pensativo, aéreo e às escuras, o seu criado, quando entrou. Fez-lhe admiração a novidade, porque de quantos moços folgazões jamais serviram a fidalgos mancebos, nenhum houve nunca menos talhado para filósofo e solitário que João Martinho nem, ao mesmo tempo, mais respeitador do quarto do morgado, no qual, quer em província quer na cidade, só entrava sendo chamado.

João Martinho, vendo inesperadamente o amo, pareceu confuso e ia sair. D. Luís ordenou-lhe que ficasse para o ajudar a vestir-se; e chegando-se, como que sem desígnio, para a janela, estendeu por mera curiosidade os olhos pelas vidraças fronteiras, pela varanda e pelo pátio, mas não viu ninguém; só a lua nova é que se mostrava na superfície trémula do tanque espaçoso com que o meio do pátio se aformoseava, ornado no centro com uma sereia carcomida a desfiar água pelos olhos, pelas ventas, pela boca e pelos peitos.

*

Não era inteligível que o rapaz estivesse ali emboscado no silêncio à caça de inspirações poéticas, nem que preferisse a companhia das moças, que riam e brincavam na cozinha, aos imóveis estafermos de murta e buxo que rodeavam, melancólicos, o lago frio.

– Que fazias a esta janela?

– Eu, fidalgo? Coisa nenhuma; estava a olhar para a Lua. Parece-me que não temos tempo seguro. Se amanhã vier bom dia e V. Ex.ª quisesse... podíamos abalar.

Depois daquela manifestação de desapego à quinta dos Álamos, era já escusado pesquisar se pelo pátio se enxergava alguém. D. Luís voltou para dentro e sentou-se a barbear-se.

– Amanhã, dizias tu, para Coimbra?

– V. Ex.ª fará o que quiser, mas a mim parecia-me...

– Visto isso, não te dás aqui bem.

– Não digo, mas...

– Fez-te alguém alguma coisa? Sinto-te assim... desconfiado, metido para o canto; no teu génio, não é natural.

– Pois, senhor, é que a gente ouve, e então...

– Mas o que é que tu ouves?

– Nada, não faça caso. Conversas de criadagem, bem sabe V. Ex.ª O que eu digo é que, se nos demoramos, depois de amanhã é rumor de Lua, pode carregar para aí chuva como

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cisco... – E, dizendo isto, os olhos do moço saíam pela vidraça fora para o alto do palácio.

D. Luís, com rosto sério e tom positivo:

– Mas, enfim, quero saber que é que dizem.

– Se V. Ex.ª me dispensasse...

– Não dispenso.

– Mas a fidalga sempre é sua prima; e isso de gente rústica, metem-se-lhe às vezes coisas nos miolos...

– Não entendo; explica-te.

– Se V. Ex.ª me fizesse a caridade de esperar ao menos que estivéssemos em Coimbra, ou, enfim, em qualquer outra parte que não fosse aqui...

As dificuldades não faziam senão acrescentar no cavalheiro a curiosidade já impaciente; ordenou ao servo que falasse franco e sem rodeios. João Martinho aparelhou-se para obedecer, abaixando a vidraça, fechando a janela por dentro e fazendo o mesmo a todas as outras, à porta para o jardim e à interior do próprio quarto em que se achavam. Depois da segunda intimação, começou, enfim, com repugnância manifesta:

– Pois, senhor, lá que a fidalga é uma senhora muito boa para a família e para a pobreza, isso ninguém o duvida. Só os jantares que se repartem naquela cozinha para a gente de fora! E então aos criados e criadas nas festas do ano! Não falemos. É umas mãos rotas. Quer V. Ex.ª que eu lhe conte o que ela tem dado à aia?

– Quero que me contes só o que ouviste contra ela.

– Ah, sim, as tais tolices do escudeiro. Pois, senhor, disse-me o escudeiro esta manhã, depois da missa, que nos fomos sentar ambos no caramanchão grande no meio do jardim a tomar o fresco... Mas são umas coisas sem pés nem cabeça.

– Sejam como forem, necessito de as saber.

– Estava eu a olhar cá para a casa, para aquele torreão esguio que se levanta do meio dos telhados e que se avista de tão longe, e perguntei-lhe para que servia aquilo: se era algum pombal, ou casa de pássaros. V. Ex.ª não reparou?

– Reparei, sim; suponho ser algum mirante. Tem uma varanda de ferro, que gira tudo em roda, e de cada um dos quatro lados uma porta de vidraça que dá para ela.

– Tal qual. Teodoro Ferreira...

– Quem é isso?

– O escudeiro. Esteve um pedaço, assim a cismar, a olhar para mim, para o torreão, para o torreão, para mim, e diz-me agora: «Você parece-me um rapaz calado e de capacidade; basta que ainda não lhe ouvi dizer nem meia palavra em desabono do seu amo, senão só honras e virtudes, e quanto é generoso para os seus criados. Fiado nisso, sempre lhe contarei... que a patroa não tem lá a melhor fama por estes sítios.»

– Que insolência!

– Isso mesmo lhe respondi eu; e ainda pus mais na carta, que lhe disse: «Pois com aquela idade, sr. Teodoro?!» Que me há-de ele replicar? «Tenha mão; lá da sua honra ao presente ninguém rosna; a fama que ela tem é de... é de ter parte com o diabo.» V. Ex.ª ri-se? O mesmo fiz eu; mas ele ficou sério. «A porta da escada de caracol que sobe para aquele torreão – prosseguiu – é na câmara da senhora, está sempre fechada e a chave, que é de segredo, trá-la ela na algibeira. Há vinte anos que para aqui veio de Lisboa, ainda ninguém se pôde gabar de ter ido lá acima.» – «Visto isso – perguntei-lhe eu – ninguém sabe como é por dentro.» – «De vista – respondeu ele – só algum pássaro que tenha passado por lá e poisado na varanda; mas duvido, que por detrás das vidraças (segundo se percebe) há cortinas ou o que quer que é, e nem sempre da mesma cor. É rara a noite que se não vê lá uma luz depois da meia-noite e, quando Deus ou o diabo quer, até de madrugada. Às vezes, então, é tamanha a claridade que parece que é um incêndio que está mesmo, vai não vai, para botar já linguarões de fogo pelo telhado fora; mas tudo com um sossego, com um sossego... Por mais que se tenha escutado, em noites de Verão das mais serenas, nem um respiro se percebe.»

– E nessa claridade não se distingue coisa nenhuma?

– Também eu lhe perguntei isso, e parece que sim, mas não sempre. Vê-se umas vezes uma figura, outras outra; enfim, uma grande quantidade delas, mas sempre uma a uma.

Uma ocasião viu ele mesmo, com um óculo que mercou de propósito em Coimbra, que a tal coisa estava nua, com um saiote de penas e uma trunfa também de penas que parecia não seio quê. Ora por estas e por outras é que dizem pela boca pequena (Deus nos livre que lhe chegasse aos ouvidos), que aquilo são visitas ruins, ou então que é ela mesma, a fidalga (que já tem idade para bruxa), que se unta lá com algumas unturas que ela sabe e que se abala por ares e ventos para a súcia delas, que dizem que é aí para um matagal muito fechado para as bandas de Mortágua. O caso é que meninos chuchadinhos até aos ossos não têm faltado há anos pela vizinhança. Desses casos então contou-me ele muitos. Mas dê-me licença que vou abrir uma fisga da janela e espreitar o torreão. Por ora, nada de novo; está às escuras. À cautela, tornemos a fechar. Pois, senhor, eu não sabia que lhes respondesse; sentia o corpo todo como pele de peru depenado. Entretanto, sempre lhe repliquei: «Sendo assim, para que vai ela à missa, como eu a vi, a rezar pelo seu livro, que parecia uma imagem? E para que dá esmolas? Depois de uma pessoa entregar a alma ao diabo, é asneira andar-se ralando com obras boas. Isso, diz Você que é há vinte anos, e antes, de que servia o torreão?» – «No tempo do fidalgo velho, avô da senhora, que foi o que o mandou fazer, era mirante e casa de regalo. Em vida do pai, que, segundo eles dizem, foi grande maganão enquanto solteiro e o tornou a ser depois de viúvo, servia-lhe lá para as suas patuscadas; era um escândalo, tanto que até uns missionários do Varatojo, que estiveram uma vez por esse tempo na Bairrada a fazer missão, disseram que havia uma casa na vizinhança, assim e assim, que ainda havia de ser causa de Deus mandar algum dilúvio ou terramoto. Depois que ele morreu, ouviam-se por lá de noite danças de pés de chumbo com grilhões a rastos e gemidos com risadas à mistura.» Pelo menos era o que diziam, que lá isso não o afirma o escudeiro. Ultimamente, depois que veio a sr a D. Matilde, adivinhem lá o que é! São as tais sombrinhas... As luzes... Deixe-me sempre tornar a observar.

Voltou à janela.

O torreão conservava-se na mesma tenebrosidade; as únicas luzes que se viam eram as da sala através das portas envidraçadas para a varanda.

*

Acabou-se a tua enfiada de despropósitos? – perguntou D. Luís, dando em face do espelho o último toque de pente à gaforina e ao bigode.

– Permita Deus que não sejam senão despropósitos! Mas o escudeiro ainda me contou outra coisa, que não é para dar grande vontade de assistir nesta casa. Parece que no último dia de cada ano vem por essa alameda acima, a horas incertas, uma figura de um frade velho, ou descalço, ou alma em pena, porque ao andar não faz mais ruído do que uma formiga. Traz bordão na mão e capuz na cabeça. Se acha a porta de ferro fechada, ajoelha ao pé dela, deixa-se ficar uma boa hora. Se a apanha aberta, entra, sobe pela escada daquela banda, atravessa muito devagar, muito devagar, a varanda toda, vem ajoelhar desta parte à porta da capela e, depois de um bom espaço, desce, desanda alameda abaixo e... viste-o. É como uma bola de sabão que se apagou no ar. O escudeiro tem para si que deve ser a alma do pai da fidalga, que vem, como quem diz, mostrar-lhe as barbas do vizinho a arder e dar-lhe de conselho que mande arrasar o torreão, ou tapar-lhe a porta com pedra e cal, ou benzê-lo nove dias a fio. O que parece que não tem dúvida é que o primeiro que tal figura viu, que foi o escudeiro velho, antecessor deste, ficou em tal estado que nunca mais deu palavra; e três dias que ainda viveu, viveu-os arrepiado, com os olhos espavoridos e a bater o queixo que metia pavor.

– Bom. Não repitas essas tontices a ninguém, fecha o meu quarto e vai-te para a cozinha.

Dizendo isto, D. Luís saiu ligeiro para se ir juntar à sociedade; lançou por simples curiosidade os olhos ao torreão e viu... (ou cuidou ver), posto que não fosse meia-noite, um longe de reflexo. Afirmou-se melhor e, convencido de que não era senão uma pálida reverberação da Lua na vidraça, riu-se consigo de si mesmo e lá entrou na sala com a firme tenção de se divertir e ser feliz.

 

CAPÍTULO XXIII

 

Os animais prendados

O serão correu, pouco mais ou menos, como os desejos dos nossos amantes o haviam delineado.

Até perto da meia-noite foi uma série, não interrompida, de cantorias que em alguns corações deixavam eco; de contradanças seguidas de um pouco de fresco tomado a dois e dois pelas janelas, todas abertas às vibrações amorosas; de jogos semeados de risos e terminados constantemente em condenações em que, sob as formas e títulos mais diversos, se reproduz sempre o mesmo eterno fundo: o abraço, o beijo e o segredinho. D. Matilde presidia a tudo, via tudo, ouvia tudo pelos olhos, não proibia nada, mas prevenia que pudesse haver coisa nos seus protegidos que merecesse proibição.

*

O ofício de superintendente de polícia entre namorados não é, na verdade, dos mais fáceis, sobretudo quando as pessoas que as circunstâncias investem nesse cargo passaram já, como D. Matilde, para além de certa idade.

Graças porém aos usos da província, graças à indulgente familiaridade com que lá se consente muitas vezes a uma pessoa de inferior classe vir preencher o número indispensável para alguns divertimentos, a aia servia à senhora de ajudante. Não se dava um passo, não se fazia um movimento sem que uma ou outra o percebesse. A alfândega estava perfeitamente pautada e fiscalizada e, a não ser de envolta com as prendas do rezar à capucha ou segar palha à francesa, não era possível passar por alto o mínimo contrabando.

Apesar de tudo, foi um belo serão, especialmente para Angélica.

O seu capitão disse-lhe que, terminadas em Coimbra as suas Matemáticas, partiria em Junho ou Julho próximo para Paris, onde tencionava demorar-se enquanto achasse que aproveitar na capital das ciências, da imaginação e do bom gosto.

Discorrendo pelo coração, era para ela evidente que um dos preliminares da viagem seria a celebração do casamento, posto que em tal se não falasse, o que lhe dava certeza de ver realizados todos os seus sonhos de ir beber na fonte, fresquinhos, os romances novos, ter as modas em primeira mão, conversar com Monsieur Vítor Hugo e Monsieur le Viscomte d'Arlincourt, e Monsieur de Balzac, e Monsieur Paul de Kock, e Monsieur Frédéric Soulié, e Monsieur la Comtesse Dudevant; ser admirada nos bailes pelas suas graças e elogiada nos folhetins pelo seu espírito. Dezasseis anos são dezasseis sereias coroadas de botões de rosas a profetizar em coro harmonioso. Todos vós assim tendes ouvido, por uma noite de Verão quando mais não fosse, não é verdade?

*

Depois de uma ceia lauta, a que ainda assistiram todos os da cavalgada, desceu D. Luís para o jardim para recapitular e saborear sozinho, antes de adormecer, as diversas sensações de tão cheio dia.

Luz que entrou no quarto de D. Angélica suscitou-lhe a lembrança do torreão. Pôs-se a olhar para ele com um poucochinho de curiosidade que se lhe pegara do criado, pouco mais ou menos como o nosso pai Adão havia de olhar para o fruto proibido após as suasórias da sua já subjugada companheira.

A narração e as conjecturas do escudeiro eram verdades absurdíssimas, eram. Entretanto, havia ali um segredo, e segredo de mulher. Qual podia ser? Dava tudo por adivinhá-lo.

A vida de sua prima fora, em realidade, extraordinária. Lembrava-se confusamente de ter algumas vezes ouvido, na província, falar dela como de um ente meio fabuloso, a quem se atribuíam milhares de aventuras, metade das quais notoriamente falsificadas e redondamente impossíveis; mas dramas destes, em que o amor é sempre a mola real mais ou menos escondida, nem eram de supor na sua idade nem cabiam em tal deserto, nem se coadunavam com o sereno e piedoso da sua existência no presente.

Não; mas o espírito daquela senhora parecia, e não raro, engolfado num abismo; amiúde extravagava da conversação. O seu desmaio na sala, a ouvir um sucesso alheio; o seu cobrir-se de palidez quando soube que uma mulher a procurava; ao jantar, a sua cuidosa melancolia; as suas lágrimas em certos passos da música, o seu reanimar-se diante de qualquer pintura de felicidade amorosa, eram tudo sintomas de algum mistério.

As exalações da ceia, a calada e as trevas da noite, arrojavam pelo vácuo, acesa, errante e desgrenhada como um cometa, a fantasia de D. Luís.

Cansado de voltar de contínuo, e baldadamente, a embater-se naquele silencioso vulto aéreo sem poder rasgar-lhe em parte nenhuma o seu manto caliginoso, descia com o espírito, como borboleta espantada das trevas, para o pé da luz tão serena do quarto de Angélica e perguntava-se a si mesmo se não havia temeridade em se agrilhoar por querer, como o estava ousando, aos pés de uma criatura de quem só conhecia as graças exteriores e que, sendo de alguma sorte obra e dependência das mãos de sua prima, podia muito bem vir a sair um dia imagem sua e já mesmo agora encerrar arcanos assustadores.

O ponto valia a pena de ser pelo menos meditado.

D. Luís possuía a arte de se mostrar elegantemente frívolo quando convinha; mas em negócios capitais (e este era-o para ele, indubitavelmente), sabia, ainda quando apaixonado, arrancar das horas arrebatadas alguns momentos para deliberar com sisudez. Assentou pois consigo em que, antes de se adiantar mais por um caminho de que nem sempre se retrocede, o seu primeiro cuidado seria estudar a fundo as qualidades latentes da sua fada.

*

Ia já recolher-se para amadurecer este projecto e consultar com o travesseiro o melhor modo de o pôr em execução, quando viu, não sem uma espécie de terror, resplandecer no torreão a janela que lhe ficava fronteira e passar por dentro uma figura. João Martinho estava de largo à espreita, sem ousar a descobrir-se-lhe; correu então para ele, apontando-lhe para o sítio fatal e perguntou em segredo se queria que fosse aparelhar as cavalgaduras. D. Luís ordenou-lhe que se fosse deitar.

Por espaço de uma larga hora não se viu mudança alguma no luminoso painel despovoado. Depois recaiu tudo a súbitas na escuridão...

*

No dia seguinte, posto que o dormir, o sol e a vívida variedade da natureza real lhe aniquilassem parte do seu desassossego involuntário, subiu D. Luís mais cedo para a casa do almoço, para começar na fisionomia de uma e de outra dama os seus estudos psicológico-morais e prossegui-los até onde lhe fosse dado.

As senhoras, que ainda tardaram muito, pediram perdão de haverem feito esperar a companhia, desculpando-se uma e outra com terem adormecido muito tarde. D. Luís perguntou, rindo, a sua prima se eram as suas devoções as que a tinham ocupado para não dormir. D. Matilde ficou um momento perplexa, como quem, antes de lançar um véu necessário sobre uma verdade querida, a contempla com entranhada complacência; depois satisfez a maliciosa pergunta, imputando o seu insónio ao passeio e mau encontro da tarde antecedente.

D. Angélica disse que da sua parte não sabia o que lhe tinha espalhado o sono; mas que estava tão agitada! E depois, toda a noite sonhou que não fazia senão dançar. Era delicioso, mas era pesadelo; figurava-se-lhe que ia valsando (não disse com quem, mas olhou a furto para D. Luís) por esse Portugal fora; que atravessava a Espanha valsando; que via a Alhambra com os seus abencerragens redemoinhar em derredor dela; depois Gonçalo de Córdova e a sua Moira; depois o bosque de Bolonha e os seus duelos, Paris e os seus teatros, os leões e as suas leoas em tilburys, tudo como ela valsando; a Suíça com os seus chalets, a sua Júlia e o seu Volmar ateu; depois a Itália e as suas gôndolas, as suas ruínas, a sua música perfume dos ouvidos, as suas flores, os seus punhais hereditários, as suas vendettas temerosas e seculares e a sua Corina laureada; a Alemanha e os seus castelos feudais, os seus fantasmas, os seus burgraves, a suas tradições da Terra Santa, o seu Doutor Fausto enjoado de tudo e o seu Werther a pregar o suicídio; a Polónia e as suas heroínas; a Rússia e os seus ursos; a Turquia e os seus haréns com banhos de âmbar; a Sibéria e os seus desterrados, e a interessante Elisabeth, pela mão de Madame Cottin, indo pedir ao Imperador o perdão para seu pai.

– Enfim – disse ela – o giro da minha valsa foi o do globo. Saí desta casa pelo norte e tornei a entrar nela pelo sul. Estava moída... mas encantada.

*

D. Luís ouviu-a de boca aberta, com uma cara que parecia dizer, a pesar seu:

– O que aí vai! Ou a Angélica deste almoço, ou a Angélica do almoço de ontem. O que são vinte e quatro horas bem aproveitadas! Faz-se uma revolução completa, como a da Terra.

Não havia dúvida: era uma romântica, petrechada de todos os conhecimentos análogos e por conseguinte imbuída provavelmente em todos os princípios da liberdade moral sem limites, da emancipação do sexo, da impossibilidade da virtude, do progresso indefinido e da teologia nova, que permite a Deus o existir mas lhe proíbe o governar ou disporem coisa alguma.

Dissimulou e decidiu aproveitar qualquer aberta para sondar melhor por todas as partes aquele espírito e reconhecer qual era nele o anverso e qual o reverso, qual a realidade constitutiva e qual a parte fictícia e fantasmagórica: a menina recolhida e modesta que ele vira na capela e que tornara ainda a ver em sonhos, ou a valsarina europeia que se lhe estava confessando com tão fogoso entusiasmo.

*

Pelo decurso do dia, reconduziu com admirável destreza a conversação para os poucos romances que a severidade dos seus estudos e a solidez do seu espírito lhe tinham consentido folhear e cuja leitura, posto agora o não dissesse, lhe parecera sempre perigosíssima; apontou com um aparente cepticismo, que desdizia muito da sua educação maciça e provinciana, as situações e caracteres que desses livros lhe ocorreram como mais próprios para servirem de pedra de tocar e achou constantemente que não era a valsarina, mas sim a devota da missa, a que mentia.

D. Matilde escutava aquelas pequenas discussões sentimentais sem nelas se intrometer activamente, mas percebia-se que as opiniões da afilhada, na maior parte dos casos, concordavam com as suas, ainda que uma ou outra vez, mais prudente ou mais velha do que ela, afectasse com os gestos reprová-las e lhe fizesse, com olhos e meneios, ocultos sinais para mudar de rumo, o que a pobrezinha, de seu natural franca, ou não percebia, ou não realizava senão com uma imperícia tão decepada que fazia sorrir a D. Luís e à fidalga esgalhar de súbito a conversação para a transplantar para outro terreno.

Uma coisa maravilhava a D. Matilde: a copiosa erudição de novelas que descobria na afilhada: parecia um gabinete de leitura dos mais completos. A cada novo título que lhe ouvia citar, dava sempre um pulo na cadeira. Era um enigma que não podia resolver. A aia, consultada por ela de relance para ajudar a explicar tal fenómeno, livrou-se bem de lhe confessar que era ela própria quem da livraria particular da senhora lhas emprestara e disse-lhe que supunha que era o sr. Ambrósio que, para dar gosto à menina, lhas mandava ir de Lisboa; que pelo menos era isso o que a menina lhe havia confessado.

D. Matilde mostrava-se (e estava) pouco satisfeita; D. Luís estava-o sem o mostrar; só D. Angélica, aturdida com a sua mesma eloquência, embalada pelas suas dezasseis sereias, parecia sonhar num paraíso de bem-aventurança.

*

Começava já o crepúsculo. Passeavam todos no jardim. Rorejavam do céu, com as moles trevas, a melancolia, mais suave que os prazeres, as saudades do porvir, todos os feitiços daquela hora, não a mais corrompida do dia (como lhe chamou Dupary), mas a mais voluptuosa para o coração; hora das ave-marias saudada por nossos pais com o chapéu na mão, hora do ponto e férias para a natureza e para os negócios, hora do ninho para as aves, para os meninos e para os camponeses; hora das estrelas cosmopolitas para o mareante, para o ermitão e para o desterrado; hora do acordar para a fantasia e para os amores de toda a gente. As boas-noites exalavam dos seus seios aveludados, vermelhos como o pudor, as suas fragrâncias virginais; as anáguas de Vénus espargiam das suas grandes urnas cândidas, debruçadas por cima das cabeças, torrentes de aromas inebriantes que pareciam haver sido roubados durante o dia a algum toucador de odalisca e acumulados aqui para se vazarem todos sobre os hálitos ardentes nesta hora de sedução.

D. Angélica e D. Luís passeavam ao lado um do outro, com os olhos fitos na Lua e em silêncio. D. Matilde seguia-os a pequena distância, olhando para o torreão de tempo a tempo.

*

Ouve-se de repente uma flauta aguda ao longe. À falta de rouxinol, é esta música por certo a que mais condiz com as delícias inefáveis do crepúsculo. Param para a escutar. Vem pela alameda acima, entrou no pátio, calou-se; segue-se-lhe um rugido de urso.

– É o italiano! É o italiano!

Voam todos a recebê-lo.

Era com efeito o italiano, que vinha tocando num pífaro um hino patriótico de uguaglianza e libertá e conduzindo diante de si dois ursos façanhosos açamados, num dos quais vinha montado um macaco vestido de general, com farda escarlate agaloada e chapéu de plumas e, no outro, a sua esposa com vestido de seda verde, xaile de seda branco e chapéu de palhinha de Itália com flores em quantidade.

Logo que, atraído pelo pífaro, se reuniram todos os espectadores da casa, o General saltou em terra, deu a mão à sua dama para se apear, cortejaram ambos aos circunstantes e, voltando-se para as suas cavalgaduras, desafiavam-nas para dançarem com eles. O italiano puxou para diante de si um tamboril que trazia às costas enfiado numa correia e principiou o acompanhamento. Os quatro bichos executaram à roda do tanque uma valsa em dois pares tão ligeira e azoinada que ninguém dos que tinham ouvido o sonho de D. Angélica pôde suster o riso.

Entretanto a noite fechou-se de todo. O cavalheiro piemontês disse que não tinha ainda veduto niente; que, per dar gusto a queste donne e cavalieri, ele ia fazer subir e entrar nella sala i bertucci e gli orsi, que lhes fariam passar una sera molto piacevole.

Aceitou-se a proposta com alvoroço. Ao tempo de entrarem, chega um moço com cartas do correio da Mealhada. Havia duas para D. Luís.

Abriu-as. Correu a primeira pelos olhos, rindo, leu e releu a segunda e foi sentar-se, pensativo, desviado de Angélica e indiferente ao espectáculo que se lhe aparelhava.

 

CAPÍTULO XXIV

 

A carta anónima

Os animais eram, em verdade, um documento vivo do que podem a fome (tanto em gente como em brutos), a paciência de um emigrado e a mímica de um italiano. Para merecerem uma escritura em alguns teatros não lhes faltava senão falarem, mas para comparsas em corpo de baile estavam completos.

Anunciou-se que executariam, ao som já do tamboril, já do pífaro, várias cenas das obras modernas mais famosas. Começaram pelos Mistérios de Paris. A macaca fez de Flor de Maria, um dos ursos de Rodolfo, o outro de Braço vermelho; e o Braço vermelho, que era o maior, deixou-se muito bem soquear e levar debaixo pelo seu adversário. O General entretanto espreitava detrás de uma cadeira, imitando o carvoeiro.

Choveram as palmas.

Seguia-se Notre Dame de Paris. O empresário estava distribuindo as partes; a dama ia figurar de Esmeralda; o urso grande de Capitão no acto de a acometer; o pequeno de Arcediago para furar ao Capitão as costas a seu tempo e salvar assim a honra da interessantíssima cigana. D. Matilde, pelo sim pelo não, sem ser membro do Conservatório, julgou mais conveniente omitir-se aquela parte do divertimento. O empresário reparou na donzela que se achava no auditório e disse vivamente para a fidalga, com uma profunda reverência:

Capito, capito, ho capito.

E por ordem superior, pôs no transparente13 um contra-anúncio.

Desta vez tocava a honra a Monsieur Dumas.

– Questo é il Conte Orazzio – dizia ele, mostrando o mono. – Questa la donna inglese rapita. Due birboni verranno a legarla piedi e mani sopra il letto; questo sciagurato, pieno di vino e di cattivi desiderii andrá a soddisfare l'infame sua voglia; l’altro vorrá scacciarlo, ed esser lui il primo; si morderanno entrambi come cani; vincerá questo; e il Conte mio con la pistola, pum!, ucciderá la sventurata. Ci manca solamente una Paulina da mettere in fuori sopra la porta tutta impaurita a mirar la scena. Se questa donna – apontava para a aia – vuol fare la Paulina...

Por ordem superior, proibido também este espectáculo. O italiano renunciou ao resto do seu repertório; contra quase todo ele podiam militar iguais razões.

Donne e signori miei tutti quanti – disse o estrangeiro assentando no canapé la bertuccia para descansar, em atenção ao melindroso estado dos seus nervos – questo orso si dá vanto d'indovinare a ciascheduno i suoi secreti, e palesarli con una filosofica libertá, degna veramente di un orso como lui, che é nato in Lituania, in mezzo alle forste, libero come Varia, ed uguale... á tutti gli altri orsi. Parlate dunque, signor Don Magico; acciò vi metto sopra il capo la berreta nera. Saprete scegliere tra queste donne bravissime la piú innamorata?

O urso fez uma cortesia a D. Angélica.

Grazzia tanta, grazzia tanta; benissimo. Vorrei adesso saper signor Don Magico, se vi si trova chi abbia in cuore tenerezza e crudeltá insieme.

O urso apontou para a aia.

Che merita dunque una cotal donna?

O urso dá um passo atrás, esgrime dois socos no ar, vai atirar-se de chofre acima da pobre mulher; o italiano prega-lhe com o pau nos focinhos, o que lhe fez soltar um bramido espantoso, sacudir o barrete pelos ares e ficar quieto.

Perdonate, signor Dom Magico. Vi chiederò ancora se v'è donna, al mondo, ammirabile, perfettissima, ripiena di bellezza e di generositá verso i poveri, gli stranieri, gli emigrante, etcetera, etcetera.

O urso fez três cortesias diante da dona da casa, à moda das do italiano.

Bravissimo! Andremmo à finire l’indovinazione con una sola richiesta. Ci puo lei segnare il più fedele, il più traditto, il più geloso amante fra questi cavalieri?

O bicho vira-se de repente para D. Luís, cuja fisionomia realmente parece justificar o ruim diagnóstico. D. Luís, pressentindo o temporal de epigramas que lhe vão cair em cima e de que já são precursoras as gargalhadas, levanta-se com enfado para se retirar...

*

Uma das cartas que na mão tem, cai-lhe sem ele sentir. A esposa do General salta do canapé como um raio e apanha-a. D. Luís quer tirar-lha, ela esquiva-se; com outro pulo, torna a sentar-se entre as damas e, vendo que D. Luís a segue até ali reivindicando a sua propriedade e mostrando por gestos nada equívocos que, se forem necessárias violências, não as poupará para a reaver... (seja inspiração, seja acaso, seja instinto feminino) some o papel onde o cavalheiro se não atreverá a ir tomá-lo: some-o no seio de D. Angélica, dá dois guinchos de triunfo e esconde-se por detrás dela, a espreitar com focinho de escárnio.

D. Luís vai-se para a janela.

*

O desassossego de D. Angélica era visível e tinha crescido desde o princípio da representação. A indiferença afectada com que D. Luís forcejava por encobrir o seu despeito pungia-a no coração, no amor próprio e na curiosidade.

Ergueu-se e, tirando do seio o papel, chegou ao capitão para lho restituir, enquanto os outros se entretinham a ver uns exercícios ginásticos do urso grande. D. Luís não estendia a mão para receber a carta. D. Angélica insistia:

– Não pertence a V Ex.ª? – perguntava ela.

– A mim?... Talvez sim, na parte mínima; porém, o principal é a V Ex que se dirige.

– A mim?!

– E talvez não. Realmente, custa a acreditar.

– Em todo o caso, o sobrescrito é para V. Ex.ª.

– As exterioridades nem sempre correspondem ao que há dentro.

– Mas com que direito pretende V. Ex.ª obrigar-me...

– Obrigá-la! Eu não pretendo obrigar a V. Ex.ª a coisa alguma. Reconheço que somos ambos livres; livres e iguais – acrescentou, rindo, depois de um breve intervalo – como os ursos da Lituânia...

– ... Que adivinham os zelosos de vinte anos...

– ... Mas que não adivinham as enganadoras de dezasseis.

– Não entendo. Se não sonho, estamos representando uma comédia mais ridícula que as do italiano.

– E por que não representaria V Ex.ª, quando recebeu da natureza esse talento em grau... heróico?

– Fingem-se uns zelos para esconder uma perfídia; abandona-se uma carta preparada talvez de antemão; procura-se obrigar a lê-la. Se se consegue, chega-se a um rompimento que se desejava e, livre de um desvio fortuito e importuno, continua-se o curso de uma inclinação mais antiga, mais agradável, e porventura mais conforme às nossas vistas de engrandecimento ou de... que sei eu?

– Julgar por si mesmo não é sempre o melhor modo de acertar.

– Pelo contrário: para uma mulher, quando ama pela primeira vez... o julgar por si mesma é a receita mais segura para errar.

– Pela primeira vez, sr.ª D. Angélica? Pela primeira vez!!... Mas há realmente pessoas de tão admirável modéstia que se não conhecem.

A donzela ficou perplexa alguns momentos.

– Falemos sem rodeios – disse ela enfim. – Anda aqui um mistério que eu não adivinho e que é indispensável aclarar-se.

– Um mistério? Mas não tem V. Ex.ª na mão uma carta aberta que talvez explique tudo, que eu lhe entrego, que eu recomendo, que eu insisto para que leia?

– Mas está V. Ex.ª bem certo de que esta carta, que tanto se empenha em que eu veja, é realmente a que foi feita para esse fim? V. Ex.ª recebeu duas e os seus conteúdos, a julgar pela expressão do rosto de V Ex.ª enquanto as lia, eram de natureza bem oposta. Talvez a séria fosse o enigma, um enigma infame; a outra, a explicação desse enigma: o comentário escrito por letra de mulher... de alguma a quem não pese haver encontrado uma rival para ter quem encadeie ao seu carro de triunfo.

– Mas V. Ex.ª esquece que não há ainda quarenta e oito horas que nos avistámos pela primeira vez e que os nossos correios não voam por caminho de ferro. Mas, sem me deter em refutar uma acusação de deslealdade, feita por quem talvez teria menos direito que ninguém para a fazer, eu lerei a outra carta diante de toda a companhia: é datada de Coimbra, desta manhã, e assinada por um estudante meu amigo. V Ex.ª pode seguir com os seus próprios olhos a leitura.

Sem esperar resposta, desdobrou a carta, voltou com ar prazenteiro para diante o canapé e requereu cinco minutos de silêncio para assistirem em espírito a uma curiosa farsa, ou drama, ou melodrama (a classificação era difícil), representada em Coimbra na tarde precedente. Puseram todos a sua atenção para a leitura menos os macacos e os ursos, que entretanto se espojavam e faziam toda a espécie de cabriolas uns por cima dos outros.

Reduziremos só ao essencial a exposição do caso, que vinha entretecida e bordada das mais cómicas circunstâncias e acessórios.

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O correspondente, depois de narrar a cena do Peneireiro em que fora testemunha e taquígrafo, prosseguia:

«Pelas 5 horas da tarde, a mulher do regedor da paróquia de Aguim chegou ao palácio do Governo Civil dizendo que necessitava de falar quanto antes com Sua Ex.ª.

Sua Ex.ª achava-se à mesa com alguns amigos (eu era um deles); mandou-lhe pedir que entrasse para uma sala próxima, que depressa iria ter com ela. A regedora entrou para a casa da mesa, mandou-se assentar lançando para trás a capoteira e a touca, e expôs a sua campanha de pela manhã, documentada com os apontamentos para a crónica íntima do ladrão e com o auto de fuga com arrombamento e de rapto da sua égua e de uma moça donzela. Deu os sinais que havia podido colher da pessoa e do vestuário tanto de João Simões como de Evarista e representou à suprema autoridade administrativa a necessidade de se darem logo logo as mais eficazes providências para que, em qualquer parte, os dois, ou algum deles que aparecesse, fosse preso, metido em processo e ela imediatamente notificada, pois tencionava ser-lhes parte.

O governador civil, tomando-a por doida à vista dos estranhos comentários que lhe explanava sobre o Código, prometeu-lhe que faria todo o possível; que as ordens, com os sinais dos dois fugitivos, se iam passar incessantemente a todos os subalternos policiais e que podia retirar-se descansada para sua casa.

À saída do palácio do Governo, passando por uma estalagem, viu a regedora dois arrieiros no meio do pátio a soquearem-se com toda a alma e consciência diante de um mulherão que parecia aguardar com indiferença, arrimada a uma esquina, o resultado do combate que por seu respeito se dava e de que ela mesma tinha de vir a ser o prémio para o vencedor e a consolação para o vencido. D. Quitéria reconhecera de repente, pelos sinais, ser a desertora do Peneireiro. Correu a ela e, fazendo prólogo de uma bofetada, a que logo se lhe respondeu com um prefácio de duas, deu-lhe a voz de presa da parte do sr. governador civil. Brigaram; veio a Justiça; foram ambas presas.»

A descrição das fúrias da regedora na cadeia era magnífica. Nem o carcereiro, com os seus ajudantes, a podiam sopear. A vizinhança passou toda a noite pelas janelas e a estudantaria na rua a ouvirem-na declamar. Citava trinta mil parágrafos do Código, tudo de cor, porque o livro que trazia na algibeira tinha-lhe saltado fora durante a luta.

Blasfemava contra os governadores civis, jurava e trejurava que nas próximas eleições trabalharia contra o poder; e cada período da sua catilinária terminava sempre em pancadaria na companheira, que da sua parte não citava nada mas batia desenganadamente e prometia ainda mais para quando se vissem dali para fora.

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Concluída a leitura, deixou D. Luís a carta aberta sobre a mesa, deu pela sala dois passeios e tornou-se a chegar, como por demais, para a janela em cujo vão D. Angélica tinha ficado. Fingindo que a não esperava ali, inclinou-se respeitosamente e ia retirar-se quando ela, apertando-lhe o braço,

– Tomai a vossa carta – disse-lhe com dignidade. – Corri-a pelo olhos enquanto líeis a outra. Guardai-a; é anónima e tanto basta. Foi escrita por mão infame, não pode demorar-se entre as minhas. Não cairei na humilhação de me justificar, não é preciso consumir tempo em desatar o que pode cortar-se de um só golpe. Desde esta hora nunca mais nos veremos. Quando tornardes a ouvir falar em Angélica... conhecereis de que têmpera era o coração que espedaçastes. Conhecê-lo-eis, mas será tarde. D. Luís, eu deixo-vos a minha última palavra: sou inocente. Eis aqui toda a minha vingança.

Dizendo isto, saiu lançando a carta aos pés de D. Luís, que, senhoreando-se dos mais contrários afectos, não teve forças para a deter, nem para a chamar, nem para a seguir.