Cap. XXV – Transformação
Cap. XXVI – Tragédia
Cap. XXVII – Remorsos

CAPÍTULO XXV

Transformação

D. Luís persistia imóvel, com a carta aos pés, voltado para a porta por onde vira desaparecer a D. Angélica. Só então conheceu o terrível progresso que o amor havia feito no seu coração, quando se convenceu de a haver perdido. Aquela porta negrejava-lhe à fantasia como a entrada de um carneiro

A palavra inocente retinia na sua alma como imprecação de moribundo.

Uma voz surda bradava-lhe:

«Homem insensato e brutal, consumaste o suplício; desonraste e feriste; mas processaste e provaste.»

Encarava no retrato, que pendia coroado de flores alvas na parede fronteira, sereno, risonho, com a vista levantada para o céu; supunha contemplar uma vítima resignada. Rasgou o papel, arrojou com raiva os pedaços pelo balcão fora como se entregam pela mão da Justiça aos quatro ventos as cinzas de um sacrilégio; e, desenganado com meia hora de espera de que a donzela não voltaria, correu para o jardim. Era-lhe necessário esconder a sua agitação, acarear em liberdade a carta, o sonho, as ideias românticas da sua acusada com a celeste imagem da capela e com as provas que ela lhe tinha dado, tantas e tão claras, de interesse, de amor, de amor tão entranhado que excluía toda a possibilidade de não ser o primeiro. Enfim, era-lhe indispensável tornar a ver a mesma luz pela janela do mesmo quarto e explorar se se não premeditava ali algum acto de desesperação. Com a fantasia viva e exaltada que ele reconhecera na protegida de sua prima e com a dor concentrada com que a vira fugir da sala, tudo se podia recear.

Os temores de D. Luís, que não eram sem fundamento, desatinavam-no como remorsos. D. Angélica passeava no seu aposento. D. Matilde, tanto que o primo se despediu e que a afilhada lhe mandou dizer pela aia que desejava a dispensasse da ceia por se achar indisposta e lhe convir antes o sossego, dera o serão por terminado. Ceara à pressa e ordenara ao escudeiro fosse acomodar num dos quartos de hóspedes, com porta para o jardim, o italiano e os seus bichos.

O italiano recolheu-os e tornou-se para fora a tomar ainda um pouco de fresco, sentado num banco de pedra entre dois vasos colossais de loiça, um enfeitado de ceriosas fragrantes, o outro carregado de mingrólios, essas flores escuras que amam conversar perfumes com as trevas. Era uma noite deliciosa; recordava-se da sua Itália, deixava-se estar.

D. Luís, que não queria senão agitar-se à sua vontade, sem testemunhas, e que não via nada no quarto de D. Angélica, deixou o campo livre ao estrangeiro; foi aparelhar ele mesmo o seu cavalo e saiu para correr pelos arredores até que o sono, ou o dia, o viessem tomar.

*

D. Angélica não tinha saído com a luz do seu quarto senão para ir buscar papel e tinta e certificar-se de que estava já tudo recolhido. Fechou-se por dentro e principiou a escrever.

A viração da noite meneava contra a vidraça um festão mal preso das plantas trepadeiras com que a parede era por fora revestida. Aquele som distraiu-a; ergueu-se, debruçou-se para fora a prender o ramo. Pareceu-lhe ver bulir ao pé do muro uma coisa preta; afirmou-se, não percebeu mais nada, tornou para a mesa.

Outra vez rumor nas trepadeiras; não é o vento; hastes e canas que estalam; sobe-se. Corre atemorizada à janela; dá cara a cara com o busto de um urso. Não pode gritar, que lho proíbe o terror; não pode fugir, que a mão da fera já a empolgou pelo vestido. Cai. O animal está em pé diante dela; num volver de olhos desceu a vidraça, fechou ambas as meias portas, atirou-a para cima do leito. Puxa com fúria pela guedelha da sua própria cabeça, esfolou-a, aparece a cara de João Simões!

*

Antes que nos aventuremos a esboçar a memoranda cena trágica, inevitável nas relações mútuas destes dois personagens, cena cujo desenlace (bem a nosso pesar) há-de ser terrível, expliquemos o inesperado aparecimento de João neste lugar.

*

Expulso do palácio pela aia, tomara o infeliz ao acaso o primeiro caminho que se lhe deparou. Seguia-o tristemente, sem saber para onde; tudo lhe era indiferentíssimo; em nenhuma parte o esperavam, em nenhuma se podia apresentar sem perigo urgente. Àquelas horas a vigilância incansável da regedora devia ter revolvido contra ele céu e terra, de Aguim para o sul até Coimbra, de Aguim para o norte até ao Porto; por toda a parte deviam estar os laços prevenidos, os olhos alerta, mil alçapões imperceptíveis desaferrolhados diante dos seus pés.

– Uma caverna! Uma caverna!... – exclama ele. – Uma caverna onde me refugie até que o tempo haja apagado a memória dos meus perseguidores ou os meus cabelos, encanecendo ao fogo que me devora esta cabeça, me tenham feito desconhecível! Uma caverna! Uma caverna, ainda que seja habitada por lobos! Oh! Eles são menos bárbaros que todas elas, essas pérfidas, que eu, eu, alma infinita, admiti à comunhão do meu amor. Metade da minha vida por uma caverna, onde eu faça estremecer os rochedos com as minhas imprecações, onde, estendido na terra húmida como um réptil que elabora em silêncio os seus venenos, eu concerte o projecto das minhas vinganças. Uma caverna, meu Deus, uma caverna!...

E tudo que atravessava eram vinhas e mais vinhas.

Constrangido a renunciar ou a adiar a ideia com que havia fugido do Peneireiro, que era dirigir-se a Coimbra, onde Evarista o devia esperar para se irem juntos até Lisboa, pareceu-lhe que de todos os esconderijos possíveis o mais seguro, à míngua de uma caverna, e porventura o mais agradável, seria para ele a grande mata do Buçaco.

Já para lá ia quando encontrou junto a uma fogueirinha de agulhas de pinheiro, no meio da estrada, um estrangeiro sozinho a esfolar um urso. Pediu-lhe licença para acender na fogueira o seu cigarro a fim de encetar conversação, assentou-se perto dele e perguntou-lhe donde viera aquele bicho e porque lhe tirava a pele.

O estrangeiro contou-lhe, conforme pôde, o como lhe haviam morto companheiro e amigo, que o ajudava a viver, e o generoso convite que umas senhoras da quinta dos Álamos lhe tinham feito para o consolarem e que ele estava resolvido a aproveitar, visto que ficara com um só urso e que era dos dois o mais besta. A maior parte das representações que dava aos povos já se não podiam executar.

Então uma ideia lúcida, a primeira daquela noite, fulgurou na alma do foragido. Levantou-se como inspirado e apresentando meia moeda aos olhos do estrangeiro atónito,

– Meu amigo – disse-lhe – foi este para ambos nós um encontro providencial. Eu serei o vosso urso. Vesti-me com a sua pele, dizei-me o que pretendeis que eu represente. Vamos à quinta dos Álamos, onde grandes interesses me chamam também a mim e de lá (estou às vossas ordens) correremos o Universo se quiserdes. Oh, sim! Já que esta miserável sociedade repele do seu seio um homem que, pelo seu génio, era destinado a ilustrá-la, a engrandecê-la, tenho prazer, eu, eu, em me tornar a ela contra sua vontade, em a atravessar em todas as direcções, escarnecendo das suas mesquinhas leis, independente, respeitado, estremecido, sublime, urso, sim, urso. Debaixo dessas nobres felpas, o meu coração pulsará à sua vontade. Eu sonharei uma existência silvestre e a minha poesia assumirá um carácter novo, uma energia indómita, uma força bruta que debalde se atormentam para dar à sua todos esses casacas que fazem folhetinhos de trovas lá pelas cidades. Meia moeda pela glória! Tomai uma moeda, magnânimo estrangeiro, tomai duas e recebei-me na vossa família.

O piemontês aceitou o contrato com o maior gosto.

*

Finda que foi a operação, dirigiram-se ambos para um curral velho e desamparado, pouco distante do lugarejo de Luso, onde o forasteiro tinha enclausurado a bicharia. Empregaram a noite e parte do seguinte dia em enxugar com sêmeas e ao calor do lume a preciosa pele. João vestiu-a. O director, depois de lhe dar alguns toques, franzindo aqui, puxando e alargando acolá e escondendo as pontas das fitas com que foi necessário ligar a cabeça ao corpo, exclamou, pregando-lhe uma palmada na anca e chocalhando com ufania o dinheiro na algibeira, que nem uma ursa era capaz de produzir outro mais natural.

Os macacos familiarizaram-se logo com o seu novo hóspede e até o outro urso, com meia dúzia de bordoadas sabiamente aplicadas pelo dono, para não comer o companheiro como a princípio parecia projectar, ficou (ou fingiu ficar) muito convencido de que era realmente indivíduo da sua espécie o que lhe ofereciam para camarada.

Durante o caminho para a quinta viera o adepto exercitando-se no modo de bramir, de dançar, de saltar por cima do pau e ensaiando com os outros três actores as cenas que deviam representar.

*

Com tal disfarce perfeitamente sucedido, João pudera presenciar com os seus próprios olhos e ouvidos o efeito da anónima que ele mesmo escrevera essa manhã a D. Luís e mandara deitar no correio da Mealhada, dizendo-lhe que Angélica era a namorada de um miserável filho de um moleiro ao pé da aldeia da sua residência; que este possuía cartas dela e que talvez, na hora em que ela entrasse num templo a dar a sua mão a outro, depois de proferido o fatal sim, essas cartas seriam arrojadas aos pés do crédulo e da traidora.

Assistira, e de tão perto que não perdera uma sílaba nem um gesto à breve discussão dos arrufados ao pé da janela e em que o amor, avultando num e noutro através do despeito, sublimara no seu coração o ciúme até ao último grau: até ao grau de ciúme de urso.

Com estas disposições funestas é que ele saíra do improvisado pátio dos bichos, nos quartos baixos do jardim, sem que o italiano, pela mútua dependência em que um e outro se achavam, lho pudesse proibir ou dissuadi-lo. Subira com selvática impavidez pelo frágil tecido das trepadeiras e entrara no quarto da donzela com a pistola e o punhal entre as suas peles, decidido, fosse como fosse, a vingar-se ou da traidora, pela morte, ou do seu rival, pela felicidade.

 

CAPÍTULO XXVI

 

Tragédia

Largo espaço perseveraram em silêncio, olhando imóveis um para o outro: a donzela como a pálida estátua da consternação derrubada sobre a sua base, com uma das mãos fechada sobre o peito, a outra meio estendida em acção de repulsar; o mancebo, com a direita apertada no cabo de um punhal meio à mostra e a esquerda ferrada na barba.

O seu rosto, inchado com o afrontoso suplício da véspera e horrendamente mesclado de escarlate e amarelidão, não cobria senão como cortina diáfana os pensamentos sinistros, as imagens sanguinárias que por dentro tumultuavam como uma ronda de feiticeiras e demónios em noite aziaga sobre as ruínas de uma antiga mansão de festas ao luzir intermitente de um fantástico meteoro.

Não era já aquele prosaico misto de baixeza e de orgulho, de pobres, de mesquinhas realidades e de sonhos ambiciosos. Os ultrajes, o infortúnio, a feridade que da pele se lhe coara para o coração desde que a vestira, a cólera que o ciúme recente ali havia acumulado, aniquilaram do seu composto a parte, por que assim o digamos, parodial.

Não era agora senão o génio da vingança, medonho e solene, atroz, porém sublime, aguçando o ferro aos pés da vítima antes de consumar o sacrifício e gozando-se da demora que lhes prolongava a ambos a agonia.

Era culpa sua, ou da fatalidade, se representava um papel tão abominoso?

Quem o houver de condenar deve pelo menos admitir como circunstância atenuante, além das que já se conhecem, que as últimas leituras deste mancebo ardente, impetuoso, solitário e sem guia, tinham sido, por um inconcebível capricho do acaso, as traduções do Otelo de Shakespeare, do Amor e Enredo de Schiller, do Antony, de Dumas, e A Noite do Castelo de... de... seja quem for.

Todos estes elementos de mulhericídio se viam referver em cachão nas suas entranhas, na sua testa, nos seus olhos, nos seus lábios, nos seus braços, que faziam esforços de ferro para não estarem convulsos.

*

– Espanta-te a minha presença? – disse, enfim, sem mudar de posição. – Não esperavas tornar a ver-me, Angélica!... Sossega, é uma despedida, nada mais. Uma despedida para um país donde se não volta. Queres que vamos juntos? Podemos ir, podemos ir juntos. A nossa chegada será uma bela festa para os espíritos da noite.

Os dentes da virgem batiam com violência, espedaçando na passagem a palavra perdão, que saía vagarosa, mortiça e desacentuada como do peito de um autómato.

João encostou a cabeça a um dos balaustres dos pés do leito, passou em roda dele o braço como para se prender a si mesmo e continuou, depois de alguma pausa em esconder as lágrimas que lhe escorriam pelas faces:

– Em que te havia eu merecido o nome de monstro antes desta hora? Mocidade tempestuosa, sim, tive-a, mas a mulher em quem eu adorava espírito e corpo, aquela com quem eu sonhava associados os meus futuros de glória... eras tu unicamente. E éramos feitos para nos compreendermos; e a nossa sorte teria feito invejas a rainhas e reis sobre os seus tronos. A felicidade ia-nos abrir o portão do seu templo coroado de flores; e tu, imaginando poder ficar dentro sem mim, fechaste-mo na cara. Fizeste bem, muito bem. Que era cá o filho de um moleiro, um miserável chamado João Simões, um homem sem dragonas, sem representação, sem riqueza, um desgraçado que só tinha por si os seus méritos pessoais e o talento, que tu própria algumas vezes, aqui, aqui mesmo na quinta da nossa madrinha, tinhas (como ela) confessado reconhecer-lhe? Um tal indivíduo só podia servir para enquanto não aparecesse alguma coisa melhor. Era um passatempo, um exercício de amores como os dos meninos da escola de teu tio, D. Angélica, de teu tio, nobre esposa de um fidalgo, que a fazem letra seca à espera de a virem a fazer molhada. Cala-te, cala-te. Não me interrompas, que, se me quebras o fio das ideias que reuni com tanto custo... Ouve. Onde ia eu?...Se tornas a confundir-me, acabo com isto mais depressa do que tencionava. Sim, muito bem: sacrificaste-me por me julgares inferior ao primeiro soberbo que te quis atirar o seu amor, como tu me atiraras o teu também a mim. Mas... sabes tu se não virá um dia em que o soberbo se desvaneça de subir as minhas escadas e de esperar entre os meus lacaios que eu me levante? A ele, uma certidão no livro do baptismo da sua terra e quatro pergaminhos enrolados em algum armário, como os da nossa madrinha, têm fixado a sua nobreza; a mim... podem-me surgir no passado montes repentinos de fidalguia. Atende. Era uma noite de Natal. Pedro Simões e a sua mulher estavam rezando a novena diante do Menino Deus alumiado com duas candeias, enfeitado de buxo verde, reclinado sobre uma arca de milho coberta com toalha de folhos. Choravam muito: havia dois dias que a pobre mulher vira morrer no seu regaço o seu filho único, ainda de mama. O Menino Jesus assim a rir-se matava-a. Ela mesma, há três dias, no meio de grande trovoada, mo contou pela primeira vez; foi a última que nos falámos. Eram 11 horas, já em Tamengos se tocava para a missa; ouvem à porta um choro de criança, correm, encontram-me numa canastra envolto numa coberta de seda rica; não avistam ninguém e chove neve. Recolhem-me, aquecem-me à fogueira, que vinha enregelado; fazem a minha cama ao pé do Menino, a quem, dois minutos antes, com tanto fervor pediam que os consolasse. Julgam-me enviado milagrosamente pela Providência para este fim. Dormiam já; era fora de horas; acordam em sobressalto; sentiram três pancadas na porta; ouvem estas palavras: «Aí tendes um filho; Deus vo-lo manda; guardai-o; é um penhor de felicidade. Segredo; dormi e esperai.» Pedro tornou à porta, girou em roda o moinho, mas não viu ninguém. Quem me entregou àquela boa gente? Não sei.

Para quê? Não sei. Mas que o meu nascimento não era miserável, dizem-no os meus espíritos, repetia-o de ano a ano um bolo de mel com dinheiro em oiro dentro que alguém vinha sempre em noite de Natal, e sem se dar a conhecer, pôr à porta do moinho, acompanhado das mesmas três pancadas. Oh! Porque me esconderam eles aquele segredo? Maldição, maldição, que nos assassinaram! Se eu o tivesse sabido, ter-to-ia comunicado e talvez esse D. Luís... Mas eu esqueço o verdadeiro fim que aqui me trouxe...

*

Dizendo isto, deu duas voltas ao quarto, sacudindo por vezes a cabeça para afugentar enxames de tentações. Voltou para o pé do leito, apertou com ambas as suas mãos as da donzela e, com um tom de concentrado afecto impossível de explicar, disse-lhe:

– Levanta-te, levanta-te. Fujamos. Fujamos; eu te porei em seguro. Abandona-te ao meu imenso amor. Eu tenho um ermo escolhido para ti, para nós, onde envelheceremos sem ser vistos senão dos nossos filhos... Voltas o rosto? Já não te agrada a solidão? Não importa. Levanta-te; agarra-te às minhas costas; eu te descerei sã e salva por onde subi; eu te apresentarei na Corte. Para ti os aplausos, para ti os triunfos, para ti as invejas de todas as mulheres; para mim a glória de te possuir; para mim a glória ainda maior de te merecer. Levanta-te! Aqui está punhal, aqui está dinheiro, aqui está pistola, aqui está o meu coração. Que temes tu? Saiamos...

D. Angélica, resserenada um tanto com a mudança da voz e do aspecto de João, conseguiu alçar-se de lado sobre o cotovelo e, erguendo juntas as mãos, que soltou brandamente dentre as felpudas do homem silvestre,

– Pelo céu, não me deites a perder! – exclamou. – João, eu bem queria ser tua, mas não vês que é uma quimera o que me propões? Como sair daqui? Como acompanhar-te? Como?... Oh, não! É impraticável. Parte! Parte! O meu coração irá contigo, se o desejas; é tudo quanto posso.

– É tudo quanto podes!!... – atalhou o delirante, abanando-a pelos ombros e trespassando-a com os olhos como raios. – É tudo quanto podes!?... E eu, eu, não poderei nada para te obrigar? Ouve. Pela última vez to proponho. Fujamos, fujamos! Logo que pusermos os pés daqui para fora, nada receies. Até Lisboa viajaremos incógnitos: tu, dentro desta pele protectora; eu, como estrangeiro que mostra um urso; tu, dançando; eu, cantando de felicidade. Na capital, qualquer água-furtada nos servirá de palácio; ali eu serei o teu escravo e a tua escrava. O meu braço para te servir, o meu peito para te adorar, a minha vida para prolongar a tua. Eu guardarei o teu sono, vês tu?, a minha soberba de homem não se revolta; eu farei a tua comida; eu te lavarei a loiça e, no resto do tempo, eu te darei alguns pontos para poupar essas mãos de rainha. Quando quiseres sair, se eu tiver oiro, irás de carruagem; se não tiver nada, levar-te-ei às costas. Vês tu como eu te amo? Vês tu? Amo-te como um insensato, como uma besta; sim, como uma besta, e nem já atino com o que digo...

– Cala-te – interrompeu-o Angélica sentindo-o rir. – Tenho medo. Acredita-me: eu estimaria seguir-te na tua vida aventurosa, porque o teu amor, agora o reconheço, é um amor como nunca vi nem encontrei nos livros. Feliz, feliz a que te possuir!... Eu mesma lhe diria: «Fá-lo ditoso, que ninguém o merece como ele.» João, acredita-me: nesta hora eu me arrojaria a tudo para te acompanhar, mas... não posso... não posso...

– Não pode! Não pode! – exclamou o mancebo, ferindo com o pé os tijolos do pavimento e levantando os olhos para a abóbada. – Não pode!! Não pode!!... E a carinha com que ela me diz aquilo! Oh, meu punhal! Meu punhal! Eu já vejo tudo vermelho. Não pode! Não podes?... Mas se te dissessem: «Está entrando uma quadrilha de salteadores pelo outro lado do palácio! Pegou nele o fogo! Vem aí teu tio com uma tranca!» e eu te estendesse os braços, gritando «vem», poderias tu lançar-te neles? Não me clamarias ao ouvido: «Leva-me, corre, sumamo-nos»?...

D. Angélica murmurou como em delírio:

– Não, não, não; é impossível...

João, depois de se certificar de que a porta estava fechada à chave, desembainha o punhal, contempla-o, arremessa-o contra um armário no fundo do quarto onde fica a tremer e a luzir, e sussurra entre si:

– O ferro não; o ferro seria atroz. E depois...

Pega na vela e chega-se ao cortinado da cama para lhe pegar fogo. D. Angélica, segurando-lhe a mão e abraçando-o:

– Piedade! Piedade! Não quero morrer queimada. Já li uma coisa assim; é terrível. Queimada... queimada, não. Tudo menos isso. Tenho dezasseis anos, fi-los a 23 de Dezembro passado. Não quero morrer; não posso morrer; seria uma acção infame assassinar uma mulher contra sua vontade. Não é verdade que o meu Joãozinho não me há-de assassinar contra minha vontade? Tenho dezasseis anos, ainda não soube para que vim ao mundo. O único prazer que tenho gozado é ler meia dúzia de novelas. Escuta... Oiço passos. Em nome de Deus e do diabo, foge enquanto é tempo...

– Eu fugir! Eu fugir?! – grita o furioso. – Repete-mo, se queres ver como se atira com uma mulher por uma janela fora. Deus seja bendito! Depois de te matar, eu posso morrer; não tenho laço algum que me prenda ao mundo. Posso morrer como um filho da fatalidade. São mais quatro arrobas (e nem tanto) para um cemitério, quatro pazadas de terra por cima; depois... o esquecimento. Meia dúzia de flores de sargaço em vindo Maio e era uma vez um homem chamado... coisa nenhuma.

D. Angélica, tapando-lhe a boca:

– Já vêm perto. Que fazes?! Que fizeste?!... Fogo! Fogo! Jesus Maria! Quem me acode?... É a fala da aia. Sai, miserável, antes que te vejam, se ainda é tempo...

João já não necessitou desta última intimação. Logo que reconheceu a voz de Feliciana das Mercês, abriu a janela e despenhou-se.

O ar, que de fora vem, ateia espantosamente as labaredas. D. Angélica considera-as com atenção estúpida, em pé, de braços pendidos, sem movimento nem acordo.

Feliciana bate à porta, gritando; chama por toda a gente do palácio.

Toda a gente do palácio está dormindo.

 

CAPÍTULO XXVII

 

Remorsos

João caiu da janela entre os braços quase atléticos do piemontês que, impaciente, aguardava no jardim o desfecho de uma invasão que tinha julgado amorosa e nada mais. Apontou-lhe para a estranha claridade que ondeava no quarto e coligindo, através dos delírios que o desorientavam, algum resto fugitivo de razão,

– Ficai – disse-lhe. – Assim desviareis suspeitas que vos perderiam, sem me aproveitarem, e podereis depois informar-me do que eu fiz. Eu fujo com o inferno no coração. Amanhã à noite fazei com que nos avistemos no curral de Luso sem testemunhas. Se vos perguntarem pelo vosso urso, dizei que fugiu. Ninguém vos poderá desmentir senão... mas essa tem demasiado interesse pessoal em que se ignore. E depois... aquele incêndio! Aquele incêndio! E a porta fechada! E todos os socorros longe! E a gente a dormir! Oh, oh, São Marçal! Santa Bárbara, que é de endoidecer!... Uma esquina de pedra onde eu escangalhe esta cabeça! Ninguém me mostra uma esquina de pedra? Condenação! Condenação sobre ti, incendiário! Condenação, condenação também para ti, italiano miserável! Mas...? Tu vês aquilo e não acodes, diabo? Pois bem: eu mesmo vou acudir, gritar, denunciar-me...

*

Ia galgar de novo para a janela, sentiu os brados de Feliciana já dentro no quarto. O remorso generoso afogou-se-lhe no pavor; apertou a mão ao italiano, segredando-lhe por despedida:

– Perdoa-me. Amanhã à noite, nas ruínas do curral.

Puxou para a cara a máscara ferina que lhe pendia como capuz para trás das costas e arrancou a fuga pelo jardim e quinta fora, contra o Buçaco.

Um cavalo à desfilada vem-lhe sair de encontro ao dobrar de um caminho estreito. O generoso animal adivinhou o urso pelo cheiro; vê-o quase peito a peito consigo, a prumo; revira-se, despede-lhe um coice, enovela-se, debate-se relinchando contra esporas e freio, rebenta as cilhas, sacode o cavaleiro a dez passos de distância para cima de umas pedras e, senhor de si mas não do seu terror, abala, voa trovejando e relampagueando com as ferraduras, e desaparece.

*

João retoma a fuga. O gemer do caído, gemer de moribundo, acelera-lha em vez de o revocar. Outro encontro inopinável o aguardava pouco adiante.

Ao abocar uma ladeira, algar aberto pelas torrentes do Inverno e cujas altas margens se fecham por cima com medronheiros que lhes duplicam a noite, vê sair dela um religioso velho com as barbas tão alvas como as próprias estrelas que lhas descobrem; parece vir das bandas do convento, onde não há frades nem oradores há tantos anos; caminha apressado, com os pés descalços, esteando-se num bordão. Sem se deter, estendeu o braço para lançar bênção ou fazer cruz ao homem (ou animal) que passava por ele. O mancebo deu-lhe as boas noites; não recebeu resposta; o velho (ou espectro) continuava, sereno, a sua descida.

– Aí em baixo – acrescentou o fugitivo depois que o viu longe – deve estar um homem estendido. Se Vossa Reverência pode confessar ou socorrer alguém... é ao pé de umas oliveiras, à direita do caminho, onde faz uma volta, em cima de umas pedras...

O vulto também não respondeu, nem parou.

Os cabelos de João estavam todos a pino...

*

Rompia a manhã quando o homem da fatalidade, exaustas as forças e a energia, transposto o muro que fecha em circunferência de légua a mais respeitosa e espessa mata de Portugal, foi cair aos pés das árvores, alagado em suor, ardendo em febre, vendo de toda a parte reluzir de chamas, de toda a parte ouvindo gemidos de moribundo sobre pedregais. Uma vertigem escura o redemoinha; os troncos volteiam-lhe calados em derredor; cerram-se-lhe os olhos; passa do letargo ao sono, ao sono mais profundo.

*

Seriam duas horas (pela altura do sol) quando acordou. Todos os seus terrores e remordimentos de consciência recomeçaram.

Marinhou até ao cume da mais alta árvore e procurou com a vista o sítio da quinta dos Álamos. Julgou enxergá-lo.

Nenhum vestígio de fumo conturbava para aquela banda a diafanidade da atmosfera; mas, ainda supondo que o edifício não tivesse ardido, sabia ele o que sucedera a Angélica?...

E depois... quem era o cavaleiro que ele involuntariamente assassinara? Figurava-se-lhe ouvir queixumes surdos de dois espectros: um, por cima da cabeça, nos céus; o outro, estirado lá em baixo, na terra nua. Se não se engana, sonhou com patíbulos. E não há sonhos que são presságios?

O píncaro da árvore tremia com o seu tremor. Vieram-lhe ondas de se precipitar, mas agarrou-se aos ramos com dobrada força e redescendeu com todo o cuidado, resolvido não obstante a imitar tantos outros heróis, aliás menos infelizes, logo que para o suicídio tivesse, em vez de suspeita, razões positivas, provadas, indubitáveis.

Era necessário, em todo o caso, esperar até à noite.

Foi pastando, para enganar o tempo e a fome, alguns agriões pela borda de um arroio que atravessava a floresta murmurando como ela. Não chorou, por não saber ao certo sobre que devia chorar, e arrimou-se a uma aroeira a olhar para o poente, a contemplar o decair do sol, a desejar e a temer o instante em que o veria engolfar-se, além, entre as ondas verde-negras do oceano.

*

Enfim, é noite.

Esconde no vão de um carvalho carcomido a pele, verdadeira culpada dos seus últimos trabalhos, mas de que talvez ainda necessitará, e dirige-se por fora de todos os caminhos trilhados ao lugar aprazado para o colóquio.

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