Cap. XXVIII – As ruínas do curral
Cap. XXIX – Orfandade
Cap. XXX – O ermo

CAPÍTULO XXVIII

As ruínas do curral

Não tinha ainda chegado o piemontês quando João entrou furtivamente no curral, chamando e procurando, com os braços estendidos, por todos os cantos. Sentou-se à espera, com o ouvido alerta, a fantasia cada vez mais cheia de agoiros e o coração mais acabrunhado, mais delido de remorsos.

O céu estava toldado; chovia miúdo. Era uma noite de lobos, como dizem na província.

Se o italiano não viesse! Se se perdesse no caminho! Se não pudesse esquivar-se do palácio! Se estivesse preso! Se àquela hora assistisse a um enterro, até a dois enterros!...

Ser obrigado a sofrer, além dos males certos e reais, todo os que a imaginação pode inventar!...

*

Passa gente pelo caminho. Vêm falando. É mulher e homem. Avizinham-se.

Será?... Não é possível. Mas sim, sim, é a fala da Mariquitas, nenhuma outra com ela se confunde: tem uma doçura... que até o não torna delicioso. Mariquitas por ali! A tais desoras!!... Mas o homem?...

A voz do homem, rude e seca, não se recorda ele de a haver jamais ouvido. Fita ambas as orelhas, aumentadas por ambas as mãos em concha e, através de um diálogo animado, que de momento para momento se aclara, descobre quase simultaneamente duas verdades que vêm ainda agravar as suas penas.

Mariquitas havia ido chamar o facultativo para sua mãe que, desde a noite de sábado para domingo, tinha perdido o falar e o dormir, e jazia de cama em convulsões continuadas.

Fora obrigada a esperar por ele, que andava no giro dos seus doentes. Quando recolheu era já sol-posto e o sul ameaçava muita água. As instâncias e as lágrimas da rapariga, o perigo e a indecência de a deixar volver sozinha por légua e meia de maus caminhos, a maior parte serranos, que tanto ia da quinta do doutor até Aguim, tinham-no decidido a acompanhá-la e, para cúmulo de cortesia, a deixar o macho à manjedoira e fazer ai ornada com ela, toda a pé.

*

Mariquitas, no conceito do facultativo (a quem os leitores já conhecem e que não era menos aplicado ao estudo do belo sexo que ao dos outros mamíferos), valia muito bem a pena de um tal sacrifício. Vinha-a ele aturdindo com erudições e finezas, quais a quais mais cirúrgicas, e fazendo-lhe propostas a que o desamparo e a dependência da triste moça davam quase o carácter de intimações e ameaças.

A chuva engrossava. O covarde queria por força que entrassem a abrigar-se no curral; ela respondia que não tinha medo à chuva, que entrasse só ele, que ela o esperaria da parte de fora; ele argumentava com a higiene; ela replicava que lhe não importasse; ele prometia-lhe mundos e fundos; ela só não o descompunha porque lhe lembrava o estado da mãe; ele empuxava-a; ela repelia-o, era já luta.

João abafava, impava, banzava de não poder intervir.

Nos apertos acode o Céu.

*

Alguém se dirige de longe para o pardieiro a assobiar certa marcha guerreira. O agressor, sobressaltado, afasta-se, impelindo a moça para dentro da porta e adianta-se, como ao disfarce, contra o homem do assobio.

– Quem vem aí?

Sono io.

Quem?

Il piemontese.

Que procura?

Mi vado in traccia d'un orso...

Bem sei. Que fugiu esta noite da quinta dos Álamos. Passe. Mas por aqui é escusado procurá-lo, que se ele aqui estivesse, havia de se ouvir; nocte rugit.

*

João aproveitara-se da aberta para dizer ao ouvido da pobrezinha que não tremesse; que era ele, João Simões, o seu João Simões; que não morrera, estava vivo...

– Fui mandado pelo Céu para te acudir. Se consentes, vou dar cabo do alveitar.

– Pelo amor de Deus, não! Não! – respondeu ela ainda mais atemorizada. – Acabarias de matar a minha mãe...

E os soluços a sufocá-la.

– Vai, vai pois com ele, honrada Maria, e não temas.

Dizendo isto, soltou dois rugidos de urso, como o seu companheiro lhe havia ensinado a puxá-los do fundo dos pulmões; fez correr a moça atrás do doutor, que se levava como um vento, e ficou esperando pela chegada do italiano, a quem havia já reconhecido pelo seu hino patriótico.

*

Mal que ele entrou:

– De repente; poucas palavras; sim ou não – disse-lhe. – Ardeu tudo?

No.

– Morreu Angélica?

Fin adesso, no.

Muito bem. Toma dinheiro e um abraço; torna a põe-te a caminho. Segue esse homem e essa mulher sem que te percebam (se for possível); observa tudo que fazem e dizem; defende-a contra ele se for necessário e, logo que entrem no povoado, volta correndo aqui. Fico a esperar-te com impaciência.

*

A tornada do explorador custou uma eternidade.

João, medroso como um pássaro nocturno de que a aurora o viesse colher fora da sua toca, andava e desandava, com velocidade recrescente, os sete ou oito passos da sua clausura como que para ensinar às horas a apressarem-se; e, pela precisão que sentia de descarregar a sua cólera contra alguém, amaldiçoava toda a Itália por atacado, desde o Papa até aos lazzarones, desde os Alpes até ao mar.

Enfim, eis aqui em resumo as notícias que o estrangeiro lhe trouxe ao primeiro dessorar das trevas e que ele escutou com um pé já no caminho e os olhos no alto da montanha.

*

Quanto aos dois que tinha ido comboiar, não acontecera novidade. O doutor havia tentado duas vezes... mas coibira-o ele da primeira, tossindo para o advertir de que andavam moiros na costa, da segunda fazendo-lhe zunir um penedo por cima da cabeça.

Quanto ao incêndio, logo que julgara il caro signor Giovanni fora de perigo, tinha acordado com gritos moços e hóspedes, entrado pela janela transportando para fora do quarto la damigella, que jazia no chão a olhar para as chamas, e a aia, que a poder de encontrões arrombara a porta e corria gritando, com as mãos na cabeça, de um para outro lado. Felizmente o aposento era de abóbada e tijolo.

O incêndio devorou, com uma veemência mais aparatosa que substancial, cortinados, armações, caixas de enfeites, vestidos, parte da cama; porém, cedeu aos esforços que para logo entraram a acudir. Nos primeiros momentos em que o italiano andava ainda sem auxiliares a braços com as chamas, presenciara uma estranha aparição. Entrou, correndo espavorida até ao meio do quarto, girou-o todo com os olhos e refugiu com igual presteza uma bela figura de mulher; cabelos soltos, rosto da primeira mocidade, porém sem vida; vestido pintalgado, roupinhas recamadas de oiro, sapato de seda verde com fitas encanastradas até à curva; numa das mãos um pandeiro, debaixo do braço uma cabrinha branca sem movimento.

Mais:

Sobre a madrugada fora encontrado, junto ao portão do pátio, o sr. D. Luís deitado no chão, envolto numa capa de frade; estava ferido, com a cabeça quebrada e sem acordo. Chamou-se o médico para ele e para D. Angélica; veio, torceu o nariz, sangrou, receitou. Ambos estão de cama. A aia não sai do pé da donzela; D. Matilde reparte com igualdade o seu tempo e os seus carinhos entre os dois enfermos. D. Angélica parece ter perdido o juízo; o cavaleiro sussurra no delírio coisas que ninguém lhe entende; nos intervalos lúcidos opõe silêncio obstinado a todas as perguntas e mostra uma tristeza e um cuidado que não são por certo só devidos ao perdimento do cavalo.

Finalmente: quanto ao urso desaparecido, que era o essencial, não havia a mínima suspeita da verdade. Pelo contrário: ninguém falava senão no perigo de andar uma fera solta pelos campos; alguns contavam que a tinham visto e muitos propunham já uma batida geral para a desencantarem. Ele, italiano, dizia à boca cheia que dava dez moedas a quem lha trouxesse.

– De hoje a oito dias reunir-nos-emos outra vez aqui?

Domani, se lei vuol.

De hoje a oito dias. Felizmente não há suspeitas; é necessário não dar, por alguma imprudência, ocasião a que elas nasçam.

Apertaram-se a mão como cúmplices interessados no segredo; observaram em derredor se não aparecia alguém e separaram-se correndo: o italiano para a quinta, onde tinha a família e a mesa; João para a floresta, onde o esperavam os agriões e a pele do urso.

 

CAPÍTULO XXIX

Orfandade

Eufrásia, a mãe de Maria, era para todos os vizinhos «a tia Eufrásia», a festejada de todas as casas, a apetecida em todos os serões, pelos seus contos entretecidos de sentenças. Em solteira citavam-na como exemplar de donzelas; durante a vida do rendeiro seu marido, como espelho de casadas e de mães; e desde que vestira o luto perpétuo, já não andava em menos conta que de santa. Se viesse a fazer milagres depois de defunta, a ninguém espantaria.

Aquilo, com a sua pobreza, era uma casa cheia para toda a gente.

Se tinha penas, lá as cosia consigo, que nem a filha quase nunca lhas adivinhava; e mais, estremeciam uma à outra, trabalhavam, rezavam e dormiam juntas.

Se tinham falta disto ou daquilo, o que não vinha muito raro (e às vezes até de broa), quem pagava era o tear: andava em bolandas a lançadeira, saltavam as apienhas, chiavam as andorinhas, via-se medrar a palmos a teia e engordar o órgão. Então cantava Eufrásia; cantava umas cantigas que sabia, muito devotas, à Virgem de Nazaré. Era para enganar a fome... ou a filha (que nem uma nem outra se enganava), mas o resultado tinha-lho ensinado a experiência, que era acudir-lhes sempre bênção de Deus quando mais necessitadas.

E não tinha só virtudes domésticas a tia Eufrásia: pela sua prudência, pelo conhecimento que tinha do mundo, pela sua índole conciliativa e pela capacidade que todos lhe sabiam para guardar um segredo, fosse de que fosse e desse por onde desse, era o anjo da concórdia a quem recorriam os desavindos. Nenhum juiz de paz conseguiu jamais, com tão pouco ruído, compor tamanho número de partes, desvendar tantos amores próprios sem os ofender, congraçar tantos parentes, afagar à nascença tantos pleitos, salvar tantos créditos arriscados nem semear pazes e contentamentos mais duradoiros.

*

Eis aqui porque, desde a noite em que a sua porta fora arrombada pela regedora, nunca mais a pobre casinha se tinha visto uma só hora sem gente, e muita gente.

Moças e velhas porfiavam a qual havia de servir primeiro ou fazer-lhe a guarda de noite por mais tempo. Uma trazia-lhe a sua galinha de estimação para os caldinhos, outra matava-lha e depenava-lha; outra tinha-lhe já o lume aceso e a água na panela a referver; esta voltava-a para lhe afoufar o travesseiro; aquela estendia-lhe por cima a sua coberta rica de damasco vermelho para lhe alegrar os olhos (que dizem que ás vezes dá saúde); quais lhe fiavam quantas estrigas lhe achavam no cesto e pelo armário; quais se revelavam no banco do tear para que, em se tornando a erguer muito bem sã e rijinha, a tia Eufrásia (como todas elas esperavam, à vista das largas promessas que já andavam feitas a todos os santos) se alegrasse de achar as suas tarefas concluídas e as suas freguesas sem razão de queixa, que, afinal de contas, viria a ser o mesmo que não ter estado doente um só hora.

Até os cachopinhos, que todos lhe queriam como a própria Senhora do Ó que traz todos os anos a gaita de foles, os foguetes e os jantarões com pão de trigo, até esses mostravam naquela conjuntura o seu afecto, suplicando que os empregassem em algum recado e que os deixassem entrar a vê-la. Depois de a verem, saíam chorando e nem na rua se atreviam a fazer bulha ou falar alto.

Para Maria nada ficava que fazer senão soluçar em segredo, encruzadinha num canto, ou engolir a sua dor encostada à cabeceira da mãe e rezar pelas próprias contas dela, que, por serem dela tanto como por as ter benzido O capelão da quinta dos Álamos, deviam de ter mais virtude.

*

Logo que as receitas caseiras se esgotaram sem que o mal cedesse, tinha-se unanimemente assentado em que se devia chamar o facultativo. Muitos se haviam oferecido para irem lá (sem paga); porém, Maria, agradecendo a todos, respondera-lhes que, sendo o doutor, como era, tão ocupado com freguesia e costumando por isso faltar a mais de metade dos enfermos para quem era chamado (especialmente sendo pobres), ninguém devia ir senão ela, que era filha, porque, ou de compaixão, vendo as suas lágrimas, se resolveria a acompanhá-la, ou, se se não resolvesse, lhe poderia ensinar o tratamento e os remédios que se haviam de fazer, depois de ter ouvido a informação da moléstia que só ela lhe podia dar.

A segunda hipótese era a mais provável; porém, os encantos de Maria, muito mais que as suas lágrimas, tinham feito (como já vimos) que a primeira se realizasse. O doutor viera a pé e por baixo de água.

Ou por esse motivo ou por outro, que ninguém sabia senão ele, Mariquitas, o italiano e João-urso, entrou por casa da enferma de chapéu na cabeça, com mau humor e cara ainda mais ruim que a do costume (já a do costume não era peca).

*

Chegou à cama, tomou o pulso, escutou a respiração, puxou para fora a língua da paciente; abriu-lhe bem abertos os olhos já vidracentos, apalpou-lhe de corrida os pés e disse, voltando as cotas para sair:

– Mandem vir a unção... se ainda for a tempo. Confissão e comunhão... não falemos nisso: já não vê nem ouve. Está aí e está nas malvas.

Maria, que não tinha acreditado na possibilidade de perder sua mãe; que esperara em favor dela um milagre de Deus, outro da ciência do doutor; que não entendia o viver separada da sua inseparável, ficou alguns instantes como uma árvore cortada pelo pé antes de cair. Figurou-se-lhe que este homem fatal era o árbitro da vida e da morte; que a sua espantosa sentença poderia ter sido efeito da vingança, pelos repúdios, e crendo-se por isso matadora de sua mãe, houve um instante (instante medonho e fugaz como um relâmpago) em que, se se não arrependeu de haver resistido, sentiu que, para salvar a vítima condenada, deixaria despojar-se... até da honra e da existência. E com um ai, que arrepiou a todos quantos lho ouviram, caiu redondamente em terra como um corpo defunto.

O cirurgião tornou atrás para lhe administrar alguns socorros; Eufrásia, ao grito de sua filha, levantara a cabeça, abrira os olhos, estendera os braços descarnados, fizera esforços inauditos e, por um milagre do amor (ultimum moriens do coração materno), tornou ainda a articular com fala sonora e inteligível:

– Maria!... Maria!...

Esta voz reactuou sobre a filha o que a da filha operara sobre a mãe: a donzela soltou-se de entre as sábias mãos que, meio despiedadas meio compassivas, a desatacavam para a socorrer, e foi cair para cima do leito da agonizante.

Então viu-se uma coisa estranha: aqueles dois rostos, há pouco tão pálidos, reanimaram-se um para o outro e sorriram, chorando um sobre o outro.

Maria fez com a mão um sinal aos circunstantes para que saíssem; sua mãe acabava de recobrar a luz e o tino; havia-lhe dado a entender a necessidade de lhe falar sem testemunhas.

*

Logo que ficaram a sós, Maria apertou ao peito ambas as mãos da mãe, beijando-a na boca, no seio, nos cabelos brancos, nos olhos, delirando de alegria, pedindo-lhe que não morresse, que não morresse nunca sem ela, que recebesse com fé aqueles beijos, que eles lhe restituíam o calor, a força, a saúde; neles ia fogo, neles ia alma.

– Basta, basta, não me mates por ora de felicidade... Tenho precisão de te falar... Ninguém nos ouve?

– Deus, só Deus, que está aqui connosco e não nos há-de desamparar. Não, minha mãe, não há-de.

– Bom. Quando me for... tira da minha caixa... a minha lâmina de Nossa Senhora das Dores. Despega-lhe o forro de trás... Acharás uma carta... fechada... sem sobrescrito. Guarda-a muito bem guardada... Procura a senhora D. Matilde... Diz-lhe que és... a minha filha... Que te receba por criada; estou em que te há-de tratar... sempre muito bem... que tu mereces tudo, minha Maria... Logo me beijarás, filha... logo... Deixa-me concluir isto... que te interessa muito. Se por acaso algum dia... pode ser, pode: duas mães no mundo ninguém as tem; se por acaso algum dia... ela se cansar de ser boa para ti... entrega, em segredo, esta carta... ao sr. mestre Ambrósio... e... encomenda-me a Deus. Agora... podes beijar-me quanto quiseres, filha; posso morrer, que já disse tudo... Não chores; assim é que eu não queria acabar... Ouve... Se eu não expirar esta noite... vai pela manhã muito cedo... alguém que te acompanhe... Como está o tempo?

– De vento e chuva, minha mãe.

– De vento e chuva! Valha-me Deus!... Mas enfim, tem paciência... É o último incómodo... que te dou. Vai... à quinta dos Álamos... e pede ao sr. padre Timóteo que venha ouvir-me em confissão... e pôr-me bem com Deus...

*

Os incríveis esforços que este curto diálogo custara à triste velha provocaram novo paroxismo; recaiu no convulsivo letargo sem que desta vez nem os gritos da filha conseguissem reanimá-la.

O cirurgião tornou a entrar no quarto com todos os que dali haviam saído; olhou apenas para a tia Eufrásia; tomou o pulso a Maria; disse-lhe que no dia seguinte voltaria para a ver a ela e saiu com um meio sorriso em que alguns repararam e que, posto fosse em cara acostumada a cenas tais, não deixou de produzir, como coisa diabólica, um estremecimento de terror.

 

CAPÍTULO XXX

 

O ermo

A espaçosíssima, labiríntica e rumorosa mata do Buçaco poderia ainda hoje apresentar-se ao maior pintor para o inspirar, o engrandecer e o desesperar.

Profunda e cismadora, como as florestas do Novo Mundo; serena e aromatizada de misticidade, como os antigos bosques da Tebaida; faustosa como os parques senhoris de alguns lordes soberbos e milionários, concilia realidades e ilusões para todos os gostos.

O discípulo de Brotero ali acha-se em plena vegetação; ervas e arbustos das mais raras espécies crescem, em silvestre familiaridade, com as mais vulgares e desprezadas.

O mato é ao mesmo tempo horto medicinal, escola para estudo e jardim de recreação. Com as silvas, os medronheiros, as urzes, as giestas, os alecrins, as violetas, a figueira brava e os rosmaninhos se entretecem as madressilvas, os trevos reais, os legacãos, os roseirais silvestres, as betónicas, as murtas, além de duzentas outras ervas e arbustos que um naturalista, perlustrado o país todo, se maravilha de avistar aqui pela primeira vez.

O arvoredo que ensombra cerrado este desmedido jardim sem lhe tolher o florejar, parece que de todos os pontos do globo afluiu para, sobre esta eminência, altar sublime da terra, celebrar a festa de uma universal homenagem ao Criador.

Os cedros, colónia do Líbano, são os principais senhoreadores do Buçaco, gigantes vegetativos duas vezes mais idosos que o próprio convento que abrigam, pois que há pouco mais de dois séculos que o viram ali nascer... para lhe sobreviverem.

Por entre as saudosas árvores da Bíblia encontrareis as palmeiras do Ganges, o carvalho das Gálias e o do Apenino, o cipreste de Creta, o pinheiro da Flandres, a faia preta da Líbia, o álamo branco da Suécia, o pau-ferro e o vinhático da América, os lentiscos, o freixo, os adernos, os azereiros, a acácia, a olaia, o plátano, o sicómoro, o buxo e o loureiro.

Quando o vento do céu revolve toda esta pacífica república, donde sai e se propaga até enormes distâncias um murmurinho semelhante ao do mar longínquo em dia de tormenta, é para encantar a infinita variedade de verdes, de claros, de escuros, de prateados, de doirados, de folhas, de flores, de frutos, de estaturas, de copas, de curvas, de entrelaços, de ninhos, de pássaros, de fragrâncias. A profunda abóbada que nos cobre estremece toda sobre as desmedidas colunas que a escoram; fende-se, rasga-se, espedaça-se, caverna-se, decompõe-se, abate-se, mergulha, ressurge, restaura-se, consolida-se para outra vez se perturbar, se confundir e vos confundir com milhões de raios do sol ou das estrelas que se enleiam e doidejam sem atinar nunca onde se poisem.

*

Se vos aventurais a girar, a perder-vos pelos seios desta solidão, imaginais que nenhum ser humano a devassou antes de vós; que é um fragmento da natureza primitiva que o Dilúvio respeitou e de que o tempo se esqueceu.

Então subis e desceis, devaneando ao sabor do terreno boleado que se recobre de alcatifas de veludo vegetal verde ou amarelo nos declívios ou se junca espessamente de folhas caídas, crespas e tostadas, nos recôncavos e valeiros.

Prestígios vos cercam de perto, de longe; revezam-se, transformam-se e detêm-vos de passo a passo.

Aqui um pórtico, ataviado de cortinas verdes bordadas, abre para um santuário rústico. Um tronco informe e quebrado, lá no topo, arremeda brutescamente não sei que deidade montesinha. Adiante é uma gruta de folhagem; arrulha nela uma pomba que se não vê e vê-se correr uma fontinha que não se ouve. Já uma arcaria por onde a espaços vos espreita o horizonte azul. Já uma caverna rota nas faldas de um oiteiro maciço de folhagem. Além um como gigante de muitos braços arrimados a uma torre. Aqui duas árvores de opostas regiões pendidas uma para a outra, a abraçarem-se. Esta parece que parou indo a correr no alcance daquela. Três, ainda juvenis, como que dançam de mãos travadas; das três, uma enroupada com manto largo e roçagante de heras; outra cingida até aos pés com uma túnica alva e felpuda; a terceira calçada de malvas em flor e toucada, como as dríades, com festões pendentes e ondeados de parasitas rosiflores.

Um lago verde e imóvel!... Aproximai-vos: é de musgo.

Um vergel primoroso!... Quereis entrá-lo: é agreste; espinheiros vos repulsam.

*

Entretanto, se prosseguis na excursão maravilhosa, reconhecereis que a natureza permitiu também ao homem ser autor, pintor e poeta junto dela.

Desencantais, atónito, ruas largas, desmedidas.

Parais, distraído, à escuta se não virão lá carruagens e cavaleiros, demandando o palácio estivo de algum famoso senhor, ou príncipe, que se vos sonega na outra extremidade; mas estendeis os olhos e o que enxergais são apenas ermidinhas, as quais, lírios e cecéns da penitência, alvejam recatadas na sombra mística das árvores de Salomão.

Ides bater à portinha da primeira... está aberta. Chamais, ninguém vos responde. Entrais, a solidão da solidão vos recebe.

As imagens que pelo decurso de duzentos anos inspiraram tanta fé, tantas consolações a desgostos reputados lá em baixo, entre os homens, inconsoláveis, as imagens estão mutiladas ou caídas; o altar do sacrifício incruento ao romper do sol... despido.

A aranha estende a sua rede de caça onde era o gravato de cortiça e a cabeleira de pedra do ancião. A cinza da lareira está fria; as paredes húmidas e esverdeadas, o tecto roto. As sarças já chegaram ao limiar, já espreitam para dentro à espera de um ou dois invernos mais para tornarem a entrar de posse do seu domínio, pois que as mãos devotas, secas e mirradas como raízes, abençoando a terra, as haviam esbulhado.

A segunda ermida, a terceira, todas vos oferecem o mesmo espectáculo, os mesmos desenganos.

Até por ali passou uma roda de carro triunfal do século; destruiu a poesia dos séculos predecessores, que era a piedade, mas deixou em lugar dela a sua, que são as ruínas. A oração era a esperança; o desamparo é a saudade. Saudade e esperança, ambas são poesia porque são ambas muito amor.

*

De ermida em ermida, que vos encaminham como pedras miliárias, chegais enfim ao convento (porque neste ermo se achava à escolha, ainda há doze anos, o viver eremítico e o cenobítico, bálsamo de solidão em diferentes doses para os diferentes graus das dores ou misérias incomportáveis).

O conventinho conserva a sua aparência primitiva. Sim, a aparência.

Não é necessário puxar à porta o vime que fazia tocar a campainha surda de folha de flandres. A porta está aberta.

O religioso que lá dentro se avista pintado, com dois dedos na boca a impor silêncio, nunca foi mais perfeitamente obedecido.

Toda a casa é silêncio e deserto: desertas as celas e o jardinzinho contíguo a cada uma para laboriosa e inocente recreação do seu morador; deserto o claustro; deserta a cozinha e o refeitório; desertas as oficinas e o pátio; deserta a livraria e até a igreja deserta!

Os descalços e amortalhados que ali viviam, sem fala mais do que para a oração, saíram afugentados e dispersaram-se... redescendendo com pavor para a terra tempestuosa dos viventes. O coro, sob o qual haviam de ser sepultados como os seus maiores, para ali ficou a esperá-los em vão, tão calado e triste na superfície como no bojo, porém menos despovoado ainda no bojo que na superfície.

Assim que a magia deste novo Carmelo, igual ao antigo pelo formoso e fechado dos seus arvoredos, pelo fresco, abundante e cristalino de suas fontes, igualmente se compõe do que possui e do que lhe falta.

O profeta desapareceu mas deixou-lhe a sua capa, os seus vestígios assinalados em todas as penhas, o seu nome a sussurrar em todas as folhas e o seu dom de inspiração transmitido a todos os objectos.

*

A alma de João nascera porventura para se afinar por esta imensa harpa de poesia, para se embeber nas harmonias do Céu com a Terra; mas havia-se, quase desde os primeiros passos da vida, extraviado por veredas ruinosas, rolado por escarpas de precipícios; trazia quebradas e conspurcadas de lodo as suas asas; consumiam-na remorsos; atormentavam-na cuidados; via-se aviltada e mesquinha aos seus próprios olhos. As sublimidades, as carícias, os segredos da natureza resvalavam agora por ela como chuva fecundante pela superfície de um penhasco.

Gastou o dia a ver se caçava pássaros à pedra para ter alguma coisa mais sólida com que entremear a sua salada de obrigação. Nem um único teve a cortesia de se deixar cair. A noite curtiu-a sentado num tronco, exposto às refregas do vento húmido, sem se atrever a deitar-se na terra empapada em chuva.

Ao romper do dia estava pálido, abatido, desanimado. Com que saudade lhe não lembrou a sua enxerga de palha de milho no moinho de Pedro Simões! E até a dorna do mestre Ambrósio! E até o sótão do Peneireiro!

A oito noites passadas como esta sentia ele que não poderia resistir. Era pois urgente procurar, já para a primeira, um abrigo se o houvesse daqueles muros para dentro; quando não... sair, sair a todo o risco; entregar-se à sua estrela errante e encaminhar-se para Lisboa ainda que, logo em Coimbra, os sinais dados por D. Quitéria o fizessem descobrir. Na cadeia ao menos haviam de dar-lhe cama e comida quente.

Ah! Quem reconhecerá nestas meditações terrestres e prosaicas o coração altivo de Rui, criado às tetas da filosófica literatura dos romances?

*

Confessa o relator desta história que tem suma pena de não poder apresentar sempre o seu herói nobre, sobre-humano, aéreo, vaporoso, superior às misérias do comer e do beber, dizendo ou pensando sempre coisas extraordinárias. Mas o relator desta história é um homem chão e de verdade; e por nenhum caso poria fantasias suas, por mais brilhantes que lhe acudissem, em lugar do que real e verdadeiramente se passou.

Saiba-se pois que estava pálido e aborrido quando a aurora apareceu, com mais vontade de almoçar quatro rodas de chouriço com ovos e estender-se a dormir do que contemplar o suave banhar-se das árvores no primeiro alvor, ainda incolor, da manhã.

As aves começavam a chamar-se e responder-se; ainda se não via nenhuma atravessar o céu, mas já lá por cima, nas suas frondosas aldeias movediças, ouviam-se chilrar e papear como preparando-se para o próximo hino do sol nado. João antes as quisera a chiar numa frigideira.

*

O nascente golfa candidez, que vai em serenas ondulações correndo até ao ocaso; é o botão do dia novo. Já entremostra o seio cor-de-rosa; já desdobra as suas pétalas transparentes, purpurinas, imensas; já alastra com elas toda a zona de norte a sul; já as transfunde de cor em cores, a qual a mais vívida. Toda a vegetação, vestida e toucada de diamantes, está virada, como em admiração muda, para aquele florão do céu cujos reflexos fazem sorrir um sorriso vermelho e geral a todas as verduras, ainda há pouco negridões, das árvores, dos arbustos, das ervinhas e dos líquenes. Enfim, a tão esplêndida flor etérea, por um encanto formada, por outro desfeita, seguiu-se o seu fruto de oiro e fogo, o único digno dela, o sol. O sol! O sol!...

Toda a natureza viva levantou o seu concerto de alegrias.

*

João achou que tudo aquilo podia ser muito bonito mas era para quem tivesse ceado e dormido; e jurou que (desse por onde desse), enforcado fosse ele no mais alto cedro se a alvorada o tornasse a apanhar como desta vez.

Não conhecia ainda a mata. Na véspera, o cuidado da caça e o receio de topar alguém girando por aqueles sítios desconhecidos como por sua casa tinham-no feito limitar o seu desterro num círculo de trezentos ou quatrocentos passos, nada mais. Começou a caminhar à ventura, ora a um ora a outro rumo, amaldiçoando as mulheres e os cardos e perguntando a si mesmo por que razão faria Deus tanta árvore sem fruto quando pouco lhe custava que todas elas dessem pelo menos pão, como já lera de umas certas que há na América.

Ao cabo de muito andar e desandar, descobre o convento.

*

Fez seus entes de razão se entraria ou não entraria. Não ouvia, não via ninguém, aventurou-se. Entrou.

Correu tudo em procura da despensa, a ver se no fundo de alguma talha esquecida acharia ainda alguma relíquia de atum ou polvo de escabeche. Abriu na cozinha o armário, nem já o cheiro de pão havia nele.

Por último, dirigiu-se à igreja.

Um ancião, de cabelos e barbas cor de prata, vestido em hábito de carmelita, sem capa, está de joelhos orando com as mãos postas para o altar-mor, mas com os olhos profundamente cravados na imagem da Madalena.

João supõe reconhecer nele o mesmo que, na sua primeira vinda ao Buçaco, lhe aparecera à boca do algar, que talvez acompanhara a D. Luís e na sua capa o deixara envolto junto ao pátio de D. Matilde.

Saiu mansamente antes de ser pressentido e voltou a embrenhar-se na floresta, resolvido a passar antes outra noite como a precedente do que a dormir debaixo das mesmas telhas com uma figura de frade que aparecia quando já não havia rasto deles, que surdia pelo escuro do meio das brenhas, que não fazia bulha ao andar e que a única resposta que dava era uma cruz.

Para corrigir de algum modo o dissabor de tal necessidade e evitar os perigos do sono ao relento, ocorreu-lhe como fácil remédio dormir enquanto o ar fosse tépido com o sol e as horas da escuridão velá-las a passear. Assim o fez...

*

Era alta noite; o Sete-Estrelo ia já a pino, a Lua desaparecera no mar; a treva de toda a montanha era profunda, a do interior da mata, profundíssima.

João caminhava devagar, apalpando com os pés o terreno, com a vista erguida para o alto das árvores a captar alguma estrela.

Que maravilha! Um reflexo de luz tremula nos ramos de uma árvore! ...

Achega-se; não se enganou. A luz parece exalada de dentro do próprio tronco por alguma abertura, pois fere na folhagem por debaixo e com tamanha viveza que descobre serem as folhas de castanheiro. Corre-o todo em derredor; não divisa frincha ou buraco por onde espreitar para dentro, pois, visto conter luz, oco por certo deve ser aquele tronco espaçosíssimo.

Foi a curiosidade mais possante que o temor. Trepou, com dificuldades incríveis, pela parte oposta àquela por onde respirava o clarão, por ser a única onde algum nós e uma frágil vergôntea lhe davam mão para subida.

Chegado ao primeiro ramo lateral, lá foi passando com sumo tento, de um para outros, até que enfim chegou a embeber a vista por um rasgue espaçoso e informe no tronco, por altura, pouco mais ou menos, de homem e meio. O que unicamente percebe é uma lampadazinha de tamanho de meio ovo grande, branca e transparente como alabastro.

Quer descer mas, com o escuro que faz, receia precipitar-se; resigna-se a esperar pela manhã a cavalo no ramo grosso em que se acha, até com um excelente encosto para dormir (se tão estranha novidade lho consentisse).

Deste mirante, a ser coisa viva e natural a que alumia ali dentro, não pode ele deixar de a descobrir em sendo dia.

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