II

O SEPULCRO

OU

HISTÓRIA DE UMA NOITE DE SÃO JOÃO

(POEMA)

INTRODUÇÃO

(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)

(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavalo, transviados na montanha.)

I

– Bem lho disse eu, perdemos o caminho;
a velha era por força alguma bruxa.
Logo eu zanguei com a cara e mais com a touca!
– Bom; a pobre mulher (que mais querias?)
três vezes to ensinou.
– Nem trinta vezes
que eu passasse por ele, o aprenderia;
a não ser pelo rasto que deixasse

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esmurrando o nariz por essas lapas.
Já levo sem ferragem ambas as mulas;
perdeu-se o norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e é quase noite.
Patrão, por meia légua mais ou menos,
não se deixa uma estrada como aquela,
que costeava o monte à beira da água.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
– Dize um que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o atalho em vez da estrada,
toda a cuspa foi tua; eu não queria,
porém teimaste; e eu não me oponho a teimas.
– Mas eu porque teimei? pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas mansas,
nos rabiscou co’o pau no pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
desta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira, torcicolo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mapa!
Quem não caía em tal? caíam todos.
E demais quem nos diz que aqueles riscos
não tinham diabrura ou nigromância(1)
capazes de encarchar um Santo em carne?
E quem me diz a mim que a grenha ruça
não vai ao pé de nós? talvez sentada
na anca da mula!
... fugite, demónios!
Meu Doutor, pelo mundo há muita coisa;
quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem criancinha de honte. Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui pôs ponto;
caminho... era uma vez! Má raio a parta!
que havemos de fazer nestas alturas?
– Tornarmos para trás.
– Por este escuro?

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quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
co’um milhão de diabos!!...
– Pois fiquemos.
– E as mulas comam terra, como os sapos,
e nós carqueja.
– As noites são bem curtas.
– Se ao menos se avistasse alguma venda...
– Em rompendo a manhã teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.
(Apeiam-se.)

*

– No inferno
estoire entre um milhão de Satanases
o que inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladrão... Que bulha é essa?
– Não é nada; uma pedra que rebola.
– Que rebola!? e sem mão! será bonito,
mas nem por isso engraço. E aquele bruto
lá em cima no pinhal, que guincha tanto!
– Algum mocho.
– Más balas o atravessem,
e lhe acabem co’a casta antes de uma hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou seis; mas cá perdido,
e então de noite, um pisco me põe medo.
– Pois dorme.
– O quê? dormir! co’a bruxa às barbas!
só se eu fosse algum bêbado. Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas

(1) Arte de evocar os mortos, para deles se obter o conhecimento do futuro.

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dois penedos; e ao pé já está reforço.
– Golgan, já que não foi por nossa escolha,
busquemos contentar-nos com a poisada,
que inda não é tão má como o parece.
Quantos há menos bem acomodados
por esse mundo agora! uns em cadeias,
outros entre ladrões, náufragos outros,
estes em luto, aqueles em doença.
Bastantes em colchões de plumas fofas
revolvem entre holanda, e sedas, e oiro,
cuidados tristes, ásperos remorsos.
Quantos até nas salas mais alegres,
entre as luzes, e as músicas, e as danças,
mas em face de um sôfrego banqueiro,
padecem mais que um réu chegando à forca
Não há mal sem pior; qualquer estado
se se compara, é bom; com cara alegre
suavizam-se os incómodos; um fardo
num ombro impaciente é fardo e meio.
Quem não sofre um descómodo pequeno
nos grandes morre; um leve desagrado
dá realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer estado, e péssimo que seja,
tem seu lado risonho; e é da prudência
dentre os picos da silva achar a amora.
Ámen. – Brada o latim; dá ceia e cama.
– A falta desta ceia é novo adubo
do almoço de amanhã; e quanto à cama,
que outra melhor do que esta em mês de Junho?
Nem paredes nem tectos, que nos roubem
a viração da noite após a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
lá em baixo o mar com os seus murmúrios frescos;
sobre nós, e por baixo das estrelas,

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pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado de insectos que entreluzem;
dois rouxinóis ao longe; as lájeas, mornas.
Vê; que soberba câmara!; que leitos
desde a origem dos séculos nos guarda
no seio desta brenha a Natureza!
– Ao menos não tem pulgas! Xó, canalha!
leva rumor! é bom pregar de coices.
Não durma, Sor Doutor.
– Não tarda muito
que eu não entre a sonhar! Que belos sonhos
não devem ser os de uma noite destas!
– Tenha lá mão com isso; o que eu prometo,
para espalhar-lhe o sono, é uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir à Gazeta!

*

Uma vez ia eu só; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era meter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a propósito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquele; andava Cristo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontapés da gente;
também... já cá não torna! O grande caso
é que naquele tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
que não pelos vinténs; nem pela cara;
mas isto de casar co’um almocreve,
seja ele o diabo dos infernos,

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parece a todas bem: é uma delícia
ter o seu homem só de vez em quando,
em lugar do espião de um pegamasso
com residência fixa em ar de abade.
Mas... não é bom falar na vida alheia.

*

Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o Chupista. Oh! que bolacha
que eu pespeguei na cara do cuecas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer criança lhe moía os queixos;
já lá está onde o pague. Onde ia o ponto?
ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o ano
a correr quanto vale e monte havia
para cobrar o foro aos Frades Crúzios.
Que isto do foro é bom, nem que pareça;
uns pagam-lhe burel, outros centeio,
queijos, presuntos, lã, cevada, vinho,
galinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham. (1)

Não há num pardieiro um desgraçado
que não deva pagar alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem razão; é porque andava às ordens.
Também já tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
Vamos cá "co’o" meu conto.

(1) Verbi gratia na quinta da Domanderes.

NOTA DO AUTOR.

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*

Era uma noite,
cuido que já lho disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.
Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,
gosto de andar de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, com os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada..
Vínhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite; ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.

*

Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao galinheiro,
vendo os machos no pátio é uma alegria!...
aquilo até os olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
Bom tempo! bom de lei! já cá não torna.
Não durma Sor Doutor.
– Não durmo; acaba.
– Acabar! não acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarém; tinha um cachaço,...
por tal sinal que até revia enxúndia;

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e era um demo, o maldito, a beber vinho! ...
Mas aquilo! a pregar era uma jóia;
um sermãozinho dele atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constância
de arrumar pregações de duas horas.
Num que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto que eu, e muita gente,
já tínhamos dormido à regalada)
disse muito pausado: «Eu principio.»
Assim faço eu também. Todos devemos
tirar das pregações algum proveito.
Ora pois, não me durma, e aí vai a história;
porém tenha lá mão, que a levo errada.

*

Nesse dia à tardinha, na estalagem
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo..
Tinha pela cabeça um lenço pardo
atado pela barba, um mantéu ruço,
e uma mantinha exótica e de agoiro.
Tinha então uma cara não sei como;
nem parecia cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito esperta; e uns olhos como um bicho.
Também aquela rês tinha no corpo
muita pipa de sangue de crianças!

*

Cheguei eu à estalagem, e ia com fome;
vou-me à carga do foro, agarro uns ovos,

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mando-os frigir com mel; que é papa fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que é bom, que livra do catarro,
já se sabe com quatro pingarolas.
Ia-se preparando o meu guisado,
e era um cheiro tão bom pela cozinha,
que isso não há dizer. Já dois galegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e às voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigela,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinhão; e isto em galegos!

*

Enfim, cheirava bem, e estava d’alma.
Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com cada olho aberto, que te parto!
Era mesmo um olhar que de inveja e zanga.
Logo eu tive má fé co’a tal menina
quando ela perguntou quem era o dono.
Porém quem mal não usa mal não cuida;
sentei-me à mesa a codear nos ovos.
Ora agora o vereis: a minha amiga
amua-se num canto, mais vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar nela.
Ferra os olhos em mim com tal quezília,
que a não ser por temer a Deus e a ela,
batia-lhe co’o prato pelas trombas.
Botava cada lágrima... de punho!
dava cada suspiro, a excomungada,
que punha medo! acendo o meu cigarro,

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pago, monto a cavalo, e sigo a estrada.
Era já noite escura, e um vento frio
como o grande Satanás.

*

Que diabo é isso?
ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
– Avante; são as ramas que sussurram.
– Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser já tarde,
e a assobiar sozinho o tiroliro.
Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
À esquerda, como aí, ficava um monte;
desta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e então muito longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldão o andava àquelas horas.
Entrei logo a suar e a arrepiar-me;
e as mulas num inferno de pinotes
sem quê nem para quê; davam tais rinchos,
que se fundia o chão; pregavam coices,
que assobiavam no ar; que contradança!
era uma grosa de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, à bordoada. (1)
Aqui digo eu como dizia o Frade
noutro sermão de um Santo; não lho pinto
por não ter um pincel. Mas faça ideia

(1) Descreva-se aqui numa nota o encontro que hoje tivemos como o galinheiro de Santa Cruz junto ao Vale da Galega, que quis descarregar uma espingarda em mim e no poeta, julgando-nos ladrões, pelas muitas perguntas que lhe fazíamos sobre o que levava etc. etc.
– NOTA DO SECRETÁRIO AUGUSTO.

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que tal eu ficaria lobrigando
(eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir, à roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal, Que era bruxedo
tive eu logo de fé; muitos que mo ouvem
riem-se, e tal; deixá-los rir; há bruxas;
que isso sei eu; e então ali! tão tarde!
Por força era algum sábado lá delas,
que as tais amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sábados, o mesmo
como nós no Natal à meia noite...
Há muita comezana de crianças,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas risadas... que até Deus se admira..
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o próprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas elas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do que têm feito, e... acaba a tal comédia.
Untam-se com uma untura que lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e elas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalagem,
e então é que dei tudo por perdido.
Deitei fora o cigarro, e entro em voz baixa
(sempre isto do pavor faz muita asneira!)
entrei eu co’as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co’as lágrimas nos olhos,
pelas Almas Benditas, que deixassem
todo aquele motim, que me perdiam;
que fugissem dali, que andavam bruxas,

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e que pé ante pé viessem vindo;
que eu prometia uma ração dobrada.
Partimos. De repente desembesta
de ao pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xara.
Com seis milhões de grosas de diabos!
quem havia de ser, senão a velha?
Salta num pulo a estrada, trepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sisuda
entra a dizer-me adeus, e (tarrenego! )
a fazer-me uma cara dos infernos...
– E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
– Certo é que lembrou bem; também agora
lá me faz confusão ter visto a cara.
Escuro? isso era escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lha, e vi-lha;
assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juízo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lha mostrassem.
Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.

*

Mas o bom não foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o galinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo às cegas
sem as poder juntar. Foi-se-me a noite
nesta labutação; de cada canto
sentia um cacarejo, ia às carreiras,
galinha... por um óculo. Já rouco,
moído e desesperado, ao romper d’alva

134

vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas num bando ao pé das mulas.

*

Mas alto; esta é pior. Não vê? repare:
um clarão para ali!! desta nos trincam;
meu Deus! onde diabo eu tinha a morte!!
– Alegra-te, Golgan; que noite é esta?
– Para nós ambos de Fiéis defuntos.
– De São João.
– Ah! sim; pois é fogueira,
e não é outra coisa. Ora o diabo!
sempre tive uma cólica sofrível.
Mas vamos nós a andar, se lhe parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
numas razões que teve com meu tio,
que era barbeiro então, e o Padre Mestre
era o Vigário dele; e ele, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
que era um tição que só à bofetada;
mas muito presumido! e então por moças
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que enfim, tinha o Padre este ditado:
aonde há lume há fumo; e eu então digo
que por força onde há lume há-de haver gente;
e que onde há gente há casa; e toda a casa
tem a sua cozinha, e então ceamos.
E é partir de repente enquanto há lume.
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Páginas 136 a 146

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