II

Eis aqui um diálogo de ensanchas
sem jeito, sem sabor, sem fim, sem nexo –
grita o leitor perdendo as estribeiras.
Onde foi isto? ou quando? quem são eles?
Onde vão? donde vêm?

*

Leitor amigo,
há duas horas que souberas tudo,
se o cruel arrieiro o permitisse;
mas vais sabê-lo enquanto enfreia as mulas.
Quanto a ele, presumo que o conheces;
o nome do outro autor dir-to-ei num verso
não pior que outros muitos portugueses:
António Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir a bodas;
recolho-me outra vez à Castanheira
(1)
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
O teatro da cena é certo monte
de que me esquece o nome; o ano, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito, à noite,
véspera de S. João. Se mais desejas,
é perguntar, que eu te respondo a tudo.

(1) A Castanheira do Vouga, Bispado de Aveiro, Comarca da Feira, a uma légua de Águeda.
NOTA DO AUTOR.

136

*

Mas o melhor (se queres um conselho)
é fazer-me um favor, ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda connosco;
a noite está belíssima; podemos
ir com o nosso vagar pataratando,
e conduzindo as mulas pela rédea.
Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
fica-te em paz, regala-te, que eu juro
que estando em teu lugar fazia o mesmo.
Se queres, faze às páginas seguintes
onde vai mais Golgan (porque já agora
hei-de contar a história por miúdo)
faze, digo, a tais páginas o mesmo
que eu, tu, e ele, e nós, e vós, e eles,
fazemos às dos Mártires do Padre,
que são apesar disso uma obra-prima.
Passa-as em claro, e dize que já leste.
Quem fala assim não quer suor alheio.
E adeus; até mais ver que vou com pressa.
……………………………………………
……………………………………………


III

– Olhe lá, Sor Doutor; diz um livrito,
que a gente sem falar é como os burros;
e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se passou depois da história.
Mas vá picando a mula; olhe a fogueira!

137

Com que, como eu já disse, ao outro dia
vi as galinhas ao redor das bestas;
torno-as a pôr na carga, e digo logo:
A Santa Cruz não vão vocês decerto;
nem vocês, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai, com trinta infernos!
Servos de Deus tão bons, tão meus amigos,
haviam comer tal! meter no corpo
talvez quanto bruxedo há neste mundo!
Deus me livre do mais, que de encarregos
posso-me eu bem livrar. Corto co’as mulas
direito à Espanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.
– As mulas!
– Pois as mulas
tinham tantos diabos na mochila
como as galinhas, os buréis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
não digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu três anos para quatro
a correr Portugal e Espanha toda
a buscar confessor;! tudo ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho de um cigano,
dei-lhe três duros, e botou-ma logo.
Mas então penitência não falemos;
se a quisesse rezar, nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
e ele por ter vagar, se incumbiu dela;
mas disse-me que havia até ser velho
mortificar o corpo com um vergalho,
e com muitos jejuns. Se eu fora pato!

138

Sabe então o que fiz ainda algum tempo?
era correr de chouto os meus pedaços,
e depois descansar.

*

Deixemos isto,
que não lhe importa muito, e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpão, e cheio como um ovo.
Namorei, namoraram-me bastantes;
por encurtar razões, casei com uma
que era filha do irmão de um primo ou tio
de um meu compadre Abreu, que era cunhado
da sogra desta mesma rapariga,
e enteado do irmão do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e temente ao Senhor, que é todo o caso.
Gastei para impor Bula os meus tanturrios,
e não foi lá tão pouco! Veja agora:
para a gente casar largar dinheiro!
É como ir para a índia ou para a forca,
e pagar inda em cima aos da sentença.
Perguntei ao Banqueiro a causa disto,
disse-me ele que a causa era nós termos
quatro humores no corpo, e daqui vinha
haver os quatro grãos na parentela;
que ela era minha prima, e que entre primos
havia os quatro grãos todos inteiros.
Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peça,
não só os quatro grãos que se não viam,
mas ainda mais cá certa brincadeira.

139

*

Deixar; fosse o que fosse; enfim, casei-me.
Aquele mês primeiro é uma delícia;
foi todo ele um cantate; muito amigos,
muito beijo, e comer; muita bruega.
muita romagem e tudo muito e muito.
Nunca houve um par assim tão contentinho;
nanja na aldeia e na comarca em roda;
era até amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a gente,
num dia santo à prática da Missa
deu-me um foguete! cáspite! Disse ele
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muitos;
ela entrou-me a azoar com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o asneirão do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho, e ameaçou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.

*

E então que lhe parece a entaladela?
Vivia em paz, ralha o Prior; desanco-a,
vem o Juiz, promete-me a enxovia.
É como o conto de um palerma velho
que ia a pé co’um rapaz e mais um burro.
– Bem sei.
– Pois sim senhor. Com que, tivemos,
não digo bem; teve ela oito ou dez filhos:
e sempre a dois e dois; forte coelha!

140

Entrei a dar à bruta; acudiu povo,
ela fugiu, mas eu fugi sem ela.
E de então para cá desandou tudo.
E hoje ando aqui por moço de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as ventas.
Aqui está por que eu digo que este mundo
é coisa muito célebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram tudo.
……………………………………..

Brava! não ouve uns sinos que repicam?
olhe um foguete! truz! Viva o Vinagre!
e viva e ceia e a cama que estão perto!

IV

Com efeito, assim era; a poucos passos
já se ouvia tambor, gaita de foles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na direcção dos sons e da fogueira,
descemos uma encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns circo ou seis pastores se ocupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdêramos no monte,
oferecendo à porfia os seus albergues.
Não findara a benévola contenda,
se um deles agarrando o freio à mula
me não pusesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que ainda ficavam,
segui afoitamente o nosso guia.

141

*

Uma ponte de pau que atravessámos
coberta de chorões, nos pôs à borda
de um trigo já maduro e sussurrante,
contíguo ao seu casal. Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada aí como risonha ilhota
num vasto mar de trémulas searas,
e clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do céu por entre as folhas
de um esquivo parreiral. Junto às paredes,
de rosas e limeiras revestidas,
canapés de cortiça apresentavam
a imagem do descanso e a do convite.
Não era necessário entrar a porta,
para já conhecer o domicílio
da hospedagem e da paz; que as próprias auras,
como que em tão poéticas folhagens
se ouviam sussurrar: «Bem-vindo o estranho!»

*

Não longe lhe ficava a sua aldeia
na coroa de um oiteiro; pensaríeis,
vendo-as tão perto, e um bosque a separá-las,
a aldeia tão brilhante de fogueiras
e esta casa tão só mas tão alegre,
pensaríeis, como eu, ver numa festa
moça ausente e feliz, amante e amada,
que entre o prazer comum não quer nem deve
ir desfazer seus pensamentos doces.

142

*

Vizinho seu mui próximo era o templo,
aos vales do arredor alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a Residência, oculta em parte
num ramilhete de altas cerejeiras.

*

Nunca mão de pintor juntou num quadro
objectos mais simpáticos. Tal como
trépido arroio em tácita espessura
das copas bebe a sombra, e envia às copas,
do sol reflexo voadores raios,
do casal a presença alegra o templo;
a presença do templo está lançando
sobre o casal o sério da virtude;.
Tudo isto sob um céu de fértil bênção,
sobre um chão de abundância, e no ar mais puro!
– Meu Pai! – grita o pastor entrando à pressa -
minhas irmãs! um hóspede! –

*

A tal nome,
como se fosse à voz de alguma fada,
com repentina luz nos aparecem
crianças folgazãs, esbeltas moças,
um ancião, e uma velha. Imagináreis
ver Graças, ver Amores, ver Napeias;
trajados de aldeãos, e honrando os lares
de Baucis e Filémon, que o parecem
na idade e na virtude os meus dois velhos.

143

*

Não mora entre searas a etiqueta;
mas sobre herdada mesa de pinheiro
em troco adeja a cordial franqueza,
o bom desejo adubo da abundância,
e a amizade dos bons, filha do instinto,
que nasce qual relâmpago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao cumprimento,
logo o segundo aos cómodos; o resto
à conversa, e ao bulício de tal noite.

*

Vem-nos do forno, envolto com as risadas,
vital perfume de melífluos bolos,
que em moles virações traz a alegria.
Aquela vai e vem compondo a mesa;
esta afervora a ceia, e a cada instante
corre à janela que descobre a aldeia.
Juntam-se à bulha os sinos da paróquia,
que o sacristão na véspera do Orago
jurou provar seu zelo aos Céus e à terra.
O festivo repique exalta as mentes,
os meninos não param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaçam fogo à pipa velha.
A boa anosa mãe ralha do estrondo,
e o faz ainda maior; o esposo enfia
uma sobre outra histórias do seu tempo.
O avito candeeiro de três lumes
cobre da mesa o centro, e chama à ceia;
a solta sociedade eis se lhe agrega.
Não foi longo o festim, mas cada copo

144
lhe aumentava o prazer. Salve três vezes,
ó dos três lumes candeeiro avito!
quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
não tens visto florir em tua casa!
quantas mãos tão felizes como puras
te hão acendido em noite igual! quem sabe
que de memórias para ti conservas!
Em prémio da hospedagem aqui te acendam
longas eras em noites semelhantes
dignos de seus avós contentes netos!

*

Iria a muda apóstrofe adiante,
mas ouviu-se o zabumba. – Aí vêm! são eles! –
dizem todos, e todos saem pulando.
– Olhai; olhai; nem uma luz na aldeia!
este ano veio tudo. Que alegria
terá o nosso Pároco!
– Maria,
dá cá o meu chapéu.
– Corre, Pedrinho!
– Onde está meu irmão?
– Não se demorem!
– Vamos dançar.
– Perdi as alcachofras.
– Vinde por cá; passemos-lhes adiante;
que rancho que lá vem!
... ... ... ... ... ... ...
…………………………………………….
... ... ... ... ... ... ... ...
Golgan, que eu fosse,
não pintara a estrondosa miscelânea
que voa do casal ao Presbitério.
Lavra nos próprios velhos o alvoroço;
vão com os mais quase a par; lavra em mim mesmo,

145

estranho à festa. O pátio iluminado
nos recebe, e connosco a aldeia em peso.
– Viva o nosso Prior!
...
Viva!!! ...
Mil vozes
restrugem o eco apenas avistaram
rindo à janela o velho gordo e alegre.
– Viva o Senhor São João! viva a alegria!

Páginas 146 a 153

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