III

EPÍSTOLA

A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

Da paz de um ermo ao turbilhão da corte
a Musa de Castilho à do seu Costa
saúde e amor. Já outra primavera
se enflora, a seu pesar, desde que ausente
pede aos montes a irmã que a não suspira,
e dorme ao lado de um feliz ingrato.

Enquanto a minha, ignota, emprega os ócios
em cantos cujo eco além não passa
………………………………………….
1831 – Abril, 21.

155

IV

O PRESBITÉRIO

Salve, princípio e fim dos meus passeios!
Salve, ó tu, cujo tecto, alva casinha,
cobre há perto de um lustro os meus autores,
meus castelos no ar, meus fáceis versos!
Salve, com o teu rosal; com as tuas limas,
festivo ornato das paredes brancas;
com o teu portão patente opresso de heras;
brasão futuro do obumbrado pátio!
Salve outra vez, meu presbitério! Salve!

*

Hoje, que o caprichoso do meu estro
(bem sabes se ele o é) deixa inconstante
versos ainda no choco, outros que apenas
vão da casca a sair, outros que breve
têm de fugir do ninho em voos livres,
entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,
a doidejar-te em roda, a namorar-te,
qual borboleta ociosa ou leve abelha.
Pois que ele o quer... cantemos-te; e perdoa
se o canto falador, transpondo os cumes
das tuas cerejeiras, for mais longe
revelar tua humilde obscuridade.

157

*

A antiga mediana, a segurança,
a paz, o amor dos Céus, o amor dos homens,
génios foram, que em bênçãos presidiram
aos alicerces teus. De Pário monte
não foi mister que entranhas te enviassem
chão, colunas, e abóbadas, e estátuas;
tuas portas sem chave não cresceram
lá nas florestas do hemisfério oposto.
Foi vizinho pinhal teu solho e tecto;
deu-te paredes mais vizinho oiteiro;
portões e mesa um cedro bom da estrema.
Não custaste nem lágrimas à pobre,
que à força te cedesse a choça avita,
nem odioso suor; e não se dormem
sonos melhores em Belém nem Mafra.

*

Que importa que no centro destes ermos
vivas tão só, que apenas descortines
num dos altos em torno esquiva aldeia?
Tu e o templo com as messes que vos cingem
gastais no quadro agreste; em vós afluem
(como em sua Queluz) nos festos dias
ondas e ondas de amáveis saudadores.
Os rebanhos ociosos não desdenham
tojo em flor, que te doira o chão das matas,
donde envoltos com os trémulos balidos,
vêm cantos de amorosas guardadoras
endoidecer teu eco.
Os caminheiros
abençoam-te a sombra; aqui têm fonte,

158

que em tua relva, ao fresco das parreiras,
detêm, dessedentando-as, caravanas
que vão ou vêm no alpestre Caramulo.

*

A anjo das flores liberal te arqueia
de bordada verdura as rescendentes
claras janelas.
Um bulício manso
de amigas vozes teu recinto alegra.
Na sua tépida choça os bois ruminam
ante o feno em montões; dorme no pátio
farto esquadrão lanígero; ao sol posto,
cão, dos lobos terror, te vela as noites;
teus galos as demarcam vigilantes.
Com a luz primeira arrulha-te alvejando
cípria nuvem plumosa; e apenas saiam
da destra mão mesquinha os grãos doirados,
em torno da gentil madrugadeira
de toda a parte os hóspedes revoam.
Bicam por entre as pombas à porfia
a galinha de filhos rodeada,
o manso grasnador do aquoso tanque,
o vaidoso peru, que ri cantando,
e vós, e vós, mais vivos do que todos,
não chamados, mas sempre a nós bem-vindos,
passarinhos do céu, turba sem dono.

*

Singelo presbitério, oh! como te amo,
com o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,

159

tão social à noite; a simples sala,
quase sempre deserta; a livraria,
deserta rara vez; estas alcovas,
que enche um só leito; e a adega, assobiada
do alvo sopro do Norte; e o fuso, e a pia
da cheirosa vindima; e o teu celeiro,
alto, arejado, e tão patente aos pobres,
como as portas do templo convizinho.

*

Floresças para o Céu e para a terra
nos inconstantes séculos! floresças,
feliz, com o feliz dono, idade longa!
E se, lá no futuro, algum amigo,
sócio dos dias bons, saudoso e triste,
torcendo a estrada, a te pedir viesse
nova do teu cantor, – «Amou-me, e amei-o –
lhe dirias mostrando-te; e – «Seus ossos –
juntaria o teu velho – aqui descansam.»

*

Sim; apraz-me cuidar que ainda os meus restos,
gratos aos bons deste recanto obscuro,
onde escapei no século de sangue,
cá ficarão neste ócio, ainda alguns dias
do simples montanhês talvez chorados.

*

Oh santa perseguida Liberdade,
onde te achei!... Onde não vivem homens;
num torrão bravo que não chama invejas.

160

*

Enquanto, ora que a noite o céu regela
húmida e turva, tantos ricos enchem
de bocejante enojo as assembleias,
e tantos, tantos míseros, sem lares,
sem consolo, sem pão, sem voz de amigo,
só réus de pátrio amor, dormem nas furnas,
pelas praias do Oceano, e pelas rochas
(sublimes troncos pelo pé cortados)...
tua clara fogueira nos aquece;
graças, graças a um Deus!
Assim vagava
sobre o universo undoso a arca do justo.

*

Nós, depois de anos três, ainda esperamos.
Ainda do trovão ecos retumbam.
Ainda os escarcéus assoladores
remugem lá por fora. Ainda a pomba
com o ramo de oliveira ainda não volve.

*

Oh santa perseguida Liberdade!
Oh! Se eu pudesse, a troco dos meus dias,
restituir-te à minha Pátria!
...

*

Basta.
Esperemos ainda. Oremos sempre;
e talvez que não tarde a grata aurora,

161

em que, a adejar da serra pelos píncaros,
venha de longe a núncia das venturas,
a pomba com o seu ramo de oliveira!
...

Castanheira do Vouga
Maio de 1831.

162

V

A LIRA DO DESTERRADO

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

Era a noite dos finados;
sombria noite de Outono.
Entre sinos acordados
lá jaz Roma entregue ao sono;
seus luzeiros apagados.

Do céu pelo roto manto
só brilham frouxas estrelas;
sai a custo o clarão santo
dos templos pelas janelas;
e Petrarca vela entanto.

Vela Petrarca, e suspira
no leito amoroso e ermo;
olhos na vela que expira;
saudades no peito enfermo;
nem glória sonha, nem lira.

Qual raio solto de lua
por móveis águas vibrada
num bosque inteiro flutua,
tal adeja no passado
a saudosa mente sua.

163

Quem dirá seus pensamentos?
a douta língua está muda.
Que paixões, que sentimentos,
no rosto, que aspectos muda,
vêem transluzir por momentos!

Ora é dor, ora é sorriso,
esperança, amor, transporte;
queixas, ternuras diviso;
desce aos abismos da morte,
voa aéreo ao Paraíso.

Não falar o Vate agora
com os lábios que move apenas!
Que torrente abrasadora!
que amor! que incendidas penas!
quão nova a paixão não fora!

Vaia noite adiantada;
húmido vento assobia;
treme a luz quase apagada.
Do grão Cantor que vigia
ferve a mente a sonhos dada.

– «Eis o templo conhecido
«que os meus destinos encerra.
«A mãe terna, o pai querido,
«cá mos tem no seio a terra.
«Cá vi Laura, e fui perdido...

Castanheira do Vouga
1830...(?)

164

Páginas 165 a 190

Índex