VI

EPÍSTOLA

(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)

A minha primavera enfim renasce.
Té neste horror selvático dos montes
roupas traja nupciais a Natureza.
O céu azul, o ar morno, as águas puras,
tudo nos diz «amor»; dizem-no as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho alegre; armento o muge;
na folha nova zéfiro o cicia;
a camponesa em meio de mil flores,
que lho exalam balsâmico, o suspira,
e ao viçoso tapiz, à sombra vasta
macia e tentadora lança os olhos.

Enquanto o rouxinol, Orfeu plumoso,
enleva a fonte e as árvores nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lições que mais de um ente ao longe estuda
(e pratica talvez); em sons de lira,
solitário eu também, lições de afectos
de cá te envio ao centro da cidade.

Nesse ruidoso vórtice de povo,
de vãos prazeres, de negócios fúteis,

165

a geral rotação te arrasta às cegas;
é dever da amizade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
pode não ver a tábua às vezes perto;
pode a praia ignorar, e tê-la em face.
Tábua amor te lançou da praia firme;
ledo e fausto Himeneu te está chamando.

166

VII

A ROMARIA

Lá vem Maio rosado. Já floreja
nas planícies, verdeja pelos montes;
é o mês de Amor, é o mês de Filomela.

Áureo amanhece o dia suspirado
da romaria anual; léguas em roda
já tudo é festa, esperança, e regozijo.
As povoações, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados bandos.
Lá retroa nos ecos aturdidos
a matinal girândola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem povos misturado
enche a vozeada selva, a acesa ermida,
e de ondeado matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triunfante bandeira alvi-cerúlea.
Vai e vem, ora chega, ora se alonga,
não está em nenhum sítio, e assoma em todos,
a alma da festa, a glória do Galego,
a aguda gaita túmida e franjada,
que ao rufado tambor sócia, repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.
Em vidrado alguidar reluzem na água

167

os doirados tremoços, que afadigam
com compradores a afrontada tia.
As navalhas e anéis, o apito, o espelho,
se assoalham mais além; na alva toalha,
alva e folhuda, estão chamando o êxul.
Em cima de seus carros triunfantes
os laureados tonéis, reis da alegria,
dão num fogo perene a vida a tudo

Aqui se ouve o descante ao desafio,
que a viola ora segue, ora acompanha.
Ali se apinham para ver as danças,
que a discorde rabeca entorta às vezes.
Lá, se entorna o licor em puros vidros;
ao pé se adoça a fresca limonada.

Aqui se cumprimentam; além chamam;
um se perde, outro se acha, outro convida.
Este corre; esta pára a ataviar-se,
por mostrar o cordão e o lenço novo.
Estirados na relva os velhos palram;
grita o rapaz. O amante, recostado
ao pau, por onde um braço lhe serpeia,
faz longa corte à tímida futura,
que em resposta de amor lhe dá tremoços.

Nisto, voa o foguete, e atroa as nuvens.
Lá sai a procissão; lá foram todos.
Ah! depois do jantar comido às sombras,
cada um levará, volvendo a casa,
gratas lembranças para o ano inteiro.

168

VIII

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHESES

ou

A MATA DE S. SEBASTIÃO

Versos na plantação de uns carvalhos junto à igreja de S. Mamede
da Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguesia
no Domingo do Carnaval de 183...

I

Neste dia, em que o povo tumultuando
nos casais, nas aldeias, nas cidades,
troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,
por copos, danças, máscaras e risos,
nas saturnais cristãs; quando se espraia,
desde o seio de Roma aos fins da terra,
de um prazer contagioso alta vertigem;
porque retreme ao golpe das enxadas
sob os meus pés a solitária encosta?

*

Saúde a vós, a vós louvor. Benvindos,
montanheses, fiéis aos priscos usos!
O cântaro do estilo aí está coroado,

169

risonho e prestes a inundar os copos;
o prémio à vista vos redobre as forças.

*

Rasgai com o duro ferro a terra dura;
de vossos pais a mata veneranda
em torno de seu santo antigo dono
se acrescente por vós Plantai, que é tempo,
no chão, sagrado de suor devoto,
ó presente anual, que o Céu prospere.

*

Onde quer que ele jaz, abençoemos
as cinzas do homem bom, lá dessas eras
que a pia usança introduziu primeiro.
Quanto a sua virtude era risonha!
– «Cada solteiro plantará neste ermo
«mais uma arvorezinha de ano em ano,
«que lá em cima encontrará seu prémio.»
Oh! estes rogos, sim, este pedido,
doce e desinteressado, unção respira;
manda mais do que as Leis; morrer não deve.

*

Produz, produz a miúdo, ó Natureza,
por teu bem, por bem nosso, homens como esse.
Haja quem diga ao jovem par, que às aras
sobe apenas amante, e desce esposo:
– «Hoje, que são já fruto esperanças de ontem,
«entrai sorrindo pelo chão da vida;
«plantai, plantai uma árvore que o lembre.»

170

*

Quando a cabana festival se enrama,
se enflora a mesa, e os aldeãos vizinhos
vêm festejar na casa um filho novo,
a mão paterna, de prazer tremendo,
orne de um novo tronco o prédio avito.

*

Depois de suspirada e curta ausência
volve um irmão das terras estrangeiras?
Convalesce um parente? Em bem se acaba
suado, volumoso, eterno pleito,
que empobreceu o avô, o filho, e o neto?
Fizestes o adversário amigo vosso?
Sorriu-vos a ventura? É farto o ano?
A serdes Reis, alçáreis monumentos;
que vale um monumento? O homem dos campos
melhores pode erguer a menos custo:
plante sobre o caminho árvores férteis.
Por ele o passageiro ardendo em calma
ache a sombra hospedeira que o recreie.
Por ele o pobre, que seu pão mendiga
de casal em casal, de monte em monte,
que não vê céu, nem lar onde se aqueça,
nem feno onde descanse, e em todo o mundo
só tem por património a caridade,
ache a fruta a pender em curvos ramos
a acenar-lhe, a oferecer-se-lhe, a sorrir-lhe.
Assim, do bem de um só germinariam
mil bens comuns; e do prazer de um homem
o público prazer, públicas bênçãos.

171

II

Se tendes de nascer nascei mui breve,
sensíveis corações a quem Deus guarda,
a glória de influir iguais costumes.
Desde já nossas lágrimas de afecto
correm por vós; ao seio do futuro
nós vos lançamos desde cá louvores.

III

Sentemo-nos, enquanto os vossos filhos
aqui se embebem na tarefa honrosa,
sentemo-nos à sombra, a vós bem grata,
do carvalhal que as vossas mãos plantaram,
homens das cãs, antigas testemunhas
dos tempos que não são.

*

Vós, deputados
das mortas gerações aos vivos de hoje
como pregões proféticos; tesoiro
de saudades, de dor, de experiência;
bons velhos, à vossa alma taciturna
aprazem mais que a festa os pensamentos.

*

Falai: donde vos nasce essa tristeza
profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?
Será de enfeitiçada simpatia
que nos atrai à terra, ao chão da vida,
chão sempre cobiçado e sempre ingrato?

172

*

O coração, zeloso da existência,
compara os dias seus do tronco aos dias,
e a conta desigual o oprime e o fecha.
Anos a nós, e séculos aos bosques!...
Planta o pai, mas a sombra hospeda os filhos;
netos, que não verá, gozarão dela;
e indiferentes incógnitos vindoiros
rirão contentes ao folhudo abrigo.

*

Mas, velhos, mui ditoso o que em seu prédio
dispõe árvore fértil de esperanças,
que irá legada aos filhos de seus filhos.
Profecias de amor lhe expande o seio.
sorri, e ama o que é seu, na esperança ao menos.
Mas feliz igualmente o que em seu prédio
possui vaidoso um tronco hereditário.

*

Na rega, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
como há-de não pensar em seus maiores?
Um lho plantou, os outros lhe trataram:
conto há-de recusar-lhe uma saudade,
um suspiro, um sufrágio, um elogio?
A gratidão medita à mesma sombra
onde já meditara o amor paterno.
Esta árvore mortal é o santo marco,
em que se juntam, se entrelaçam, crescem,
dos idos o interesse e o dos vindoiros;
nó de afeição, que os séculos reúne.

173

*

Vedes vós essa mãe, que há tantos anos
chora um filho além-mar, em longes terras?
Mostrai-lhe um passageiro a dar à vela
para o porto feliz; com que ternura
lhe não dará, chorando, um longo abraço,
que leve, que lho entregue, ao seu querido,

e todo o amor de mãe lhe exprima nele! ...
E com quanto alvoroço o desterrado
não cingirá o amável mensageiro! ...
Eis o emblema da árvore, cruzando
viva e lembrada o Oceano das idades,
mensageira de interesse aos pais e aos filhos.

IV

Qual de vós, repousando nesta cama
de folhas mortas, qual de vós, no meio
desses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espírito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, fantasiando
de lhe restituir quanto houve deles:
uma vida, uma choça, herdade e pátria.
Deslembram cãs; rugosas faces riem;
reviveis num minuto anos de infância
sob a afeição de um pai, de um pai nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
Pudesse neste ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,

174

deter-se a recordar, ficar pregado!
Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extinta geração recai nas campas.

*

Mas quê? desses antigos plantadores
nada mais resta além de uns troncos mudos
neste universo movediço e instável?
nem uma só lembrança, um dito, um nome?
Tudo passou sem mínimo vestígio,
como os sons leves de um descante ao longe.

V

Bons aldeões, estas sombras regaladas
vos falam nos avós; porém comigo,
comigo, estranho, e novo em meio delas,
conversam no áureo tempo a que assistiram;
recordam-me as idades do Universo,
e os vários povos, e os países vários,
contemporâneos do nascente mundo.

*

Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abóbadas imensas
as velhas tradições no-los descrevem
pobres e alegres, nus e satisfeitos,
saboreando em ócio a glande e a fonte,

175

dormindo sobre afolha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.

*

A pouco e pouco o número crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza.
Infecta o vício à terra; os céus se mudam;
a um Maio eterno as estações sucedem;
o ar se gela e acende, alaga e silva;
já bravejam leões, já bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.

*

Vós, troncos, até ali seus companheiros,
acudis a servi-lo; e em quantos modos!
lá, crepitais em rútila fogueira;
aqui, das feras proibis a entrada;
dais uma clava ao caçador valente;
na serviçal cortiça um berço aos filhos;
leitos a amor, assentos à velhice,
aos enxames um lar, um copo às festas.

*

Das precisões ao grito, o engenho acorda;
lá surgem povoações, currais, tugúrios,
e uma capela às rústicas deidades.
Lá rompe o novo arado a terra dura;
lá geme, a transportar enormes pesos,
o carro, e sulca atónitos caminhos.
O génio excita o génio; o exemplo, o exemplo;
a rudeza se pule; as artes crescem;
a espécie racional das mais triunfa.

176

*

As gerações do céu, do mar, da terra,
tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; afoita quilha o rasga.

*

Então foi, que estas árvores, tão úteis
no pátrio continente, abriram voo
sobre o líquido abismo a novos climas.

*

E em que parte do globo, árvore excelsa,
te podes presentar, que não recordes
uma façanha, um culto, um grão sucesso?

*

Na Grécia? Mas o Grego ainda hoje conta
que foste invicta clava em mão de Alcides;
vê-te, suspira, bate o chão raivando
de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças.
Na Grécia? Mas o Grego ainda hoje conta
do arvoredo Dodónio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.

*

Na Ausónia? Mas Cibele amou teus ramos;
Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Império.
Em Roma? E a coroa cívica?

177

Nos campos?
E Filémon, o justo, o caro aos deuses?

*

Nas Gálias? em seus bárbaros oiteiros
tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.

*

Na Caledónia, em Morven, junto aos lagos,
sobre os cumes, à beira das torrentes?
Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na véspera do sangue
em nocturno festim que alumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heróis do antigo tempo.

*

Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os príncipes e os velhos,
os juizes, as tribos, apinhar-se
em torno ao tabernáculo de Cila.
Por cima deste mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silêncio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josué, braço do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira;
os favores do Céu recorda ao povo;
renasce a Fé; os ídolos se arrasam;
– «Glória ao Deus de Israel! – vozeia a turba -

178

«ao Deus dos nossos pais, dos nossos neto!
– «Erga-se um monumento, – exclama o chefe -
«que, se infiéis um dia os esquecerdes,
«vos envergonhe, e acorde os votos de hoje»
E a monumento põe no lugar santo
enorme pedra à sombra de um carvalho,
que abrigava com a copa o santuário. (1)
Despede o Povo, e em paz contente expira;
em paz, que já não vê perjúrios novos.

*

Escrava de Madian a plebe expia,
na miséria e no opróbrio, os males torpes
que fez ante o Senhor. Mas ainda existe
um justo, a quem Deus fie o libertá-la:
é Gedeão, é o Josué segundo. (2)
Este, enquanto seu pai lança aos caminhos
medroso olhar à espera do inimigo
para fugir com ele, ajunta à pressa
o trigo que limpou.
Vê de repente
um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho é testemunha
da beleza do alado mensageiro,
da voz de salvação mandada ao Povo,
e do holocausto aceito e posto em cinzas,
e do altar, a quem Paz foi dada em nome.

(1) Josué – cap. XXIV
(2) Juizes – cap. VI.

 

*

E este que tão frondoso opaca os vales,
porque o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
fazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o céu voltados
pelo rosto amarelo lhes escorre
grosso pranto, que alaga as feridas frescas.
Choram Saul, e a régia descendência,
que mortos no combate aqui descansam.
Para o Monarca agigantado e invicto
nenhuma estátua se erguerá na campa.
Sua coluna e fúnebre palácio
preparou-lhos com tempo a Natureza:
o tronco, rei da selva, o está cobrindo.

*

Mas quanto é mais tocante o que se eleva
nas faldas solitárias da montanha!
Ali Débora jaz; ali Rebeca
chora na morte a que a nutriu na infância,
ama no coração, mãe nos extremos,
de seus primeiros e últimos segredos
confidente fiel no lar paterno,
querida sócia na feliz viagem
e no lar conjugal seu doce alívio.
Árvore a tanto afecto consagrada
na afectuosa Bíblia irá sem nome?
o carvalho das lágrimas lhe chamam.

180

VI

Que uso tão doce aos corações piedosos!
Reverdecei, costumes do bom tempo,
quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
tinham sob um céu livre a sepultura.
A Morte, menos bárbara do que hoje,
com avarenta mão não ferrolhava
sob um tecto pesado, entre altos muros,
as presas, cá de fora em vão pedidas.
Não era um templo um cárcere de mortos
Dormiam molemente em terra franca,
em jardins frescos, em copadas selvas.
Esta esperança adoçava um pouco o amargo
do último trago aos lábios moribundos.
Este bem, tão pequeno em mal tão grande,
quanto valor não tinha aos que ficavam!
O irmão, o pai, o filho, o amigo, o esposo,
podiam livremente, a toda a hora,
ir regar de seu pranto amadas cinzas,
fartar saudades, inflamar lembranças,
delirar doce a noite, e o dia inteiro,
e de prazer a um peito onde palpitam
superstições de amor ou de amizade,
dizer:
«Este tapiz relvoso o cobre;
«esta ave lhe gorgeia; esta aura solta
« o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
« a primavera mo visita, e espalha
«também por cima dele o seu regaço;
«esta violeta é sua, hei-de colhê-la;
«desta árvore a raiz sente-lhe a fronte,
«nutre-se do seu pó, vive por ele,
«é ele mesmo em parte; árvore amiga,

181

«recebe o nome caro, hoje sem dono,
«toma os abraços que não posso dar-lhe.»

*

Sim, sim, convém um bosque às sepulturas.
A árvore, Deus a fez como passagem
do mundo que respira ao mundo inerte;
comum com os animais, comum com a terra,
vive e não sente; habita e ignora o mundo,
simpatiza com a morte e com a existência,
é grata às cinzas, à saúde é grata.

*

Que férreos somos nós, que a um como vago
atiramos sem dó perdidos, mistos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguém da voraz Sila aos sorvedoiros
arrojasse o que os séculos pouparam,
bronzes, escritos, mármores romanos,
ou, derrotando pórticos, colunas,
teatros, coliseus, palácios, templos,
em serra inútil amontoasse as pedras,
quem não vertera em lágrimas o sangue?
E ante a nossa afeição têm menos peso
que as ruínas de Roma as que são nossas?! ...
Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectáculos, jogos, áureas festas,
jardins, parques! ... e aos míseros que gemem,
e aos peitos melancólicos, viúvos,
há-de negar-se um canto onde pranteiem!?...
De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
nem um torrão perdido, e uns troncos nulos?...

182

*

Quando virá um dia, em que estes bosques,
semeados de túmulos não altos,
de lúgubres saudades se povoem?
Então, a própria Morte, hoje tão seca,
terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o pó, e cultos o ermo.

*

Pelas noites mui plácidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
belo será, sentado neste sítio,
ver vir, daqui, dali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmãs rezam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho atento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na falecida esposa.
O filho aos pés da mãe com os mais soluça
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos anos.
Por toda a parte, as lágrimas e afectos,
memórias doces, orações e esperanças.

*

E a quem não conviria igual retiro?
Nele a tristeza encontraria um pasto;
a ciência, reflexões; o vício, escolhos;

183

a leviandade, assento; a desventura,
consolação; o amor, silêncio e pranto.
Ensaiara-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar unção para a verdade;
o orador, persuasões, ternura, encantos.

*

Ó filhos da montanha, oh! libertai-vos
de um preconceito vão; é toda a terra
a terra do Senhor; afora o vício,
debaixo deste céu nada é profano.
A bênção do Pastor consagraria
vosso asilo feliz; e a Cruz em meio
todo de um santo influxo enchera o bosque.

VII

Mas, enquanto esse dias vos não raiam,
bons velhos, vigiai que, de ano em ano,
aos juvenis futuros plantadores,
em vez de se afrouxar, se inflame o zelo.
Cresça com seu favor por estas serras
a geração dos vegetais gigantes.
Com todos vós conversam todos eles
sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
são parentes de todas as aldeias,
e o brasão da montanha é o vosso parque.
Sobre tudo influí que a vossa raça
trema ao só nome do brutal machado
que ouse violar a veneranda herança.
O que só Deus medrou, só Deus derribe.

184

*

Crede-me (eu já vi outras) vossa terra
é descrida, enteada à Natureza.
Cumpre a vós adoçar-lhe o aspecto agreste,
amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
estas ilhas, virentes, graciosas,
que espalhem primavera pelos montes,
que atraiam as volantes caravanas
do rouxinol, da rola, e da andorinha.

VIII

Lá em baixo a casa humilde que branqueja,
entre os alegres plátanos e o templo,
quase que pasma, e se entristece e encolhe,
de ver em torno a solidão tão vasta.
como que está pedindo... ao menos bosques;
não tem outros jardins, outros passeios,
que ofereça a seu dono, o Pastor vosso.
Preparai desde já para o futuro
sombras novas aos novos sucessores,
e refrigério estivo às cãs do velho.
Casai com o vosso interesse o interesse alheio.
Mil vezes sua voz reconhecida
rogará paz ditosa aos vossos netos,
quando, serena a mente, e solta a vista
lá forem divagar, ora embebidos
nos salmos, nos poéticos arrojos,
ora admirando o Autor e o Nó dos mundos,
no largo azul dos céus, no alto dos troncos
e no zumbir e no voar do insecto.

185

*

Surgi! surgi! Lá jazem as enxadas.
Velhos, surgi! Lá voltam triunfantes,
findo o novo trabalho, os vossos filhos.
Agora espumem copos, soem risos,
exulte a dança, alonguem-se os cantores.
Conquistastes o inculto à Natureza:
forçaste-a a sorrir, a ornar-se em festas.
Toda a vasta planície, ontem tão erma,
que povoada vai já! como promete
lembrar ao vosso gado, às vossas filhas!

UM VELHO

Sim, dará sombra e vai povoado o vale:
mas fosse eu rico, e lhe dobrara encantos.

SEGUNDO VELHO

E como, irmão?

O PRIMEIRO

No alto deste oiteiro,
donde se avista o mar, o céu, a terra,
poria uma capela, e um São Mamede
com o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
nas mãos o cajadito, o alforge ao lado,
e o seu rafeiro ao pé todo soberbo

186

com a coleira escarlate, e todo amigo
a lamber o seu Santo. É bom que os altos
se coroem de capelas, que levantem
o pensamento aos Céus, no campo espalhem
devoção e piedade, e aos peregrinos
ensinem o caminho e a vista alegrem.

UM PASTOR

Sim, com o santo pastor de guarda aos bosques,
que haviam de temer, nem cães nem gado?
Nos degraus da capela, à sombra inquieta,
longas sestas sonháramos de amores.

TERCEIRO VELHO

Já lá vão o bom tempo e os bons costumes;
foi-se a abundância e os corações piedosos.
Esses fundavam templos, como o nosso,
num árido deserto; e hoje... se estala
no campanário um sino, em ócio eterno
fica mudo a pender dos braços podres.

IX

Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
não a Mamede, não ao pastor mártir,
mas à contrita amável Pecadora.
Não valem mais as lágrimas que o sangue?
Mais que heróico valor não nos comove

187

doce humildade e penitência longa?
E de mais: se às aspérrimas proezas
vos não destina o Céu, todos nascestes,
cativos frágeis de amorosas culpas.
Muita virgem no monte solitário
tentada pelo amor e pelo amante,
só com ver a capela há-de livrar-se,
e pela salva flor dar-lhe-á mil flores.
E quando aqui errantes missionários
vierem dar, e à sombra dos carvalhos,
as turbas apinhadas instruírem,
que persuasões, que lágrimas, que exemplos
hão-de tirar da veneranda Imagem!
...

*

Qual me ri já na mente o grão projecto!
Eu serei pois o fundador de um culto
que aos frutos da moral reúna flores.
Sim; quem tolhe o prazer puro e inocente?
....................................................................

X

Partiram. E eis-me só. Todos partiram.
O alvoroço do entrudo os chama aos lares.
Oh! Bendita a ignorância destas serras!
O rústico ainda ri na Pátria em luto,
e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
Bem sabe ele que lágrimas aos mares
deste horizonte em roda estão correndo!
Sabe ele que o atro dia é menos atro?
A paz, a confiança, as alegrias,

188

a abundância, a união de antigos Lusos,
não deixaram, fugindo, um só vestígio.
No vaivém das facções, que se entrevencem,
tudo se perde e esquece, afora a raiva.
Os bons usos, as festas populares,
a romaria alegre, as pátrias danças,
vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
a pastora, esquecendo os seus amores,
canta a questão dos Reis, o hino da guerra,
sons novos, que o seu gado e o eco estranham.

*

Ó Pátria, bela Itália do Ocidente,
tu que igual a Parthénope repousas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruído de águas límpidas, no abrir
de um céu inspirador tão próprio ao génio,
ó bela Itália do Ocidente, ó Pátria,
era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?...
A guerra, sim, te coroou com as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus pés tesoiros, ceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das ciências, no chão dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
espontâneos no teu medraram nunca?...
Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
Que impérios têm caído! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar à eternidade!!...
Talvez bem perto os séculos se cheguem,

189

que hão-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiferente apascentar-se
sobre os teus tribunais, teatros, praças.

*

Vê-te o sol com prazer; deixa-te a custo,
Lusitânia, que à borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graça.
Deusa, e imortal, te creram; mas tu jazes
entre trofeus em pó, lavada em sangue.
Desonrada Cleópatra, ainda és bela,
mas já nas veias te circula a morte.
Ai de quem nutre as áspides no seio!
...

*

Ó Pátria, ó Pátria, com que voz tão baixa,
com que pejo te exprobro! Ah! se puderes,
perdoa meu furor, vê só meu pranto,
ó Pátria, ó mãe, ó mísera querida!
...

*

Que ouvi? longínquo estrondo! que seria?
Som de espingardas!
... Sim, talvez... são homens
que nos matam irmãos... Alerta!
... oiçamos...

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