IX

O SÃO JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO

Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pátio da
residência paroquial da Castanheira do Vouga

(FRAGMENTO)

..................................................................
Se, de teus anos na madura força,
a mão que te ora planta ainda for viva,
essa mesma, já trémula e caduca,
no tronco te abrirá, com pio esforço,
graciosa capelinha, onde sorria
um São João, o Santo alegre do ermo,
trajo de peles, juvenil frescura,
olhos nos Céus, aos pés cordeiro branco.

*

Nessa noite poética e devota,
em que o prazer, centuplicando aspectos,
povoa, anima, encanta o mundo inteiro,
água e terra, ar e céu, tudo é macio,
em que a velhice, a mocidade, a infância,
simpatizam no vago da alegria;
quando na alma insaciável de delícias
se juntam, com mistura inexplicável,
ao saudoso passado, aos bens presentes,

191

as mil visões do esplêndido futuro;
quando em laço fantástico se agregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gozos, superstições, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mão das feiticeiras;
nessa noite, das noites invejada,
a ti concorrerão por toda a parte,
até das aldeias do horizonte extremo,
dançantes bandos que a viola guia.

*

Verás girar seus bailes clamorosos
em redor das estrídulas fogueiras;
ouvirás os seus cânticos em coro
devoto e enamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e solapada estoira;
o busca-pé no ar caracolando
morde num, morde noutro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vórtice perene
a roda leve espadanando incêndios,
chovendo oiro luzente e estrelas alvas;
aqui floreia o fúlgido valverde,
vesuviozinho que arremete às nuvens;
arranca o voo e vai rugindo aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.

*

E a música entretanto! e as doces falas!
e os protestos de amor! e a prece oculta!

192

e essa mão dada a furto e a furto aceite!
e esse olhar falador! e essas virtudes
da meia-noite em ponto! e a flor crestada!
e as sortes que a fortuna extrai às vezes,
e muitas mais a próvida malícia!
e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festões verdes e entrançadas flores!
Que noites, que alegrias, que triunfos,
te aguardam no porvir, me estão na mente! (1)
.....................................................................

(1) Foi este fragmento publicado na Revista Universal Lisbonense de 19 de Junho de 1845 – Tomo IV, pág. 582.

OS EDITORES.

193

X


O MOSTEIRO

Vós, que sois do amável sexo
ardentes adoradores,
que girais de bela em bela,
qual leve abelha entre as flores,

que sabeis num só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
não poder-vos saciar,

mancebos, o mundo é vosso;
mil belas o mundo tem;
mas não choreis as que à sombra
repousar das aras vêm.

Se um jardim, florido, imenso,
encontrais na sociedade,
que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da piedade?

poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de estranha mão.

195

Vagai, vagai livremente
nos jardins da Idália Vénus;
segui as Ninfas e as Graças
pelos seus bosques amenos;

os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno voem;
a mocidade vos ria;
espessas rosas vos coroem;

que falta aos desejos vossos?
ah! sofrei, sem murmurar,
ver dentre os vergéis floridos
poucas pombas desertar,

poucas pombas, que inocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitários
buscar um fado melhor.

Do Líbano opacos cedros,
de Sião bosque tranquilo,
vós, palmeiras de Idumeia,
prestai-lhes seguro asilo.

Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes à sombra vivam
dos sagrados arvoredos.

Silêncio, paz, e ternura,
alva estrela de inocência,
e a vista de um céu risonho,
lhes doirem toda a existência.

196

Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.

Eu vos lamento e vos choro,
insensíveis corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vedes senão prisões.

Corai da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Éden recatado ao mundo
no seio deste deserto.

Modestas virgens o habitam,
que só não têm liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.

Segui-me, segui-me afoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros daqui contemplo.

Não vedes sobre os altares
com graça agrupadas flores
lançar torrentes de aromas,
brilhar com as mais vivas cores?

Nesses prados invisíveis
também pois se eleva a aurora;
sol, e zéfiros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.

197

Essas pois, que vós julgáveis
desgraçadas prisioneiras,
têm prazeres, têm delícias,
têm jardins, são jardineiras.

Vede ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.

Vede a grinalda florida;
vede o ramo; estes jasmins,
estes lírios, estas rosas,
não são já de seus jardins.

Não devem sua existência
nem à terra nem ao Céu,
e nem zéfiros nem fontes
serviram no aumento seu.

Formou-as arte engenhosa;
pôde mais que a Natureza;
deu mais vida às suas flores;
prestou-lhes igual beleza.

Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodígios tais?
eis o trabalho e os recreios
dessas piedosas Vestais.

Elas no coro aparecem;
e, ao som dos órgãos divinos,
de sua alma aos Céus se elevam
devotos brilhantes hinos.

198

Inocentes e macias,
destas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde na alma ternura.

Em seus cânticos não reina
terreno vulgar afecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o objecto.

O pensamento que as ouve,
sai da térrea habitação,
deixa os ares, das esferas
atravessa o turbilhão,

vê do Empíreo as portas de oiro
abertas à humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.

Cessa a música, e de novo
volve a mente ao pátrio mundo;
mas dos virgíneos desertos
primeiro se arroja ao fundo.

Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquilas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.

Na sombra daqueles bosques,
naqueles moles passeios,
também pois das Musas entram
os aprazíveis recreios.

199

Olhai por fim seus aspectos,
Não vedes vós a bondade,
a alegria da inocência,
as virtudes da piedade?

Eis os Génios que lhes tornam
encantadora a existência:
as virtudes da piedade,
os prazeres da inocência.

A amizade entre elas reina;
os encantos da amizade
não prestarão, por ventura,
delícias à soledade?

Mas basta, insensatos, basta;
à cena se corra o véu;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do Céu.

Ide no mundo esquecê-las,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.

Mas esperai; respondei-me;
consultai vosso interior:
sois ditosos com os sorrisos
de um falso inconstante amor?

Sabeis vós o que amor seja?
Satisfaz-se o coração
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitação?

200

Não virá talvez um dia,
em que, mais sábios, queirais
unir os vossos destinos
à melhor dentre as mortais?

Como a haveis de achar no mundo
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos anos?

Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que não tendes, não existe.

Então aqui vos espero,
nestes quietos retiros.
Estes muros que insultáveis,
ouvirão vossos suspiros.

Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
à sombra da solidão,

vireis procurar o objecto,
cuja ternura inocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.

Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Himeneu,
onde um Génio, amigo vosso,
vosso tesoiro escondeu.

201

 

Pensai, pensai que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graças aquela que há-de
doirar os vossos momentos.

Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu próprio clima,
em seu próprio céu, devia,

mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos lugares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,

se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos iguais no meio;

ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
goza o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;

de estranhos somente é visto;
tem louvor; é cobiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não é jamais despojado.

Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, à luz da verdade,
queimar a máscara d’oiro
às larvas da sociedade!

202

Medrai; sagrados mosteiros;
medrai, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calúnia que em vão troveja.

Brilhai, como ilhas floridas,
no meio do mar profundo
de vícios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.

Sede o asilo das virtudes,
do Éden a própria entrada,
o enlace dos Céus com a terra,
do Empíreo, a sublime escada.

Coimbra – 1826 (?)

203

XI

SANTA MARIA EGÍPCIA

(Fragmento de um poema)

......................................................................
Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitária a Egípcia. Rios descem
de olhos lindos, que os céus fitar não ousam.

*

Tão nova, e isenta? Oh! não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
mas os novos, os últimos, protesta
conservá-los em vida, e em morte havê-los.

*

Até aqui, pela alma escura só lhe ardiam
relâmpagos dispersos; derretido
raio dos Céus lhe côa pelas veias.

*

Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os sóis vivos, os ventos importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas

205

cativas da beleza iam murchá-la.
Imprevisto invisível jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.

*

No mundo, sobre o abismo, ontem folgava
impróvida e leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Céu que a espera.
As cidades, em que ídolo brilhara,
ainda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro que a houveram, quantos lustros
lhe volveram saudade!

*

Em viço de anos,
e mais bela que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhã de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danças;
os banquetes, difusos pela noite,
já não vêm despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bela,
discorde jaz, e mudo...

Ela, entretanto,
com os mimosos pés nus calcando areias,
desornado o cabelo, envolta em peles,

206

tímida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Céu com a fronte baixa.
Mil vezes à avezinha se compara,
sem família, sem lar; corre erradia;
não há-de ambas manter a paz que é de ambas?
Beija a caverna frígida que a hospeda,
e agradecendo este hórrido paraíso
ao Deus que lho depara, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.

*

Ai coração tão amplo, onde estuava
mar de afectos sem conto, escoado agora,
quem o há-de encher? em solidão tão funda!
quem o há-de encher? Já o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquilões, anima os troncos.

*

Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
Este seio, estas tranças desatadas,
são brinco só do vento do deserto.
Esta mão, tão mimosa e tão querida,
só procura, escavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar água aos lábios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de joelhos.
Não há um sol, não há na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos exercícios.
Treme a gazela, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira não treme; ora, e descansa.

207

*

Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol já mal doiravam
da longínqua palmeira o incerto cume,
que vezes, assentada, e sustentando
na ebúrnea mão o pálido semblante,
atrás do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!

*

– «Além – dizia – além, nesse Ocidente,
«corre o santo Jordão delícias minhas,
«que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
«Talvez aquela névoa que lá brilha,
«mudada em rosa, em púrpuras, em oiro,
«seja da santa veia alegre filha,
«Além... Jerusalém, Sião, Judeia...»

*

E a tais nomes, enxames de memórias,
de saudades, de afectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas ainda às vezes lhe assomavam
no involuntário sono ideias meigas.
Ainda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue. (1)

e após ele os passeios namorados,

(1) Tanque em que repousa o líquido escorrido dos bagaços de azeitona, nos lagares de azeite.

208

os teatros esplêndidos, as galas,
as mesas rindo, os bailes desenvoltos;
e as vitórias, e as chusmas dos prazeres,
como à sua rainha vão saudá-la.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando-se à terra, e solta em choros,
pagava erros não seus com dor bem sua.

*

Tais se lhe vão no ermo deslizando
dias e anos, sem ver na areia impressos
mais vestígios que os seus.

*

De tempo em tempo,
só vê talvez, ou ver presume ao longe,
do horizonte nas sombras pavorosas,
o ténue pó da imensa caravana,
que vai de Alepo à Meca em certa estrada.
Por ela ora, e entre o orar lamenta
a devota fanática impiedade.

*

Tal vai manando a límpida existência.
Igual ao ramalhete que desmaia,
e se esfolha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai com o tempo a bela Egípcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe na alma; em cãs e em rugas
se esconde um coração de amor não farto.

209

*

Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto dali, vai dar com os restos,
saudosos restos, da gentil Palmira.
Uma e outra já glória do Universo;
agora mudas, sós, e deslembradas,
e sócias no deserto, e iguais no exemplo.

*

Meio século a viu prantear sozinha
anos ligeiros da fugaz infância.
Ao fim da grã carreira, o Céu lhe envia
o solitário Zósimo, como ela
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oiça a longa vida, a anime, e esforce;
lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.

*

Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Céus,
– «Trareis, – lhe disse –
«à pobre pecadora o manjar de Anjos?»
– «Sim.»
E partiu.
Com vista prolongada
ela o segue; com os olhos no deserto
o espera todo o dia; e este é tão longo!...
tarda tanto o bom hóspede! ...

210

*

Passou-se
um ano inteiro. É ele agora; é ele;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cãs, e a calva, e as faces penitentes...

*

Chega; clama; a caverna não responde;
grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:

Bom Zósimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te foste.
Encomenda-me a Deus, e Deus to pague.

211

Páginas 213 a 221

XII - Epístola

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