XII

EPÍSTOLA

Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venâncio Deslandes

(NO DIA DOS MEUS ANOS)

FRAGMENTO

Em torno ao teu amigo estão fervendo,
Deslandes meu, na hora em que te escreve,
de uma festa caseira o rebuliço.

*

Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frígido suão de lá nos venha,
ninguém hoje de frio aqui se queixa.
Não descansa nem pé, nem mão, nem língua;
o sumptuoso lar arde em três fogos;
o forno se afogueia; a branca mesa
vai-se de loiça e vidros alegrando.

*

Uma estuda em compor as sobremesas;
outra enrama de loiro alta ferrugem
das vigas da cozinha; esta, sisuda,
de riscado avental e nus os braços,

213

com importância e afã revira espetos;
aquela, anda cismática, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mês agreste,
que além de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano, além de rosas,
frágeis, sem cheiro, e lânguidas, não cria
com que se enflore a mesa dos meus anos.

*

Porque é, quando a sorrir divagam todos,
quando só para mim se andam tecendo
estas pompas domésticas, agora
que a potente amizade em meu obséquio
para tudo fazer até fez estros;
agora, enfim, que aos raios da alegria
não há um coração que se não abra...
por que se fecha o meu? Dará (não creio)
da Natureza o luto um certo assombro
às festas do homem? Pensas que enfartado
desta pátria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo azeda?...

26 de Janeiro
de 1833.

FIM DO PRESBITÉRIO DA MONTANHA

214

NOTAS DOS EDITORES

AO VOLUME 1 DO

PRESBITÉRIO DA MONTANHA

Da vila da Castanheira – No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de Esgueira, 1 légua da vila de Águeda, e 11 da cidade do Porto para o sul, em lugar alto, tem seu assento a vila da Castanheira, que chamam da Beira, a qual é também dos Condes da Feira, e nela entra em correição o seu Ouvidor. Consta de 160 vizinhos, com uma igreja paroquial da invocação de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que rende 600$000 réis, e três ermidas. O seu termo tem uma freguesia dedicada a Santa Maria Madalena, no lugar de Agadão, que consta de 100 vizinhos. É curado anexo à igreja de S. Mamede, que apresenta o seu Prior. Tem este lugar muitas fontes de delgadas e salutíferas águas, que fertilizam seus campos de pão e vinho, e os fazem abundantes de todo o género de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinários, Vereadores, um Procurador do Concelho, Escrivão da Câmara, Juiz dos órfãos com seu Escrivão, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenança.

(Corografia portuguesa) pelo Padre António Carvalho da Costa.
– I. II, pág. 176 – 1708.)

Castanheira do Vouga – Vila na província da Beira Baixa, Bispado de Coimbra, Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado; tem 803 vizinhos. Está situada em monte junto da serra do Caramulo. É seu orago S. Mamede. Tem quatro altares; e o maior é do orago; os

215

outros são do Santíssimo, de Nossa Senhora da Expectação, com sua irmandade, e outro de S. Jorge. O Pároco é Prior, apresentação da casa do Infantado; tem de renda 400$000 reis. Tem três ermidas, que são: a do Espírito Santo, a de Nossa Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastião. Os frutos desta terra são milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta vila um Juiz ordinário, e a Câmara. Passam por esta freguesia os rios Aguedão, Alfusqueiro, e Águeda.

(Dicionário geográfico pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.)

Castanheira do Vouga – Freguesia do Bispado de Coimbra; tem por Orago S. Mamede; o Pároco é Prior da apresentação da Casa do Infantado; rende 480$000 réis; dista de Lisboa 40 léguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos.

Agadão – Freguesia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria Madalena; o Pároco é Cura da apresentação do Prior da Castanheira; rende 40$000 réis; dista de Lisboa 40 léguas, e de Coimbra 6; tem 102 moradores.

(Portugal sacro-profano – por Paulo Dias de Niza; criptónimo do Padre Luiz Cardoso – Lisboa – 1767 – 8.° – 2 vol.)

Castanheira do Vouga – Vila, Douro, Comarca de Águeda, Concelho do Vouga, 40 quilómetros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140 fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Distrito Administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado. Situada num monte próximo à serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha 400$000 réis. É fértil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era cabeça do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinário, Câmara, Escrivães, e mais Justiças. Passam pela freguesia os rios Águeda, Aguedão, e Alfusqueiro.

(Portugal antigo e moderno – por Augusto Soares de Azevedo
Barbosa de Pinho Leal – Lisboa, 1874).

216

Pág. 11 lin. última

Dapibus mensas oneramus inemptis

Oneramos as mesas com iguarias não compradas; isto é, vivemos, sem comprar, das nossas lavras próprias.

Citação de Virgílio (Geórgicas, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto é:


.............................................. Seraque revertens
nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis.

Isso faz parte de uma historieta que Virgílio conta, e que vamos ouvir na tradução de Castilho:

.......................... Lembra-me que outrora,
lá por onde o Galeso arrasta a veia escura
por entre loiros chãos de cereal cultura,
junto à Ebália cidade, a de torreados muros,
conheci um corício em anos já maduros,
dono de uma chãzinha ali desamparada.
O pobre do torrão de si não dava nada:
nem pasto para bois, nem para um fato ervinha.
Somítico de pães, escasso para vinha,
era um sarçal fechado; e no sarçal, contudo,
o bom velho, a poder de diligência e estudo,
tinha hortaliça rara, e emoldurada em torno
com sebe de jardim para maior adorno,
alvos lírios, verbena, e papoilas de prato.
Não trocara com os Reis seu parco haver tão grato.
Recolhia ao casal já noite; e, que riqueza
de iguarias de graça a assoberbar-lhe a mesa!

Pág. 18 lin. 3

Passamos numa bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o viçoso rio de Bolfiar.

217

Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826, para hoje. O caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeiçoamentos modernos, deram cabo da antiga viagem tão pitoresca.

Pág. 36 lin. 20

Uma espécie de zimbório de doze palmos de altura.

Deve ser talvez alguma pirâmide geodésica ali levantada pelos que primeiro se dedicaram ao estudo da triangulação do Reino.

Pág. 37 lin. 3

Uma desconforme loisa inteiriça horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra.

Estes antiquíssimos monumentos megalíticos ainda se encontram em muitas partes das Espanhas, e acham-se estudados à luz da ciência moderna.

Pág. 42 lin. 6

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admirável pureza e lucidez.

O português que naquela serra se falava, e fala, influiu em Castilho o seu constante amor à vernaculidade. Veja-se nas Escavações poéticas o que ele diz do velho camponês Francisco Gomes, criado da casa, e «um dos mais chapados clássicos» que ele jamais encontrou.

Pág. 58 lin. 7

Lia, Raquel e Rebeca

Lia era filha primogénita de Labão, e irmã de Raquel. Achando-se Raquel ajustada para casar com Jacob, teve Labão astúcia de lhe substituir Lia, apesar de menos formosa. Foi mãe de Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issachar, Zabulão, e Dina.

Raquel, irmã de Lia, também foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve José, e mais Benjamim, de cujo parto faleceu. Parece que ainda se conserva e mostra o seu túmulo.

218

Rebeca, filha de Batuel, casou aos dezoito anos com Isaac, filho de Abraão, e teve por filhos Esaú e Jacob.
Todas estas figuras bíblicas, vivas 17 séculos antes da era cristã, são encantadoras de singeleza e graça nas descrições que delas nos deixaram os Livros santos.

Pág. 72 lin. 15

Uma pobre mocinha ovelheira

Mais de uma vez se recordou Castilho desta pastora, cujo nome era Antónia. Veja-se o lindíssimo retrato que pintou dela o nosso Poeta na sua Chave do enigma.

Pág. 80, lin. 9

Filinto e o Entrudo

Com o seu espírito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco Manuel do Nascimento, com muita saudade, do Entrudo brutal da velha Lisboa.

Viva o meu Portugal! viva a laranja
que derruba o chapéu!

exclamava ele em Paris, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos Portugueses, felizmente meio polidas já hoje.

Pág. 82 lin. 6 e 8

Citações latinas

Essas duas são de Virgílio (Eneida, Livro 1)

Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus.

Isto é: defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e lá dentro correm águas doces, e aparecem assentos como que talhados na rocha viva; verdadeira habitação de ninfas.

219

Pág. 87 lin. 21

As rogações de Maio

Foram instituídas por S. Mamerto, Bispo de Viena, no Delfinado, falecido no ano 475.

Pág. 99 lin. 23

O ubi campi!

Recordação de palavras de Virgílio no Livro II das Geórgicas:

Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaenis
Taygeta!
......

Sejam minhas delícias os campos, e os ribeiros a deslizar nos vales; encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. Onde estais, campinas? onde estás, rio Spérquio, e tu, monte Taigueto, habitado pelas alegres virgens espartanas?

Castilho traduziu assim este trecho:

Então amar só quero os rios e arvoredos.
de glórias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
ai ribeiras do Spérquio, oiteiros do Taigueto,
das virgens de Lacónia às orgias predilecto,
onde, onde me estais vós?...

Pág. 102, lin. 10

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem

Verso de Ovídio, logo no começo da elegia I do Livro I das Tristezas. Dirigindo-se ao seu próprio volume, escrito (ou antes chorado) no desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vai meu pequeno livro; hás-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.

220

Parte, ó meu pobre livro; irás sem mim, sozinho,
correr na gran Cidade incógnito caminho

(traduziu alguém)

Pág. 107, lin. 17

Zimmermann

João Jorge Zimmerman, nascido em Brug, cantão de Berna a 8 de Dezembro de 1728, seguiu os estudos médicos, e foi abalizado sábio. Nomeou-o médico da sua câmara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el-Rei de Prússia, Frederico, o Grande, foi tratado por ele na sua última doença, e deveu alívios aos seus cuidados inteligentes. O Príncipe russo Orloff foi de propósito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanôver; e ao tornar-se a S. Petersburgo falou dele com entusiasmo à Imperatriz Catarina, que em 1784 procurou atrair à sua corte aquele luminar da ciência. Ele pediu escusa, porque a vida mundana não condizia com os hábitos que tinha criado o seu espírito; não se ofendeu a eminente Princesa, e conferiu-lhe a ordem de Vladimiro.
Infeliz na vida doméstica, viu morrer-lhe entre os braços uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho. Faleceu este notável homem em 7 de Outubro de 1795. Além de outras obras, entre elas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em 1756 o seu Tratado da Solidão, onde todas as vantagens morais do isolamento são defendidas com eloquência e convicção, e sem misantropia exagerada.

Pág. 108, lin. 6

O Passeio público e o Marrare

Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio público, riscado em 1764 pelo arquitecto da cidade, Reinaldo Manuel, nas antigas Hortas da cera, era o refúgio campestre mais delicioso que podiam gozar os habitantes da Capital. Ia desde a actual praça dos Restauradores até à extinta praça da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sítio exacto do monumento aos heróis de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo (hoje no jardim da Graça). O café Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado.

221

Páginas 223 a 249

Princípio

Índex