António Feliciano de Castilho

O Presbitério da
Montanha

VOLUME I

Advertência dos Editores

Em 1846 principiou Castilho a coligir, entre os seus manuscritos antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais de sete anos de homizio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o título de O Presbitério da Montanha, escreveu um prólogo extenso, descritivo, altamente pitoresco, onde, a doze anos de distância, desafogou as lembranças daqueles lugares, e as saudades de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então falecido Abade de S. Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prólogo concluiu-se, imprimiu-se na sua máxima parte, mas não chegou a publicar-se.

O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a saída para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquíssimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados espécies bibliográficas de primeira raridade.

Castilho possuía um, que vimos, e desapareceu; a Biblioteca Nacional de Lisboa possui outro; o distinto coleccionador, bibliográfico, e escritor, o snr. Aníbal Fernandes Tomás, outro; a falecida snr.ª D. Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuía outro, que parece ter levado caminho; Inocêncio no Tomo I do Suplemento do seu imortal Dicionário,

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não declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas.

Quanto à parte poética do livro projectado, essa, não impressa, desapareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas inteiras outras incompletas; materiais truncados da colecção. Salvando esses versos, cumprimos um de ver moral, e outro literário.

O prólogo de Castilho, é pois o brilhante pórtico de um edifício ainda em construção, e já em ruínas; é inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e instrutivas que ele deixou. A corografia, a fauna, a história, a lenda, os costumes, a paisagem, as antigualhas, o folclore, daquela região alpestre, tão portuguesa, mas tão desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um arqueólogo-poeta.

Apareceu também uma Introdução em verso solto a certo, poema intitulado O Sepulcro, história de uma noite de S. João, projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido muito fantástico, infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa Introdução, no seu lugar cronológico, por vários motivos: dá-nos Castilho sob uma feição poética diversa da sua habitual, e pinta-nos o estado da sua alma aos trinta anos, quando absorvia sofregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. O Sepulcro é pois óptimo contribuinte deste truncado banquete literário, e fora imperdoável, apesar de incompleto, desprezá-lo aqui.

Do borrão original, que possuímos pela letra do amorável secretário Augusto Frederico, para esta lição actual, há leves divergências, que foram pelo próprio autor ditadas em 1864.

Além do Sepulcro, outras peças, portuguesas e latinas,

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já impressas nas Escavações, teriam lugar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua índole; mas o autor preferiu colocá-las naquele seu volume. Fácil é ao leitor inteligente o procurá-las.

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À MEMÓRIA

DO

EXEMPLAR DE IRMÃOS

AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO

PRIOR DE

S. MAMEDE DA CASTANHEIRA DO VOUGA

Em testemunho público

e perene

de

AFFECTO E GRATIDÃO

Oferece

António Feliciano de Castilho

PREÂMBULO

I

O livro que apresento, havia de ser difícil de classificar, se o classificá-lo pudesse por alguma via valer a pena.

Não é histórico, nem fictício; não é didáctico, filosófico, nem descritivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada de tudo isso, de tudo isso participa.

Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou menos obscuras, e quase todas desconexas, e de pensamentos não procurados, se não tomados como eles quiseram vir, sem nenhum bem determinado fim moral, social, ou literário; em suma: um daqueles banquetes de aldeão, engenhados à pressa do que há em casa,

...dapibus mensas oneramus inemptis,

para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura enganá-los: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu pátio, ou colhido no seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem; algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas como vos assoalha com bom rosto quanto possui, não se vos alardeia de abastado, nem se compara com os vizinhos de casas altas e balcões envidraçados. Como quer que vós dele o

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fiqueis, não ficará ele descontente de si mesmo à despedida.

*

Foi o geral desta colecção, parte escrita de carreira, parte apenas esboçado ou apontado, há hoje doze, treze, catorze, quinze, e dezasseis anos, sem pensar no Público; para mero desenfadamento de horas aborrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sítios tristes e ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.

Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazê-los, de todo o modo me nasciam bem. Não tinham de aparecer entre gente; não os educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim saíram, as sim ficaram, e assim os esqueci.

Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse; achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas, incultos e semi-silvestres, como nados e cria dos que eram por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por dentro faz a consciência.

Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já anos: recordavam-me tempo de saudades; eram-me saudades eles próprios; reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com ele os apresento.

II

Todos os autores, ainda os que mais íntimos se nos figuram, cuido eu que se compõem para o Público; e, bem hajam eles! não levam à praça senão o que têm averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de parte, quanto

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podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto alheio.

Nada disso tenho eu nestas páginas.

Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que têm de vir para mim, se as quiserem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas ocupações, pelo meu ócio; a sua polidez, pela minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a história ou o romance da sua vida, pelo recantinho doméstico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e pura, que mana gota a gota numa cova, só vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco ela retrata no seu voo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui (a fim de que não venham depois obrigar-me por dívida que eu não contraio), que a única deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa alheia, e nos segredos do vizinho.

É o que faz com que, por mais fúteis que pareçam as memórias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondências epistolares quando por acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para ele, comummente são lidas com interesse.

É o que faz, também, ser muitas vezes mais aprazível que as achadas de antigos monumentos públicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda particular ou casa rústica, onde os vasos e utensílios do viver quotidiano vêem logo suscitar na fantasia os costumes, o trato, e o ser íntimo, da gente que ali houve.

Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a asa da ânfora vinária dos banquetes, dizem da família. Em redor de cada coisa destas ressurgem também uns ecos de vozes enterradas há muitos séculos; confusos, mas a todos

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inteligíveis e suaves, de donas, de donzelas, de velhos e meninos, dos animais caseiros, dos passarinhos e virações do céu, do sussurro das plantas, dos sons, em suma, de tudo que nesses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos vestígio, que a humilde talha do vinho, e a lâmpada que alumiou calada os prazeres ou os sonhos de seus senhores.

Os monumentos são artificiais, e artificiosos; são estudados, e enfáticos; a história que eles rezam é fria. Mas cá, o romance que engenhamos, ajeitado às memórias e saudades do nosso mesmo passado, é todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.

*

As impressões de viagens estão sendo ao presente um género de Literatura mista muito usado e muito querido.

Não admira: para os autores é fácil; para os leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco; sem cansaço nem más poisa das por terra; sem enjoo nem temporais por águas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica para trás; ou, havendo-as, com bom remédio para desandar, que é repetir algumas páginas; e enfim, sem o aborri mento, que a pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve sentir em chegando aonde ninguém a espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem som da sua criação.

A viagem escrita, sem custo de nenhuma espécie se faz por uns caminhos atmosféricos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa casa e família, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa cama, se como Ovídio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler deitado.

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Ora digo eu: se o atractivo comum de tais viagens é o gosto de conhecer sítios, gentes, e costumes, que nos são estranhos, e não medir as distâncias que nos aparam; que esse, pelo contrário, é o maior desconto do peregrinar, por que se apeteceriam mais as viagens à França, à Inglaterra, à Suíça, à Itália, às margens do Reno, à Rússia, ao Egipto, à China, ou ainda à Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra, só conhecido de seus moradores e vizinhos?

Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca depois do dilúvio? Nem mais, nem por ventura tanto.

Vireis pois às raízes do Caramulo conversar montanheses agrestes, porém bons; e tão bons, que, dentre os seus oiteiros mal sombreados e mal produtivos, nos seus paupérrimos tugúrios cobertos de loisa ou colmo, e pendurados à laia de ninhos pela escarpa dos precipícios, entalados nos córregos, ou inclinados a cismar tristezas sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades opulentas e festivas.

Estes, com falarem português, são para vós estrangeiros, ou quase. Como tais; não vos despreza conhecê-los, despendendo algumas poucas horas com quem por entre eles de morou anos, e de boa mente lá iria agora enterrar os restos cansados da vida ao pé do sepulcro de um Pai, que lhe lá ficou em quieto desterro para todo sempre.(1)

NOTA DA EDIÇÃO ORIGINAL

(1) O Doutor de capelo José Feliciano de Castilho Barreto faleceu na Castanheira do Vouga a 6 de Março de 1827, e foi enterrado na capela mor da igreja paroquial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os seus restos mortais para o jazigo da sua família no cemitério dos Prazeres em Lisboa, onde se conservam.

OS EDITORES

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Páginas 16 a 30, Índex