III

A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquela serrana região o novo Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e sem remédio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena família, de que era eu parte inseparável.

Coimbra, donde íamos, fora a terra dos nossos anos mais floridos; Lisboa, a do nosso berço e da nossa infância. Uma e outra me chamariam pelos afectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não houvera eu valido a resistir-lhes. Mas para aquele ermo, que então cuidávamos nos durasse a vida toda, entranhávamo-nos ele e eu, por nos sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado e colhido às mãos, que alegres, sobre resignados, esquecíamos todos os outros sítios por aquele, renunciávamos quaisquer outras delícias, mais amenas ou mais vividas, por aquelas gentilezas incultas e mais poéticas de uma natureza quase primitiva.

*

Passámos numa bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a tradição, o bom fiar de certa moça mui santa, que junto dele vivia numa choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da sua roca; se não quiserdes antes que dos Moiros lhe viesse o apelido, significando pepinal, ou rio das terras dos pepinos; pacífico rio, que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter enlevado na amenidade de tal painel.

Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas

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para um e outro cabo, arrepiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe interruptas de um sobreiro torcido e mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.

IV

A freguesia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de povoação.

O aspecto do país, para quem só o atravessa é de inospedeiro. Mas que se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontânea e desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os corações. É porque a solidão é de si mais afectuosa, e a pobreza mais liberal e larga, que o rico povoado.

Esta diferença e vantagem que os moradores levam à sua terra, experimentámo-las nós ainda antes de chegarmos à igreja e residência, saindo a receber o seu Pastor novo não só os maiorais, se não quase todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das cerejeiras e nogueiras do adro os três sinos do campanário, donde àquele som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.

A igreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro muito verde, apresenta-se solitária. Das povoações em que a freguesia se divide, nenhuma lhe é contígua nem vizinha. O presbitério, ou residência paroquial, é o único edifício que a acompanha, mas por detrás, como serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que o portal do seu pátio toucado e semi-velado das

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mais espessas, crespas, e lustrosas heras, onde jamais se esconderam e cantaram melros.

Ambos os edifícios ficam no meio do passal, antiga quinta «das Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso deserto, por onde se disseminam as aldeias, póvoas, e casais, que ali têm o seu foco espiritual.

Um grande silêncio rodeia largamente a casa da oração. O presbitério não lho quebra.

Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pátio rústico mas espaçoso, a olhar pelas quatro janelinhas da sua frontaria principal unicamente para o céu, e para umas formosas e corpulentas laranjeiras, que dentro do mesmo recinto vegetam, como ele clausuradas, o modesto domicílio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal rebanho, não se retraiu para mais longe, por trás da sombra do santuário, porque não pôde: porque lho embargou a longa e cada vez mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa para além a esconcear, descer, e afundir-se, até à borda do estreito, rumoroso, e espumífero rio de S. Mamede.

Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura, por cima das águas escuras e raro alcançadas do sol, comunica esta com a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arrepiada, e a pique.

Da residência, coroa de um dos dois alcantis, até ao moirisco lugar de Falgoselhe, seu vizinho na fronteira cristã da penedia de alem-rio, entremeia apenas distância, que pela calada das noites, deixa ouvir de parte a parte os Ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os alertas dos galos a desoras. E contudo, aquele quase-nada para os ouvidos e olhos, é para os pés cadinho dilatado, fadigoso, e não sem perigos.

As duas veredas, que levam às duas extremidades da ponte, giram enleadas e perplexas, torcendo-se e refugindo,

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ora para a direita ora para a esquerda, como espavoridas do abismo lá em baixo; descendo, tornando a subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.

Pouco mato ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os únicos entes vivos, que por ali se afoitam a to mar pé. Os seus frutos vermelhos, quando o vento lhos despega maduros, vão sumir-se entre as espumas arrebatadas.

Aquela ponte, vacilante sobre tal pego e entre tais es carpas, com poucas braças de céu por cima, e por baixo de si o rugir de tantas águas, dá as sensações de um belo horror.

Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para aquele inferno líquido; e este pensamento algumas vezes aí me veio por tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as tábuas, gastas e rotas da humidade, me gozava da viração transpirada pela corrente. Foi a simples providência do acaso, ou uma inspiração de religiosa poesia no fundador, a que fez reunir num ermo, e em tão pequeno espaço, como três cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta igreja? Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada, tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras inacessíveis, donde inspirado vem, cada dia, algum novo penedo ferir-lhe o seio! Aquela igreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorjeada a ambas suas portas de passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres, símbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o inefável asilo da Fé e das Esperanças! E entre o santuário e o rio, como intermédio e transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança, verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola, inexaurível no seu celeiro como a Providência, tácita como a meditação,

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com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos através das árvores de Deus para o firmamento...

O mesmo nome de S. Mamede, com que se apelidam o santuário, a torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Igreja do Oriente pregoa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou mártir, por volta do ano 274 da nossa era.

O lugar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Mártir; o vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacíficos arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda menino na inocência.

Não pôde ser o acaso, quem tantos acertos concertou.

V

Era a residência, quando a ela chegámos, decrépita e caduca: aparência de choça fabricada de pedra ensossa, es cura e descómoda no interior; por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pátio apoquentado de inúteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia em parte feito, em parte deixado, chegar àquele estado.

A transformação foi rápida e completa. Os alpendres desapareceram. Na casa remoçada entrou por vidraças abundância de luz. O pátio desafrontado foi revestido, como a frontaria do edifício, primeiro de cal bem cândida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro nele plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que nesta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na terra, o outro declina para o ocaso, ele, medrando ainda, é já, como lho eu augurara nos meus versos, brasão do presbitério;

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tem no seu tronco cinco palmos de circunferência, e perto de quarenta de altura. (1)

O Prior, o Rev.do sr. Padre António José Rodrigues de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e espírito cultivado por Letras, filho daquelas boas terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zela tudo aquilo com amor.

É para mim delícia o considerar, que à sombra grande daquele cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino de três anos o poderia ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviário, este livrinho das minhas memórias, em que deposito o seu nome molemente reclinado entre tantas outras saudades minhas.

VI

Já os leitores conhecem, como quer que seja, o asilo que me escondeu sete anos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que nasceram, sem pensarem em abrir o voo que hoje arem para o mundo, estas poesias montesinhas.

Mas, como todo o seu assunto se não limita ao que deixo esboçado, peço-lhes ainda um pouco de indulgência, para lhes dar a conhecer, por alto, os arredores.

(1) Existe ainda este cedro, que tem alcançado descomunal corpulência. Chamam-lhe por lá o cedro do poeta, ou do Castilho.

OS EDITORES

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O passal rodeia por todos os lados a igreja e a residência, correndo por trás delas até onde lho consente o pendor do terreno, a escoar-se cada vez mais rápido para o rio de S. Mamede.

Por essas lombas inclinadas, fronteiras à encosta alta e erma de Falgoselhe, se boleiam melancólica mas graciosamente as suas hortas, os seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das searas, que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal, por onde; ao sair da igreja, folga a vista de se espraiar, até ir bater, lá ao longe, na capelinha e mata de S. Sebastião, que lhe servem de limite.

Searas eram os átrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de avizinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da Agricultura. Que mais próprio, para um povo agrícola como este, do que achar a casa do CRIADOR, e a do seu despenseiro, no centro da abundância das messes, e saudá-la com a invocação de um Pastorinho santo?

O caminho público atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a igreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai mergulhando para a ponte, deixando numa de suas orlas, a frescura sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da igreja antiga, um altar de pedra numa capela, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com um S. Jorge de mármore, a cavalo, a brandir ainda um troço de lança enferrujado de musgo.

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VII

Detenhamo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao pé deste altar, onde já ninguém ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a obscura história deste sítio.

Por que razão só as grandes ruínas se hão-de haver por merecedoras de atenção? Todo o passado é poético; todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões, mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho quebra a mudez da Natureza, houve outrora actividade, afectos bons, e até festas.

Cabe pois saber, que, em tempos muito afastados, viveu na povoazinha da Talhada, lugar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela margem de cá às águas do S. João do Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espíritos levantados.

Namorara-se Jorge (me contou num serão do Natal uma velha, que o ouvira em pequenina a seus pais, que o tinham recebido não sabia de quem)... mas enfim, namorara-se, que o sabia ela, de certa moça de alem-rio, guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro grau de um sr. Vigário. Lá de baixo, perto da sua vivenda entre penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de Falgoselhe, na outra banda, à caça da sua saia de serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes cor de fogo, a enxergava, pendurada à borda do precipício, e pascendo descansadamente uma das cabrinhas que obedeciam à sua voz melodiosa.

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A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava cantando naquelas solidões, parecia-lhe a ele, que lá de baixo lha estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lha interrompesse, porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.

Vê-la à sua vontade, não a via se não aos domingos na igreja; e nem então, que para esses dias tinha ela umas roupinhas muito sécias, meias muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe que maiores obstáculos ainda haviam posto entre os seus afectos a fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das águas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para comunicar dois estados tão diversos.

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Amor verdadeiro pode ser platónico algum tempo; mas é poesia; e poesia não é vida. Ousou, e declarou-se a medo à sua formosa; não foi repelido. Afoitou-se a mais: ao impossível. Abriu-se com o tio Vigário em confissão. O que entre eles se passou, não se sabe; tábuas de confessionário não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquela banda, e que ele, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos, sem dizer nada a ninguém e não levando senão o fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espírito, que segundo dizem, era grande, e o seu amor, que não era pequeno.

Constou, ao cabo de anos, que se tinha ido embarcar em um navio del-Rei, e que se abalara por esses mares de Cristo, sabe Deus para onde, e para quê...

No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento, assim a fazenda que andara moirejando,

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como a própria vida, apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometeu que, se o levasse com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capela da sua invocação com duas Missas por semana, de fronte de Falgoselhe, onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os irmãos e a mãe, e pegada com a igreja onde o baptizaram a ele, e onde a avistava todos os domingos...

Mas de crer é que nessa imagem se não demoraria muito em semelhante lance, em que as ondas formavam por instantes montanhas tão altas e escarpadas, porém mais temerosas e feias que essas outras, entre cujas quebradas, e por cujos visos, ele variara a sua infância.

Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o prometido.

Tornou à Talhada, erigiu a capela, comprou fazendas em Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a aventurar-se sobre águas do mar.

Relíquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir como materiais na edificação de parte da residência, e da igreja nova, que já sabeis lhe estão vizinhas.

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– Mas o fim de seus amores? – me perguntareis vós.

Memória é essa que eu também procurei, porém não consegui desencantá-la.

O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguesia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada; que este se ordenara de Clérigo, fora a Roma, e arribara a Cardeal; em memória do que, ainda na actual igreja se conserva, herdada da antiga,

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e mandada por ele de Roma para aquelas suas brenhas muito amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura um de largura, com braços em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e nela pintados três cravos, duas chagas, e uma coroa de espinhos.

Vê-se, venera-se, e comenta-se, como o acabámos de dizer, pendente na parede do arco cruzeiro da banda direita e afirma-se, que na capela de S. Jorge permanecera com igual honra em quanto ela durou.

Agora, se este em Roma purpurado, filho da rústica humildade de uma póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuseiro velho, e onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, roto por todos o lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consórcio a que o Padre Vigário e seu irmão se tinham oposto eis ali o que eu não alcancei; e não quero inventá-lo. Provável me parece que sim, quando me lembro do que a minha velha me contava daqueles amores, e o combino com a ideia que formei da constância no bem querer dos moradores da minha serra.

A moça deveu de conservar-se donzela, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhara com riqueza o abismo que os separava; e S. Jorge que não é Santo para meias vitórias, havia forçosamente de pagar com bizarria o obséquio do seu devoto.

Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante daquela Imagem de pedra, muitas vezes o marinheiro e sua formosa de esquecido nome ouviriam juntos a Missa e talvez diante daquele mesmo altar os recebesse o próprio Padre Vigário, indo depois jantar com eles, e beber à saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da Talhada, ao rouco murmurinho das águas de S. João do Monte.

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VIII

A igreja velha, de que foi parte esta capelinha, fora o antigo oratório dos Condes da Feira; e a residência, já depois duas vezes transformada, albergue do feitor que eles aí tinham para lhes receber os foros, e lhes tratar daquela sua quinta, chamada, como já tocámos, «das Limeiras».

Cederam tudo eles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto, havendo sido a primeira freguesia destes povos no Guardão, do Bispado de Viseu, por detrás da serra da Alcoba, e a três léguas de distância da que ao presente é, dali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente agora à freguesia de Agadão, sítio ainda desfavorável pelo estirado e descómodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida, casa, e quinta, com largas rendas e foros para a sustentação de Paróquia sobre si.

Nesta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos hoje permanecem para memória, costumavam eles vir passar com seus amigos algum tempo do ano na montaria dos javalis, que a espessura das moitas então criava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a fantasia comparando e contrapondo aqueles tempos a estes, e reanimando o actual silêncio com um reflexo e eco da vida estrepitosa de outra idade.

IX

Explorámos as convizinhanças do templo e residência. Estendamos agora os olhos até às fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacífico senhorio.

*

Deste centro, a meio quarto de légua a nor-noroeste,

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esconde-se o lugar das Maçadas, com cinquenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua fonte muito fresca.

Para o norte, a outro meio quarto de légua, a antiga vila da Castanheira, com as suas entradas cobertas de parreiral, vangloriosa com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capela do Espírito Santo, mas dando-se-lhe pouquíssimo com o telégrafo, que desde as últimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu oiteiro. Pelos gestos daquele activo surdo-mudo passam, de extrema a extrema do Reino, quantas notícias o revolvem sem que a boa da vila, nem outro algum dos lugares que entram na sua abençoada confederação de rústica ignorância, as adivinhem, nem suspeitem, nem cobicem.

A três quartos de légua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de Falgarinho, de não mais que oito vizinhos.

Subindo dali mais um quarto de légua contra o nordeste, encontra-se, numa quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e três pessoas.

Descendo para o sul pelo seu ameno vale bordado de frutíferas árvores, e a pequena distância, se dá de improviso com a vistosa e agradável quinta da Serra-de-baixo de sete almas, e sua capela de Nossa Senhora do Livramento.

Nas faldas destas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte, que a seus pés corre, está em anfiteatro o Avelal-de-Cima, de vinte e quatro almas, a três quartos de légua a les-nordeste da igreja.

Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitáveis, a meio quarto de légua está para o nordeste o Avelal-de-Baixo, lugarejo de quarenta e sete almas, uma capela de Nossa Senhora da Conceição.

Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.

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Para o nascente, descendo até à Cruzinha, e dali toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente Alcafaz (nome árabe, que significa «o salto)» nome que para ali está, há mais de setecentos anos, soando em boca de cristãos sem renegar a sua origem, nem se corromper.

Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de honrada memória, berço de um Cardeal, de um fundador de capelas, e de um namorado de lei; três celebridades para um ninho hoje de catorze almas, coberto de lousas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros; dista-nos um quarto de légua para nordeste.

Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distância dele, o S. Mamede (que toma este nome na junção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomara a apanhar à fresca.

Subindo um pouco espaço a costa, através de alcantiladas rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa Cruz, a quarto e meio de légua para nós.

Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta; e no cimo se encontra a povoação de Falgoselhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de légua da igreja, a les-sueste, quase na extremidade ocidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que à sua altura melhor convinha: Santa Cruz.

Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de pau, e serpeando íngreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso lugar da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a três quartos de légua ao sul; terra que se

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ufana com o delicioso de seus pomares de caroço e de e pinho, com a anosa mata de sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobretudo, com ter dado à luz o instruído e virtuoso Pastor, que hoje rege aquele rebanho.

Voltando para o rio, passa-se numa bateira um pouco abaixo, depois de se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.

Subindo-se até ao viso, está o lugar da Redonda, de cinquenta almas, com sua capela de S. Gonçalo, a quarto e meio de légua a sudoeste da igreja. Redonda se chama por estar à borda de um leito semicircular.

*

Fechemos a topografia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações externas.

Parte a freguesia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo poente, com a de Águeda; pelo sul, com da Aguada de Cima, e Belazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou anexa, que ainda então era, à de S. Mamede, e paróquia hoje sobre si; país ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir

X

O território de S. Mamede é o extremo ocidental de um corpulento ramo do Caramulo, ramo apelidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer dizer «abóbada», o montanha boleada à feição dela.

Do Caramulo, como tronco donde bracejam dispartidos este e outros ramos, alguma coisa quisera eu dizer, conta do muito que merece. Mas, sobre que nunca o visite apesar de tão vizinho, recearia apoucar-lhe a veneranda

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