majestade, apertando num ou dois parágrafos as vagas notícias que dele tive.

Em suma: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando dentre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em tempestades, em frutos magra, mas óptima em homens e mulheres de antiga têmpera: activos, pacientes da penúria, do frio, da fome, e da nudez; é um país de selvagens cristãos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede estão, em polidez e florescência, como para os Lacedemónios poderia estar a antiga Ática.

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Dois monumentos acrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas às grandiosas moles naturais.

Num dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos princípios deste século, uma espécie de zimbório, de doze palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem; mas dizem que por um engenheiro francês; razão por que, os povos da circunvizinhança, por ocasião da guerra peninsular, cometeram demoli-lo; mas só lhe puderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura em pé, e só é acessível do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.

O outro monumento não é menos enigmático, e deve estar farto de ver passar séculos e desfazer-se gerações.

Numa arremessada crista, a duzentos passos da igreja do Espírito Santo de Arca, se levanta ele, com o título imemorial de «Pedra de Arca». É uma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra; quatro em número a princípio, hoje só três, havendo sido um arrancado para as obras da vizinha igreja.

Tem esta lájea de comprido vinte palmos, e de largura

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dezasseis; de grossura, pelo nascente três polegadas, pelo norte catorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos, só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio e pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por cima três, e de grossura um palmo de cada lado. O último, que está para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.

Com que possantes máquinas, por que mãos, em que eras, e para que fim, se levantou ali aquela, que à fantasia se figura bruta mesa de gigantes silvestres? Seria obra de fortificação num sistema de guerra desconhecido? Quase que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola, industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lho rastreia. Memória de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, a que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem letra, nem escultura tosca, nem vestígio algum de arte nem de arquitectura, mas só uma bruta mecânica, ali se admira!

Religiosa fábrica de alguma gentilidade parece logo aquela; e mais, quando se adverte na semelhança que tem com os altares druídicos, ainda hoje conservados em várias partes do que foram Gálias e Germânia.

Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Histórias, que se estendesse aquela abominável seita de sacrificadores de humanas vítimas; mas nenhuma repugnância há em que, perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druídas se refugiassem para este Ocidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos acessíveis pesquisas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem

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temeridade comparadas) não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.

Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus afectos.

XI

Nada concita aos lugares veneração, como a antiguidade.

Bem quisera eu poder historiar destes meus sítios para além de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo notícia dessas idades, com que fazer obra.

Se por aí passaram em algum tempo sucessos grandes, se houve memoráveis edifícios, se varões insignes pisaram aquelas terras, nem ruínas o atestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam. O solo engoliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas.

Só ao sudoeste de Falgoselhe, já fora da sua lavoura, na primeira valeira que se encontra à direita do caminho indo para Águeda, se vê uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quais torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e algumas porções desiguais de muros esboroados a delir-se.

E descendo esta valeira duzentos e vinte e cinco palmos, se dá em uma furna chamada «a buraca da cerejeirinha» aberta a picão em rocha viva; a qual tem na boca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama que fora aberta pelos Moiros.

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Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou-se, dizem os netos, que morava ali Moira encantada, que todas as madrugadas de S. João, saía muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus tesoiros por cima dos penedos, entre os matos orvalhados.

Nesses séculos, entendido está que o terror lhe velava a estância, e que ninguém se afoitou nunca a ir lá dentro.

Algum Príncipe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente já não há novas dela. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a sua vizinhança; cantam aos seus umbrais trovas muito cristãs; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palácio subterrâneo.

A opinião dos modernos tem, que fora aquela mina aberta, pelos Moiros sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e prosaicamente, à busca de água, que em verdade lá emana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia.

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Sobre as fortificações engenha cada um a sua hipótese.

Há quem as suponha posteriores à invenção da artilharia, por se lhe figurar que só a tais armas podiam ser apropriadas; e há quem aos Moiros as atribua, fundado em que, posto não ficassem deles por ali outros vestígios, o arábigo de alguns e muitos nomes de lugares demonstra, que eles por lá viveram. E se por lá nasceram e se criaram, não podiam deixar de fortificar-se e defender-se contra cometimentos de inimigos, que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais enérgico.

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Falgoselhe, em verdade se crê ter sido deles povoada, posto que o seu nome, se cristão não é (como de certo não é), também por árabe se não reconhece. Ser-lhe-ia imposto por gente ainda mais antiga?

Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fábulas, o em que podemos ficar por mais que verosímil é que, por toda aquela serrana região, estanciaram Moiros, em seu tempo; e, se aí deixaram menos rasto que em muitas das terras vizinhas, seria porque a bruteza do monte era já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras. Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em tirar da terra pão com que se manterem; quanto mais, erigirem castelos, pontes, ou mesquitas, de que se pudessem admirar fragmentos depois de sete séculos!

Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquelas encostas. Por baixo de outros tectos rústicos semelhantes a estes, e porventura no lugar destes, se acalentaram crianças com versos do Alcorão. Outras árvores, de que estas são remota descendência, viram passar à sombra das suas copas esvoaçadas da ventania albornozes de lã grosseira e parda, e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador árabe, e ficariam confusos e imóveis se revivessem para ouvir a da nossa língua.

Eis aqui o único perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos, que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e serão sempre.

Não digo bem. O falar e os pensamentos, e os costumes, mantêm-se ainda antigos. As novidades das civilizações são como a escravidão, e os dilúvios: tarde chegam a engolir as serras.

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admirável pureza

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e lucidez. Se os dicionários e livros mestres da nossa Língua se perdessem, pela conversação corrente daquelas aldeias e póvoas se poderia restaurar.

Troca-se mais português de lei, mais riqueza de vocábulos, fraseado, e construção, numa seroada de inverno, ou num palrar de sesta de segadores entre carvalheiras rústicas, ao estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das balas, num ano inteiro da melhor tipografia de Lisboa.

Muitos dizeres clássicos, de que por aí chacoteiam por afonsinos, como o nanja o bofé, o canté, o quiçá, e mil outros, soam por lá sem estranheza em tocas de mocinhos de doze anos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito nos seus desabafos mútuos em véspera de romaria.

Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos e das crenças e práticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e abusões. São os insectos e musgos parasitas da árvore robustíssima de Fé. Abençoada a Filosofia quando acode a limpá-la sem lhe esgalhar os ramos ou cerceá-la pelo pé.

O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu ofício. Não há curas nem reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando à força lhas não ajudam ou contrariam.

Era por essas terras, poucos anos há, geral e profunda a credulidade de aparições, fantasmas de almas do outro mundo, Moiras encantadas, tesoiros escondidos e lobisomens; e ainda hoje a maior parte dos moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e virtudes de certa; práticas e fórmulas, para curar ou empecer.

Estas abusões, sem deixarem de ser males muito inegáveis, dão contudo sua cor poética muito particular ao Povo cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonizam com tais simplezas da inteligência.

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Os figurinos parisienses, esses idolozinhos multiformes, a cujo culto vivem adstritas as gentes das cidades, e muitíssima dos campos, são por ora totalmente incógnitos na serra. A moda não exerce por lá as suas costumadas devastações de cabedais, bons costumes, e saúde. Os vestuários e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada espécie vegetal renova as suas folhas e flores.

Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, criada às costas das suas ovelhas, tosquiada por eles, fiada e tecida por suas mães, mulheres, e filhas, apisoada e tinta (quando o é) sem sair da freguesia. Trazem grandes chapéus pretos desabados, grande bordão ferrado, menos para defesa, que para arrimo pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados.

As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, saia de burel de meio pisão, cor de pinhão ou preta, colete comprido justo, sem aperto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no tear, e sem pisão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre os ombros. A cabeça, cobrem-na, ou com o mesmo mandil, ou com um chapéu como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o último da magnificência, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros.

São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia pala de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a igreja, as mais ricas e senhoras têm mantilhas e sapatos.

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XII

A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como cultura do solo ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos naturais e religiosos, o aferro à justiça e à verdade, os diferentes amores de que se tece a paz das famílias e a harmonia dos vizinhos, o respeito à velhice e a infortúnio.

As polidezes requintadas do trato são-lhes desconhecidas. Esses discursos de cortesãos, mosaicos de frases brilhantes que ora deslumbram, ora entretêm, ainda quando nada representam, inspirar-lhes-iam compaixão. Pensam o que dizem, dizem-no como o pensam.

Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprender para ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons pais, e boas mães, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e nisso limitam a sua ambição.

Se há festas, cantam e dançam como sabem; e sabem quanto basta para folgarem, mais deveras que damas e cavalheiros ao som de orquestras, em saraus esplêndidos.

Não falam estranhas Línguas, como nós, mas falam nossa, que é melhor.

Fora de casa de algum Eclesiástico, não se desencantaria um só livro em toda a freguesia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar.

A igualdade quase fraternal por ali reina, por um modo que a todo o coração bem nascido dará gosto. A mercê e o vós de nossos maiores são tratamentos para os raros casos em que não cabe o tu.

Os lugarejos são todos amigos, e em grande parte parentes uns dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou à mesa do mais rico; isto é, do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o ano; e o abastado interrompe

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sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a geirazinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na canga do arado o saco da semente, para que ele tenha também, lá para o Verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as lágrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia.

É um povo agrícola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre eles se diz «lavrador», e «trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lorde», em Roma «cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sábio», ou «homem de Letras», e em Lisboa «deputado», ou «milionário».

As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu paquife de pâmpanos e espigas, e a letra Ut operaretur terram, de qua sumptus.

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Que impressão, a princípio de espanto, logo de respeito, e afinal de amor, me não fez o presenciar, como ao revés da pragmática das cidades, o trabalho das mãos era ali enobrecimento, e a ociosidade a maior vergonha!

Conheci, entre estes montanheses, quem, havendo em outro tempo vertido o sangue pela Pátria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o adubo para a sua fazenda, ou levar do enxadão na roça dos matos entre os seus operários. A estes, que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Cúrios, e dos Camilos, se alguém lha lesse, a não ser a admiração dos historiadores?

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As irmãs, as esposas, e as filhas de tais homens não

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poderiam deixar de ser mais varonis do que os homens de muitas outras terras, e de todas as deliciosas.

Para a maioria delas, o fuso, a lançadeira, e a agulha, com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionais que vão formando semelhante à precedente a geração seguinte, só são passatempo do serão, à luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que alumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam à cabeça cestos, que seriam inamovíveis (como as pirâmides do Egipto) para as mãos alvas e beijadas de uma dúzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam à cabeça montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o peso como uma cortesã sob o seu chapéu de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em bem-aventurança para dez famílias. Nas renques dos sachadores e dos roçadores, vê-las-eis brandindo um alvião não mais leve, deixá-los muitas vezes para trás, e envergonhá-los com seu riso de triunfo.

Não há fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercício, Anjo custódio da inocência e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo no sangue a saúde, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos. Seriam as amazonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem inteiros, e se os homens seus iguais as não acompanhassem em toda as lidas.

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Uma usança patriarcal, ou homérica, deste país, que moralmente parece distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu não moralizo, mas só historio.

As mais graves, tanto como as mais somenos, não só

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à laia das Penélopes e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, metidas no rio até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cozinha para a família e para os animais domésticos; mas não se correm nem desdenhara de ministrar de pé, como servas, à mesa de seus maridos e filhos, nem em dias de festa ou bodo, quando a assistência de hóspedes mais poderia assoprar-lhes o recacho, e empavezá-las. São sempre aquilo: sempre passivas, boas, e contentes.

XIII

Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris estas notícias; mas hei-de já agora continuá-las, e seja com vénia sua. A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para daqui a alguns anos, quando o nível da civilização tiver também renteado as asperezas das serras, alguém festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já por ventura rotas e descosidas deste livro.

Por antigualhas vivas poderiam elas agradar já hoje ao comum da nossa gente; mas então hão-de ser antigualhas fósseis, e portanto com veneração duplicada venerandas.

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A índole da gente é de si comedida e pacífica.

De todo o género de vícios e desconcertos se poderão entre ela achar amostras, que enfim, terra é, e não paraíso, mas nem tantas proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras partes, e em quase todas.

Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em público; ninguém é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para se despender em vida de enredos, corrupção e malefícios; nem tão extremadamente

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destituído da fortuna, que a miséria, a inveja, o despenhem de salto em salto até ao fundo da depravação. É o inter utrumque, a aurea mediocritas.

Conservam inteira a Fé religiosa.

Não lêem, nem conhecem, nem levariam à paciência jornais que desorientam, desencantam, e põem o gene humano em guerra viva consigo mesmo.

E muito menos lêem, conhecem, ou sofreriam, esta Literatura toda novela, toda sofismadora de tudo, toda florida e venenosa, que por cá nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as famílias, que a maldizem, e a repulsam da sua porta.

Por lá, não; o mal que se fizer, há-de só provir da fragilidade, ou dos impulsos súbitos da natureza; e, depois consumado, há-de deixar na consciência remordimentos.

Uma apologia, uma deificação para cada crime, nem possível a julgam; quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como aforismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se conchava.

Destas várias causas, negativas e positivas, e talvez outras mais, resulta que tanta vantagem nos levam eles bondade prática e inocência, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças exteriores, em táctica, em egoísmo infernal e assolador. Nos amores ponhamos o exemplo:

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Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade: tendem à união, de que se originam famílias, e por onde a espécie se mantém.

Como lhes falta o ócio, pelo qual muito bem disse Ovídio ser a maior arte do amor, e o culpado nos seus piores desatinos, e além do ócio lhes falecem também sobejidões cabedais, que estimulam e irritam as fantasias, para o casamento

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se namoram, e não por alardo; para gozo do coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligências que outros põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar no repelir e desprezar depois de saciados.

Não vivem os sexos numa guerra perpétua de seduções, de emboscadas, enganando-se e sacrificando-se um ao outro.

A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um teatro, ou no vão de uma janela de clube, em noite de baile, um copioso canhenho, meio histórico meio fabuloso, dos seus triunfos. Ali, ali é que as mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem encarecimentos; são-no pelas suas próprias graças, pois nem modistas, nem cabeleireiros, nem cosméticos, nem perfumadores, nem mestres, nem lisonjeiros nem romances, as transformaram. São-no pelo que são, e não pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.

Palácios, criadagem, diamantes, não lhes vão lá suprir lindezas do corpo, graças do ânimo, ou preciosidades do coração.

Não é entre prestígios deslumbradores, num ambiente de calor artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da ocasião, do medo ao ridículo, e da audácia empreendedora, não é ao abrigo do estrondo e confusão de um baile, que elas recebem e fazem as suas primeiras declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e amigas, em derredor da merenda, à sombra das carvalheiras.

São amores que se não escondem, porque não têm de quê; amores que se exalam debaixo do céu azul; que se juram pelo Santo da iluminada capela do festejo, ao som folgazão

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da Mirontela roncada pela gaita de fole, rainha, alma e feiticeira ambulante do arraial.

No progresso de tais inclinações é sabedora e consentidora toda a vizinhança; e esta mesma notoriedade defende os nosso namorados, tanto de se deixarem arrastar de seu mútuos desejos, como de se desvairarem e caírem em infiéis.

Ao consórcio da Igreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a lealdade e observância. Nenhum Lovelace de véstia cometeria galantear a conhecida por emprego de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe surtiria o empenho, senão só motejos e descrédito.

Deste modo se estende às vezes por anos, com uma constância verdadeiramente bíblica, até ao dia da posse, o bem-querer destes Jacobs e destas Raqueis.

Quantas Lisboetas de saraus, se quiserem ser sinceras hão-de confessar que a escolha que num baile fizeram... só durou até que veio o baile seguinte! Quantas, quantas, cujo número de arrojados (concedendo que pelas duas orelhas que Deus lhes dera não ouviam dois ao mesmo tempo) se poder contar, perguntando à sua modista francesa quantos vestidos novos lhes havia feito!

Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do ano passado demorar-se mais a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e pedir-lhe sempre a ele que lhe ajudasse a pôr à cabeça a gavela das espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita deste ano; continuá-lo-á na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados dos filhos e da casa a impeçam de seguir, como antes, por passos contados, o seu gosto.

Observação tão curiosa como verdadeira:

Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a variedade dos serviços rústicos tão amiúde lhes depara, rodeadas da Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos rebanhos, favorecidas pela solidão

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selvática e pelo silêncio, e pelas moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepúsculos em cada dia, e em cada semana de Inverno por tantas tempestades improvisas, como aquela que rendeu e debelou a vidual constância de Dido e a piedade de Eneias, quando o himeneu deu com o relâmpago o sinal de suas bodas, e as ninfas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de fragilidade como a de Dido por fenómeno se apontam; e anos e anos se devolvem, sem que um só se realize.

Quando porém se dá, e vem a lume filho não de bênção, o pecado de amor não se carrega de crueldade. O inocente não se faz vítima expiatória dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lha deu; horror nefandíssimo, inteiramente desconhecido daquele horizonte para dentro; nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, à porta lá ao longe de um desconsolado asilo, aberto pela misericórdia em lágrimas às lágrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor para se criarem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes, e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memórias.

Não, não. Nem pelo infanticídio físico, nem pelo infanticídio moral, mereceria qualquer das minhas serranas um falso título, que ainda mais a faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os louvores com que dantes a coroavam; ousa deserdar de antemão o seu cadáver do palmito, símbolo póstumo do feminil triunfo; tudo ousa; tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto inefável de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o próprio amante, a desamparasse, tudo tudo esquecera vendo-o rir; sorrira, e sentira-se afortunada. De não ser donzela, nem esposa, harto a compensa a consciência de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o sublime encargo, o natural sacerdócio da maternidade.

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Estas resignadas vítimas, imoladas por um amor, por outro amor ressuscitadas mais interessantes, estas vítimas, em quem a virtude, produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e iguala quase em lustre a virgindade, são poucas; são raríssimas; custar-nos-ia a encontrar uma. Quando porém a desencantásseis, lembrando-vos do que sabeis destas nossas grandes terras, fio-vos que bastante comiseração e respeito vos infundira.

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Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham em ruas e ruas, e até já por vilas e aldeias vão surdindo, não se conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.

Como leprosa seria evitada, e pereceria à míngua, e vergonha, a que se propusesse esse culto venal de prazeres falsos, em que as sacerdotizas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são vítimas das vítimas que elas sacrificam.

Por isso também, a saúde, o vigor, e a energia, se mantêm, e se transmitem de pais a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos casais.

XIV

Dos amores vínhamos falando; falemos do que em outros sítios lhes serve de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.

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Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou de hierarquia. O cálculo rala pouco

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