Doutoramento em Estudos Clássicos

Teses defendidas

 

José Sílvio Moreira Fernandes, Mito-ideologia e relação de poderes. A “Écloga Gérion” do P. Lucas Pereira, Universidade da Madeira, 2006. 

Orientador: João Manuel Nunes Torrão

 

Resumo: A Écloga Gérion, escrita pelo Pe. Lucas Pereira para ser representada nas cerimónias de encerramento do ano escolar do Colégio das Artes de Coimbra, em 1612, desenvolve o tema mitológico do décimo trabalho de Hércules: a luta contra Gérion, monstro tricéfalo ou tricórpore que a principal tradição mitográfica costuma situar no sudoeste da Península Ibérica.

O enquadramento mítico elaborado por Lucas Pereira resulta, em termos gerais, na formalização de uma acção particularmente marcada por momentos decisivos como a oposição entre Mondego e Tirania, que se  apresentam como modelos alegóricos da antinomia tirania/libertação; o exercício do poder despótico de Gérion; e a chegada de Hércules, herói libertador da Lusitânia, que chega a Coimbra, luta contra um exército de Pigmeus, mata o tirano e estabelece uma nova ordem política.

Considerando o tratamento da temática mitológica, julgámos ser pertinente colocar a hipótese de ela conter uma intenção nacionalista, já identificada por Claude-Henri Frèches no seu estudo sobre o teatro neolatino dos Jesuítas em Portugal, argumentando, para o efeito, que Lucas Pereira terá ido beber à Monarquia Lusitana de Bernardo de Brito, a ideia das transposições mitológicas presentes na écloga. Interessou-nos, em particular, confirmar tal intento e correlacioná-lo com o facto de a personagem Tirania se expressar em inglês. Também, a este propósito, Frèches afirma estar convencido de que se trataria de um expediente literário para iludir os espectadores castelhanos que estariam a assistir à representação.

Apesar de não rejeitarmos por inteiro este tipo de interpretação, julgámos ser pertinente expandir o quadro interpretativo, subordinando-o, fundamentalmente, a tópicos como: a escolha da modelo literário (écloga dramática), incluindo a inscrição da temática política; a construção mito-ideológica, fautora de civilização e de ordenação do caos; a tradição e pervivência do mito de Hércules e do seu labor contra Gérion, para relevar a faceta eminentemente cultural e soteriológica do herói; a temática da relação de poderes nos finais do séc. XVI e princípios do séc. XVII, para contextualizar o carácter mito-ideológico da écloga e a problemática do tiranicídio;  e a associação a contextos de época, nas oposições protestantismo/catolicismo e filipismo/sebastianismo.

Finalmente, como suporte argumentativo e como contribuição para o estabelecimento do corpus do Latim Humanista, elaborámos uma edição do texto, com a respectiva tradução.

Considerando que a peça foi representada num período particularmente complexo da vida política nacional e que a Companhia de Jesus havia sido alvo de críticas ferozes, em boa parte motivadas por posições políticas favoráveis ao tiranicídio, como as que foram, por exemplo, defendidas por Juan de Mariana e por Francisco Suárez, parece fazer sentido deduzir-se que, de algum modo, o autor quereria usar o texto literário para alegorizar uma posição acerca dessa questão.

Parece, pois, prevalecer a dimensão relacionada com as expressões de cunho nacionalista, nas quais terão validade as reescritas da tradição mítica de Hércules, erigido a herói Lusitano deslocado, por intuito histórico, sócio‑político, religioso ou académico, para Coimbra, cidade a cuja fundação também a ele está ligada.

Este tipo de análise conduziu-nos à defesa da tese de que o pendor nacionalista não é o único a poder ser considerado. O facto de a delimitação geográfica, onde decorre a acção, coincidir, na prática, com o território português revela, em grande parte, uma preocupação mais ampla no que concerne à integridade nacional. Por um lado, pode expressar o medo da ameaça à continuação da identidade pátria no contexto da União Ibérica. Nesse sentido, Hércules, libertador da Lustânia, representia a aspirações autonomistas dos que se oponham a tal União. Por outro, o receio da ameaça anglo-protestante estaria patente na personagem Tirania a expressar-se em inglês.

E mesmo que a écloga não encerrasse essa dupla intencionalidade, restaria a hipótese, em grande medida equacionada no segundo capítulo da dissertação, de se estar em presença de um exercício literário, que exploraria a polissemia mitológica da luta entre Hércules e Gérion, com o objectivo de apresentar um modelo ético e político, de base étnico-cultural e patriota, plasmando, simultaneamente, receios ancestrais e preocupações actualizadas quanto ao devir e à fortuna dos povos.

Em todo o caso, tanto o modelo nacionalista e religioso, como o modelo ético e político são coincidentes quanto à defesa da legitimidade do tiranicídio como solução extrema para o problema da tirania. Lucas Pereira terá, neste aspecto, construído uma interpretação mito-ideológica, a partir da tradição mitográfica de Hércules e de boa parte da tratadística politológica ocidental.

 

Palavras-chave: Pastoral dramática renascentista, teatro neolatino, écloga, mitro-ideologia, relação de poderes, Lucas Pereira, Jesuítas, Hércules, Gérion, Lusitânia, tirania, tiranicídio, União Ibérica, filipismo, sebastianismo, protestantismo.

 

 

ABSTRACT: The Geryon Eclogue, written by Father Lucas Pereira to be performed at the school year closing ceremonies of the College of Arts of Coimbra, in 1612, develops the mythological theme of Hercules’ tenth labour: the fight against Geryon, a three-headed or three-bodied monster that the major mythography tradition usually places in the Southwest of the Iberian Peninsula.

The mythical context built by Lucas Pereira results, generally, in the formalization of an action particularly marked by decisive moments like the opposition between Mondego and Tirania, who are presented as allegoric models of the antinomy tyranny/liberation; Geryon’s use of despotic power; and the arrival of Hercules, the liberating hero of Lusitania, who arrives at Coimbra, fights a Pigmy army, kills a tyrant and establishes a new political order.

Considering the approach to the mythological theme, we believe it pertinent to raise the hypothesis that it contains a nationalistic intention, already identified by Claude-Henri Frèches in his study on the neo-Latin Jesuit theatre in Portugal, arguing that Lucas Pereira took from Bernardo Brito’s Monarquia Lusitana the idea for the mythological transpositions existent in his eclogue. We were particularly interested in confirming this intent and to correlate it with the fact that the Tirania character communicates in English. Also, regarding this, Frèches declares himself convinced that this was used as a literary expedient to create an illusion on the Castilian spectators who were watching the performance.

Although we do not entirely reject this type of interpretation, we believe it pertinent to expand the interpretative context, subordinating it, fundamentally, to topics like: choice of literary model (dramatic eclogue), including the inclusion of the political theme; the mytho-ideological construction, promoter of the civilization and ordering of chaos; the tradition and foresight of the myth of Hercules and his labour against Geryon, to reveal the hero’s eminently cultural and soteriological facet of the hero; the theme of the balance of power in the end of the 16th and beginning of the 17th centuries, to contextualize the mytho-ideological character of the eclogue and the problematic of the tyrannicide; and the association with the contexts of that time, in the Protestantism/Catholicism and Philipism/Sebastianism oppositions.

Finally, as argumentative support and as a contribution to the establishment of the corpus of the Humanist Latin, we have written a new edition of the text, with its translation.

Considering that the play was performed in a particularly complex period for national politics and that the Society of Jesus had been strongly criticised, mostly motivated by political positions favourable to tyrannicide, as for example, the ones defended by Juan de Mariana and Francisco Suárez, it seems logical to deduce that, in a way, the author wanted to use the literary text to allegorize a position on this matter.

There seems to prevail, therefore, the dimension regarding nationalistic expressions, in which the valid ones will be the ones rewritten in the mythical tradition of Hercules, erected as a Lusitanian hero dislocated for reasons of historic, socio-political, religious or academic intuit, to Coimbra, which also owes in part its foundation to him.

This type of analysis led us to defend the thesis that the nationalistic pendor is not the only power to be considered. The fact that the geographic delimitation where the action develops coincides, in practice, with the Portuguese territory, reveals, in great part, a wider preoccupation concerning national integrity. In a way, it can express the fear of the threat to the maintenance of patriotic identity in the context of the Iberian Union. This way, Hercules, The Lusitania liberator, represents autonomist aspirations of those opposed to the Union. On the other side, the fear of the Anglo-protestant threat would be patent in the Tyranny character communicating in English.

Even if the eclogue did not encompass that double intentionality, there would still be the hypothesis, greatly described in the second chapter of the dissertation, that we are in presence of a literary exercise that explores the mythological polysemy of the fight between Hercules and Geryon, with the purpose of presenting an ethic and political model, with a ethno-cultural and patriot basis, molding, simultaneously, ancestral fears and current preoccupations regarding the fate of populations.

In any case, both the nationalistic and religious model, as the ethic and political model coincide regarding the defence of legitimacy of the tyrannicide as the extreme solution of the tyranny problem. Lucas Pereira has, in this aspect, built a mytho-ideological interpretation, from Hercules’ mythography tradition and from a large part of the occidental political treaties process.

 

KEYWORDS: Renaissance pastoral drama, neo-latin theatre, mytho-ideology, balance of power, Lucas Pereira, Jesuits, Hercules, Geryon, Lusitania, tyranny, tyrannicide, Iberian Union, Philipism, Sebastianism, Protestantism.

 

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